dezembro 26, 2003

Natal Tipo B

João Sem Medo pensa que o Natal, pelo facto de despertar sensibilidades, pode ser uma espécie de arma contra o conformismo. Uma altura em que os cobarde ficam mais despertos para os outros e ouvem os corações e as dores e as mágoas. Os que andam alheados ficam mais despertos. Por isso e por mais coisa nenhuma, esta pode ser uma data especial.

A família aparece vinda de uma floresta de neblina, do passado mais remoto e distante. Aparece e pode ser que um simples abraço, reforce a proximidade dos sangues simultâneos.

Sente nesta data o nosso herói a força de compreender. O ímpeto de aceitar os outros. Esse poderia ser o verdadeiro espírito. Das mãos dadas e acreditar. Acreditar que é possível uma espécie de amor pelo outro que sofre. Uma espécie de dedicação de braços abertos, de disponibilidades para aceitar. O espírito do Natal tipo B.

Assim fica o nosso herói prostrado entre um A e um B. Umas letras simples e sem ordem. Em que o bem e o mal são pintados com cores diferentes. Cores diferentes com confetis nas árvores de Natal, verdadeiras, pingadas de orvalho por esses campos fora. nos jardins das cidades. Onde antes dormiam vagabundos e agora pais felizes ajudam as crianças a dar as primeiras pedaladas naquela bicicleta-especial-de-corrida, na trotinete ou simplesmente a ler um livro de histórias ao quente da lareira.

Sortilégios de um Natal que podem ser muitos.

Publicado por joão sem medo em 12:01 AM | Comentários (0)

dezembro 25, 2003

Natal Tipo A

João Sem Medo não é dado a grandes hesitações, embora seja homem de grandes dúvidas nunca deixa que "o pode ser , mas também não pode" lhe limite o querer e a determinação do juízo.

O Natal é um dos poucos temas em que oscila nesse limbo de indecisão e o faz pensar mais que uma, e outra e outra ainda vez, até serem muitas e ainda mais. O Natal encerra para João uma perversidade sem igual.

As iluminações irritantes, os fritos gordurosos, as prendas convenientes e mais luzes a piscar sem sequência ou teimosas permanentes com tons férreos. Um desgosto de bolas e mais bolas e brilhos e uma espécie de lufa-lufa-aqui-vou-eu de atropelos. Esta espécie de torpor causa um grande incómodo ao nosso personagem. Por vezes fica estático a ver passar aquele comboio humano de olhos virados para as montras ou monstras que vão chamando com olhinhos doces – “Vem”; “vem”; “vem” – e os Choraquelogobebences vão, atraídos pelas fitinhas e laços e mais bolinhas e por ai fora num ritmo infernal de sacos, sacolas e tentáculos de papel estampado.

Perante esta canseira hipócrita não há hesitação. Chega de correrias, de frituras e filhoses e obrigações. Abaixo as lojas dos 300 sem imaginação e as prendas para as tias que-só-se-sabe-que-existem-porque-recebemos-umas-peúgas. Fim ao Pai-Natal com roupas de flanela e barbichas de algodão, falsos a esconder a magreza com camisolas e mais camisolas de lã.

João Sem Medo desejava muito que nevasse em Choraquelogobebes, para que não fosse preciso pintar as janelas com neve falsa, uma espécie de “graffiti” natalício de mau gosto. João Sem Medo desejava muito que o Pai Natal fosse verdadeiro e entrasse mesmo pela chaminé e fosse um velhote doce e amigo e não um boneco estrangulado numa janela de terceiro andar igual ao outro que está no prédio ao lado entalado na sacada da varanda, com um saco às costas de presentes vazios e sem alma.


Publicado por joão sem medo em 12:00 AM | Comentários (1)

dezembro 18, 2003

Músicas de JSM V

Pastime with good company - 1998/2003 - Diversos/Colectânea - Alfa 901

A estranheza por vezes é boa companheira. O pouco-usual pode ser um bom companheiro. João Sem Medo não gosta de colectâneas, quando são bocadinhos de histórias sem história, lerdas de continuidade e atrofiadas pela simplicidade. Não é o caso. O caso é muito sério, mas sério leve, lindo, diferente e não sério-mongo, sério-pesado. Fala-se assim de um CD comemorativo dos 5 anos de uma editora. Podiam ser séculos. A música apresentada é de todas as idades. As faixas são todas audíveis. João aconselha especial atenção à décima primeira. É do fundo dos tempos e parece uma cantata rural, com ecos de casas alvas e estio e planícies a perder de vista. Só cereal.

