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julho 06, 2004

CONHECIMENTO, IGNORÂNCIA, SABEDORIA

Outro dos grandes nomes da física teórica e provável vencedor do prémio Nobel (tomem nota disto) é David Gross, que primeiro se notabilizou no estudo das interacções fortes, nos anos 70, antes de passar a ser um dos grandes dinamizadores da teoria das supercordas. No muitíssimo interessante e inspirador colóquio que deu no Seminário Poincaré, no bonito Grand Amphi de la Sorbonne, Gross referiu-se à possibilidade de se poder encontrar uma teoria final que explique todos os fenómenos físicos. Segundo Gross, geralmente as pessoas referem-se ao progresso científico como uma cebola, à qual se vão retirando as camadas à medida que se vai progredindo até não haver mais nada para retirar. Para Gross, esta perspectiva é errada. A perspectiva correcta é oposta: temos o vácuo no qual se vai expandindo um corpo conexo. O interior desse corpo representa o conhecimento científico estabelecido; a superfície que é a fronteira desse conhecimento representa a nossa ignorância, as questões que formulamos, o que está em dúvida. Daqui resulta que, quanto maior for o nosso conhecimento, mais questões formularemos, pois um corpo maior tem uma maior fronteira. Desta maneira o aumento do conhecimento implica o aumento das dúvidas, mas de tal maneira que a sabedoria (razão entre conhecimento e ignorância, ou seja, entre o volume do corpo e a área da sua fronteira) aumenta também.
A grande questão é saber se o espaço em que o corpo está inserido é limitado ou não, isto é, se há um limite para o nosso conhecimento. Ninguém pode responder a esta questão neste momento mas, ainda segundo Gross, se tal acontecer notar-se-á uma diminuição gradual da ignorância e das dúvidas e um abrandamento do crescimento do conhecimento, isto é, o modelo deixa de ser válido. Mas não temos nenhuns indícios hoje em dia de que isso se passe ou venha a passar. Bem pelo contrário.
Além disso, Gross referiu que, mesmo que venhamos a ter algum dia uma teoria de tudo (que, convém dizer, estamos muito longe de ter), tal não implicará o fim da física e muito menos o fim da ciência.

Publicado por Filipe Moura às julho 6, 2004 01:43 AM

Comentários

Muito interessante, esse modelo.

Publicado por: José Mário Silva em julho 6, 2004 09:47 AM

Estranho esse modelo da cebola. Será que as pessoas têm realmente essa visão do progresso científico? Sempre o vi como algo que se desenvolve de dentro para fora, como uma árvore, em todas as direcções.

De resto, a forma das árvores (e das raízes) mostra-nos todos os dias que essa é provavelmente a forma mais adequada para procurar o que quer que seja (luz solar, água, nutrientes, algo em casa, no disco rígido, na Internet, ...).

Quanto a se há um limite para o conhecimento... "só sei que nada sei".

Publicado por: Nuno em julho 6, 2004 12:12 PM

" Quanto maior o nosso conhecimento mais evidente será a nossa ignorância "

e sempre será assim...

Publicado por: JR em julho 6, 2004 01:30 PM