outubro 26, 2004

O Ex enjeitado pela comissão

Já aqui se falou da fuga do primeiro-ministro para o estrangeiro, andava Choraquelogobebes dormente pelos resultados do Chora2004. Ainda nenhum dos Choraquelogobebences tinha tirado os lencinhos da janela, ainda estava toda a gente aos pulos numa alegria rara quando se deu a fuga.

Passados estes meses de desaparecimento, depois de ter mudado de nome, de gravata, de sorriso, mas com as mesmas ideias lá seguiu o primeiro ministro a montar (salve seja) comissão a escolher comissários, a gerir contingências, a comer couves pequenotas e redondas, nada que se pareça com coração de boi ou ratinha, que são couves fortes ásperas e determinadas para sopa ou cozido que se preze.

Andava o agora ex-primeiro a procurar solução numa azafama de reuniões e de tédios quando decidiu escolher para o Departamento de Doçaria o Benito.

Bruás, saltos no ar, conspirações. Abaixo. Abaixo. Ninguém quer o Benito na Comissão de Doçaria. O Benito é conhecido por não gostar de chocolate, baba de camelo, aletria ou simples papo de anjo. O homem é diabético, não pode comer doces, nunca gostou e até pertenceu à Liga do Croquete – em prol dos salgados.

Nada batia certo. Nada andava bem. Todos estavam contra a escolha de personalidade tão contraditória. Os padeiros e cozinheiros revoltados contra a figura azeda do Benito e por ligação o Ex.. Os pasteleiros indignados contra a escolha da magreza do paladar e dos projectos para a doçaria do comissário e por ligação o Ex. O Ex a teimar na escolha, a reforçar o erro e a afundar-se no equívoco da fidelidade

Desesperado o Ex já pensava na volta a Choraquelogobebes, derrotado, sem escama de sorte, de guelra seca e olho mortiço, sem força para lágrima redentora, nem ímpeto na barbatana para nadar contra a maré.

Publicado por joão sem medo em 12:43 PM | Comentários (1)

outubro 22, 2004

Vacas de marca

Fim de tarde em Choraquelogobebes. Ameno. Luminoso. A apetecer. Batem à porta de João Sem Medo. Ouve-se o barulho normal que fazem as portas maciças secas do sol depois de levarem umas pancadas com o punho que o narrador não representa em onomatopeia por imediata evidência para o leitor.

Entre!.Quem é? Perguntou ao jeito de convite o nosso personagem. Sou o Deolindo ó da casa. Responderam do lado de lá, já com o um pé na soleira da porta e o outro na dita entreaberta. Venho cá pedir ajuda. Fungou o Deolindo. Queria que me ajudasses com a bicharada que o inverno espreita e há rezes com problemas.

Em Choraquelogobebes os animais são guardados em autesorsingue que é uma espécie de “fazem os outros e paga-se menos do que se fosse eu a fazer” que ajuda a equilibrar as finanças de todos até dos autesorsinguistas que por economia de recursos e sabe-se lá por que contenções da carteira fazem mais barato aquilo que os outros não conseguem. O Deolindo tem um autesorsingue de pastoreio de gado.

Nas aflições dos amigos e vizinhos João Sem Medo não se nega a ajuda ou entre ajuda porque quem dá, recebe, mesmo que não seja hoje na mesma medida, amanhã se compensa a generosidade de um e de outro. Seja com garrafão, ovos, semente ou boleia para ir á cidade de passadiço.

Nestes pensamentos de ajudador seguiu João Sem Medo em direcção ao prado. Sabes João - disse o Deolindo com ar constrangido. Eu preciso da tua ajuda não é para marcar as ovelhas. Essas sabes tu que eu estou habituado a marcar. Uma pinta de tinta azul aqui, duas bolas ali, um risco seguido de um triângulo e ficam todas marcadas a preceito. Este ano tenho também que marcar as vacas. Olha lá Deolindo por que é que também vais marcar as vacas? Não lhes chegam as malhas para as conheceres. Tu mais os respectivos donos!?

Retorquiu o Deolindo - O problema não está nos donos que a esses basta assobiar de determinado feitio que as vacas lhes correm de beiços erguidos a adivinhar feno. O problema é mesmo com os animais. As vacas desde que viram as ovelhas com pintas, riscos e efeitos coloridos no pelo, quiseram também ter pelo de marca e lá começaram a deprimir, deixaram de dar leite e algumas começaram a marrar e nos múuuus e mais múuuus se percebeu que queriam ser umas vacas diferentes e depois de muitas tentativas, daqui até à solução das marcas foi um instante.

Dito isto assim se fez, chegados ao prado e depois de ajeitadas em carreiro as vacas começar a ser prendadas com uma pinturas geométricas, umas letras, umas argolas pintadas aqui e ali espalhadas pelo peito, pelos costados, dependendo da habilidade e acesso dos estilistas-marcadores João e Deolindo e era velas de rabo alçado, prado fora a lamberem os pernis a ajeitarem os cachaços com as pinturas tipo etiqueta. Deixaram de ser animais comuns, agora eram umas vacas de marca.

