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<title>banalíssimo</title>
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<copyright>Copyright (c) 2012, gj.recomenda</copyright>
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<title>Contrariedades</title>
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<summary type="text/plain">Desisti, definitiva-me, de me contrariar. No processo, nunca levo a melhor....</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p>Desisti, definitiva-me, de me contrariar. <br />
No processo, nunca levo a melhor.</p>]]>

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<title>Cavaco adota tática Napoleónica</title>
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<issued>2012-03-22T15:20:20Z</issued>
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<summary type="text/plain">Reza a lenda (disseram-me isso hoje ao almoço) que Napoleão Bonaparte, apresentava-se invariavelmente à batalha de camisa encarnada. Pretendia, com tal tática, garantir que caso se visse ferido em combate, nenhum dos seus opositores o percebesse, para não enfraquecer a...</summary>
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<![CDATA[<p>Reza a lenda (disseram-me isso hoje ao almoço) que Napoleão Bonaparte, apresentava-se invariavelmente à batalha de camisa encarnada. Pretendia, com tal tática, garantir que caso se visse ferido em combate, nenhum dos seus opositores o percebesse, para não enfraquecer a sua posição.</p>

<p>Cavaco Silva, para o seu segundo mandato, adotou essa mesma tática do grande conquistador, apresentando-se em público invariavelmente de calça castanha.<br />
</p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Está Feito</title>
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<modified>2011-11-21T16:55:13Z</modified>
<issued>2011-11-21T16:01:51Z</issued>
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<summary type="text/plain">A Zulmira e o Amadeo fizeram-se. Há tanto que o prometiam sem cumprir que até já metia nojo. Deitados na cama com as pernas parcialmente revoltas pelos lençóis, ficavam-se em silêncio, um silêncio demorado e comprazido por uma convicção comum,...</summary>
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<![CDATA[<p>A Zulmira e o Amadeo fizeram-se. <br />
Há tanto que o prometiam sem cumprir que até já metia nojo.</p>

<p>Deitados na cama com as pernas parcialmente revoltas pelos lençóis, ficavam-se em silêncio, um silêncio demorado e comprazido por uma convicção comum, e nesse sentido partilhada, mas na verdade de sentido inverso. Cada um deles estava, naquela hora, intimamente convencido de que havia feito, não suspeitando do pensamento do amante e sem que um fio de clivagem naquela absoluta confiança permitisse a dúvida de ter antes sido feito. </p>

<p>Fizeram porque a isso estavam habituados. O timbre da personalidade que os assemelhava nos comportamentos e os distanciava na complementariedade impunha, em tudo, um papel activo e autoritário, que baptizavam, com uma auto complacência muito própria, por franqueza. Eles faziam o outro. Eles faziam sempre. Nunca ninguém os fazia. Admiti-lo seria, para eles, subjugar-se numa intolerável subordinação.</p>

<p>Repousavam lado a lado mergulhados nos pensamentos. Ele, inquieto com um fusível queimado que descobrira no quadro de uma dependência da Repartição. Silencioso e já ensimesmado, com o olhar baixo e turvo que o caracterizava, abanava a cabeça naquele característico movimento de elefante a oscilar longitudinalmente a tromba.</p>

<p>Ela, novamente de trombas - ela nunca se despedia das suas trombas, nem mesmo quando fazia alguém - indagava-se da origem do súbito arrefecimento do quarto. Seguramente a caldeira daquele antigo sistema de aquecimento a água da casa não estaria a funcionar convenientemente. De novo o velho problema. O Amadeo, especialista da electricidade, é que poderia dar uma "mãozinha". Sempre se pouparia um encargo inesperado com o recurso a um "já agora".</p>

<p><em><strong>«Ai, ai… aqueceu-se-me a caldeira de tal ordem que, desconfio, ainda se me estourava o termóstato!»</strong></em>, disse ela a ver se pegava.<br />
Ele, surpreendido com a frontalidade com que ela qualificara a sua desenvoltura sexual, só conseguiu devolver um <em><strong>«obrigado»</strong></em>.<br />
Ela não percebeu mas insistiu: <em><strong>«é um aquecimento contínuo. Sempre, sempre, sempre. Meu deus. Mesmo que quisesse arrefecer não saberia como. Já tem muitos anos...»</strong></em>. Disse ele: <em><strong>«sim? Mas em boa forma...»</strong></em>. Ela: <em><strong>«hein? Gostava de a pôr novamente a funcionar. Podes dar-me uma "mãozinha"?» </strong></em>Ele: <em><strong>«Todas»</strong></em>. Ela: <em><strong>«Queres vir lá agora?»</strong></em>. Ele: <em><strong>«Já?»</strong></em>. Ela: <em><strong>«A não ser que prefiras ir indo?»</strong></em>. Ele: <em><strong>«Não, não, prefiro ir-te à caldeira!»</strong></em>. Ela: <strong><em>«Era isso que eu estava a dizer...».</em></strong></p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Guerra dos Sexos</title>
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<modified>2011-11-07T17:33:00Z</modified>
<issued>2011-11-07T16:47:13Z</issued>
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<summary type="text/plain">A conversa decorre a meio da manhã de um qualquer dia da semana. Cada dia cumpre-se tal como o anterior, observando, com escrúpulo, o caminho trilhado nos dias precedentes. Há quem observe: «antes isto que sempre a mesma rotina». O...</summary>
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<![CDATA[<p>A conversa decorre a meio da manhã de um qualquer dia da semana. Cada dia cumpre-se tal como o anterior, observando, com escrúpulo, o caminho trilhado nos dias precedentes. Há quem observe: «antes isto que sempre a mesma rotina». O dia está ameno. O sol espraia-se apoiado em dois ou três flocos de nuvem, mais ou menos indiferente às incidências e coincidências da Repartição. A conversa decorre naquele tom distendido e vagaroso de quem já perdeu dois subsídios e para quem cumprir os horários de entrada e proceder aos registos biométricos se tornou o único desafio laboral pelo qual vale a pena lutar.</p>

