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julho 04, 2004

ALGUNS MINUTOS DE SILÊNCIO

Ontem, acordei a meio da noite, sem razão para tal. Acordei assustado; e ainda mais assustado por não entender porquê. Quase sem me mexer, tentei apanhar ecos do ruído que me teria despertado. Nada. Só ao fim de longos segundos percebi o que estava errado com a noite, com o mundo à minha volta: o silêncio absoluto. Nada se movia nem respirava à volta da casa.
O murmúrio das árvores vergadas pelo vento. O pipiar de coisas silvestres em voo. O ronco contínuo das ondas que, sem aviso, descobrem a linha de costa mais ocidental deste continente. A passagem ocasional de um automóvel ronceiro. O latido de um cão, furioso por dormir ao relento. É destas pequenas máculas que se faz o silêncio nocturno da minha aldeia.
Mas nem uma se deixava então ouvir. Como se alguém tivesse acabado de desligar o motor fundamental do universo, deixando tudo inerte, imóvel, mudo e quedo. Ou como se nada existisse para lá das paredes do meu quarto; apenas nevoeiro e escuridão sem fundo.
Só consegui voltar a adormecer com almofadas comprimidas contra as orelhas; dir-se-ia que estava a fugir de um ruído atroz. Mas assim pude concentrar-me até descobrir alguns sons: as marés internas do sangue que aflui aos tímpanos, as batidas descompassadas do coração alarmado. E lá fiquei, durante o que me pareceram horas, sonolento e receoso não sei bem de quê, até voltar a adormecer.

Quando voltar a ler o cansado chavão do "silêncio ensurdecedor", já saberei de que se trata.

Publicado por Luis Rainha às julho 4, 2004 02:54 PM

Comentários

belíssima descrição. são aqueles momentos de suspensão do mundo os mais propícios para ouvir o silêncio do mesmo.

Publicado por: Marta Lança em julho 5, 2004 12:51 AM

O som do corpo é algo que deviamos conseguir escutar mais vezes

Publicado por: bernardo em julho 5, 2004 10:20 PM