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<title>AS FÚRIAS</title>
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<tagline>A memória é o que fica depois da espuma dos dias.
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<copyright>Copyright (c) 2012, António Vilhena</copyright>
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<title>CRÓNICA: Os joanetes do  governo…</title>
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Um ano depois deste governo se deixar governar pela Troika, confirma-se como bom aluno dos interesses estrangeiros deixando os portugueses à beira de um grito de protesto colectivo. A satisfação de Passos Coelho perante a avaliação positiva feita pela Troika, deixa-nos à beira do abismo. O primeiro-ministro tem a obsessão do deficit, mas não parece preocupado com a subida do desemprego, com os doentes que não podem pagar as taxas moderadoras ou com as famílias que ficam sem casa. Passado um ano deste governo de direita, os portugueses estão mais pobres, tal como desejou o próprio Passos Coelho. Para passar nos exames da Troika importava que os portugueses ficassem mais pobres, que o critério de cortes cegos fosse levado ao limite da insustentabilidade. Chega-se ao cúmulo de querer-se acabar com Freguesias para poupar quase nada. Neste caso a situação é, ainda, mais grave. Tenta fazer-se uma reforma sem pés, apenas com joanetes. Tenta impor-se aos autarcas uma reforma imatura para apresentar serviço. O mais paradoxal, é que o governante que dá a cara por esta indefensável reforma era, até há pouco tempo, também, autarca. Tenho a certeza que esta não passará! As populações responderão com o orgulho da sua história, com as razões da legitimidade dos serviços e do ordenamento. 
Poupar rima com incendiar. Acontece que há um crescente número de fogos, que este governo tem ateado e que merece uma resposta: um contundente protesto nas ruas e nas urnas. Depois vem o António Borges, investido de sapientíssimo charme americano debitar a receita para a crise dos portugueses. Diz ele que &quot;a diminuição de salários não é uma política, é uma urgência&quot;. Muito fácil! Mas António Borges aufere grandes salários livre de impostos. Tal como ele, a senhora Christine Lagarde, directora do FMI, que recentemente ofendeu os gregos, também, não paga impostos. Os bons rapazes deste governo têm receitas para os males dos outros, mas desde que não lhes batam à própria porta. Infelizmente, estas políticas têm bons alunos, espalhados um pouco por todo o país. A solidariedade destes alunos tem apenas um sentido, o seu egoísmo patológico e a cegueira do amiguismo. Este governo quer privatizar tudo. Agora as Águas dormem debaixo da almofada da ministra Assunção. A ser verdade, a austeridade implicará o emagrecimento das participadas. Estarei cá para ver. Tudo o que mexer e que seja público está condenado, mudará de pai, ou de mãe, em nome da austeridade. 
Assim, vai este governo “incendiário” espalhando a política de terra queimada porque a austeridade é quem mais ordena. 
Hoje, tenho uma forte convicção que este governo de direita não chega ao fim da legislatura. Com uma convincente derrota eleitoral nas autárquicas de 2013 e o agravamento das condições de vida dos portugueses, a coligação Passos/Portas desconjuntar-se-á sem remissão. Depois de Agosto, a oposição intensificará a acção política no combate à irresponsabilidade dos PP: Passos e Portas. Este casamento de muitos interesses já teve melhores dias. Portas nunca está para falar dos sacrifícios, só aparece para distribuir sorrisos e flores. Passos chama pelos ministros do CDS, mas ninguém os vê em lado nenhum. Sente-se que há dois governos: o do PSD e o do CDS. 
Um ano depois de chegar ao poder, o PSD nunca chegou a estar verdadeiramente em estado de graça, nunca conseguiu afirmar a sua obsessão pela austeridade, nem as suas políticas. Os seus ministros são antipáticos e revelam tiques arrogantes. A esta factura o eleitorado mandará cobrar com juros quando houver eleições. A impreparação do governo é confrangedora. Mas quem sofre com este amadorismo é o Zé Povinho. Um ano de governo, de Passo e de Portas, significa retrocesso, pobreza e desemprego.
António Vilhena


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<title>Académica, Lusa e IdealMedi…</title>
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“O sonho de gerações” terminou. A Académica ganhou a Taça de Portugal. A vitória sobre o Sporting valorizou a conquista do troféu. Ninguém tem dúvidas que a Académica fez mais pela cidade de Coimbra, do que muitos fizeram por ela. Andar nas bocas do mundo por boas razões é coisa rara nestas paragens. Claro que há sempre quem se aproveite das vitórias dos outros para aparecer na fotografia, para reivindicar o quinhão do tempo comum. Sabe-se que é assim… Mas o piorzinho é aparecem “os bota-abaixo” a dizerem mal, esquecendo-se que não fizeram melhor. Entre os vilões há sempre quem vista o colete encarnado e exija asas de anjo. Numa cidade despeitada pelo poder central, ignorada pela macrocefalia pensante que aterra no Terreiro Paço, hipnotizada com o cavalo de D. José e as luzes da Avenida da Liberdade, a espuma dos dias diz-nos que, no próximo mês de Junho, a Agência Lusa encerra as suas portas, em Coimbra. Dizem os arautos da ideia que não é por razões económicas. Então será por razões políticas, digo eu. Numa primeira fase vão dividir os profissionais, acantoná-los nos seus esconderijos, quebrar a cultura de grupo, fragilizá-los individualmente, para em seguida usarem o poder discricionário e, quiçá, despedi-los. Estamos perante um retrocesso democrático. Os gestores das quintas de Lisboa entendem que Coimbra não precisa de ter uma delegação da Agência Lusa, mas eles podem concentrar todos os meios na capital, todos os recursos, serem notícia e serem vendidos ao país como os senhores a quem tudo “devemos”. A dignidade é proporcional à maneira como nos deixamos olhar. “Atrás de tempos vêm tempos, e outros tempos hão-de vir.” Felizmente que o tempo não pára, e a vida é como os alcatruzes. Aqueles que se pensam legitimados pelo poder, sempre efémero, irão perdê-lo na primeira curva e, depois, saberão que há um tempo para a festa e outro para a travessia do deserto. Mas a memória, esse instrumento da justiça, que não deixa o sono tranquilo a quem semeou tempestades, não deixará em paz os vencedores do efémero.  
Coimbra precisa de ambição, de gente que acredite: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Coimbra precisa de gente com visão estratégica, que pense a cidade para além da agenda doméstica, que saiba agigantar-se perante as dificuldades, que reivindique, que não se conforme. Uma cidade que sai à rua para aplaudir a sua Académica deve fazê-lo, também, pela Agência Lusa, pelo seu serviço de informação e, deve fazê-lo, também, contra o fecho de serviços na área da saúde. 
Não é incompatível defender serviços públicos e, simultaneamente, saudar o investimento privado. Recentemente, foi inaugurada, em Coimbra, uma unidade de saúde privada, a IdealMedi, onde foram investidos muitos milhões, com a criação de centenas de postos de trabalho. Numa altura em que só se ouve o primeiro-ministro falar de austeridade e de aumento de impostos, seria normal que algum membro do governo tivesse o rasgo de perceber a importância da nova unidade de saúde, investimento em contra ciclo, numa cidade que tem afagado o umbigo a tantos ministros. O mais grave é que se fizeram anunciar, vinham dois, para depois não vir nenhum. Isto significa que este governo continua a olhar para Coimbra, como uma Coimbra B, como um apeadeiro melhorado, mas sem a dignidade de uma S. Apolónia ou de S. Bento. Quem cá manda, também, não se impõe. O resultado parece estar à vista. Enquanto a Taça de Portugal fizer lembrar Coimbra, vão-se esquecendo outras coisas importantes.
António Vilhena






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<title>&quot;CANTO IMPERECÍVEL DAS AVES &quot;</title>
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<summary type="text/plain">É uma obra poética. É o meu regresso à poesia. Será apresentado no próximo mês de Junho....</summary>
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É uma obra poética.
É o meu regresso à poesia.
Será apresentado no próximo mês de Junho.