<p>Aborda-se analiticamente a breve disputa que foi presenciada no corredor entre a Valentina e o Custódio, a primeira subordinante, o segundo, subordinado. A Valentina, pelas várias dependências por onde passou, na sua já longa carreira funcional, não hesitou em deixar um lastro de convulsão mal resolvida. É agressiva na abordagem e agreste no trato. Sempre imbuída da autoridade moral que lhe advém das suas origens rurais, católicas, castradoras, não se coíbe de qualificar de franqueza os impropérios com que recorrentemente mima o Custódio. Este, por seu turno, incomoda-se visivelmente, mas acolhe estoicamente todos os embates, por vezes parecendo até, nos momentos de maior clímax, experimentar a agitação que um distraído poderia classificar de prazer masoquista.</p>

<p><em><strong><em>«- O Custódio levou outra piçada da Valentina».<br />
«- Outra?»<br />
«- Outra! E encaixou-a com aquela receptividade típica dele.»<br />
«- Porra para a mulher. É sempre a mesma coisa com ela: piçada atrás de piçada»<br />
«- Dizes bem, piçada atrás de piçada.»<br />
«- Não está correcto!»<br />
«- Pois não. Até de um ponto de vista fisiológico.»<br />
«- Exacto.»<br />
«- Compreendes?»<br />
«- Pois não!»<br />
«- E o Custódio fica-se. Fica-se sempre!»<br />
«- A levar!»<br />
«- Pois. Está tudo ao contrário. Tudo ao contrário. O Custódio é que devia dar piçadas e a Valentina levar no pito! Não ao contrário, não ao contrário!»<br />
«- Pois!».</em></strong></em></p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - O Fim dos Subsídios</title>
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<modified>2011-10-17T16:53:29Z</modified>
<issued>2011-10-14T16:37:33Z</issued>
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<summary type="text/plain">«Os filhos-das-grandes-putas» rugiu o Adalberto, ainda com a boca inundada pelo vinho que lhe colorava a massa naponitana que a mulher aquecera para o jantar. «Os cabrões destes caralhos só pensam em foder quem trabalha!», continuou perdigotando os filhos com...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p><strong><em>«Os filhos-das-grandes-putas»</em></strong> rugiu o Adalberto, ainda com a boca inundada pelo vinho que lhe colorava a massa naponitana que a mulher aquecera para o jantar. <strong><em>«Os cabrões destes caralhos só pensam em foder quem trabalha!»</em></strong>, continuou perdigotando os filhos com o chuvisco involuntário a que os catraios reagiram com nojo. O primeiro ministro, em tom compungido e com uma expressão facial de dor, acaba de apresentar televisivamente a corajosa medida de eliminação dos subsídios de natal e de férias a todos os funcionários públicos e sucedâneos. A Repartição era atingida de novo e em bloco.</p>

<p>O Adalberto dormiu toda a noite acordado. Não tinha posição. O coração saltava-lhe do peito ou ouvir, na sua cabeça, a palavra «eliminação», que se repetia e repetia até à exaustão. Consumiu a noite em insultos aos filhos-das-grandes-putas. De manhã levantou-se acordado sem ter conseguido recuperar qualquer tipo de serenidade. Conhecia-se bem e estava consciente de que precisaria de muito, mas muito tempo para digerir a medida.</p>

<p>No curto trajecto para a Repartição experimentava um misto de pura e genuína indignação com a adrenalina própria da expectativa segura de que, naquele dia, a Repartição não se ocuparia de outra coisa senão insultar os filhos-das-grandes-putas. Nesse imediato confrontou-se com um dilema mas, não o conseguindo sintetizar no imediato, acabou por suavemente mergulhar na sua pertinência: por mais que invectivasse os filhos-das-grandes-putas não conseguia angariar aquela satisfação mínima de carácter que nos assiste quando um insulto se impõe. Aquela angústia na forma de bolo de bolacha que instalara no canal do esterno não escorregava nem um milímetro a cada impropério. Não libertava. Não desafogava. <br />
Depois compreendeu. Caiu em si, como é vulgo dizer. É que desde aquela sua primeira invocação dos filhos-das-grandes-putas ao jantar que vinha subordinando a referência à condição de substantivo, de nome próprio e decididamente já não à de qualificativo. Percebeu que os filhos-das-grandes-putas eram para si já a condição do sujeito, a sua referência designativa. E, uma vez outorgado o baptismo, faltava-lhe um qualificativo para a conduta. Prostrou-se de pé na rua. Inclinou-se suavemente e, apoiando uma mão em cada joelho, murmurou <strong><em>«fiquei sem insulto»</em></strong>. E sentiu-se mais pobre. <br />
</p>]]>

