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julho 09, 2004

REACCIONARISMO TRIPEIRO

Nos tempos áureos do BdE I escrevi que os nomes das pessoas muito poderiam revelar sobre as suas posições políticas. Tal posição valeu-me uma divertida polémica com o Pedro Mexia. Fiquei de voltar a este assunto, e não voltei até hoje. Mas continua em agenda.
O assunto que trago hoje é análogo: os nomes das ruas. De facto, no Porto (onde escrevi este texto apesar de já lá não me encontrar), as ruas são sempre "de" alguém. Não me refiro à Praça de Lisboa, onde escrevi este texto (quem diria?); refiro-me às ruas com o nome de uma pessoa. É a Rua de Júlio Dinis, é a Praça de Gomes Teixeira, é a Rua do Doutor Magalhães Lemos... Não encontrei mesmo nenhuma excepção.
Pelo contrário, em todas as outras cidades portuguesas que me lembro, as ruas não têm o tal "de". As únicas excepções de que me recordo agora (vá-se lá saber porquê) são, em Lisboa, a Rua do Conde de Redondo e a Avenida de António José de Almeida. Mas não me lembro de mais nenhuma rua "de" alguém.
Creio que tal facto não acontece por acaso, e surge como consequência de o Porto ser historicamente uma cidade burguesa e defensora da iniciativa privada. As ruas do Porto, assim, de certa forma também são privadas. No Porto, é uma honra para a rua ter o nome da pessoa que lhe dá o nome.
Pelo contrário, nas outras cidades é uma honra para a pessoa ter o seu nome imortalizado numa rua. A rua pertence acima de tudo à cidade e aos seus habitantes; não é "de" ninguém.
No dia em que a esquerda conquistar a presidência da segunda câmara do país (por exemplo por intermédio do competente Rui Sá, esse homem tão elogiado no passado por Nuno Cardoso e tão criticado no presente pelo PS e pelo Bloco de Esquerda), há uma tarefa urgente a fazer: apagar uma série de "des" da toponímia portuense.

Publicado por Filipe Moura às julho 9, 2004 02:00 PM

Comentários

É tudo muito mais simples: trata-se de uma interpretação gramatical (ou ortográfica), que qualquer bom prontuário contempla. As ruas são sempre DE, segundo os puristas da língua: Rua de Arroios, Rua da Prata... Por extensão, quando se trata de nomes de pessoas, também deve haver um DE. No Porto, provavelmente, os sucessivos responsáveis da câmara pela toponímia sempre se rodearam de bons especialistas gramaticais...
jm

Publicado por: jm em julho 9, 2004 02:33 PM

A confirmar-se tese, seria (mais) uma enorme virtude do Porto.

Publicado por: AAA em julho 9, 2004 03:15 PM

Nunca tinha reparado em tal. O que é estranho porque sempre que que vfou ao Porto, perco-me e ando de cabeça no ar a olhar para os nomes das ruas.
Agora, esta do purismo gramatical dá vontade de rir. Como se fosse coisa feita por deuses para homens.

Publicado por: Rogério da Costa Pereira em julho 9, 2004 03:53 PM

Realmente, a tese é muito rebuscada. A explicação é simples, e o JM já a deu, num outro comentário a este post. Depois, os liberais bloguistas aplaudem, e a gente impacienta-se. Era escusado. Lá por o Porto sempre ter sido uma cidade com pêlo na venta, isso não significa que a burguesia mercantil andasse por aí entregando a alma à mão invisível do Adam Smith. A revolta contra o sorvedouro centralista português é antiga, simplesmente porque sempre houve em Portugal o hábito de tirar muito e dar pouco. Podemos recuar à Idade Média. Certo dia, D. João I mandou que se construísse uma rua excepcionalmente larga, que passava a ser uma espécie de centro de negócios (a Rua Nova, também Rua Nova dos Ingleses, hoje Rua do Infante D. Henrique), mas, depois, esqueceu-se de mandar o dinheirinho devido. A rua inventada pelo rei (pelo poder central) foi feita, mas paga pelas gentes da cidade, por iniciativa própria e para lá dos impostos. A Rua Nova era, realmente, da cidade.

Publicado por: POS em julho 9, 2004 04:10 PM

Olá POS!