Publicado por joão sem medo em 06:13 PM | Comentários (1)

outubro 19, 2004

A tranquilidade

Sabem os leitores que João Sem Medo lida com as coisas da terra com a sabedoria de experiência feita. Que as cambiantes das sementeiras não têm segredos, que as manhas da poda da enxertia são tu cá tu lá com o nosso personagem.

Já perceberam que João Sem Medo vive numa espécie de perplexidade mágica entre a simplicidade dos elementos e a fantasia do inexplicável. Vive no desequilíbrio incerto entre cada coisa real que dói e as coisas inevitáveis da imaginação. Os sonhos.

Uma e outra são uma forma de encontrar a ponte entre o desejo e o tem que ser, entre o aceitável e o insuportável, ambos faces do mesmo rosto que são dois siameses. No meio desta confusão de palavras, como alimento, combustível de tudo o que mexe fica a agitação e a revolta. Coisas internas que cansam. A incapacidade da indiferença.

Nesta convulsão de coisas que acontecem não acontecendo o nosso João, olha o espelho ajeita a gola do oleado e sai para o campo. Na cabeça ecoava a palavra – tranquilidade. Repetia para si que aquela hora pedia recolhimento – tranquilidade, tranquilidade... .

Assim continuou mais uns metros terra dentro com as bota enlameadas. Tranquilidade. Tranquilidade. Até que uma balsa se prendeu nas calças logo acima do cano das galochas e tinha que agir. Com tranquilidade, repetiu mais uma vez.

Publicado por joão sem medo em 01:00 PM | Comentários (1)

outubro 18, 2004

Um certo som do coração

Começou o mau tempo em Choraquelogobebes, dizem aqueles que vivem de costas viradas para o campo, a horta a sementeira. A chuva trás em si esse fluxo de vida vivida encerra a geração, o ciclo o retorno ao que era, será, já foi eterno das sementes que nem todos percebem.

Para esses a chuva atrai a melancolia e é essa tristeza que somada á penúria dos Choraquelogobebences os torna mais melancólicos e sofridos, cansados já da gabardina, do oleado, do chapéu de chuva, dos pés molhados.

Nesses dias de chuva, quando a bátega cai nas janela e assusta tocada a vento é que o coração acelera ao ritmo das tempestades. João Sem Medo fica a olhar o escorrer da água no vidro, nas levadas, nos canteiros, nas poças e a entranhar-se na terra a refluir entre as pedras da ribeira que agora é um mar. Fica a adivinhar a forma da água, a ouvir o som martelado, tum, tum, tum, tum no telhado. Um tambor líquido continuo ou um tímbalo certo de granizo. O coração acelera.

Publicado por joão sem medo em 01:00 PM | Comentários (0)

outubro 12, 2004

A rouquidão do Professor Cuco

Já aqui se falou do Professor Cuco, das suas potencialidades oratórias, da magia do verbo, da certeza das certezas e da determinação do olhar. Já aqui se referiu a importância das suas bicadas certeiras em todos os lados e por todos os lados.

O Professor Cuco, como todos sabem não é flor, desculpem os leitores, ave que se cheire. Não que o dito bicho emane humores olfativos penalizadores para os narizes inadvertidos dos chorincas, mas pelo perigo real de bicada certeira na cana do nariz com as consequências maléficas que dai advém para o apêndice e respectiva hemorragia.

O Professor Cuco tinha, escreve no passado o autor, para antecipar o drama que o presente deixa adivinhar para o futuro, uma pose de “quem nada teme”, um ajeitar de penas que parecia couraça de tatu e um agitar de asas directo que o tornavam intocável qual pegaso em direcção ao infinito.

Certo dia estava o Professor Cuco nas suas cucadelas fantásticas quando vindo de não se sabe de onde, que estas coisas maravilhosas acontecem sem se saber a razão, também porque nunca a têm no singular e são várias as possibilidades, surge vindo do espaço, que é chamar ao desconhecido um nome possível, um par de mãos em forma de garra que se prenderam ao pescoço da ave. Então sem saber o porquê, o porque não, as mãos agarraram-se ao pescoço pelo lado direito e numa agitação frenética de punhos apertaram o pescoço ao Professor Cuco e abanaram em todos os sentidos a gritar – “contraditório”; “contraditório”, “contraditório.

Nesta agitação e pela surpresa, o cuco ia caindo da árvore onde estava instalado, conseguiu agarrar-se por uma pata e já sem pio, ainda tentou apontar um ou dois culpados do crime sentados ali ao lado sem resultado por falta de voz.

O Professor Cuco, que todos estranharam derrotado e acabrunhado a ajeitar as penas garrotado pelo pescoço, ergue-se num pedestal de silêncio digno e em linguagem gestual (ou penal conforme se considere o gesto feito por mãos de penas) ainda teve tempo de vociferar ou espanejar - “Hei-de voltar.....voltaaaaaaarrrrrrrr...serei presi......den........den ....te e e e e e e...”


Publicado por joão sem medo em 12:46 PM | Comentários (1)