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<title>O Maravilhoso Munda da Repartição - Temporada V - Tirar as Medidas</title>
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<summary type="text/plain">«-É muiiito baixoooo» aquiesceu o António à lucubração do Pereira. A entoação, nada disfarçada, sublinhava a desaprovação que se vinha sentindo na Repartição pelo técnico responsável pelos selos e carimbos do arquivo, Manuel Afonso. «-Parece-me perfeitamente inadmissível», continuou o Pereira,...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p><em><strong>«-É muiiito baixoooo»</strong></em> aquiesceu o António à lucubração do Pereira. <br />
A entoação, nada disfarçada, sublinhava a desaprovação que se vinha sentindo na Repartição pelo técnico responsável pelos selos e carimbos do arquivo, Manuel Afonso.<br />
<em><strong>«-Parece-me perfeitamente inadmissível»</strong></em>, continuou o Pereira, <em><strong>«que o Manuel Afonso consiga fazer o que faz, como faz, sem que ninguém, ninguém diga o que quer que seja»</strong></em>.<br />
<strong><em>«- É baixo, ele é, de facto, muito baixo»</em></strong>, reiterou o António.<br />
<strong><em>«- E eu pergunto-me, pergunto-me mesmo, como é que um indivíduo assim consegue chegar onde chega? Diz-me, como?».</em></strong><br />
<strong><em>«- Pereira, chega não olhando a meios, fazendo tudo e mais alguma coisa. Olha, empoleirando-se nos outros se for preciso. É o que é. Põe-se à boleia dos colegas e, se não te pões a pau, sabe-te para a garupa!»</em></strong>.<br />
<strong><em>«- É muiito baixooo»</em></strong>, ditou mais uma vez o Pereira. <strong><em>«- Detesto os indivíduos que têm a mania de se pôr em bicos de pés!».</em></strong><br />
O António, agora mais incomodado ainda, alvitrou <strong><em>«- O Manuel Afonso chega a ser rasteiro, quando quer. Manifestamente não está à altura da posição que ocupa. É por isso que, de vez em quando, fica dependurado. O que é bem merecido.»</em></strong><br />
<strong><em>«- Ele consegue ser muito, muito baixo. Eu acho e sempre achei, até confesso que por vezes sentia ser o único...»</em></strong><br />
<strong><em><br />
«- Não, não»</em></strong> interrompeu o António, <strong><em>«- nisso eu sempre concordei contigo, sempre concordei que...»</em></strong><br />
<strong><em>«- Sim, sim»</em></strong>, aquiesceu novamente o Pereira, <strong><em>«- tu sim, tu sempre concordaste comigo que o Manuel Afonso não tem estatura para o lugar que ocupa. Olha, para ser simpático, digo-te: falta-lhe elevação».</em></strong><br />
<strong><em>«- Falam de quem?»</em></strong>, perguntou a Maria Matias, aproximando-se do corredor.<br />
<strong><em>«- Do Manuel Afonso»</em></strong> esclareceu o Pereira, <strong><em>«-o dos Selos e Carimbos»</em></strong>, completou o António.<br />
<em><strong>«- Ah, esse. Ai, ele é tão baixo!!!!»</strong></em>, anuiu a colega. <strong><em>«- Disse-me o Almeida que apesar do indivíduo ter a secretária e a cadeira apoiadas no estrado da sala, mesmo assim não consegue medir mais de metro e meio!»</em></strong><br />
<strong><em>«- Ele é baixo. Muito baixo. Muito, muito baixo»</em></strong> declaram em uníssono os colegas. <br />
</p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Sempre a Descer</title>
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<modified>2011-09-23T10:19:07Z</modified>
<issued>2011-09-23T09:25:15Z</issued>
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<created>2011-09-23T09:25:15Z</created>
<summary type="text/plain">«Ainda não! Ainda não!», gritou irreflectidamente o encarregado da obra de reposição de caminhos e servidões do cemitério de S. João enquanto se afundava até à cintura ao pisar o solo recentemente revolvido da frente de obra. O pronunciado receio...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p><strong><em>«Ainda não! Ainda não!»</em></strong>, gritou irreflectidamente o encarregado da obra de reposição de caminhos e servidões do cemitério de S. João enquanto se afundava até à cintura ao pisar o solo recentemente revolvido da frente de obra. O pronunciado receio de ter <em>"chegado a sua hora"</em>, sobretudo na boca do rude e sempre sisudo encarregado, homem experiente e de agreste trato mutista, acentuou o desconforto que se vivia no estaleiro pela natureza da obra encomendada pela Repartição. </p>

<p>Ninguém queria aquele biscate. Só mesmo o sócio gerente. Os operários - e, estava claro agora, também o encarregado - prefeririam suportar o risco da intermitência do salário mensal a verem-se consignados, todos os dias, por três meses de Outono, ao cemitério da localidade. Ao cemitério vai-se de fugida ou de vez. Não por três meses. Não é território para acomodações preliminares. Quando se vai, fica-se. Não se vai à experiência. <em>«Tantas vezes o cântaro vai à fonte que parte a asa»</em>, diziam os mais antigos, nenhum formado nas Novas Oportunidades mas com ratice para perceber que era de mau agoiro labutar no cemitério.</p>

<p>Depois do <em>«meio enterranço»</em>, como ficou conhecido o incidente com o encarregado, o dia-a-dia tornou-se mais tenso e as relações do empreiteiro com a Repartição muito delicadas. A Directora da Obra, especialmente susceptível, abandonou definitivamente o simulacro de compostura que ainda lhe restava e apresentou-se inflexível na reunião semanal com o engenheiro do dono da obra para a delimitação da jornada de trabalho:</p>

<p>- Sr. engenheiro, o empreiteiro, a partir da próxima semana, prolonga a jornada diária de trabalho só até às 16h.<br />
- Até às 16h, sr.ª engenheira? Não pode ser, têm de trabalhar até às 18h. O empreiteiro tem de trabalhar todos os dias até às 18h.<br />
- A partir das 16h começa a escurecer, sr. engenheiro, por isso o empreiteiro desmobilizará.<br />
- Não pode ser, sr.ª engenheira...<br />
- Mas vai ser. A partir das 16h não haverá nenhum colaborador do empreiteiro no cemitério. E estas reuniões de obra terão de passar a ser sempre de manhã.<br />
- De manhã? Mas, a sr.ª engenheira sabe que eu sou responsável pelo acompanhamento de outras obras da Repartição. Só consigo estar cá às 17h30.<br />
- Engenheiro, isso é lá consigo. Eu garanto-lhe que a essa hora não estarei cá. Acompanharei a equipa na desmobilização às 16h. Depois dessa hora, garanto-lhe, não me apanha cá, ai não, não, não me apanha cá nem morta! <br />
</p>]]>