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<title>François Hollande, o inspirador.</title>
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<![CDATA[A esperança é quase sempre o último reduto quando tudo parece ruir, quando o vento impressiona os sentidos e os defensores de profecias trágicas persistem em anunciar os benefícios de duches frios. Os novos sinais que chegam da Europa atordoam os adamastores, peregrinos virados para Berlim, sempre dispostos a irem mais além para mostrarem serviço e qualidades de subserviência. A vitória de François Hollande, em França, já teve consequências em Portugal. Ainda está muito presente o esforço que António José Seguro fez para acrescentar ao Tratado Europeu uma adenda que tivesse em conta o crescimento económico. E o que é que aconteceu? A maioria que governa Portugal chumbou essa proposta, argumentando que o mais importante era ter uma agenda de austeridade, esquecendo o impacto que essa política cega tinha na vida dos portugueses. Foi nessa altura que António José Seguro desejou boa viagem a Passos Coelho, não podendo este contar com o PS para fazer esta viagem, que mais se parece com uma aventura sem regresso. Mas o mais incrível aconteceu. Depois da vitória de Hollande, os sociais-democratas portugueses apressaram-se com uma resolução, onde defendem aquilo que os socialistas sempre defenderam, que se tivesse em conta o crescimento económico e o desemprego. Este comportamento dos sociais-democratas, que dizem uma coisa hoje para dizerem o seu contrário amanhã, parece ser uma imagem que se cola à pele deste governo. O mais evidente é o “diz que disse, mas não garante” acerca dos subsídios dos portugueses. Passos diz uma coisa e Gaspar, com voz irritante e monocórdica, vem dizer que não se pode responsabilizar por aquilo que o primeiro-ministro disse, que os subsídios sejam repostos, lentamente, a partir de 2015. A incoerência e a falta de preparação estão a derrotar este governo. Os portugueses sabem que no passado houve erros, mas já penalizaram essas políticas nas eleições. Agora, temos um governo que obedece à batuta merkeliana, que não sabe o mínimo de harmonia, mas que desafina e fere a paciência dos que diariamente desesperam. A música é outra na Europa e Passos Coelho tenta afinar a sua orquestra para nos continuar a ferir os tímpanos. Este governo não vai chegar ao fim da legislatura e o Partido Socialista não deve tolerar um governo insensível que faz tudo para acabar com o Poder Autárquico, o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social.  
O Tratado Europeu parece ser cego e mudo às pessoas, preocupa-se apenas com os mercados, com os especuladores, com a banca e com o que dizem as agências de Rating. É este autismo político que tomou conta do bom senso e daqueles que nos governam. A persistência no erro assume contornos de traição nacional se os interesses estrangeiros se sobrepõem ao dos portugueses. 
A esquerda venceu em França. Mais do que a ideologia ganhou a esperança, abriram-se as portas acorrentadas que a direita liberal, afeiçoada a interesses obscuros e contabilistas, blindou com elevados custos sociais. Não sei o que o novo presidente dos franceses irá dizer quando se encontrar com Merkel, mas imagino que a chanceler irá mudar o discurso. A Europa entra num ciclo de mudança, traz um léxico novo mas, principalmente, aspira a mudanças substantivas para que a crise, bode expiatório dos especuladores e dos bancos alemães, não tenham como vício os mesmos de sempre. Os valores inspiradores da Bastilha percorrem os corações dos europeus, principalmente, dos gregos. A vitória de Hollande foi, também, sentida pelos herdeiros de Ulisses na sua viagem de regresso aos valores inspiradores de uma Europa que todos dizem respeitar, mas onde alguns querem reavivar velhos radicalismos. Por cá, Hollande obrigou Passos a defender “uma nova visão para a União Europeia”. Se não fosse ridículo era, com toda a certeza, uma imitação fraudulenta. Os franceses e os gregos já chumbaram o Tratado Europeu da austeridade e da insensibilidade social. Chegará, também, a nossa vez!                                                                 <em>António Vilhena</em>
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<title>2012, ano da tragédia.</title>
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Portugal vai conhecer o Orçamento de Estado que irá mudar a vida dos portugueses em 2012. Duma maneira geral não trará novidades, será um documento onde todas as rubricas inscritas convergem para poupança na despesa e aumento da receita. Dito de outra maneira, os portugueses irão pagar mais e ganhar menos. O aumento dos impostos indirectos irá penalizar consideravelmente toda a cadeia alimentar e implicar uma contracção de alguns sectores, como a restauração. Em termos práticos, significa menos economia, mais desemprego e maiores problemas socais. Este modelo, que nos vendem como único, parece reduzir as sociedades a uma mera máquina registadora, sacrificando os povos aos interesses obscuros dos especuladores, agravado com as dívidas soberanas dos estados da União. Quem vende dinheiro quer vender sempre mais e assegurar que as garantias são reais. O eixo Berlim-Paris é cada vez mais um duo de interesses na União Europeia, ignorando o resto dos estados membros e fazendo esquecer a existência de Durão Barroso. A Europa está suspensa da partilha de interesses de Merkel e de Sarkozy, reabilitando o velho eixo de má memória. Parece que a Alemanha está interessada em fragilizar os países periféricos para fazer emergir todo o seu poder, esquecendo-se quanto a Europa foi solidária aquando da sua união, no tempo de Helmut Kohl, chanceler do país de 1982 a 1998. E o que é que isto tem a ver com Portugal? São empresas e interesses alemães que se preparam para ganhar a privatização da EDP, da TAP, das Águas de Portugal e de tudo o que possa interessar à Alemanha. Por isso, a Troika exige que privatizemos os nossos anéis, as empresas estratégicas do nosso país, para continuarmos reféns das economias fortes. Para cumprir as exigências da Troica é preciso fazer tudo, linha a linha, item a item e, ainda, comer e calar, se quisermos ser resgatados financeiramente. É uma dupla humilhação. 
Portugal deixou de ouvir falar de excelência, de competitividade, de cultura, de ciência, de esperança. O léxico é cada vez mais limitado e a obsessão economicista transformou cada português num mealheiro para o Estado. O resultado desta cruzada é previsível, as insolvências aumentarão exponencialmente, haverá menos dinheiro a circular, as pequenas e médias empresas terão cada vez mais dificuldade em satisfazer as suas responsabilidades e as famílias terão de ser, ainda, mais “criativas”. Mas enquanto 2012 não chega está criada uma atmosfera psicológica que funciona como uma autêntica pena de morte, uma espécie de corredor da morte, feito à medida, para os portugueses se prepararem a tempo e pensarem nas consequências que terão estas políticas nas suas vidas. A Igreja (e refiro-me a todas as ordens que trabalham no terreno) começa a perceber que há uma panela de pressão social que ameaça explodir. Somos um povo sereno, às vezes demasiado pacífico, que faz revoluções com cravos, mas que tem outros exemplos ao longo da sua longa história, onde foi menos condescendente. 
Este governo tem tanto de ousado, como tem de insensível e de míope. Por um lado, fala da necessidade de estimular a meritocracia, ou seja, de premiar os melhores, aqueles que devem servir de exemplo, aqueles que pela sua atitude tendem socialmente a serem seguidos. Por outro lado, suspende na véspera de entrega os prémios, de quinhentos euros, aos melhores alunos do ano lectivo de 2010/11. Eis um mau exemplo daquilo que um ministro da educação não deve fazer. É a mesma coisa que um pai prometer a um filho que vai a uma festa, comprar fato e adereços e, em cima da hora, o pai mudar de ideias. É fácil perceber como é que se sentiram os melhores alunos deste país que esperavam esse prémio: traídos, enganados, defraudados por um ministro que sempre advogou, enquanto não foi ministro, a excelência e o seu reconhecimento pela sociedade. São estes exemplos que não dignificam a ética e muito menos os titulares dos cargos públicos. São estes maus exemplos que contribuem para a descredibilização da política. Outra medida deste governo, foi acabar com as visitas gratuitas, aos domingos, aos museus nacionais. Imaginam os custos que esta medida tem no orçamento de estado? É tão insignificante como ridícula. Pode-se dizer que pior que as medidas de contenção orçamental em 2012, o que vai doer, verdadeiramente, é continuarmos a ser um país sem ministro da cultura, uma espécie de metáfora vindoura onde todos os que pensam e criam são dispensáveis. 
(in Diário de Coimbra)


