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julho 04, 2004

CRÓNICA ALGO TARDIA DE UM RELATO FALHADO (O PENÚLTIMO)

O post anterior é um dos que não cheguei a escrever durante o jogo Portugal-Inglaterra, a mais emocionante das partidas disputadas pela selecção nacional neste Europeu de futebol (e a única que não fui narrando, quase minuto a minuto, aqui no blogue).
Seria fastidioso, agora, contar a saga daquela tarde em que cheguei a casa, em cima da hora do jogo, ajoujado com um saco de cerejas do Fundão muito negras, uma mala carregada de livros e jornais debaixo do braço, para descobrir, em pânico, que o televisor não dava de si nem à estalada. O resto da história seria matéria para um romance daqueles que se escrevem sem rédea, sem pontos finais, sem a mínima pausa: a corrida escada abaixo e rua fora, a entrada no café com os bofes a sairem pela boca e a camisa toda transpirada, a aterragem numa mesa de mármore frio enquanto no ecrã enorme já estava inscrito o resultado maldito, 0-1, com apenas quatro minutos de jogo, depois daquela cabeçada inglória, para trás, do Costinha, e eu a rabiscar notas num papel, a pensar ainda numa edição em diferido do relato, mas depois o jogo a pegar nos clientes do café, todos, em peso, como num corpo que se deixa manipular, a adrenalina a trepar pelas paredes, as cumplicidades súbitas a aproximarem as mesas e os copos e os corpos, o papel esquecido em cima do mármore frio, que se lixe o relato, que se lixe o blogue, eu quero é ver isto com olhos de ver, os jogadores portugueses a correrem contra o infortúnio, os ingleses a fecharem-se cada vez mais, uma muralha branca à entrada da área, e o Figo a fintar, e o Deco a inventar espaços, e o Cristiano Ronaldo a esbarrar na eficácia obstinada de Ashley Cole, e o maus prenúncios a agigantarem-se na sala, um poster que se descola, a TV que repousa sobre uma bandeira nacional made in China com o escudo invertido, um sopro de fatalismo a formar vincos nas testas, mais uma água mineral fresquinha se faz favor, e depois a cor do jogo a mudar de repente, o diabo Rooney a perder as botas, a insistência dos portugueses a ganhar proporções épicas, o futebol ensinado, na sua simplicidade e beleza, a quem inventou o jogo há século e meio, o intervalo para ganhar fôlego, a segunda parte de angústia a subir até ao zénite e depois aquilo tudo que aconteceu e não se descreve, a saída do Figo com trombas de animal revoltado, o Postiga no ar a fazer um golo de raiva, o interminável prolongamento com aquele golo maior do que tudo do Rui Costa, cinquenta metros de corrida e um disparo sem hipóteses, belo, belo, belo, e depois a facada nas costas desferida pelo Lampard, e mais sofrimento, e mais pessoas em pé, as mãos encolhidas, olhando para o lado com medo dos penaltys, e depois novamente o Postiga a enfiar-me um cubo de gelo espinha abaixo, com aquele remate em câmara lenta que humilhou o James e a arrogância do Beckham e a bazófia dos tablóides ingleses, tudo ao mesmo tempo, e depois o Ricardo a tirar as luvas, a pedido do Eusébio, a defender com as mãos nuas, a partir para a bola, logo depois, com toda a força do mundo e a metê-la, à bola, no cantinho inferior esquerdo, e o café a expodir de alegria, e a rua, e o bairro, e o país inteiro.
Nunca poderia sentir tudo isto, se tivesse o portátil sobre os joelhos, no conforto da minha sala.
Desculpem os leitores, mas o amuo do televisor salvou-me. Não trocava aquele turbilhão emocional por nada. Ou seja, tanta coisa só para dizer que não haverá relato hoje (mas espero que haja vitória).

Publicado por José Mário Silva às julho 4, 2004 06:15 PM

Comentários

Falta o golo que o arbitro lhes roubou - segundo diz o "Sun", entre muitos outros...

Publicado por: Luis Rainha em julho 5, 2004 12:29 PM

Zé Mário: é Ashley Cole (defesa-esquerdo do Arsenal) e não Andy Cole (antigo avançado do Manchester United e do Newcastle, hoje em final de carreira no Blackburn Rovers).

Publicado por: leitor atento em julho 5, 2004 03:04 PM

tambem descobri neste euro o prazer de ver um jogo num espaço publico entre amigos e desconhecidos. É incrivelmente diferente,agora só assim consigo ver jogos

Publicado por: chorro em julho 5, 2004 06:45 PM

Obrigado, leitor atento. Eu bem que tive dúvidas, enquanto escrevia a 300 à hora...

Publicado por: José Mário Silva em julho 6, 2004 09:30 AM