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julho 03, 2004

A TUDO QUANTO EXISTE ME HEI-DE UNIR

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta. Ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
Sophia, Arte Poética II
Recolho do importante livro Exercícios de Aproximação (Vendaval, 2003) dois excertos sobre a poesia de Sophia, pela voz inconfundível de Silvina Rodrigues Lopes, ensaísta de disponibilidade infindável para descrever a alegria do poema que nasce de um corpo que estremece.
Do texto “Escutar, nomear, fazer paisagens”: O tema da justiça, ou a busca da relação justa com as coisas e com os outros, deve pois ser entendido a partir da exigência deste tipo de claridade. A «explicação com o universo» não se compadece com distinções entre ética e estética – é uma implicação inteira, para usar outra palavra do léxico de Sophia. A mesma que Paul Celan tem em mente nestas palavras célebres de um seu discurso: “Só mãos verdadeiras escrevem verdadeiros poemas”. De “A linha musical do encantamento”: A poesia de Sophia mostra-nos o movimento em que a voz, carregada de memória e desejo como de uma energia inexaurível, se reúne às coisas, resgatando-as da sua mudez. A energia é a do mar interior, aquele que brota da atenção como uma oração da alma e afirma a sua exterioridade como uma veemência.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às julho 3, 2004 07:37 AM

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