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<title>Ser caloiro não é crime!</title>
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<summary type="text/plain">Inteiros são os dias se a cada instante sentimos o tempo que há-de vir com a alegria daqueles que gastámos. Se acrescentámos às nossas vidas os instantes desses dias que passaram rápidos e intensos! Se vencemos as trevas e procurámos...</summary>
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Inteiros são os dias se a cada instante sentimos o tempo que há-de vir com a alegria daqueles que gastámos. Se acrescentámos às nossas vidas os instantes desses dias que passaram rápidos e intensos! Se vencemos as trevas e procurámos a luz, se fomos capazes de nos agigantarmos sobre a mesquinhez e a inveja. Se acreditámos que as nossas vidas valiam mais quando nos realizámos com os outros.

O regresso às aulas trouxe milhares de caloiros à cidade de Coimbra, coincidindo com um congresso internacional sobre turismo e o Doutoramento Honoris Causa de Xanana Gusmão. Mas a recepção a esses “filhos da nação” nem sempre encontrou protagonistas dignos de interpretarem as leis da hospitalidade. Eu sei que existe um Código da Praxe que não incita à violência nem à falta de bom senso. Eu, também, sei que, infelizmente, alguns protagonistas não leram esse Código, nem conhecem a Constituição. São ovelhas ranhosas, mal formadas e prepotentes, que confundem integração através da praxe e da tradição académica com livre arbítrio e frustrações pessoais. Eu sei que a Academia condena estes comportamentos desviantes e bárbaros e, por isso, não confundo a árvore com a floresta.

Esta semana assisti com indignação a alguns comportamentos de grupos organizados que ensaiavam a “praxe” junto à Porta Férrea, da Universidade de Coimbra. Foi possível ver o inverosímil, com centenas de turistas a fotografarem “os bárbaros” no seu esplendor. A violência física, a humilhação verbal, a indignidade e, acima de tudo, a ausência de carácter. Trata-se de universitários, de “filhos da nação” que serão os futuros quadros superiores, gente “supostamente” bem formado, diria licenciados, que esperam assumir responsabilidades num país em crise. Não é aceitável tanto silêncio e resignação perante estes actos que violentam a dignidade humana, quando tantos, à boca pequena vão dizendo o que eu assumo dizer, como denúncia de consciência, que não se deve aceitar esta prática. Venho denunciar! Venho gritar em nome dos valores que a violência física e psicológica não integra ninguém, não educa, não forma, não é exemplo de cidadania, não é digna de uma sociedade civilizada. Saberão “esses bárbaros” que Portugal foi o primeiro país a eliminar a pena de morte? Saberão “esses bárbaros” que em Coimbra existe um “Julgado de Paz”? Saberão “esses bárbaros” que não têm lugar na história da Academia nem da Universidade que frequentam? Deviam ser obrigados a trabalho cívico junto de instituições onde se promove a dignidade humana. Se é verdade que cada um é responsável pelos seus actos, não é menos verdade que a dinâmica de massas leva a excessos descontroláveis.

Cresce em Portugal a consciência contra as touradas, movimento pelo qual tenho simpatia, mas já não se percebe porque se aceita, se cala, se pactua com a violência das “praxes”. Quero declarar que sempre usei, enquanto estudante, fato académico, participei em todos os actos da Queima das Fitas, que sempre fui à Latadas e que fui agredido junto à Sé Velha por usar fato académico, aquando da reintegração das tradições académicas em Coimbra, nos anos oitenta. Falo com propriedade sobre o que sei e o que vivi. Por isso, não posso aceitar que alguns “bárbaros”, descaracterizem as tradições académicas, confundindo códigos de conduta com actos passíveis de serem criminalizados, sob a capa da praxe. Estes comportamentos merecem a maior censura e a vigilância daqueles que têm responsabilidades. Quem não é capaz de interpretar as leis da hospitalidade, é um fraco espírito dentro de um homem pequeno. Portugal, talvez, precise de uma Tróika que traga, também, os valores e o bom senso…

Ser caloiro não é crime!

(in DIÁRIO DE COIMBRA)

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<title>ELOGIO AO 1º JARDIM-ESCOLA JOÃO DE DEUS, EM COIMBRA.</title>
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<modified>2011-07-13T12:13:40Z</modified>
<issued>2011-07-13T12:10:47Z</issued>
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<summary type="text/plain">A efeméride empresta simbolismo à solenidade. E se quiserem, acrescenta ao que os olhos vêem aquilo que o coração sente. Coimbra é a própria história da história, confunde-se com o vasto berço da nacionalidade onde se ocultam as linhas que...</summary>
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A efeméride empresta simbolismo à solenidade. E se quiserem, acrescenta ao que os olhos vêem aquilo que o coração sente. Coimbra é a própria história da história, confunde-se com o vasto berço da nacionalidade onde se ocultam as linhas que tecem a historiografia do lugar. A palavra “berço” remete-nos para diferentes imaginários, embala-nos para memórias difusas e convida-nos a encontrar o tempo dos tempos, aquele que nos traz pelas diferentes circunstâncias a este lugar.

