« BYE BYE, BRANDO | Entrada | LEGITIMIDADE »

julho 02, 2004

COMO GANHAR ELEIÇÕES

Ontem, Pacheco Pereira já tornou público um momento de lucidez em que condenou claramente o "modelo" de governo que todos adivinhamos vir a reboque de Santana Lopes: o populismo mais desbragado e insensato.
O abrupto comentador usa, como excelente ilustração, as trocas e baldrocas por que já passou o pobre Parque Mayer, sujeito a promessas, anúncios, arrependimentos, muito dinheiro gasto ninguém sabe bem para quê... sem esquecer o rol de ideias peregrinas que até incluiu um estranho casino ambulante.
Assim descrito, parece ridículo, não é? Mas convém não esquecer que o modus operandi da untuosa criatura é perigoso; a sua receita de efeito quase garantido.
Afinal, o que faz Santana Lopes para ganhar uma eleição?
Simples. Basta-lhe prometer tudo e mais alguma coisa que o eleitorado possa desejar. Não importa que muitas promessas sejam irrealizáveis ou absurdas; não interessa que algumas sejam até incompatíveis entre si; é irrelevante que não haja dinheiro nem para metade. O que urge é prometer. Quatro anos depois, quem se lembrará do que era suposto ter sido feito entretanto?
E este papagaio da jura fácil não cala o bico nem depois de eleito: para ele, é igual fazer ou anunciar que se faz, através de cartazes, conferências de imprensa, livrecos manhosos ou excursões de braço dado a arquitectos de renome. Que a confusão impere, entre dispendiosos avanços e recuos, é coisa de somenos!

Concretizemos: a eleição de Santana para a presidência da CML, decidida afinal por pouco mais de 800 votos, obedeceu a esta estratégia tosca mas letal. Enquanto que João Soares se recusou obstinadamente a fazer promessas, o seu oponente coberto de gel metralhou-as sobre todos os alvos. E ganhou.
Segue-se um pequeno resumo de algumas dessas alucinações eleitoralistas. Assim de repente, elenquei 22, de que foram cumpridas (parcialmente)... as primeiras duas. Pois.

1- Abertura do túnel entre o Marquês de Pombal e as Amoreiras.
2- Aumento das zonas pedonais.
3- Melhoria na oferta de transportes públicos, desencorajando o uso de viatura própria. (como se conjugaria esta promessa com a n.º1 é que eu não sei...)
4- Um silo de estacionamento por cada quarteirão de bairro.
5- Repovoamento do centro de Lisboa, através de incentivos à habitação de jovens no centro e da colocação no mercado de andares devolutos; expropriando-os se necessário fosse.
6- Criação de um Fundo Imobiliário para recuperação de zonas históricas, em especial a Baixa pombalina.
7- Saída dos ministérios do Terreiro do Paço.
8- Revisão do regime de cargas e descargas, acabando com a actual confusão diurna.
9- Autocarros de saúde servirão como postos de prestação de cuidados médicos básicos aos toxicodependentes.
10- Equipas de ruas estarão em todos os bairros problemáticos da cidade, fazendo a troca de seringas nos locais de consumo, aconselhamento da prevenção da sida, combate à tuberculose e prestando cuidados de enfermagem.
11- O número de efectivos de Polícia Municipal nas ruas irá triplicar.
12- Transferência da Feira Popular para os arredores de Lisboa e construção no local de residências universitárias.
No que toca à Cultura, SL agradeceu o apoio de algumas figuras ilustres do teatro e das novelas com uma mão-cheia de promessas:
13- Galeria Municipal de Arquitectura.
14- Bienal Internacional de Arquitectura.
15- Um Festival Internacional de Cinema e outro de Teatro.
16- Concursos de Bandas e Coros de Lisboa.
17- Uma "Lisbon Film Commission", para produção de filmes e séries de televisão.
18- Um Plano de Recuperação e Requalificação das Casas de Fado.
19- O "Mega Espaço da Juventude".
20- "Espaços Multimédia" para acesso à Internet.
21- O "Passe Cultural Lisboa Jovem" gratuito.
(E até me abstenho de voltar a mencionar a tal "requalificação" do Parque Mayer.)
22- Já no Plano para este ano, o Euro 2004 não foi descurado, tendo a CML anunciado um "ciclo temático designado Futebol - Espaços e Emoções - visão multidisciplinar e transversal para a reflexão do fenómeno desportivo". Se isto já pareceria pouco, tendo em vista a quantidade de visitantes que a nossa capital recebeu, que dizer da realização desse mirífico "Ciclo"? Alguém o viu?

Mas muito mais haveria a relatar, no campo das promessas desbocadas e irrealistas de SL: lembram-se, por exemplo, do belo cartaz de campanha que anunciava que ele fazia "escolas e piscinas"? Ou da converseta sobre a "bela história de amor" que iria construir com os arrumadores de Lisboa? Ou da sede para os Artistas Unidos?
É esta forma de "governo" que nos aguarda: promete-se o que for preciso para dar a volta ao papalvo. Quatro anos depois, culpam-se as eternas "forças de bloqueio" por, afinal, nada ter sido feito. Ou confia-se, pura e simplesmente, na nossa fraca memória.

