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julho 07, 2004

A ALDRABICE POR OMISSÃO

Com um dos seus fatinhos de alegre gato-pingado, lá foi o Paulinho das Feiras, acompanhado da restante quadrilha, azucrinar um pouco mais a moleirinha de Jorge Sampaio.
Desta vez, a elegante fórmula escolhida passou por citar palavras com que o próprio PR, há 3 anos, descreveu os cenários em que poderia decidir pela convocação de eleições antecipadas: "a dissolução da AR só deve, em geral, ocorrer quando o Parlamento se mostre incapaz de gerar soluções governativas estáveis, como forma de prevenir ou solucionar crises políticas ou institucionais graves ou por necessidade, consensualmente reconhecidas, de adaptação dos calendários eleitorais." Ou seja, nada que se possa invocar a propósito da presente crise. Feliz com o brilharete, a criatura do PP levantou o irreprimível indicador maroto, exigindo "coerência" a Sampaio (olha quem...).
Só que, de fora da periclitante memória centrista, ficou a conclusão do texto citado: "a não ser nessas situações, ela só deve verificar-se em circunstâncias excepcionais e muito estritamente delimitadas. Será esse o caso em que a sua avaliação pessoal e maduramente ponderada, o PR conclua que o interesse nacional exige a relegitimação da representação parlamentar, quando se convença que a representação parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado ou quando considere que ela não permite a formação de um Governo capaz de mobilizar adequadamente as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país." Ou seja: de acordo com a sua própria cartilha, Sampaio sentir-se-á hoje livre para seguir por tal caminho.

Mas será que o Paulinho, sempre tão amigo de missas e que imagino ter sido aluno aplicado na catequese, nunca aprendeu que também se peca e se mente por omissão?
Claro que aprendeu; mas está-se nas tintas para a verdade. Ele até sabia bem que bastaria um jornalista atento (ainda os há, sim) para o apanhar em questão de horas. Mas o impacto de declarações na TV ultrapassa em muito o relevo de três ou quatro páginas impressas; a aldrabice vale a pena, a infâmia compensa.
Este comportamento é apenas mais um eco do afiar de garras em que a cáfila do costume já se lançou, antecipando o momento em que se vai banquetear com o governo de Portugal. Albertos Joões, tiranetes autárquicos, tios de milionários suíços... as hienas estão a sair dos covis. E vêm esfomeadas.

Publicado por Luis Rainha às julho 7, 2004 10:38 AM

Comentários

Fui umas das muitas pessoas que votaram num dos dois partidos coligados. Como tal, e não tendo eu passado nenhuma procuração a V.Exa, agradecia que pare com as interpretações ao meu voto.

Continuo a rever-me na maioria parlamentar democráticamente eleita e, julgo no mínimo abusador de V. Exa tirar conclusões de uma eleições para a Europa, onde eu e mais 61% dos portugueses não votámos.

Contudo, caso o PR resolva dissolver teremos a confirmação que o Presidente Sampaio não é Presidente de Portugal, mas sim daqueles que nele votaram. Como sou monárquico, poderá imaginar a minha satisfação.

Publicado por: João em julho 7, 2004 04:18 PM

Estava eu aqui sem perceber muito bem a conexão entre este post e o comentário de V. Exa, quando dei com a explicação para tais comportamentos exóticos: V. Exa é monárquico. Pronto, está bem: não o vou contrariar.

Publicado por: Luis Rainha em julho 7, 2004 04:43 PM

se o PE pode dissolver a AR porque não pode dissolver?

não entendi essa de ser presidente da parte...

ele é presidente porque pode decidir por todos, mesmo que uma parte não goste... decida ele o que decidir.