Eu que sou de Beja, amo a planície; o mesmo é dizer que trago as minhas raízes sob a pele, que tenho uma rua onde cresci, uma cidade, uma região, a minha identidade. Quis a circunstância, que reencontrasse neste momento solene, aquele que foi, talvez, o grande responsável por eu ter adoptado Coimbra. Pela voz, de Sansão Coelho, chegavam-me os sonhos da Geração de 70, as suas utopias, os poetas cantados e os trovadores de uma Coimbra mágica, envolta de lendas e de resistências. No meu Alentejo, onde as searas e a vida dos homens se misturam, onde a terra e o seu “cante” embalam os sonhos, a distância é um lugar de liberdade que agiganta os que pertencem à sua diáspora. Os anos passaram e esta cidade, de Pedro e Inês, cresceu dentro de mim. Hoje, respiro as suas inquietações, conheço-lhe os muros, as cercas, as vielas, os bairros, o rio, os amores, as tradições, as freguesias. Tenho filhos nascidos nesta terra que comemora os 900 anos do seu foral. 

Que relação tem Sansão Coelho com o 1º Jardim-Escola João de Deus?

Há um século o sonho inspirador do poeta João de Deus, era fundamentado numa carta (1887) ao Abade de Arcozelo: “Não basta ler; é preciso ler com conhecimento de causa. Quem não tem análise das letras, quem não sabe as regras dos seus valores, não pode ensinar bem; e ensinando mal, isto é, com muito custo e pouco proveito, naturalmente se furta às ocasiões de ensinar os outros; o que é um grande mal”. É fácil perceber que o sonho de João de Deus teve os seus defensores e, também, os seus detractores. Mas o poeta, cujos restos mortais tem a honra de descansar no Panteão Nacional, ia mais longe na resposta ao Abade de Arcozelo: “porque eu posso ser homem sem saber retórica: o que não posso é ser verdadeiro homem sem saber ler (…) Ser homem é saber ler: e nada mais importante, nada mais essencial que esta modesta e humilde coisa chamada primeiras-letras”. Estão nestas palavras toda a ressonância que enxameou aqueles que perpetuaram o seu sonho. A “Cartilha”, como é conhecida, trouxe luz a muitas crianças, ajudou a regar as “flores” desse campo que teve aqui, em Coimbra, o seu primeiro canteiro. João de Deus (1830-1896) trouxe a luz e o testemunho de homens como Antero de Quental, Teófilo Braga, Alberto Sampaio, Santos Valente, Francisco Machado de Faria e tantos outros. Foi um poeta inspirador, um pedagogo emocionado, um cidadão comprometido.

Mas o método de João de Deus começou a ser “ensaiado” anos antes com a Associação de Escolas Móveis, (18 de Maio de 1882) de que se destaca o nome incontornável de Casimiro Freire (1843-1918), conhecido como o Apostolo da Instrução.

O 1º Jardim-Escola João de Deus, em Coimbra, está, ainda, envolto nas comemorações do seu primeiro centenário. A 2 de Abril de 1911, uma constelação de homens inspirados pelos ventos republicanos e os seus valores, pugnou por uma sociedade nova, que combatesse o analfabetismo e que proporcionasse as mesmas oportunidades de acesso ao ensino a todas as crianças. E na primeira linha desse sonho esteve João de Deus Ramos e Casimiro Freire. Para que a obra crescesse a Câmara de Coimbra cedeu o terreno, no Largo do Seminário; Raul Lino encarregou-se do projecto e Leal da Câmara, artista e militante republicano, pintou os frisos das diferentes salas. Entre as muitas manifestações de solidariedade urge lembrar o contributo do Órfeão Académico de Coimbra que organizou e promoveu saraus, inclusive, no Coliseu dos Recreios para angariar fundos para a construção do 1º Jardim-Escola João de Deus. A sociedade civil conimbricense envolveu-se e a obra nasceu.

Um dos homens abnegados que tornou possível esse sonho foi João de Deus Ramos, que assumiu em 1908 a direcção da Associação e que em 1913 chegou a ser Governador Civil de Coimbra. Ele foi “o obreiro do sonho do seu pai”, tendo construído até 1951 onze Jardins-Escolas. Homem influente e determinado, conviveu com Bernardino Machado, Carolina Michaellis, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Manuel Laranjeira, Teófilo Braga, entre outros.

A propósito da sua inauguração, a 2 de Abril de 1911, João de Barros, escreveu: (…) O que sobretudo me impressionou n`esse dia, foi o acolhimento de entusiasmo que o Jardim-Escola teve por parte do povo, do povo para quem ele se construiu, do povo que sabe, ou sente, que a ideia fundamental que presidira à fundação daquela casa fora simplesmente esta: dar às classes populares, as únicas ainda sadias e fortes no país, educando-lhes os filhos, mais uma possibilidade de ressurgimento e de progresso”.




Há uma linhagem de família que tem honrado a matriz fundadora do sonho do poeta inspirador, João de Deus (1830-1896): João de Deus Ramos (1878-1953), Maria da Luz de Deus Ramos (1918- 1999), António de Deus Ramos Ponces de Carvalho(1958- )

E porque a história das instituições é sempre a história dos homens/mulheres não podia ocultar, neste momento os nomes de todas as suas Directoras: Virgínia Silveira da Mota, Mariana da Conceição Marques, Teresa de Sousa Castanheira, Cacilda Loureiro Coelho, Maria da Luz Oliveira, Maria Amélia Duarte Paiva, Amélia da Cunha Ramos, Cristina Rodrigues Dinis Mónica de Oliveira, Gracinda Custódia Fernandes e, finalmente, a sua actual Directora, Prof. Amélia Saraiva. É justo e é-lhe devido trazer a público a sua paixão e o seu empenhamento. O fulgor e a energia que coloca, sempre, ao serviço da instituição contagiam a comunidade escolar e, principalmente, os pais e as famílias. Quero aqui dizer-lhe que a cidade de Coimbra deve ter muito orgulho no seu trabalho e da sua equipa.

Ao comemorar o seu primeiro centenário o 1º Jardim-Escola João de Deus mostrou porque é respeitado e porque é uma referência nacional. Os anos trouxeram-lhe sabedoria e responsabilidade. Coimbra reconhece esse estatuto e, por isso, decidiu honrar o seu indelével contributo na formação e na educação de muitas gerações de crianças. A Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra é o preito da cidade que sabe reconhecer e agradecer a importância do 1º Jardim-Escola João de Deus, sem esquecer que “as paredes-mestras, do edifício, também são mestras” (João de Deus Ramos).

Esta Obra inacabada atravessou cem anos. O desafio, agora, é agigantar a imaginação e crescer, dilatando o raio com a cumplicidade daqueles que queiram contribuir para o próximo centenário. 

A cumplicidade da memória envolve os que se alimentam dessa imaterialidade onde nos banhamos, baptismo espiritual, para regressarmos ao que nos pertence. Foi isso que Sansão Coelho fez ao longo da sua vida, devolveu-nos essa imaterialidade, lembrando os sonhos dos poetas, como João de Deus.

Sob o pórtico desta distinção ficam todos os que contribuíram para se chegar até aqui. Na hora da festa, devemos lembrar sempre quem não está, mas que permanece no silêncio da evocação, nesta hora intransmissível de gratidão e de felicidade.	

Coimbra, 4 de Julho de 2011




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<title>NOVO CICLO, COM SEGURO.</title>
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<![CDATA[Com a saída de cena de José Sócrates, o Partido Socialista parece ter reencontrado uma serenidade que há muito não sentia. A verdade é que o país deixou de ter alguém a quem bater, deixou de existir a “mascote” de todos os males. O governo foi censurado nas urnas e agora urge olhar para o futuro. O PS está na oposição e decorre internamente o processo de escolha do novo líder.