"É assim que eu não quero que Portugal venha a ser governado". Sábias mas impotentes, estas palavras de Pacheco Pereira.

PS: Recorri, para juntar este apanhado, a várias fontes, incluindo o "Público" de 7 de Janeiro de 2002, o site do PCP e mais umas quantas de que não me recordo. Peço desculpa a estas últimas.

Publicado por Luis Rainha às julho 2, 2004 05:04 PM

Comentários

A principal razão foi a arrogancia do João, rima e é verdade.
Depois veio a familia toda, por isso percebe-se a cronica do pai na Visão, nota-se perfeitamente a terrivel dor de cotovelo.

Publicado por: provocador em julho 2, 2004 07:03 PM

Agora a esquerda já está com medo que Santana vá a votos e desculpam-se na sua estratégia de campanha!!! É o mesmo que dizer que os portugueses são burros e vão atrás das promessas fáceis...

Publicado por: Peixoto em julho 2, 2004 07:17 PM

Já agora depois do que o Soares filho disse do Ferro, não vai assim á tanto tempo, quero ver como vai ser a sua campanha para as eleições, loas e mais loas para o Ferro, já estou mais ao menos habituado, para o partido uns nabos para o país uns ases, como sempre para qualquer militante o partido vale sempre mais do que o país é por isso que estamos como estamos.
Esta era uma oportunidade para os opositores de Ferro mostrar alguma coragem, mas cheira a tacho e como tal toca a fechar a boca.
Para não haja duvidas continuo a pertencer ao P.A., o que vale é que em Outubro já ha outra vez futebol e por isso VIVA O SPORTING.

Publicado por: provocador em julho 2, 2004 07:20 PM

Mas que se há-de fazer? não foi o povo que o elegeu? O povo foi maioritariamente estúpido? Deixa-se assim enganar?

Publicado por: amora da silva em julho 2, 2004 08:02 PM

O PSD dsapareceu e nasceu um outro PPD tal como o CDS tinha desaparecido para nascer o PP.
O Populismo, paulatinamente, sem que se notasse muito conquistou um importante espaço no panorama partidário. E o que é pior, mas habitual noutras paragens, aliado aos piores interesses económicos, às redes da especulação imobiliária, das redes duvidosas do futebol e de tudo o que com elas está associado.
A Direita dos valores cedeu o seu espaço à direita dos interesses. O centro-direita deixou de estar representado em eleições. O Populismo vai apostar na demagogia, nas falsas promessas, na coligação de interesses mesquinhos em que o PSD se transformou e na clubite (que os dirigentes deste partido foram fomentando) para reter votos e enganar o antigo eleitorado do PSD e do CDS.
O sonho antigo de Santana de cindir o PSD e criar um grande partido político da direita populista foi conseguido, ultrapassando as antigas expectativas (nem sequer foi preciso cindir o PSD).
Será que os sociais-democratas de direita não vão reagir e formar um novo partido, apesar das dificuldades derivadas de lhes terem roubado passo a passo o aparelho partidário?
Começa a haver muitos cidadãos cuja opinião não está representada no espectro partidário, o que é um sério risco para a democracia.
Se Santana e Portas representam um grande risco a curto prazo para Portugal e para a sua economia, bem como para a situação económica e social da população, sobretudo as camadas mais carenciadas e as classes médias, o facto atrás referido é verdadeiramente grave para o futuro de Portugal como país democrático.
Esperemos que a esquerda se saiba mostrar à altura deste desafio de verdadeira salvação nacional e que o eleitorado e as elites do centro e da direita dos valores saibam reagir e reorganizar-se.
Apesar de as suas posições não serem, quanto a mim, as que melhor defendem os portugueses, eles são necessários a uma democracia saudável que consiga combater a desilusão, o afastamento dos elitores da politica e esses grandes cancros da democracia que são a corrupção e o sectarismo e nepotismo. Tudo cancros que têm vindo a desenvolver-se nestes últimos dois anos.
Que, depois da mobilização provocada pelo futebol em torno do nome de Portugal, os portugueses de todos os quadrantes políticos se saibam mobilizar para o verdadeiro desenvolvimento sustentado, para a elevação do nível cultural, técnico e científico e para o aprofundamento da democracia é um verdadeiro imperativo pelo qual todos somos responsáveis.
Carlos Braga

Publicado por: Carlos Braga em julho 2, 2004 08:46 PM

Não gosto do PSL, mas gosto da verdade. O ponto 22 da lista foi cumprido. Tudo o que seja exposição ou evento pontual é sobre futebol... Até enjoa... Quanto ao ponto 15, que eu saiba, já há um Festival Internacional de Teatro de Lisboa há muitos anos... ou seja, era só meia promessa...

Publicado por: cidadão atónito em julho 2, 2004 10:38 PM