</content>
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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Os cortes na saúde</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://banalissimo.weblog.com.pt/arquivo/2011/09/o_maravilhoso_m_45.html" />
<modified>2011-09-21T16:08:45Z</modified>
<issued>2011-09-21T15:31:11Z</issued>
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<created>2011-09-21T15:31:11Z</created>
<summary type="text/plain">- Vai ter que ser, vai mesmo ter que ser. - O coordenador do gabinete de comunicação, sr. director? - Sim, sim, vai ter que ser, vai ter que ir. É lamentável mas não existe alternativa. - É lamentável... -...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://banalissimo.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>- Vai ter que ser, vai mesmo ter que ser.<br />
- O coordenador do gabinete de comunicação, sr. director?<br />
- Sim, sim, vai ter que ser, vai ter que ir. É lamentável mas não existe alternativa.<br />
- É lamentável...<br />
- Hum...<br />
- Curioso. Devo dizer-lhe, sr. director, que nunca atentei em especial aos resultados do gabinete de comunicação. Não é uma área que esteja directamente relacionada com os recursos humanos. Mas sempre tive o coordenador do gabinete de comunicação como uma pessoa empenhada e esforçada. Diria até mesmo dedicada.<br />
- E é, Manuel, é e muito. E, repare bem, os resultados nesse departamento nunca mais foram os mesmos desde que ele assumiu as funções. De certo estará recordado da triste imagem que a Repartição dava de si junto da população. <br />
- De mim, sr director?<br />
- Não, não, dela.<br />
- Aah.<br />
- É verdade que o homem transformou a comunicação institucional por completo, renovou-a integralmente, desde o logótipo até aos pressrealeases. Se houve aposta ganha foi ali.<br />
- Pois, pois. E vamos dispensá-lo...<br />
- Tem que ser. Tem que ser.<br />
- A austeridade tem destas coisas, sr. director. Corta-se nos custos não directamente produtivos e abdica-se de recursos humanos capazes. O sr. director estará a ponderar, presumo, extinguir o gabinete de comunicação?<br />
- Não Manel, nem pense nisso. Agora, mais do que nunca, temos de alicerçar a nossa acção numa forte comunicação para o exterior. Temos de reforçar o gabinete com um novo coordenador e talvez até mesmo com um adjunto.<br />
- O sr director desculpar-me-á a pergunta. Mas então qual a razão para dispensarmos o actual coordenador?<br />
- Ele só tem um rim.<br />
- Como?<br />
- Um rim. Só um. Um único. Sabia, não sabia?<br />
- Sim...sabia.<br />
- Pronto, aí tem.<br />
- Mas, sr. director, nós não suportamos os custos com a diálise, pois não?<br />
- Ah pois não, só faltava cá mais essa também. Aí é que diziam que isto é pior que a Madeira.<br />
- Mas se não há perdas, o sr. director estará seguramente a antecipar ganhos com a mudança, não?<br />
- Precisamente Manel. É essa sagacidade que lhe admiro. Ganhos. Ganhos de eficiência.<br />
- Sim?<br />
- Sim. Repare bem, vivemos um dos momentos mais conturbados no país nos últimos 25 a 30 anos. Hoje a mensagem é tudo. Os mercados são seres vivos e o "Exterior" observa-nos. A velocidade das mudanças é vertiginosa e pode ser necessário, a qualquer momento, corrigir trajectórias e reagir de imediato, com uma rapidez que pressupõe, em todos nós, a máxima disponibilidade e, acima de tudo, elasticidade. Agora diga-me como é que o coordenador do gabinete de comunicação com aquele handicap...<br />
- Só com um rim?<br />
- Sim, só com aquele. <br />
- Sim, dizia...<br />
- Como é que, num aperto repentino e talvez desesperado, podemos exigir, com que legitimidade podemos exigir ao coordenador do gabinete de comunicação, se necessário for, um golpe de rins? Como? Não seria sério da nossa parte. Não seria correcto. <br />
</p>]]>

</content>
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<title>Cavaco Silva recebe mais uma grande comenda de mérito Banal</title>
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<modified>2011-09-21T11:03:01Z</modified>
<issued>2011-09-21T10:11:08Z</issued>
<id>tag:banalissimo.weblog.com.pt,2011://3578.459073</id>
<created>2011-09-21T10:11:08Z</created>
<summary type="text/plain">Cavaco Silva recebeu ontem a Grande-Grande-Comenda de Mérito Banal. Depois de guardar já em casa a Grande-Comenda de Mérito Banal, é agora laureado com um reconhecimento ainda maior, a Grande-Grande Comenda. O comité de atribuição destacou o laureado nos termos...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://banalissimo.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Cavaco Silva recebeu ontem a <strong><em>Grande-Grande-Comenda de Mérito Banal</em></strong>. Depois de guardar já em casa a <em>Grande-Comenda de Mérito Banal</em>, é agora laureado com um reconhecimento ainda maior, a <em>Grande-Grande Comenda</em>.</p>

<p>O comité de atribuição destacou o laureado nos termos seguintes:</p>

<p><strong><em>«A Grande-Grande Comenda de Mérito Banal é atribuída a Cavaco Silva, Presidente da República. Quem? Presidente da República. O que é isso? É...um cargo. Cargo? O mais alto magistrado da nação...Não. Não? Não, nunca ouvi falar. </p>

<p>Depois de ter recebido já este ano a Grande-Comenda de Mérito Banal, por ter sucedido onde todos antes falharam - tornar o cargo de Presidente da República completamente irrelevante - Cavaco Silva distingue-se uma vez mais e de pleno direito, justificando merecidamente esta homenagem.</p>