O que está em causa é ser capaz de voltar a unir o partido em torno da sua matriz, dos seus princípios, da bandeira de punho fechado, do seu simbolismo e da sua razão histórica. O que está em causa é devolver aos militantes o orgulho de serem militantes de um partido responsável pela consolidação da democracia em Portugal e das principais reformas políticas. O que se procura é alguém que traga serenidade interna, que seja capaz de ouvir, que traga a utopia de querer a diferença, que devolva esperança e motivação.

Quem olha para o passado dos candidatos sabe que as diferenças não são suficientes para dar bola preta a este ou aquele. Não é este o debate que interessa. O que importa é pensar o partido com todos os militantes, sem excepção, considerar todos os contributos, não excluir ninguém, não fazer caça às bruxas, não eleger inimigos internos, não inventar fantasmas. O que deve ser relevante é organizar o partido para ser uma força política responsável na oposição, é isso que os portugueses pedem e exigem. Pede-se, por isso, um PS à altura dos pergaminhos da sua história.

Nesta conjuntura escolher entre António José Seguro e qualquer outro candidato não é uma questão menor. Os portugueses sabem que o estilo pessoal, ou seja, aquilo que caracteriza indelevelmente a personalidade de cada um, também entra nas contas da escolha. Não havendo diferenças ideológicas, as variáveis pessoais são determinantes para credibilizarem os diferentes projectos. Muitos dizem hipocritamente que as relações pessoais não devem influenciar a escolha, mas todos sabemos que as vivências comuns, as lutas partilhadas, as afinidades são determinantes. Quem se põe em bicos de pés para encontrar uma agulha no palheiro, onde não há lugar a sofismas, não convencerá ninguém, por mais força que diga existir nos seus argumentos. Eu confesso-me apoiante de António José Seguro, com alegria e sem dúvidas. É o reencontro com alguém que conheci na Juventude Socialista, com um homem que sempre foi elegante no debate político, que sempre foi discreto e que sempre cultivou o bom senso. Claro que alguns argumentarão que estes são pecados capitais, que isto é calculismo, que se escondeu…etc. Mas todos sabemos que quem faz alarido destes argumentos, também sabe qual vai ser o resultado eleitoral. Quem bate na rocha sabe por que bate, embora nem sempre tenha a certeza que será ouvido pelas “sereias”.

Os que sempre defenderam a mudança, às vezes a ruptura, são aqueles que aparecem mais coladinhos ao “barulho”. António José Seguro rompe com quase tudo, menos com o melhor do PS: os seus militantes, o seu legado histórico, a coragem de fazer o que falta, para fazer o que deve.  Neste momento, apoiar esta mudança é iniciar um Novo Ciclo onde todos devemos querer participar em nome de uma esquerda democrática e de um Partido Socialista mais autêntico e mais humanista. Apoiar António José Seguro é um desafio pessoal e, também, um imperativo de consciência.
(Publicada, 23 Junho 2011, no <em>Diário de Coimbra</em>)

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<title>A FILHA DA COZINHEIRA</title>
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Naquele dia de final de tarde, de uma sexta-feira, apaziguada pela luz morna e o anúncio de uma lua muito minguada, surge uma rapariga bela que electrifica os sentidos de uma mesa de cavalheiros, num restaurante da cidade. A sua meninice confundia-se com uma adolescência onde espreitavam, já, os vinte anos. A sua graciosidade não deixa ninguém indiferente. Tinha um rosto miudinho que emprestava espaço aos olhos verdes, muito sombreados. Era ágil e muito educada. Parecia que tinha feito sempre aquilo, conhecia os nomes, os temperos, as combinações e, principalmente, era lesta e simpática. Em tudo onde tocava erguia-se uma melodia de gosto e, quando desaparecia no corredor, deixava um halo de elegância que contaminava a tarde, o sonho e as flores. Há sempre na literatura lugar para estas personagens, vestidas de outra luz com que iluminam a viagem do escritor. Estou a lembrar-me de Um Amor Feliz, de David Mourão Ferreira, onde se fala das ligações amorosas de um escultor de meia-idade com uma jovem, ou, ainda, do Amante de Marguerite Duras, que é “a história de uma paixão; a narração de um amor carnal entre uma adolescente de cabelos longos e um chinês muito mais velho”. Há nestes dois livros uma ambiência sensual e, também, uma discreta cumplicidade proibida. A literatura alimenta-se e alimenta-nos com estes imaginários que atravessam a vida e a ficção. Nos dois livros em causa, as narrativas são autobiográficas, mas continuam a misturar o perfume dos dias onde o olhar se espreguiça. Nas paisagens do enredo a manhã é sempre precoce, quando o amor tem pressa.

Naquele restaurante, a tarde devolveu à indiscreta paciência dos homens a flor de lótus e, num ápice, agigantaram a alma gasta. Do tempo dos dias cinzentos e da solidão das íris, cresceu um “arco-íris” entre noites milenares. As palavras que salpicam as emoções desnudam, também, as fontes ancestrais de Helena, de Penélope e de Jocasta. Um rio secreto e íntimo refresca a água das Musas. A sede é universal e quem esquece o suplício de Tântalo está condenado a reviver a desmesura de uma tristeza maior. Há sempre “uma tarde” em cada vida, um reencontro com essa espera que traz a memória densa e rodopiante como uma valsa de desejos.

A “bailarina”, do restaurante, meneava as suas formosas formas entre as mesas e, sem esconder o sorriso, ia debotando sobre os cavalheiros o decote amplo da t-shirt. Tinha umas mãos cuidadas, pegava nos pratos com a visível sensibilidade com que se toca na seda ou éter. A curiosidade alastrou. Quem seria aquela jovem, de boas maneiras e palavra fácil? Ouve quem se lembrasse que seria filha do patrão. Chegada a hora das sobremesas eis que as apostas cresceram. Para uns isso não tinha importância, para outros, o que interessava é que era uma boa profissional. Mas por detrás do conformismo passeava-se a dúvida. À medida que trazia as sobremesas, acrescentava: “esta, fui eu que fiz”. No final do jantar, perante uma curiosidade ensurdecedora, alguém pergunta: “mas, quem é a menina?” A resposta foi adequada e cheia de timbre: “sou filha da cozinheira!”. E perante o desfazer do novelo, acrescentou: “venho ajudar a minha mãe, que só tem um braço”. Uma nuvem de silêncio espalhou-se pelos rostos dos cavalheiros, como uma sombra na parede branca depois do sol atravessar a rua. Quando saí do restaurante, a lua era uma espécie de sobrancelha sem espessura, e de todas as palavras que atravessaram o meu imaginário literário, ficou aquela frase sentida e carregada de orgulho: “Sou filha da cozinheira”.

