junho 21, 2005

Tentativa de Limericks ao Domingo à tarde

Havia uma menina de Lisboa
Cuja mãe fazia sopa muito boa
E tinha uma avó na Turquia
Por isso gabar-se podia
Sortuda menina de Lisboa!

(Ana 10 anos)

Havia uma menina de Caldas da Rainha
Cuja mãe também era de Caldas da Rainha
Fazia sopa muito boa
Todos os dias à beira da lagoa
Rica menina de Caldas da Rainha!

(Alice 6 anos)

Era uma menina chamada Andreia
Que fazia vidros com areia
Que parvoíce esta comentavam
Enquanto que os vidros também compravam
Coitada da menina chamada Andreia!

(Ana)

Havia um cão muito comilão
Comia tanto que tinha comichão
Tinha uma dona comilona
Que comia tanto que era chorona
Era tão comilão este comi-cão!

(Alice)

Era uma vez uma mosca muito tosca
Que andava de rosca em rosca
Tinha as asas todas tortas
Por voar tanto nas hortas
Era uma verdadeira mosca-tosca!

(Ana)

Era vez um gato muito pacato
Andava sempre de prato em prato
Dormia à beira da janela
Miava à beira da panela
Era um gato muito RE-gato!

(Alice)

Publicado por AP às 11:24 PM | Comentários (0)

junho 18, 2005

Palavras para o poeta

As palavras
São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?

(Eugénio de Andrade)

É difícil falar da morte de um poeta. É difícil escapar a todas as palavras que se apresentam como lugares comuns. É difícil escolher aquelas palavras que ainda não foram ditas e que irrompem trazendo uma nova palavra para a palavra do poeta. Dulce et utile assim era a palavra poética para Horácio. Verdadeiramente doce mesmo quando transborda de amargura e de dor. Não sei da palavra esquecida que abunda. Não sei da palavra que pula ao ritmo incerto do verso branco, nem da sua escansão misteriosa, dos seus berros e universos. Não sei do grão da voz dos poetas, nem das suas mãos abertas na areia, do seu canto, do seu murmurar de rios secos. Não sei dos gritos contidos nas formas, nem do não dito que assalta intimamente. Não sei da palavra procurada sempre procurada sempre procurada... Não sei do ar opaco onde esbracejam uma a uma a palavra com o seu erro de ser simplesmente palavra soletrada juntamente com as outras...todas. E Octávio Paz que me murmura é impalpável a palavra e assim fica o sabor do seu próprio som, a sua aliteração, irremediavelmente, nas cavernas quiméricas do canto. É isso o grão? Aquele que resiste ao tempo e que se dilui na memória incerta dos nossos tempos. Será esta a palavra dita pelo poeta? Não sei dos seus ecos fundidos nas árvores ondulantes. Ouvidos e palavras, ambas do mar, conchas e conchas, búzios e búzios, assim na mão do poeta trazendo as palavras todas...todas? Não sei das vozes de dentro que nunca chegaram a ser voz e há tantas que não podem ser tantas as palavras para dizer...como dizer ao sabor as amoras do seu país? Como dizer à morte que não escapa ao amor? Como saber o sabor do corpo na boca? Como conhecer os meandros das palavras gastas no amor? Agora...
Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

(Eugénio de Andrade)
mais nada a dizer...permanece o grão da palavra na concha da mão e na voz.

Publicado por AP às 11:25 AM | Comentários (0)

