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julho 03, 2004

SOPHIA POR MIGUEL

Nunca conheci Sophia de Mello Breyner. Creio nunca a ter ouvido, sequer. No entanto fiquei a julgar conhecê-la um pouco através deste relato fortíssimo do filho, que me ficou gravado na memória e que aqui transcrevo parcialmente.

"À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das sete da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao "orate, frates!" do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio. Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche." E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros,. que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra."

Publicado por Filipe Moura às julho 3, 2004 02:04 AM

Comentários

Incrível. conhecia esse texto, e a primeira coisa que me ocorreu quando ouvi a notícia da morte dela foi exactamente esse episódio do eléctrico...que define muito da alma de um(a) Poeta. Além de me ter lembrado das imensas histórias infantis que foram parte considerável das minhas pimeiras letras.

Publicado por: João Pedro em julho 3, 2004 02:15 AM