(Publicada, 9 de Junho 2011, no Diário de Coimbra)

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<title>CARTA AO FUTURO</title>
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Os filhos fazem perguntas difíceis. Às vezes a resposta é ainda mais difícil. Perguntava-me o Rodolfo se eu sabia o que ele iria ser quando fosse grande. Confesso que a pergunta me inquietou. Mas como sou um optimista, adiei a resposta para esse futuro onde, também, quero estar. Durante algum tempo disponibilizei-me para pensar no assunto, mas as notícias do país invadiam a intimidade dos pensamentos, o recato necessário a esse abandono, onde “pensar” é sempre uma viagem. A propósito desse futuro onde a perenidade é instante e onde o difícil é acreditar, há a utopia da esperança que habita o silêncio na sombra de cada um. E nessa névoa dissipada que contamina os incrédulos, soçobra uma dimensão para os sonhos que não se podem adiar. Quando o Rodolfo for grande, imagino um país ainda mais solidário, em que os idosos não morram silenciosamente na solidão das suas casas, sem ninguém perguntar pelas suas ausências; imagino que não haverá manifestações de gerações “À Rasca”, nem uma diáspora qualificada em busca dessa oportunidade que o seu país lhe negou; imagino que o nome de Portugal seja referido por boas razões: porque recebemos mais Prémios Nobel, porque contribuímos para a cura do cancro, porque os nossos criativos foram reconhecidos. Espero que algumas palavras (como crise, FMI, resgate, deficit ou inflação) tenham sido erradicadas do nosso imaginário; imagino um país motivado, com gente feliz, onde a cultura seja o centro das aprendizagens na cumplicidade com todos os saberes.

A viagem é longa e os dias parecem lentos. Quando esse futuro chegar já alguns poetas intemporais terão morrido, já Kate será Rainha de Inglaterra, já haverá TGV, já os telemóveis serão outra coisa, já o Cristiano Ronaldo não jogará no Real Madrid, já Coimbra terá Metro, já não me pedirás uma história para adormeceres. Mas espero que uses a curiosidade, aquela que nos faz crescer por dentro das coisas e das pessoas, que no ensina a olhar sem ideias feitas o outro lado da mesma coisa, que nos aproxima dos que são diferentes de nós, sem racismo, sem preconceito, sem fundamentalismos. Que cultives o gosto pela música, a arte suprema que combina todos as melodias onde o Homem se revê e renasce. Que cultives os valores da fraternidade e da justiça, que sejas corajoso e determinado, que ames a pátria e ajudes os mais frágeis a levantarem-se. Que sejas gentil com todos, que a tua alegria seja partilhada com os que a não têm, que ames as palavras carregadas de aromas e de sentido para vida. Neste mundo em que sempre houve guerras, é necessária uma imaginação sorridente para que o humor não se transforme numa cínica vocação.

Não tenho uma resposta para a tua pergunta, tenho muitas dúvidas e poucas certezas. E quanto mais penso, no que será Portugal, mais me apetece ler os poetas e os filósofos. A busca, muitas vezes infrutífera, de respostas, permite-nos reencontrar o conforto da dúvida, única certeza de que a dialéctica recriará uma nova luz no horizonte. E nessa viagem partilhada, prometo-te que estarei, sempre, ao teu lado, que contribuirei com o saber dos muitos livros que li, dos gregos e dos latinos, e de muitos outros; que cultivarei o slogan “Love for ever”; que guardo para sempre nas minhas íris aquele instante em que te vi nascer.

Agora, que já sabes o quanto é difícil responder à tua pergunta, deixa-me confidenciar-te, que, quando eu tinha a tua idade, também a fiz. A vida surpreendeu-me sempre e deu-me boas razões para recriar-me nesta bela aventura que, agora, partilhamos. Seja qual for o teu futuro e o de muitos meninos da tua idade, o que importa é que sejamos capazes de construir um país que os mereça. Que cada um seja feliz no cais que escolher.

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<title>Responsabilidade nacional.</title>
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Está instalada uma atmosfera de terror com a chegada do FMI, uma espécie de lobo que traz uma pele de cordeiro para proteger o país. Dizem que serão milhares de funcionários públicos a serem dispensados, que haverá maior flexibilização para desempregar e mais barato, que o IVA irá subir, que a protecção social do estado será desmantelada. O turbilhão é real e ninguém fica nas margens a ver o curso do rio “que tudo arrasta”. Esta é hora de honrar a pátria, de termos orgulho em sermos portugueses, de nos emocionarmos com o hino e as cores verde e rubra da bandeira. Esta é a hora de espreitarmos a nossa história e de nos capacitarmos que vamos vencer. A esperança não é uma palavra vazia, ela surge para nos lembrarmos que noutras ocasiões, também, fomos capazes de ultrapassar outras crises. Esta é uma grande oportunidade para não hipotecarmos as gerações vindouras, para dotarmos o país de reformas estruturantes, para aprendermos um pouco mais. 
O que é que o bom senso exige? Que haja um compromisso nacional depois das eleições de 5 de Junho, que os partidos do regime sejam capazes de vencer a comichão interna para se centrarem nos problemas de Portugal. Só um elevado sentido de estado pode credibilizar as instituições e o país, perante o mundo e a auto-estima dos portugueses. Com o pedido de resgate, a nossa maior derrota foi a que os portugueses sentiram na sua auto-estima, estamos todos nas mãos de uns técnicos super competentes, que disponibilizam a sua experiência, e vêm ajudar-nos a fazer contas, a ler os relatórios, e a executar a justiça. Eles trazem uma mão cheia de números, régua e esquadro, e, ainda, uma tesoura para emagrecerem os portugueses. Ninguém vai ficar a rir. Durante os próximos três anos iremos ter um Governo virtual e um FMI real. Quem ganhar as próximas eleições vai governar com sob o olhar atento dos senhores das malas pretas que chegaram ao aeroporto de Lisboa, com semblante pesado, de poucas palavras e com destino ao Terreiro do Paço, onde está o Ministério das Finanças. 
A comunicação social irá escrever muita coisa que não será exactamente verdade, os portugueses ficarão progressivamente mais ansiosos e cada dia será uma caixa de Pandora com más notícias. Exige-se serenidade e informação rigorosa. O pior neste fogo cruzado será a campanha eleitoral que se avizinha. Teme-se que o combate político seja uma oportunidade perdida para salvar os cacos. Seja quem for que ganhe as eleições só pode governar com uma maioria, que se deseja o mais ampla possível e responsável. Não sei se será possível. Não há lugar para discutir entre bons e maus, entre culpados, vilões e anjos. O interesse nacional urge, ou seja, não se pode brincar com a vida dos portugueses. Se não houver preocupações sociais, o país pode resolver o problema da finanças públicas, mas se calhar não evita uma convulsão de consequências imprevisíveis. 
É preciso que o próximo governo saiba conviver com a pressão do FMI, que não esqueça que há mais Portugal para além dessa ajuda externa.
Haverá lugar para a Arte, a literatura e o amor em tempos de crise? Uma coisa se sabe, as crises passam mas a Arte, a literatura e o amor permanecerão como pilares intemporais da cultura, da paixão e da resistência. Quem for capaz de resistir já é um vencedor – como canta José Mário Branco. Neste labirinto de promessas e de vendilhões do templo, a crença em Portugal vencerá! 
Não se deve dramatizar as dificuldades. É tempo de falar verdade, para que todos possamos desembainhar a esperança que tolda os dias licorosos. O interesse nacional exige compromissos que justifiquem responsabilidades para além do efémero. 