Publicado por: jorge em julho 7, 2004 04:52 PM

OH Luís, assim não!!!!!
Então não percebes que o que estás a dizer é uma patetice do tamanho do mundo?
Tomava-te por um tipo inteligente... Não vês que só estás a dar razão ao Paulinho, como lhe chamas.
Repara, "ela (a dissolução) só deve verificar-se em circunstâncias excepcionais... Será esse o caso em que... o PR conclua que o interesse nacional exige a relegitimação da representação parlamentar, quando se convença que a representação parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado..."
Quem o sabe? Só com novas eleições poderemos ter a certeza. Mas novas eleições implica a dissolução da AR. Ora, o mecanismo democrático que permitiria ao PR ficar convencido, não pode ser usado porque é uma das possíveis respostas que ele tem que dar ao problema que foi criado pelo sr. durão barroso (jose manel). Será que a roda de notáveis consultados é que o pode convencer disso!? Será este mecanismo mais democrático do que o Conselho do PSD que votou Santana para dirigir o partido?
"ou quando considere que ela (representação parlamentar) não permite a formação de um Governo capaz de mobilizar adequadamente as energias nacionais...", ou seja, tal como tu escreves "nada que se possa invocar a propósito da presente crise".
O que te quero dizer é que nada do que ficou por mencionar pelo Paulinho pode ser avocado para te dar razão no que quer que seja.

Publicado por: Xose em julho 7, 2004 05:34 PM

Caro, Luis Rainha, para os sofistas da futura nova coligação PPD/PP o que interessa é o soundbyte atirado no horário nobre televisivo. E a ansiedade gulosa é tanta que nem têm o pudor, o bom senso de disfarçar antes do presidente se pronunciar. Não conseguem fingir uma pose de estado minimamente convincente. Ainda bem que assim é. Porque assim só não vê o que eles são quem ou não quer – porque faz parte da pandilha – ou não consegue, porque não tem elasticidade mental. É triste é que isto será apenas um muito leve esboço do que teremos de aturar se Sampaio não tomar a única decisão que pode dignificar a democracia portuguesa e a ele próprio. Aguardemos pois.

Publicado por: S.Joffre Gouveia em julho 7, 2004 07:41 PM

Sr. Xose,
O destaque nem sequer foi para a porção que PP decidiu omitir do raciocínio de Sampaio. Por significativa tomei a omissão em si; e por alguma razão ela terá existido...
Mas quando uma eleição europeia confirma as sondagens em que se pretendia prever as tendências de voto em eleições para a AR, algo terá mesmo mudado na vontade do eleitorado.

Publicado por: Luis Rainha em julho 7, 2004 11:06 PM

O paulinho tem amigos em todo o lado e safa-se sempre. um dos seus amigos - rapazinho PP, todo monárquico, trabalha na SIS. Foi este amigo peça chave no lindo trabalho que ali fizeram sobre a Moderna. Deu para abafar tudo e dar ao paulinho tudo o que a sis tinha sobre ele. Formas de subir na vida...
Esse amigo não se perde pois anda a papar a chefe da sis. ESta margaridinha ou condessa de neiva e barcelos por casamento adora rapazinhos altos e desenpoeirados

Publicado por: El-Rei em julho 8, 2004 01:40 AM

Paulo Pedroso ao poder , já.
estou conbosco.
pá frente popular .
coligaçom PS BE PCP já

Publicado por: Afonso Henriques em julho 8, 2004 01:54 PM

Mas como já alguém disse por aí, e muito bem, o eleitorado muda no dia seguinte ao das eleições, quaisquer que elas sejam. Por isso não pode ser esse o critério a seguir pelo PR para decidir acerca do problema que nos foi legado com a fuga do sr. durão barroso (jose manel). Com as sondagens passa-se a mesma coisa.
Como sabemos, o único critério RELEVANTE para aferir da mudança do eleitorado são as ELEIÇÕES, e estas realizam-se (nas democracias dos países .civilizados., como se diz por aí), segundo as regras estabelecidas na Constituição. Ora, por cá, o que ficou escrito é que elas têm lugar de 4 em 4 anos, a não ser que ocorram as tais circunstâncias excepcionais mencionadas pelo Paulinho (incluindo as omissões que quiseste DESTACAR, apesar de vires dizer que não foi o isso que escreveste). Essa é que é essa!

Publicado por: Xose em julho 8, 2004 03:21 PM

Se a coisa fosse assim tão imutável, por certo nem precisaríamos de Presidente. É verdade que as eleições são mesmo decisivas para a aferição da vontade popular. Assim, tivemos eleições que confirmaram o que as sondagens já indicavam: um divórcio de monta entre os eleitores e a coligação no governo.
Mas volto ao mesmo: relevante aqui é a omissão do Paulinho. Esse é o tema do post...

Publicado por: Luis Rainha em julho 8, 2004 06:08 PM