Seria interessante debater um pouco sobre as personalidades e os eventos que são contemplados na toponímia do Porto, bem como as polémicas (algumas históricas) que ainda hoje surgem.

A maior parte das referências a pessoas são vultos do Liberalismo ou acontecimentos marcantes das lutas liberais ou da luta contra o fascismo (quantas cidades têm no seu coração, mesmo em frente à câmara municipal, uma Praça Humberto Delgado?)

Se compararmos, por exemplo, com Lisboa, a toponímia referencia personalidades muito mais reaccionárias. Até o D. Miguel é contemplado...

Uma das curiosidades, é o facto, por exemplo, de no Porto existir uma Praça do Marquês de Pombal e toda a gente a trata simplesmente por marquês, tudo porque no início do século XX, quando essa praça foi rebaptizada, a memória das execuções de 1757-58, levadas a cabo por Pombal, ainda mexiam muito com as pessoas.

Outra polémica interessante, e muito mais recente, foi a que houve em torno da Estátua de D. João VI, inaugurada na década de 1960. Alguns jornais faziam campanha aberta para que a estátua não fosse colocada cá no burgo. 150 anos depois da morte desse rei, era ainda interpretado como um símbolo do absolutismo e era criticado, imagine-se, por nunca ter feito nada pela cidade (o que por acaso é verdade).

Os únicos reis representados em estátua, dentro da cidade do Porto, são D. Pedro IV (por razões óbivas), no centro da Praça da Liberdade e D. Pedro V. Este último teve a sua homenagem porque morreu bastante jovem, pouco depois de ter visitado a cidade. Também deixou boas memórias no País por ter sido um indivíduo com dignidade (debateu-se pelo fim das touradas, por ex.).

Em contrapartida, o Porto tem uma estátua de Afonso Costa.

Resumindo, procuremos o conteúdo da toponíma e não apenas a forma, para ver onde existem mais elementos reacionários.

Publicado por: MBP em julho 9, 2004 04:55 PM

Errata:

Quando disse referi os únicos reis representados em estátua e depois só indiquei dois (os Pedros), esqueci-me do anterior, João VI. São, portanto, três estátuas de monarcas (digam-me, por favor, quantas há em Lisboa).

E já agora (não resisto), em 1936, a cidade do Porto foi o único lugar do país a pôr na linha a miudagem do Colégio Alemão (na altura tomado pela Juventude Hitleriana) que se divertia a apedrejar a Sinagoga, mesmo aí ao lado, na rua de Guerra Junqueiro :)). Houve um movimento cívico, liderado pelo próprio presidente da câmara, para exigir ao cônsul nazi que as perseguições parassem. Isto depois da comunidade judaica se ter queixado, sem qualquer consequência, ao governo de Lisboa...

Publicado por: MBP em julho 9, 2004 05:03 PM

Grande MBP!

Parece-me que estamos aqui fora do contexto. Nem é essa a vocação do BdE (II), que, sem culpa, é incapaz de entender o que só nós sentimos. Dá-me vontade de falar da revolta de 1757, da revolução de 1820, dos mártires da pátria, do 31 de Janeiro de 1891...

Publicado por: POS em julho 9, 2004 05:53 PM

Da épica greve de 1903, do revolução de Fevereiro de 1927, da chegada de Delgado a São Bento...

Publicado por: MBP em julho 9, 2004 06:30 PM

Quando leio este pessoal do Porto a falar da sua cidade, sinto como um pai a ouvir os seus filhos.

Publicado por: BP em julho 9, 2004 07:02 PM

Meus caros, muito obrigado pela vossa contribuição e pelas óptimas lições de história que nos deram (a mim, pelo menos). Agora, ninguém abordou a questão principal, as origens do "de" nos nomes das ruas... Só surgiu uma hipótese (a da maior correcção gramatical), que eu não aceito. Não aceito que o Porto diga que o resto do país (e o Brasil) escrevem mal ao não usarem o "de".

Publicado por: Filipe Moura em julho 10, 2004 12:09 AM

Meus caros, muito obrigado pela vossa contribuição e pelas óptimas lições de história que nos deram (a mim, pelo menos). Agora, ninguém abordou a questão principal, as origens do "de" nos nomes das ruas... Só surgiu uma hipótese (a da maior correcção gramatical), que eu não aceito. Não aceito que o Porto diga que o resto do país (e o Brasil) escrevem mal ao não usarem o "de".

