julho 22, 2005

A Boa Fé àcida

Em Choraquelogobebes a Boa Fé é uma espécie de cama onde se deitam as consciências doentes, uma espécie de leito de malandrices moribundas vestidas de freiras boazinhas com as mãozinhas postas a rezar terços e a pedir perdão pela facada dada anteriormente ou pelo atropelo ou pela simples fuga ao fisco.

A Boa Fé é uma verruga encravada no queixo da maldade, ao lado da falta de respeito e logo por cima do desleixo. È uma mal formação do carácter, que devia ser a pele interior de todos nós.

A Boa Fé tem um cheiro ácido a consciência em decomposição apesar dos ambientadores espalhados debaixo dos panos e das pernas, sovacos e outras partes dadas a cheiros desagradáveis. Não consegue disfarçar o corpo morto da injustiça.

A Boa Fé esconde-se nas tocas como um bicho rastejante à espera de oportunidade para aparecer explicativa de acto punível, senão pela lei, pela consciência. A Boa Fé é a implosão da consciência. È uma espécie de paliativo para a falta de carácter.

Por exemplo, um indivíduo que mata outro na estrada porque não travou não pode alegar Boa Fé dizendo que só esteve a poupar os discos dos travões, um médico que deixa morrer um doente não pode dizer que agiu de Boa Fé porque poupou sangue na transfusão. Um cidadão que não declara os seus impostos não pode dizer que não o fez por Boa Fé. Todos temos que declarar. Todos temos que pagar.

Ninguém pode alegar Boa Fé porque não foi notificado dos seus crimes. Um crime é um crime e a Boa Fé não é desculpa. A ignorância não tem desculpa. Só em Choraquelogobebes que é uma terra de Boa Fé.

Publicado por joão sem medo em 06:30 PM | Comentários (0)

julho 12, 2005

O barrete retro reflector

Já se sabe que Choraquelogobebes é uma terra de acidentes rodoviários. As estradas são caprichosas, têm curvas especiais que fazem os veículos saírem com mais velocidade do que aquela com que entraram. Tem sinais onde não devem e sinais onde devem, mas seria outros. As estradas são bordadas de deusas más que chamam os condutores para os seus braços. Vem. Vem. Vem. E os Choraquelobebences vão todos contentinhos para os braços das Deusas Raides como quem vai visitar uma tia para chá.

Seja carroça, mula, bicicleta, carro de mão, em choraquelogobebes todos têm escrito na matrícula “perigoso”. Mesmo as mulas que apesar de teimosas são bichos seguros nos outros sítios, em Choraquelogobebes são umas mulas tunning com fitinhas nos rabos a dar a dar ao vento pela velocidade, ferraduras rebaixadas e abas de fibra nos dentes para dar um ar racing.

Os carros de mão atingem velocidades infernais em curva mesmo que sejam feitas só numa roda, carregados de estrume até a cima e conduzidos pelo Lecas Perneta, acelerados ao tac toc da perna boa, perna de pau, perna boa, perna de pau. O Lecas mesmo só com uma perna parece um corredor de velocidade e consegue acelerar com a mesma facilidade que salta barreiras com molas na perna de pau tipo duplo carburador e escape de competição.

Em Choraquelogobebes os veículos não andam a gasolina e gasóleo, nem palha e aveia os animais. Mesmo as bicicletas não avançam a pedaladas simples e marcadas pela facilidade, dificuldade do relevo. O combustível é aditivado de Borba GTi, DãoVVTi, Cartaxo-Turbo, Mini 7x ou Imperial-Racing ou simplesmente Aguardente F1 que é o topo de todos os aceleras com nostalgia de pêlo no peito, dedo mindinho no nariz a limpar o hall, mão firme no volante, outra no cigarro e a terceira no telemóvel.

Os Choraquelogobebences têm muitos jeitos, para muitas coisas tem habilidade. A condução não é uma delas.