junho 12, 2005

Imaginária de vulto

A palavra Imaginária carrega um mundo de representações. O vocábulo é sinónimo de estatuária e vem do latim imago que significa, num primeiro tempo e de forma geral, a representação, a imitação e o retrato e, de uma forma mais particular, refere-se à imagem em cera de um antepassado. Quanto à palavra vulto, esta vem do latim vultus e significa rosto, fisionomia, para depois passar a significar figura. Ambas as palavras apontam para a ideia de dois conhecimentos. Por um lado um conhecimento profundo relacionado com a alma e, por outro lado, um conhecimento superficial relacionado com a aparência ou o corpo. Mas a ideia de representação, de cópia e de reprodução, de figura ou de aparência remete para a ilusão e por oposição para a realidade. A história da arte já tinha a experiência e o conhecimento de Pigmalião, cujo mito ou lenda remete para Galateia, a escultura a quem Afrodite deu vida. É a história de um escultor que modela uma forma feminina de que se apaixona e a quem a deusa do amor dá vida para atenuar a dor causada pela paixão do artista. Não é a parte fantástica, aquela que conta a transformação da estátua em mulher de carne e osso que é inquietante, mas a paixão vã que uma forma sem vida pode provocar e os excessos a que tal projecção ou devoção pode levar. Todos nós conhecemos a história do bezerro de ouro e as consequências da credulidade ou da descrença dos homens. A representação foi de facto um grande problema a superar nos primórdios da religião cristã. Desde as primeiras representações, a imagem contém algo de mágico e inquietante. Como conciliar os ensinamentos de Jesus e as crenças pagãs? No livro intitulado História da Arte Portuguesa, sob a direcção de Paulo Pereira, é nos revelado que “As resoluções tomadas na sessão XXV do Concílio de Trento, a única dedicada às artes, produziram um enorme efeito na arte religiosa durante séculos(...) De facto, nesse Concílio realizado em 787 expressamente declarava que ‘Quanto mais se contemplam estas imagens mais viva será a recordação do que elas representam e maior será a inclinação para venerá-las mas sem que por elas se manifeste adoração, que só a Deus se deve dirigir(...) Quem venera uma imagem venera a pessoa que ela representa.” Portanto era importante delimitar e controlar o espaço de adoração ou de veneração que podia, facilmente, ser contaminado e, neste sentido, a escultura apresentava ainda maior perigo devido à sua presença tridimensional no espaço. As imagens deviam apenas remeter para algo maior, algo superior sem deixar lugar a uma adoração pagã, logo foi importante estabelecer modelos e padrões para orientar a devoção do povo. Deve ser por esta razão que, ao longo dos tempos, os atributos dos santos permanecem nas representações. São atributos fixos que permitem reconhecer as personagens e colocá-las na história da Bíblia. É desta forma que São Marcos é representado com um leão, São Mateus com o Menino, São Lucas com um touro, São João com a águia, São Pedro com as chaves do Paraíso, São Brás com o báculo, Santa Clara com a mitra episcopal, Santa Catarina com o Menino ajoelhado, Santa Ana com a bíblia, São Bartolomeu esfolado, etc. Acaba por não ser o santo em si que tem importância, mas a sua participação na história de Jesus Cristo sempre relembrada por objectos ou posturas que vão facilitar a aprendizagem do homem comum. Foi de facto algo conseguido pela igreja e deu lugar a belíssima obras de arte, de que podemos ver, alguns exemplos no Museu do Hospital e das Caldas, na exposição intitulada Imaginária de Vulto.
As estátuas patentes nesta exposição foram esculpidas na madeira. Algumas são de pé direito reduzido, talvez cerca de 60 ou 70 centímetros, e outras maiores de cerca de 1,30 m, quase todas datam do século XVIII. As cores utilizadas, além do preto, do encarnado, do verde, do azul, revelam uma frequente utilização do ouro para a decoração de motivos. É revelador, para quem sabe ler os sinais, observar a forma e a representação das mãos, pois se por um lado, São Baptista aparece com o indicador e o médio da mão direita quase juntos e o polegar e o médio, da mão esquerda, formando quase um círculo, surpreendentemente, esta mesma configuração das mãos é invertida nas imagens de Jesus. Como sabemos, a mão direita, na tradição ocidental, serve para benzer. É a mão da misericórdia, enquanto que a mão esquerda é a mão da justiça, mas também da maldição. São igualmente singulares as reminiscências pagãs, mais, precisamente, porque evocam Afrodite, na representação de Nossa Senhora da Conceição e ainda as cabeças de santos expostas na vitrina de que tentei identificar algumas. Entre elas, talvez São Francisco, São Sebastião, mas há um santo, completamente, calvo com barba de que parece haver duas imagens, cujo nome nem suspeito. Voltando a Nossa Senhora da Conceição, esta repousa sobre uma nuvem com anjos. A nuvem tem as mesmas características que a água com linhas esculpidas em arabescos e a sua forma oval evoca uma concha. Na base da nuvem está uma serpente que neste caso particular, posto que a Santa não parece estar calcando-o, poderia muito bem não ter nada que ver com a tentação ou a impureza, pois como sabemos a serpente também simboliza a renovação e a regeneração. Atrás deste conjunto, onde se misturam peso e leveza, emergem dois crescentes simétricos, como crescentes de luas ou dentes de serpente que evocam o princípio de uma linha imaginária delimitando um círculo, envolvendo a figura representada. (Gazeta das Caldas 10/06/05)

Publicado por AP às 11:17 AM | Comentários (0)