<p>Homenageia-se assim o homem, o político, o visionário que, no momento mais crítico da história recente do arquipélago da Madeira inicia uma visita aos Açores»</em></strong></p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Um Estranho Chamado Virus</title>
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<modified>2011-09-20T14:49:15Z</modified>
<issued>2011-09-20T14:01:16Z</issued>
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<summary type="text/plain">O pânico dos vírus levava-o, metodicamente, a cagar só em casa. Desde miúdo educara o trânsito intestinal com a severidade dos ortodoxos, na disciplina férrea de não assentar o cós noutro tampo de sanita que a do domicílio. Esta determinação...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p>O pânico dos vírus levava-o, metodicamente, a cagar só em casa. Desde miúdo educara o trânsito intestinal com a severidade dos ortodoxos, na disciplina férrea de não assentar o cós noutro tampo de sanita que a do domicílio. Esta determinação precoce, que ele gostava de encarar como uma <em>"opção estética"</em>, obrigava-o recorrentemente a algumas passadas apressadas e mesmo a uma ou outra corrida ligeira, sempre no intuito de se preservar a lavabos, WCs e sanitários que, para os menos insanos, vão abrigando as urgências intestinais. </p>

<p>Teve de perscrutar cuidadosamente na memória os motivos que estavam na génese daquela sua conduta. Não foi fácil. A prática de tantos e tantos anos parecia já se justificar pela sua própria constância, remetendo para a neblina do esquecimento a razão primeira que o levara a encetar primeiro as <em>“corridas para cagar”</em> e, depois, quando mais velho, o labor de planear e executar cada cagadela com a precisão de um temporizador suíço.</p>

<p>Numa tarde, ao atravessar a pé a Rotunda da Boavista e com uma imprevista perturbação subsequente a um almoço bem regado, viu-se na iminência de se confrontar com uma defecação em hora imprópria. Pensou, naturalmente e como era seu hábito, meter-se rapidamente no carro e dirigir-se num tirinho a casa para despachar o assunto com a dignidade que ele sempre lhe merecera. Porém, talvez influenciado pelo momento algo contemplativo que vivia depois da subida do IVA na factura da electricidade, preparou-se para racionalizar a situação e encetar um debate sério, construtivo e edificante com a memória e a consciência, procurando, a três, escalpelizar o fundo daquela sua espiral de pudor do escatológico.</p>

<p>Recordou então, enquanto atravessava o grande círculo que alberga o monumento com o leão e a águia enroscados, que nos confins mais remotos do seu passado, quando ainda mal conseguia ler e interpretar, guardara de ter folheado distraidamente uma revista que a sua mãe comprara quando lhe ofereça uma supergorila, chamada <strong><em>«Amélia»</em></strong> ou <strong><em>«Maria»</em></strong>, já não o sabia dizer com rigor, mas ainda assim de a ter folheado e, a passos tantos, ler uma intrigante frase que vinha concluída com uma interrogação carregada: <strong><em>«Sei que nas casas de banho se transmitem vírus. Se utilizar uma casa de banho pública posso engravidar?».</em></strong></p>

<p>Seria isso? Seria essa a causa primeira da sua já longa e regrada metodologia <em>“defecatória”</em>. Se sim, tinha de acabar já. Já e agora. Era inadmissível um tal comportamento irracional para um adulto em pleno século da troika. E, mais a mais, a gasolina estava cada vez mais cara. A conta de cada <strong><em>“corrida para cagar”</em></strong> começava a ficar incomportável.</p>

<p>Decidido, dirigiu-se para a Casa da Música. Conhecia os lavabos do primeiro andar, que com as portas de dois metros de altura e quase uma tonelada de peso ofereciam, a par da austera arquitectura do anterior, uma garantia de higiene que superava qualquer outra alternativa disponível nas imediações. </p>

<p>Era isso. Era isso mesmo. Cagaria fora e cagaria a sério. Cagaria decididamente fora pela primeira vez na vida fora. E cagaria com segurança, com limpeza, de uma forma educada, solene e elegante. Com um pouco de sorte, nos lavabos ouvir-se-ia um trecho de Mozart. E o curador das instalações provaria indubitavelmente rasgo se tivesse a acutilância de ter seleccionado o <em>Requiem</em> do compositor.<br />
</p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Dois dias depois do Crash</title>
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<modified>2011-09-08T12:22:56Z</modified>
<issued>2011-09-08T14:11:54Z</issued>
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<summary type="text/plain"> O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Dois dias depois do Crash Arqueou a perna direita e, flectindo-a, assentou o joelho no tampo de mesa, enquanto mantinha bem erguida a esquerda do chão, equilibrando-se nos dois pontos...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<![CDATA[<p><br />
O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Dois dias depois do Crash</p>

<p>Arqueou a perna direita e, flectindo-a, assentou o joelho no tampo de mesa, enquanto mantinha bem erguida a esquerda do chão, equilibrando-se nos dois pontos desnivelados. Seguidamente, apoiou a mão esquerda no tampo, mantendo o púbis no vácuo, como que firmado num cóxis ausente. Posto isto, colocou os óculos e movimentou de transvies as ancas, numa simulação atabalhoada de coito, que havia sido já baptizada de StrassKan Movement. </p>

<p>O mote estava lançado junto à máquina do café e, era claro para todos, a silenciosa mas impressiva provocação não ficaria sem resposta. </p>

<p>Laborou-se dolentemente sobre as possíveis variantes. Um, assentou os pés em paralelo, com as pernas ligeiramente afastadas, e apoiando a palma de cada mão em cada anca, à moda das lavadeiras embora com os mindinhos hirtos e ligeiramente afastado, cuja rigidez denunciava a concentração de movimentos em articulações corporais específicas, depois de postar um olhar ausente, com apatia nas feições, oscilou frontalmente as ancas, em movimentos sincopados e enérgicos. Apenas e só os glúteos asseguravam a dinâmica necessária, permanecendo toda a demais massa corporal distendida, para não dizer descomplexadamente relaxada. Um bem ensaiado movimento Just Do It, merecedor de generalizada aprovação.</p>

