outubro 22, 2004

Vacas de marca

Fim de tarde em Choraquelogobebes. Ameno. Luminoso. A apetecer. Batem à porta de João Sem Medo. Ouve-se o barulho normal que fazem as portas maciças secas do sol depois de levarem umas pancadas com o punho que o narrador não representa em onomatopeia por imediata evidência para o leitor.

Entre!.Quem é? Perguntou ao jeito de convite o nosso personagem. Sou o Deolindo ó da casa. Responderam do lado de lá, já com o um pé na soleira da porta e o outro na dita entreaberta. Venho cá pedir ajuda. Fungou o Deolindo. Queria que me ajudasses com a bicharada que o inverno espreita e há rezes com problemas.

Em Choraquelogobebes os animais são guardados em autesorsingue que é uma espécie de “fazem os outros e paga-se menos do que se fosse eu a fazer” que ajuda a equilibrar as finanças de todos até dos autesorsinguistas que por economia de recursos e sabe-se lá por que contenções da carteira fazem mais barato aquilo que os outros não conseguem. O Deolindo tem um autesorsingue de pastoreio de gado.

Nas aflições dos amigos e vizinhos João Sem Medo não se nega a ajuda ou entre ajuda porque quem dá, recebe, mesmo que não seja hoje na mesma medida, amanhã se compensa a generosidade de um e de outro. Seja com garrafão, ovos, semente ou boleia para ir á cidade de passadiço.

Nestes pensamentos de ajudador seguiu João Sem Medo em direcção ao prado. Sabes João - disse o Deolindo com ar constrangido. Eu preciso da tua ajuda não é para marcar as ovelhas. Essas sabes tu que eu estou habituado a marcar. Uma pinta de tinta azul aqui, duas bolas ali, um risco seguido de um triângulo e ficam todas marcadas a preceito. Este ano tenho também que marcar as vacas. Olha lá Deolindo por que é que também vais marcar as vacas? Não lhes chegam as malhas para as conheceres. Tu mais os respectivos donos!?

Retorquiu o Deolindo - O problema não está nos donos que a esses basta assobiar de determinado feitio que as vacas lhes correm de beiços erguidos a adivinhar feno. O problema é mesmo com os animais. As vacas desde que viram as ovelhas com pintas, riscos e efeitos coloridos no pelo, quiseram também ter pelo de marca e lá começaram a deprimir, deixaram de dar leite e algumas começaram a marrar e nos múuuus e mais múuuus se percebeu que queriam ser umas vacas diferentes e depois de muitas tentativas, daqui até à solução das marcas foi um instante.

Dito isto assim se fez, chegados ao prado e depois de ajeitadas em carreiro as vacas começar a ser prendadas com uma pinturas geométricas, umas letras, umas argolas pintadas aqui e ali espalhadas pelo peito, pelos costados, dependendo da habilidade e acesso dos estilistas-marcadores João e Deolindo e era velas de rabo alçado, prado fora a lamberem os pernis a ajeitarem os cachaços com as pinturas tipo etiqueta. Deixaram de ser animais comuns, agora eram umas vacas de marca.

Publicado por joão sem medo em outubro 22, 2004 06:13 PM
Comentários

Se o meu Cocó não fosse já um galo de marca e com pédigri, contratava já o Senhor Adelino e mais o Senhor João.
A sua escrita está um brinquinho! Que não lhe falte a inspiração.

Afixado por: Vi em outubro 23, 2004 03:37 AM