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janeiro 28, 2004

SUGESTÃO DE LEITURA

Muito se tem falado na blogosfera da segurança (ou da falta dela) e do papel da polícia.
É conveniente ler uns livros e ver uns filmes antes de falar sobre o assunto. E para livros de polícia (mais do que meros livros policiais) não conheço melhor autor do que Rubem Fonseca.
Peguemos em Agosto (1990), edição portuguesa da D. Quixote. A personagem principal é o comissário Mattos, verdadeiro alter-ego de Fonseca, que foi policial antes de ser escritor.
Algumas das teses de Mattos sobre o papel da polícia podem ser extraídas dos diálogos com os seus assessores. Por exemplo:

"«Prender um macumbeiro, um receptador, é uma estupidez. O sujeito preso custa um dinheirão à sociedade, cumpre algum tempo na cadeia e sai pior do que entrou. (...) Se o sujeito for um risco grande para a sociedade, um criminoso psicopata, coisa assim, aí o cara tem que ser tratado apenas.»
«E a família da vítima?»
«Foda-se a família da vítima. Você fala como se estivéssemos no século dezoito, antes de Feuerbach. A pena como vingança. Você devia ter estudado melhor esta merda na faculdade.»"

Não se julgue porém que o comissário Mattos menospreza o papel da polícia na sociedade, conforme se pode ver neste outro diálogo:

"«Marido e mulher? Você vai dar um flagrante no sujeito apenas porque ele deu uns sopapos na mulher?»
«Exactamente por isso. O facto de ser a mulher dele para mim é uma agravante.»
(...)«Eu olhei a mulher e não vi nenhuma marca de lesão. (...) Garanto que a mulher vai ficar contra nós. (...)
«Todo mundo é contra nós, sempre.» (...)
Autor, vítima, advogado e escrivão esperavam pelo comissário.
«Então, doutor? Tudo resolvido?»
«Tudo. Vamos continuar o flagrante.»
«Doutor, meu cliente foi impelido por relevante valor moral, logo em seguida à injusta provocação da vítima. (...) Ela está arrependida, sabe que errou, pediu desculpas, o senhor não ouviu? (...)»
«Esse crime é de acção pública, não me interessa a opinião da vítima. Vamos continuar o flagrante.»
«Doutor, ela chamou o meu cliente de broxa
[impotente]. Algum marido pode ouvir a própria esposa chamá-lo de broxa sem perder a cabeça? (...)»
«Ninguém mais autorizado a chamar um sujeito de broxa do que a própria mulher.» (...)
O flagrante foi lavrado, assinado (...). Mattos tirou um Pepsamar do bolso, enfiou na boca, mastigou, misturou com saliva e engoliu. Ele cumprira a lei. Tornara o mundo melhor?"

Leio o Rubem Fonseca e fico sem palavras. Eu nunca li O Caso Morel. Mais um bom motivo para comprar o Público hoje.

Publicado por Filipe Moura às janeiro 28, 2004 01:30 PM

Comentários

Boa estreia, Filipe. Ou melhor: bom regresso.
Dá cá um abraço.

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 28, 2004 02:07 PM

excelente, um abraço fil.

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 29, 2004 09:48 AM