<p>Outro começou, mas interrompeu subitamente pressentindo-se passos femininos, tornando os rostos subitamente sérios, mal disfarçada a contenção porque, em todos, os olhos, vítreos, esbugalhados, perdidos nos globos oculares, confessavam sem necessidade de palavra o tema que se procurava calar. Ela, quando passou, percebeu-o e, moderando um ligeiro sorriso, prosseguiu no corredor como se de nada tivesse desconfiado.</p>

<p>Eles também prosseguiram.</p>

<p>Um colocava a mão atrás da nuca. Outro, as duas. O terceiro fazia um ângulo recto com o braço direito, fazendo expandir o bíceps, em infantil demonstração de força. American´s Psycho Take ThatBack Strike Movement. </p>

<p>Alguém se confrontou com a mesa que sustinha a máquina do café, apoiou ambas as mãos e, com agilidade, iniciou agachamentos frontais, num total de três porque a idade a mais não permitia. De Only Way is Up Movement. </p>

<p><br />
</p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada V - Depois do Crash</title>
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<modified>2011-07-01T09:34:30Z</modified>
<issued>2011-06-30T08:55:54Z</issued>
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<summary type="text/plain">Nunca teria acreditado. Nunca. E a incredulidade manter-se-ia, reconheço-o, ainda que me tivessem contrariado a dúvida com recurso às mais modernas tecnologias de exposição de incautos: fotografias com utilização de objectivas com perímetro superior às coxas da Tina Prateleiras, daquelas...</summary>
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<![CDATA[<p>Nunca teria acreditado. Nunca. E a incredulidade manter-se-ia, reconheço-o, ainda que me tivessem contrariado a dúvida com recurso às mais modernas tecnologias de exposição de incautos: fotografias com utilização de objectivas com perímetro superior às coxas da Tina Prateleiras, daquelas que focalizam à distância de 500 metros peitos femininos em exposição solar directa, ou inscrições mais ou menos despudoradas dos próprios na internet à vista escancarada de qualquer curioso razoavelmente desocupado.</p>

<p>E a segurança daquela minha reacção à dúvida, que tinha por inabalável, mesmo quando confrontada com indícios mais ou menos convincentes, resultava tão somente do contacto pessoal, mais ou menos anódino, é certo, mas ainda assim regular que fui mantendo com o Viana desde o momento em que, já em época de aperto na administração pública, aquele homem de grande porte, sabe-se lá como, havia conseguido, com subtileza, acomodar-se num lugar nos quadros da Repartição. <strong><em>"Acesso directo sem passar pela casa da partida"</em></strong>, dizia-se, numa alusão ao "Monopólio", que todos aqueles com menos de 30 anos já não compreendiam e todos aqueles com filiação partidária interpretavam como <em><strong>«uma boca»</strong></em>.</p>

<p>Naquele homem, a deferência e subtileza inicial passou rapidamente a ser lida por educação, resvalando com o tempo e de forma progressiva - não uma evolução compassada, lenta, ritmada, mas antes acelerada e abrupta - para um percepção de subserviência, até se estatelar irremediável e paradoxalmente numa espécie de solicitude viscosa, uma sabujice melosa, uma desconfortável obsequiosidade. É feio? É desagradável? É! É! Mas, que diabo, é verdade. </p>

<p><strong><em><strong>«Bomm diaa! Tá bom? Tudo bem consigo? Permita-me que o cumprimente? Olá, tudo bem consigo? Prazer em vê-lo! Permita-me que o cumprimente? Permita-me que o cumprimente? Permita-me que o cumprimente?»</strong></em></strong>. Sempre, sempre, como se, diariamente, hora a hora, fosse uma surpresa encontrar-nos, se encantasse por nos cruzarmos, sempre, sempre numa orgásmica solicitude: <em><strong>«Permita-me que o cumprimente? Permita-me que o cumprimente?»</strong></em> Foda-se para o homem mais os cumprimentos! Permita-me que o cumprimente? <strong><em>«Que Pai Natal»</em></strong>, ralhava-se.</p>

<p>O Viana, de idade já avançada e que passara os últimos 20 anos a pedir autorização para cumprimentos na administração paralela do Estado, julgou-se na Repartição, bem remunerado como estava, pronto a apresentar cumprimentos e pouco mais até à reforma, que não tardava. O Orçamento do Estado para 2011 apanhou-o naquele suave e tranquilo torpor melancólico de quem está, simplesmente está, tranquilo e sereno como a brisa de Outono, e, sem bom dia nem boa tarde, levou-lhe 7% do vencimento. </p>

<p>Enfonou. Nos recantos, a Repartição, atingida também ela em diferentes percentagens, corroía-se: <strong><em>«Permita-me que o cumprimente?» «Oh, claro, permite-me que lhe apalpe 7%?»</em></strong>Resmungava todo o dia. <strong><em>«Esta gatunagem. Ladroagem»</em></strong>. Puxavam por ele: <strong><em>«Viana, isto é que é roubar...»</em></strong>. Aturdido, repetia <strong><em>«gatunagem. Ladrogem»</em></strong>. </p>

<p>Esquizofrénico, dava os bons dias pela tarde quando, pela manhã, invariavelmente já havia antecipado o cumprimento da tarde. Exteriorizando as preocupações que o martirizavam, abandonou a seu costumeira saudação do <strong><em>«tá bom?» </em></strong>para interpelar todos, num sentimento de partilha, com o <strong><em>«Olá, está melhor?»</em></strong>. </p>