João Sem Medo comprou este disco pela capa - uma foto a preto e branco de um gatinho tranquilo num sofá - em memória da Pantufa que foi para o céu dos gatos, dormir numa nuvem muito fofinha e com um raio de sol a bater no pêlo para aconchegar o coração.

Publicado por joão sem medo em 11:13 AM | Comentários (0)

dezembro 15, 2003

O Velho-do-Saco

João viu ontem na televisão uma notícia que o deixou mais sossegado. Tinham capturado o "velho do saco". Agora ia ser mais difícil aos pais de Choraquelogobebes forçar as crianças a comer a sopa ou o arroz de berbigão com pastéis de bacalhau. Mesmo coisas simples como as tarefas da escola já não poderiam ser feitas sobre pressão ameaçadora de um qualquer velho nojento.

O Velho-do-Saco foi descoberto num buraco mal-cheiroso e lamaçento e rapidamente detido pelos resignados adultos da "Liga de Choraquelogobebes Anti-sopa". Assim se findou o acto, final e determinado . "Fine-se o Velho-do-Saco e os seus fantasmas".

João Sem Medo continuava a ver pela TV aquela espécie de prisão do velho amorfo e da análise da sua boca. Por certo para ver se encontravam algum bocado de carne de criança ou arma de submissão na toca de um dente - os Velhos-do-Saco guardam bombinhas nas tocas dos dentes para amedrontar as crianças com estrondos mal-cheirosos.

Depois daquela espécie de consulta dentária e da afirmação continuada das virtudes daquela detenção, João Sem Medo, começou a ficar inquieto. Aquele Velho-do-Saco era muito parecido com o Pai Natal. Um velhinho, simples e parado, com ar dócil e disposto a colaborar. Parecia demasiado bonzinho para ser o Velho-do-Saco. Será que os membros da L.C.Q.L.B.A.S não estariam enganados? E se fosse mesmo o Pai Natal? O que iria acontecer neste Natal? Já estava a imaginar as crianças todas de sapatinho vazio, a chorar ainda mais. As renas perdidas sem mestre condutor. As lamúrias seriam mais do que muitas.

Teria que esperar pelo dia 24 de Dezembro à noite para se confirmar a justeza da sentença.

Publicado por joão sem medo em 01:35 PM | Comentários (1)

dezembro 05, 2003

Músicas de JSM IV

F.Liszt – 10 Rapsódias Húngaras – por Georges Cziffra – Great Rec. Of the Century - EMI Classics

Hoje está de chuva em Choraquelogobebes. Hoje está uma espécie de frio tosco que corta a pele devagar. Traiçoeiro.

Seria um bom dia para ficar em casa, a olhar o verde pela janela e a suspirar pela primavera. João Sem Medo teria trocado de bom grado as galochas pelas pantufas e a dita brisa fria nas orelhas por uma música. Uma música especial. Uma espécie de hino à felicidade. Com força sem ser exagerada. Para ficar, sem marcas. Só de coisas boas. Uma música com ritmo mas sem tambores. Com coração mas sem dores.

João continuava a semear tremoços e ervilhas. Que é tempo da sementeira de leguminosas. Enquanto a sachola ia e vinha, na sua cabeça ecoava distante a Rapsódia Húngara nº2 de Liszt. Plim.Plan.Plim. E din. Din. Din. E por ai fora.

A sachola ia e a música voltava. Nos ares e nos ouvidos para escapar do frio.

Publicado por joão sem medo em 12:30 PM | Comentários (0)

dezembro 03, 2003

Os direitos

Uma enchente de águas e ondas e recuos e refluxos de mais águas, ia ribeira a baixo, chovera toda a noite. A água tirara das margens os galhos partidos, as árvores frágeis, os arbustos novos e os velhos. Tudo deslizava em atropelos vegetais e cambalhotas barrentas.

João Sem Medo ficara mais um bocado a dar voltas na cama a esconder o acordar, a querer ficar no sono mole de "acordei mas não saio daqui", não por temor do temporal mas pela afirmação do essencial. O exercício dos direitos.

Publicado por joão sem medo em 01:30 PM | Comentários (0)

A simplicidade

Quando se sentava na pedra junto aos silvados, junto ao rio, perto do carreiro que levava ao monte e olhava em redor. João sentia uma espécie de força na brisa que passava sem pedir licença, no exercício livre da sua simplicidade.

Assim ficava, muitas vezes de olhos fechados, a sentir.

Publicado por joão sem medo em 12:30 PM | Comentários (2)