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<title>Assembleia da República congelou o 25 de Abril.</title>
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<![CDATA[“Eu acho incompreensível, não consigo perceber como é que um Estado de Direito democrático resultante do 25 de Abril tem vergonha de assinalar o dia 'inicial e limpo', como diria a Sophia (de Mello Breyner), desse mesmo Estado democrático". Estas são palavras do capitão de Abril, Vasco Lourenço, depois de se saber que este ano a Assembleia da República não vai comemorar o 25 de Abril. A justificação é que a Assembleia da República estará dissolvida, embora esta possa sempre reunir por razões excepcionais. Ao não considerarem o 25 de Abril uma evocação que justifique aos senhores deputados lembrarem a data com solenidade, fica-se com muitas dúvidas e somos obrigados a perguntar: que deputados são estes que se esquecem que foi o 25 de Abril que lhes proporcionou, eleitos pelo povo, serem os representantes de um Estado de Direito? Ao meter-se a cabeça na areia, alegando que os deputados estão desobrigados de comemorarem solenemente a data da Revolução, que foi responsável pelo regime democrático onde vivemos, não se está assumir todas as responsabilidades institucionais. O que o país precisa é de gente que saiba dar a cara nos momentos difíceis, quando tudo parece mais frágil e precário. A Assembleia da República presta com esta decisão um mau serviço à democracia, alheia-se da história, troca o país pela politiquice. Mas o que é, ainda, mais estranho é que esta decisão seja tomada antes de se saber se haverá eleições, antes do Presidente da República ter ouvido o Conselho de Estado. Compreende-se a chatice de alguns eleitos do povo em estarem na Assembleia da República; sabe-se que alguns deputados redescobriram, finalmente, os seus distritos, ou círculos eleitorais, e que voltaram a marcar presença nesses lugares, para que possam ir nas próximas listas de deputados…Mas a questão é séria e deve merecer uma reflexão. A Casa da Democracia diz que não está disponível para comemorar a data da revolução, 25 de Abril de 1974, porque os senhores deputados não se sentem de corpo inteiro, dizem-se “esvaziados das suas competências”. Tal como o governo que se encontrará em gestão, a Assembleia da República deve manter os serviços mínimos. Será que no dia da dissolução da Assembleia da República os senhores deputados cessam de receber os seus vencimentos? Sabe-se que continuam a ser deputados até à nova Assembleia da República. São estes exemplos que descredibilizam a classe política, e o povo tem quase sempre razão. Para grande vergonha daqueles que decidiram não comemorar solenemente o 25 de Abril na Assembleia da República, o país “à rasca” devia fazê-lo à porta de S. Bento. É nestes momentos imprevisíveis, como o que vive Portugal, que não se deve congelar os valores da Revolução dos Cravos. Foi exactamente isso que aconteceu, congelaram o 25 de Abril, disseram que não estavam reunidas as condições para lembrarem os que morreram nas guerras coloniais, os que sucumbiram à ditadura; que as torturas da PIDE foram ternuras antigas, que a crise académica e o 17 de Abril não têm relação…Esta decisão faz-me lembrar uma senhora que um dia pensou e disse que Portugal devia suspender a democracia para fazer reformas. Não se pode parar a história por decreto, ainda que venha da Assembleia da República. A maioria absolutíssima, da esquerda à direita, esqueceu por instantes o património simbólico da evocação do 25 de Abril, esse legado que não tem a ver com o governo <strong>A</strong> ou o governo <strong>B</strong>, pertence ao povo, à história de Portugal, ao regime democrático. Quando Vasco Lourenço se indigna com o congelamento do 25 de Abril na Assembleia da República, é a voz e a emoção de quem deu o “corpo e a alma” para que os senhores deputados (hoje) possam respirar os ventos da democracia. Haja paciência! É caso para dizer: 25 de Abril, sempre!

(Crónica publicada hoje no "Diário de Coimbra")]]>

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<title>“O PRIMEIRO DOS CENTENÁRIOS” 1º Jardim-Escola João de Deus.</title>
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<summary type="text/plain">A celebração do primeiro dos séculos insinua-se, quase sempre, como uma janela escancarada para o futuro, é uma feliz síntese que se abre de forma inspiradora aos novos desafios. Com a memória condensada e sem saudosismos, o 1ºJardim-Escola João de...</summary>
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A celebração do primeiro dos séculos insinua-se, quase sempre, como uma janela escancarada para o futuro, é uma feliz síntese que se abre de forma inspiradora aos novos desafios. Com a memória condensada e sem saudosismos, o 1ºJardim-Escola João de Deus deixa cair os penachos e demanda, como um rio vivo sulcando gerações, a geografia de valores e de afectos que inspiraram o imaginário dos construtores desta catedral, simbolicamente habitada pelos melhores de nós: as crianças.
Ao esculpir-se a efeméride com este livro de cumplicidades mas, principalmente, de tolerância plural, todos nos identificamos com o projecto visionário do poeta João de Deus, que soube salpicar o seu tempo com as suas ideias, as suas palavras, os seus amigos, os seus familiares, recuperando para a utopia o olhar e a marca poética, onde “saber ler é ser homem”.
Inaugurado a 2 de Abril de 1911, desde logo num diálogo ininterrupto com a obra pombalina, o Jardim Botânico, trazia, já, o conceito perene de uma reforma urgente que atravessasse o efémero e que muito inquietou os idealistas e desassossegou os incrédulos. É a Obra, com maiúscula, porque encerra o ideário republicano da democratização do ensino, porque materializou o traço estruturante e indelével de Raul Lino, porque se ergueu com mesura e solidariedade, porque ao longo de um século irradiou sabedoria e, hoje, tem outros irmãos no continente e nas ilhas: a rede de Jardins-Escolas.
A Obra inacabada atravessou cem anos. O desafio, agora, é agigantar a imaginação e crescer, dilatando o raio com a cumplicidade da sua força. A exposição, “O Primeiro dos Centenários”, pretende ser um olhar comprometido com a História, e convocar as pessoas que ajudaram nessa senda, sulcando a intimidade da viagem nesse tempo de emoções e de ansiedades, um filme onde se sente a presença de todos os que habitaram o pórtico desta história feliz. Cada instante, cada imagem, cada frase foram escolhidos para construírem o arco de tempo, capaz de unir todos os que partilharam a segmentação dessa viagem que nos une e honra. É, por isso, justo e merecido lembrar que a Directora do 1º Jardim-Escola João de Deus, “alma mater” destas comemorações, a Professora Amélia Saraiva, é, também, a décima, desde a sua fundação. Sem a sua incansável dedicação e persistência, este centenário teria menos cor.
Para a história fica esta exposição inaugurada hoje, na Casa Municipal da Cultura, narrativa de imagens e de palavras que coincide com as Comemorações do 1º Centenário da República. Que os nossos bisnetos, filhos dos filhos possam comemorar o Segundo Centenário com sabedoria poética e utopia inspiradora.						                   