<p>A notícia da criação do imposto extraordinário para tributar a 50% o 13.º mês surpreendeu-o à entrada de uma reunião geral de coordenação com a representante do Ministério que tutelava a repartição e relativamente à qual se esforçava para manter os salamaleques de formalidade. Foi à porta da sala que um colega lhe segredou a triste nova, quando a equipa se prestava a cumprimentar a representante, com os naturais <strong><em>«como está»</em></strong>, <strong><em>«muito boa tarde». </em></strong>O Viana, desconcertado com a notícia, aéreo, com a raiva a tomar conta da indignação inicial, escutava as conversas <strong><em>«Isto agora é que vai ser»</em></strong>, <strong><em>«Ficamos com menos 7% e agora o subsídio»</em></strong>, <strong><em>«Nunca pensei que me fossem outra vez ao bolso, que me apalpassem a carteira, é tudo a apalpar, tudo a apalpar, todos apalpam, todos temos de apalpar...»</em></strong>, quando a Senhora <strong><em>«Olá Sr. Viana»</em></strong>, que o fez reagir automaticamente mas em erro <strong><em>«Olá, como está? Tudo bem consigo? Permita-me que a apalpe?»</em></strong><br />
</p>]]>

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<title>Cavaco Silva recebe Grande Encomenda do Banalissimo</title>
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<modified>2011-03-29T10:26:01Z</modified>
<issued>2011-03-29T08:44:32Z</issued>
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<summary type="text/plain">É com a mais viva satisfação que o Banalíssimo informa o planeta que atribuiu, pela primeira vez na sua história, e do planeta também, a Grande Encomenda de Mérito Banal, destinada a a homenagear personalidades que se destacaram pela sua...</summary>
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<![CDATA[<p>É com a mais viva satisfação que o Banalíssimo informa o planeta que atribuiu, pela primeira vez na sua história, e do planeta também, a <em>Grande Encomenda de Mérito Banal</em>, destinada a a homenagear personalidades que se destacaram pela sua conduta verdadeiramente irrelevante:</p>

<p>  <strong><em> «Pelos seus préstimos banais, pelos silêncios em alturas de crises, pelo mutismo em todos os momentos de agitação, pelos comentários sobre ilhas em momentos estivais, pela sua recusa em comentar comportamentos democraticamente discutíveis em outras ilhas, pela incapacidade de se fazer compreender (devidamente reconhecida em post-it próprio no <em>facebook</em>), e, sobretudo, por um famoso episódio com bolo-rei na ida década de 90, mastigado ostensivamente de boca aberta, é atribuída a Grande Encomenda de Mérito Banal a Aníbal Cavaco Silva, reconhecendo o facto de ter sido o primeiro, desde o dia 25 de Abril de 1974, a conseguir assegurar que o cargo de Presidente da República como irrelevante».</em></strong></p>]]>

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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - IV Temporada - Episódio III</title>
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<modified>2010-12-17T11:09:36Z</modified>
<issued>2010-12-17T11:06:26Z</issued>
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<summary type="text/plain">Alvíssaras aos nossos meninos, Estamos mesmo às portas do Natal, Beba-se Porto, moscatel ou uns finos, No lanche da desta repartição oficial. As projecções foram as mais realistas, Os compromissos conseguimos cumprir, Como essa equipa de especialistas, Alguém nos fará...</summary>
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<![CDATA[<p>Alvíssaras aos nossos meninos,<br />
Estamos mesmo às portas do Natal,<br />
Beba-se Porto, moscatel ou uns finos,<br />
No lanche da desta repartição oficial.</p>

<p>As projecções foram as mais realistas,<br />
Os compromissos conseguimos cumprir,<br />
Como essa equipa de especialistas,<br />
Alguém nos fará cair?</p>

<p>Neste ano que agora cessa,<br />
Antecipo o que tenho a receber,<br />
Uma palmadinha nas costa à pressa,<br />
Já que mais não há para ter.</p>

<p>Ai este é o mês da amizade,<br />
Período do ano tão especial,<br />
De solidariedade e generosidade,<br />
Mas só para com o partido é que vale.</p>

<p>Os prazos são em dias calendário,<br />
Corridos ou também com os feriados?<br />
Para antecipar qualquer efeito gregário,<br />
Recomendam-se muitos cuidados.</p>

<p>Se és fornecedor ou empreiteiro,<br />
Não te estenderemos o mealheiro,<br />
Mas quando há vontade e dedicação,<br />
Há-de se equacionar uma outra solução.</p>

<p>Época tradicional de resguardo e reflexão,<br />
Em solidariedade, oferta e contrição,<br />
Oportunidade de partilha sem indemnização,<br />
E pelo incumprimento colher perdão.</p>

<p>A crise também este ano veio,<br />
Conviver alegremente no lanche de Natal,<br />
Aproveita para ires de estômago cheio,<br />
Para o ano recebes redução salarial.</p>

<p>Pai Natal considera-te devidamente notificado,<br />
De que tens a prestação das renas em atraso,<br />
Assegura-te que em 15 dias tens tudo pago,<br />
Ou este ano, garanto-te, circulas de autocarro.</p>

<p>As contas são para liquidar por inteiro,<br />
Ou assinar um plano de pagamento certeiro,<br />
Falha as prestações e ficas avisado,<br />
Já vais a puxar a charrete com o costado.</p>

<p>E não te escuses com o tráfego em alvoroço,<br />
Os peões no passeio ou o atravessamento do eléctrico,<br />
Se tiveres sono aproveita bem à hora do almoço,<br />
Porque o controlo do horário é agora biométrico.</p>

