setembro 23, 2004

Os ciclos

O tempo não justifica tudo, mesmo que a inclemência dos dias que passam marquem no chão ou no céu o trilho do que acontece agora e depois e antes, numa ordem de acertos ou de desacertos, conforme a nossa compreensão.

O tempo marca do trilho, a agenda marca a hora, mas há na sua estrutura própria de acontecimento, algo que determina a sucessão de outros acontecimentos - os ciclos.

Sentado à porta do celeiro, com os olhos postos na terra escareficada, lisa de pó e pedaços de ervas secas, João Sem Medo, antecipa as chuvas, as torrentes de água a escorrerem pelos valados, pelos caminhos e a descer em direcção ao ribeiro - um ciclo de vida e de sucesso.

Tudo se passa numa sequência lógica de bem-muito bem-excelente ou pelo contrário mau-muito mau-catástrofe. Assim se passa tudo na vida em ciclos de sucesso ou insucesso. Chuva, ribeiro, terra fértil, semente e planta ou chuva, torrente, cheia, catástrofe e mágoa.

Tudo se passa, como se todas as coisas independentemente do tempo tivessem inscrito dentro de si - vai ser assim ou vai ser assado. E assim e assado fossem dois lados da mesma moeda, dois irmãos gêmeos que só foram para um lado ou para outro em função de uma voz anterior que determina a sua responsabilidade no ciclo - de sucesso, de insucesso.

Publicado por joão sem medo em 02:17 PM | Comentários (0)

setembro 15, 2004

Sol de frente

João Sem Medo ia estrada fora com o sol a bater de frente. Um sol corajoso que não foge traiçoeiro ao seu destino. De olhos semicerrados, porque não gosta de óculos escuros, seguia pela estrada poeirenta o nosso João a pensar - é uma forma económica de distrair os olhos do sol e adoçar a viagem de preenchimentos - nas coisas da vida, não das colheitas, das trabalheiras das podas, das lavras, mas antes da vida enquanto percurso sinuoso, uma vezes com o sol de frente outras a fazer pegas às tempestades, mas sempre de olhos abertos, porque é dura e não aceita hesitações.

Publicado por joão sem medo em 01:05 PM | Comentários (1)

setembro 01, 2004

O Fim da preguiça

Doce tempo. Doce embalo de cama de rede debaixo da nogueira frondosa. Das tardes passadas esticado na manta a ouvir o som da ribeira, a molhar os pés na água fria, a fazer festas à cadela, a fazer uma festa à vida no seu esplendor de não fazer nada.

Andou nesta torpor mole João Sem Medo, a habituar mal o corpo e a cabeça. A dar a ambos descanso, numa irmandade de sossegos e sestas.

Assim andou, a visitar monumentos com a imaginação, a viajar para terras distantes em espírito, de olhos fechados, olhando breve a luz na fresta da copa da árvore e deixando que o desconforto de um raio mais atrevido fosse razão para fechar os olhos e adormecer outra vez.

Assim decorreram as férias de João Sem Medo, alheado dos males do mundo, fixado no sorriso do filho menino, enleado em sonhos e esperando acordar com um beijo da mulher e acabar a preguiça – “E se fossemos nadar no açude ao fim da tarde!?”. Iam.

Publicado por joão sem medo em 08:22 AM | Comentários (0)