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julho 04, 2004

FADAS E ANDORINHAS

. Os países distantes são tão maravilhosos . diziam as andorinhas.
. Contem, contem . pediu a Oriana.
. O rei do Sião tem um palácio com um telhado de oiro e na China há torres de porcelana . disse uma andorinha.
. Na Oceânia há ilhas de coral cobertas de relva e palmeiras. E nessas ilhas as pessoas vestem-se com flores e são todas bonitas, boas e felizes . disse outra andorinha.
. Os cangurus têm uma algibeira para guardar os filhos e o rei do Tibete sabe ler o pensamento de todos os homens . disse outra andorinha.
. No alto das montanhas dos Andes há cidades abandonadas, onde só vivem águias e serpentes . disse outra andorinha.
. Que maravilha! Contem tudo . pediu Oriana.
. Não se pode contar tudo . responderam as andorinhas. . As maravilhas do mundo são tantas, tantas! Mas vem connosco, Oriana. Quando vier o Outono nós partimos. Tu também tens duas asas. Vem connosco.
Mas Oriana olhou o vasto céu redondo e transparente, suspirou e respondeu:
. Não posso ir. Os homens, os animais e as plantas da floresta precisam de mim.
. Mas tu tens duas asas, Oriana. Podes voar por cima dos oceanos e das montanhas. Podes ir para o outro lado do Mundo. Há sempre mais e mais espaço. Imagina como seria bom se viesses. Podias voar muito alto, por cima das nuvens, ou podias voar rente ao mar azul, mergulhando a ponta dos teus pés na água fria das ondas. E podias voar por cima das florestas virgens, e respirar o perfume das flores e dos frutos desconhecidos. Vias as cidades, os montes, os rios, os desertos e os oásis. No meu do grande oceano há ilhas pequeninas com praias de areia branca e fina. Ali, nas noites de luar, tudo fica azul, parado e prateado. Imagina estas coisas, Oriana.
Mas Oriana, olhando o alto céu e as nuvens vagabundas, suspirou e disse:
. Imagino o que seria da velha sem mim quando ela acordasse numa manhã fria de Inverno e não encontrasse o pão nem o leite.
. Vem connosco, Oriana . tornaram a pedir as andorinhas.
. Eu prometi tomar conta da floresta . respondeu a fada . e uma promessa é uma coisa muito importante.
Então as andorinhas fitaram-na com olhos pretos duros e brilhantes, e com um ar severo disseram:
. Oriana, não mereces ter asas. Tu não amas o espaço e desprezas a liberdade.

«A Fada Oriana», Sophia de Mello Breyner Andresen (Figueirinhas)

Estas foram das primeiras palavras da Sophia que ouvi, ainda antes de as ler. Lá em cima, na sala do segundo ano, às sextas-feiras à tarde, a voz do Professor confirmava a minha certeza na existência das fadas.

Publicado por Margarida Ferra às julho 4, 2004 04:05 PM

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