Publicado por: Filipe Moura em julho 10, 2004 12:09 AM

Penso que a origem é meramente gramatical. Continua a ser usada, sobretudo para referenciar ruas mais antigas. Não é, obviamente, por uma questão de purismo gramatical, mas simplesmente por tradição oral. Contudo noto que tem vindo a cair em desuso.

A norma é exactamente a mesma que é utilizada referir ruas com outro tipo de referências, como da Alfândega, da Bainharia, de Cima, etc.

Sei que os tempos não são os melhores para estas conversas retóricas... são tempos tristes e de luta (ainda não digeri o maldito jantar de ontem...), mas seria engraçado discutirmos o porquê do desuso do de nos casos em que as ruas ou os lugares se referem a indivíduos, e a manutenção do mesmo de quando as referências são lugares, conceitos ou entidades colectivas.

Publicado por: MBP em julho 10, 2004 08:01 PM

Pensei que o Filipe nos queria fazer rir, mas pelo comentário anterior percebi que afinal não. Pior. Se o Filipe me explicar porque os franceses (será só Paris?) têm o "du" entre o "rue" e o seu nome talvez tenha a explicação para que no Porto haja tamanha desfaçatez e dar não apenas nomes às ruas como dizer que as ruas são de...
PS: Há excepções, como a rua Formosa [nada formosa diga-se de passagem) e a rua Firmeza, se não me engano.

Publicado por: filinto em julho 11, 2004 01:38 AM

Só mais uma coisa: No Porto, só os mortos têm direito a nome de rua, por isso a iniciativa privada blá-blá não colhe e o facto de "nas outras cidades é uma honra para a pessoa ter o seu nome imortalizado numa rua" também não.

Publicado por: filinto em julho 11, 2004 01:44 AM

Filinto (eu vivo em Paris): Place Charles de Gaulle, Avenue Victor Hugo, Boulevard Jourdan, Boulevard Raspail, ... chegam-te?
Ao contrário de Portugal, até as ruas com nomes de santos: Bd. Saint Michel, Bd. Saint Germain...
Excepções: Avenue du Général Leclerc, Avenue du Président Wilson, Avenue du Président Kennedy. Tudo porque os "donos" das ruas têm um título (não é democrático...). Mas são excepções.
Desculpa lá mas deves estar a falar em Paris, Texas.
Cumprimentos kramerianos.

Publicado por: Filipe Moura em julho 11, 2004 03:22 AM

Esclareço que dar um título como "reaccionarismo tripeiro" só por isto é obviamente provocatório e não deve ser levado a sério (está bom, tripeiro Filinto?). Mas creio que seria interessante descobrir a razão para a existência de tais "des". Pode ter a ver com o que eu disse. Motivos gramaticais, não acredito mesmo. Só se esses motivos gramaticais forem por razões conservadoras. Aí, estamos de volta ao reaccionarismo.

Publicado por: Filipe Moura em julho 11, 2004 03:26 AM

No meio desta discussão académica mas niquenta (admito) é contestada a explicação linguística, com argumentos falaciosos: não é por não terem o DE que as ruas são mais democráticas e não pertençam à memória do nome que levam; e não é por no Brasil e em Lisboa não se pôr o DE que assim é que está bem (p.e., não é por todos os pivots dizerem «houveram pessoas» que este emprego do verbo haver está correcto). Só deixaria de haver «reaccionarismo» na toponímia se se desistisse de dar nomes de pessoas às ruas. Entretanto, num dos comentários, avança-se com mais um exemplo sem DE: Rua Formosa. Ora, aqui, aida gramaticalmente, não é necessário o DE porque se trata de um adjectivo e, quando se trata de um adjectivo, o DE já está implícito na sua adjectivância, ó ignorantes!

Publicado por: jm em julho 11, 2004 09:48 AM

Filipe,
Concede-me, como leitor do bde, que sei onde moras - mais não fosse e lembrar-me-ia das manifs do Dia D.
Insisto no segundo comentário, no Porto só os mortos têm arruamentos... Mas também a República, a Liberdade, as Flores, o Freixo...
E em relação ao "rue du" fui ao incansável google:
Aqui.

Cumprimentos de P para P

Publicado por: filinto em julho 11, 2004 11:35 PM