Para tornar a condução mais segura, o governo de Choraquelogobebes, não decidiu melhorar as estradas, mudar a sinalização, controlar o Lecas, as Mulas tunning, distribuir calmantes para a condução, obrigar os condutores a rezar um filho-nosso-que–estas-na-estrada-no-banco-de-trás, a vigiar os que bebem aditivos para a condução, a limitar o número de visitas ao nariz durante a condução. O governo numa decisão retro-iluminada obrigou, numa decisão estética e acertada na óptica do Ministro dos desfiles de moda e reproduções nas paredes, obrigou todos os Choraquelogobebences a terem nos seus veículos um barrete luminoso para serem identificados quando andassem na via pública. Essa seria a grande medida para reduzir a sinistralidade automóvel em Choraquelogobebes.

Neste momento ainda não há dados estatísticos sobre a importância de tal medida. Mas já se sabe que os veículos de Choraquelogobebes nunca mais foram os mesmos. Agora mesmo quando não andam na cabeça é ver barretes por tudo o que é pega de carro de mão, crina de mula, guiador de bicicleta e até pendurados no varal da carroça. È uma alegria parola de cor a circular por ai.

Os Choraquelogobebences avessos a cumprir outras leis do tráfego, aceitaram esta com yupies e olarés e corridas para as lojas a comprar. Agora é vê-los todos contentes a avariar os carros de mão com problemas no eixo da roda e a simular cascos encravados nas mulas e a mudar ferraduras, a marcar encontros nas estradas com papelinhos nas mãos a fazerem de cartinhas de amor, com os seus barretes retro reflectores nas cabeçorras enfiados até aos olhos.

De repente as estradas de Choraquelogobebes ganharam outra cor. Parecem estar cheias de árvores de Natal com luzinhas verdes e laranja fluorescente iluminadas pelas cabeças dos Choraquelogobebences. Seja dia ou de noite. Viva o barrete retro reflector.

Publicado por joão sem medo em 12:30 PM | Comentários (2)

julho 07, 2005

Saudades do Ti

João Sem Medo começou a trabalhar cedo porque o calor aperta e o campo seco pela seca mata a vontade de tardar. Por volta das nove já o corpo pede sombra e a boca água fresca da cantara. Os campos estão castanhos, ressequidos, assustados de sol.

João Sem Medo está encostado a uma oliveira torta de centenários, passa a mão pela testa ao jeito de tique nervoso para limpar a suor que deveria refrescar a pele em situação de calor normal. Está um calor medonho, tocado a vento, marcado a acendalhas.

Neste estado de torpor passam pela cabeça do nosso personagem as razões de aperto que marcham em direcção ao coração para além da seca e das coisas tristes que o verão derrete nos campos.

O Ti mandou um pombo-correio com uma mensagem na pata a dizer “Tenho saudades.”. Uma mensagem amarrada com uma fita azul com a palavra Ti escrita a lágrimas.

João Sem Medo abriu a fita com mil cuidados para não magoar o bicho ofegante ou para adiar o resultado da missiva nos seus olhos. Saudade. A palavra ecoou dentro de si como um cristal com muitas arestas cortantes. Também ele estava com muitas. Apetecia pegar na carroça ou num bando de pombos e a galopar ou a voar ir buscar o Ti para junto, muito junto de si.

Já voava o pombo em direcção ao descanso merecido, ainda João Sem Medo abria lentamente a carta e lia a declaração. A saudade na cabeça de João Sem Medo surgia como uma catástrofe sem limites uma espécie de bomba ‘s’ com um ‘s’ muito grande e explosivo. A palavra saudade ganhara de repente umas sete ou dezassete cabeças de serpente que deitavam labaredas das bocas malvadas. Era como se cada letra fosse um animal feroz e a palavra uma rajada de metralha certeira. Ratatatataaaaa. Cada bala, cada letra no centro do coração, mesmo onde a pontuação é máxima de quem acerta no alvo.

Ao pai João Sem Medo dói a saudade ampliada da saudade que é a sua, multiplicada pela do filho na proporção muito directa de um grande amor. Nisto, porque a dor pode ser uma emoção traiçoeira pensou que aquela saudade podia ser uma flor melosa de quem só quer um mimo e precisa de um beijo de boa noite, ou um aconchegar de lençol, uma festa leve na face a que está habituado. Podia ser uma poesia pequenina do Ti a dizer – “Gosto muito de vocês” escrita com pó de estrelas em vez de lágrimas.

Publicado por joão sem medo em 07:00 PM | Comentários (0)