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<title>AVENTURA VERTIGINOSA.</title>
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Quando se assiste ao nascimento dos filhos a notícia chega pelos nossos olhos, o tempo do parto é o tempo do sagrado, do divino, do mistério, da natureza. Esse tempo do acontece é uma eternidade onde as emoções baloiçam, como roupa num estendal, custa a passar, e precipita-se num caudal avassalador. A vinculação aos filhos será sempre diferente, porque estivemos lá, porque sentimos as dores do nascimento, porque gravámos os primeiros sons e as primeiras imagens. Quem teve o privilégio de assistir ao nascimento dos filhos sabe como esses momentos mudam a relação com a vida. Onde havia a absoluta verdade fica a relativa certeza; onde murava a urgência inadiável das coisas importantes, permanecerá, apenas, uma vontade de existência; onde habitava o mundo, restará a insustentável fragilidade. Viver o nascimento de um filho é renascer para essa aventura fantástica e única onde todos os momentos são uma odisseia, no verdadeiro sentido clássico. Aqui, os heróis nascem frágeis, precisam de todas as atenções e cuidados, são o exemplo de todos nós. Aqui, os heróis não nascem da cabeça de Atena, nem do Tridente de Poseidon, eles clamam pelo seu lugar, choram para dialogarem, e adormecem sem saberem que sempre houve guerra entre os homens. A paz é uma condição civilizacional para a felicidade de todas as crianças. Quando nasce um bebé, o mundo devia engalanar-se, devia festejá-lo com chuva de prata. Mas, infelizmente, todos conhecemos histórias muito diferentes. 
Ao recordar os partos dos meus filhos, através de um amigo que foi pai esta semana, recuperei a sequência de “takes” dessa aventura vertiginosa, que é presenciar o nascimento de um filho, com quem se dialogou durante nove meses, sem lhe conhecer o rosto, na expectativa de que o DNA se tenha combinado de acordo com a justiça e o bem. Das imagens mais fabulosas que guardo são as dos seus rostos e das suas mãos. A estranha beleza desse momento reforçou-me o sentimento de que é urgente defender a vida humana contra todas as injustiças. É preciso defender os direitos dos mais vulneráveis e denunciar a surdez dos hipócritas. Os filhos da Pátria, as muitas gerações, a Rasca e as outras, não podem silenciar as suas expectativas.
Num mundo zangado, e em convulsão, nunca foi tão necessário erguer os valores antiquíssimos, sempre modernos, que inspiraram os humanistas. Na velha Europa, berço das revoluções do espírito, assiste-se ao definhamento dessa matriz que cultivou a liberdade e a justiça social. Os aprisionados aos interesses não terão lugar nem na bainha da história, nem serão considerados relevantes como poeira, nem ocuparão os sermões dos bispos das igrejas à hora das hóstias. A Europa olha para o mundo árabe com distância e sobranceria, e minimiza os filhos da União. Ao ficar refém dos mercados, do liberalismo selvagem, os filhos da Europa entregam-se aos movimentos mais radicais, onde a ideologia é “o império do efémero”. O exemplo árabe pode inspirar a Europa a fazer a sua Praça da Liberdade. A força do povo engole todas as chancelarias e não poupa os demagogos e os falsos vendedores de esperança. 
No outro lado do Atlântico as empresas americanas investem cada vez mais em quadros criativos, preferem os que têm competências sociais, os que tiveram história associativa, os que têm uma rede de contactos, os que desenvolveram linguagens que possam “contaminar” a motivação e induzir “impacto” crítico nos resultados. A cultura de inovação ainda “assusta” a Europa, os paradigmas, “onde tudo parece eterno”, deixaram há muito tempo de ter lugar na América, porque aí, há muito que a eternidade se “dissolveu no ar”. Quando nasce um filho escrevemos no silêncio, às vezes, com muita criatividade, os ecos da esperança, mas nunca podemos imaginar todas as consequências dessa aventura vertiginosa.
(Crónica publicada no <em>Diário de Coimbra</em>)

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<title>CRÓNICA DA MOÇÃO INDEFENSÁVEL.</title>
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O país assistiu incrédulo ao anúncio de uma moção de censura ao governo pelo Bloco de Esquerda (BE). É verdade que o Bloco tem gente muito responsável, que pensa politicamente, que defende os interesses de Portugal, que tem grande experiência nestas andanças de estar na oposição. É também verdade, que o B...loco se sentiu acossado pelo PCP e, porque ambos disputam ao segundo cada voto, cada tempo de antena, tudo o que se possa imaginar. Então, eis que o “mágico” Francisco Louçã decide surpreender o país, tirando da sua cartola arco-íris a impensável moção que está a censurá-lo. O surpreendente deste reflectido “KO” ao governo foi ter um efeito “boomerang”, contando, já, com algumas demissões da Mesa do Bloco (uma espécie de Comité Central). A grande novidade deste mediático “hara-quire” político é a incompreensão dos próprios bloquistas, quer pela oportunidade escolhida quer, ainda, porque a decisão não foi amplamente discutida internamente. Com tacticismo destes, o BE antecipou o Carnaval. Num dia diz que a moção (prometida) do PCP é inócua, no outro dia, vem tentar ocupar a &quot;cadeira do poder&quot; do Bernardino. O BE está preso aos bancos do Parlamento. Contra o governo sim, mas sem eleições.
Condenada que está a moção do Bloco, com os votos anunciados do PSD e do CDS, os dirigentes por tão “inócua e irresponsável” iniciativa política, não têm margem para recuar dentro do seu próprio partido e perante o país. Resta aos timoneiros desbloquearem-se, uma vez que ainda falta muito tempo até à apresentação da moção. Ninguém compreende que a moção seja apresentada contra o governo e, também, contra um partido da oposição. Esta iniciativa do Bloco deve ser vista como uma iniciativa séria, deve ser vista como um exemplo daquilo que seria Portugal caso alguma vez o Bloco tivesse responsabilidades governativas. O eleitorado socialista que votou nas últimas eleições no Bloco, porque estava descontente com José Sócrates, tem aqui um bom exemplo para reflectir e tirar todas as conclusões políticas. O voto de protesto penaliza mas não resolve.
É indefensável que alguém se lembre de criar uma crise política quando os portugueses estão a fazer um grande esforço para vencer as dificuldades do país, quando os mercados têm todos os olhos esbugalhados sobre o seu desempenho, “é um golpe contra a confiança e um sinal de desprezo pelo esforço dos portugueses&quot;, afirmou, José Sócrates.
O túnel em que o Bloco entrou pela mão de Francisco Loução é longo e com muitas dúvidas; as sondagens indicam que muito do seu eleitorado regressará ao PS e outro votará no PCP. Francisco Louçã, também, sabe que o Bloco está numa escarpa perigosa, mas não podia imaginar que fosse ele, próprio, a precipitar a implosão. É caso para dizer que o censurador acabou censurado.
Claro que Francisco Louçã irá encontrar argumentos que “sustentem” a indefensável moção, que façam esquecer as divergências internas. Mas não conseguirá fazer esquecer que fica a falar sozinho e sem o apoio de muitos dos seus apoiantes. Esta é uma situação nova no Bloco, feito de bloquinhos. O que o povo exige é que todos os partidos estejam à altura das responsabilidades do país, que se tenha sentido patriótico, que se defenda o interesse nacional. O tacticismo calculista pode ter algum mediatismo
(neste caso foi um tiro no pé) mas não passa de um fogacho populista condenado à censura.
O Bloco confundiu o país com o efémero brilho do sucesso mediático. Quando houver eleições, haverá sempre quem tenha memória e lembre que na política o Bloco deve ser censurado. (Crónica publicada no Diário de Coimbra).

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