<p>Sai do trânsito, põe o dedo, tira o dedo, sem medo, <br />
Senta-te, concentra-te para o bem e para o mal,<br />
Corre, corre, corre, corre, corre para chegares cedo,<br />
Contribui tu também para essa qualidade total.</p>

<p>Toma um café logo bem pela manhã; <br />
Acaba o pão e descasca a maçã,<br />
Aproveita mais um café que pelo andar,<br />
Daqui a nada já o estás a pagar.</p>

<p>Vai agora para onde te leva o coração,<br />
Dizia a canção, o livro ou a televisão,<br />
Mas este ano poupa a remuneração inteira,<br />
Pois é certo que para o ano te vão à carteira.</p>

<p>Se de função pública és honesto trabalhador,<br />
Asseguro-te que este Natal vai ter um outro sabor,<br />
No feriado aproveita os restos da consoada,<br />
Para o ano, já sabes, voltas a pedir mesada.</p>

<p>E pode ser até que tenhas muita sorte,<br />
Se tudo continuar a ser como que tem sido,<br />
Pois se te calha seres abrangido pelo corte,<br />
Para outro emprego, tens de recorrer ao partido.</p>

<p>Mas nem tudo está perdido,<br />
Para o negro ainda vamos no castanho,<br />
Porque pelo que tenho lido,<br />
Ainda falta a avaliação de desempenho.</p>

<p>O teu mérito será seguramente reconhecido,<br />
Da tua missão a comunidade é tributária,<br />
Não te antecipes já a todos tão agradecido,<br />
A recompensa é meramente honorária.</p>

<p>Vá lá, não carregues tanto esse semblante,<br />
Porque a crise tem uma vantagem natural,             <br />
Para o ano estás mais magro e elegante,<br />
E, chegando o FMI, vens a pé e de fio dental.</p>

<p>Cuida-te como no inverno vens e vais,<br />
Agasalha-te bem na tua grande viagem,<br />
Porque ditam a restrições orçamentais,<br />
Que o seguro de saúde há-de ser uma miragem.</p>

<p>Podíamos ser mais optimistas,<br />
Poder, poder, podíamos!<br />
Mas não seria a mesma coisa,<br />
Mais vale ser realistas.</p>

<p>Fica uma advertência por fazer,<br />
Mais para futuro e sem interesse passado,<br />
É que neste momento de lazer,<br />
O acordo ortográfico não está respeitado.<br />
</p>]]>

</content>
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<title>O Maravilhoso Mundo da Repartição - Temporada IV - Episódio II</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://banalissimo.weblog.com.pt/arquivo/2010/12/o_maravilhoso_m_39.html" />
<modified>2010-12-07T14:33:40Z</modified>
<issued>2010-12-07T11:35:56Z</issued>
<id>tag:banalissimo.weblog.com.pt,2010://3578.453936</id>
<created>2010-12-07T11:35:56Z</created>
<summary type="text/plain">O sr. Alberto, da secção de «compras e aprovisionamento», já se ia habituando às putas. Inicialmente custou-lhe. Os pruridos que lhe haviam desde sempre bloqueado a iniciativa e que, agora, já entrosados no procedimento, ainda lhe impunham algumas reticências, eram,...</summary>
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<email>ricardo.de.carvalho@clix.pt</email>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://banalissimo.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>O sr. Alberto, da secção de <strong>«compras e aprovisionamento»</strong>, já se ia habituando às putas. Inicialmente custou-lhe. Os pruridos que lhe haviam desde sempre bloqueado a iniciativa e que, agora, já entrosados no procedimento, ainda lhe impunham algumas reticências, eram, obviamente, de ordem moral. Sentia-se como que em pecado, tolhido pela incapacidade de suster a derrocada da muralha que constituía, julgava, a sua mais irredutível vontade.</p>

<p>Casado e com dois filhos, cabeça de casal e senhor cioso da gestão tanto das finanças da Repartição como da contabilidade doméstica, era com algum embaraço envergonhado que o Sr. Alberto pagara já amiudadas vezes por sexo (violento) sem que pela transacção a profissional se prontificasse a emitir o respectivo recibo verde.</p>

<p>A quitação de nada lhe serviria e não se imaginava a fazer ponto de honra de que no documento se exarasse rigorosamente a <em>«prestação de serviços de natureza sexual»</em>. Mas qualquer coisa como <em>«serviços de prazer»</em> ou <em>«medidas corporais intrusivas de relaxamento» </em>assegurariam, sem constrangimentos para cliente e fornecedor, a regularidade procedimental que tanto estimava. A regularidade procedimental! </p>

<p>A regularidade procedimental! Este era o travessamento mental do Sr. Alberto, solidamente edificado, camada a camada, ao longo de 35 anos de labuta burocrática. Provido nos quadros da administração pública ainda com treze anos por concluir, para correr estafetas entre repartições, consciencializara-se cedo da sequência de actos, formalidades e encadeamentos que qualquer tarefa, por menor especialização que implicasse, sempre teria de obedecer, aprendizagem que foi consolidando com a progressão na carreira. A cadência sequencial de formalidades contagiou, primeiro, o seu trabalho e, depois, alastrando como uma doença cutânea, balizou a sua própria vida.</p>

<p>Quando começou a ir às putas, por desafio do Gilberto, funcionário cuja desproporcionada cortesia para com os colegas antecipava preocupantes tendências psicopáticas, delineou desde logo o rito a observar em toda a sua acção, ritual que veio a catalogar mais tarde como a sua <em>«forma de foder»</em>: uma profissional, um local, um preço e uma sequência posicional. Chegou ao rigor de, aquando do seu primeiro contacto com a profissional, após a conclusão do arranjo e depois de explicado detalhadamente os pressupostos da contratação, ao que a visada anuiu com estupefacção, ter sentenciado, com solenidade na voz, um <em>«adjudicado!»</em>.<br />
</p>]]>

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