fevereiro 09, 2008

MIGRANDO

Farto de chegar a esperar 3 dias para que os posts aparecessem afixados no blog (que ainda por cima é pago), vi-me obrigado a criar uma alternativa.

O Antropocoiso tem agora uma vida dupla: até esta data, aqui (com www ou sem ele) e a partir de agora neste outro endereço.

Paulatinamente, os arquivos irão sendo copiados para o http://antropocoiso.blogspot.com
Este endereço onde me lêem acabará por morrer de morte natural, quando chegar a altura de o voltar a pagar.

Publicado por Paulo Granjo às 04:46 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Imagine all the people

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Só para perceberem um pouco melhor o mal-estar e raiva do povão daqui:

Imaginem que Portugal tem um regime presidencialista e que o Belmiro substituiu o Amorim como Presidente da República, ambos indicados pelo seu partido ex-comunista reconvertido ao hiper-liberalismo, mas que mantém a retórica de outros tempos.

Imaginem que os Espíritos Santos, Jardins Gonçalves, Santos Silvas e quejandos são ou foram ministros e, tal como os presidentes, enriqueceram quando já eram políticos.

Imaginem que, dos dois ricaços que não são políticos, vocês estão convencidos que um deles é sócio do ex-presidente, enquanto ouviram o outro dizer na televisão, há um par de anos e enquanto académico, que não se pode investigar a sério a corrupção, porque as prisões têm condições demasiado más para se prenderem lá pessoas desse estatuto social.

Agora, imaginem que ganham 40 Euros por mês.

Publicado por Paulo Granjo às 04:38 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

«It's the Economy, Stupid» ?

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in Savana, 1/2/2008


Como não sou grande fã dos suplementos económicos, só agora dei com este artigo, ao separar as folhas de jornal que quero guardar e aquelas que servirão para acender o carvão para os grelhados.

Será que, afinal, «It's the economy, stupid!» ?

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Publicado por Paulo Granjo às 10:25 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 08, 2008

Crónicas dos Motins - 5

ALGUNS FACTOS

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foto Savana, 8/2/2008

Terça-feira, ouvi todo o tipo de disparos na estrada da portagem: lançadores de gás lacrimogéneo, caçadeiras de grande calibre, pistolas, kalashnikovs tiro a tiro e em rajada.
Um casal inglês que foi apedrejado e se refugiou no mesmo condomínio vinha chocado por ver a polícia disparar balas reais «randomly» (aleatoriamente, indiscriminadamente) sobre sebes na beira da estrada, atrás das quais se acoitavam ao molho homens, mulheres e crianças que eles nem sequer conseguiam ver.
Um amigo meu entrou em Maputo numa coluna rodeada por viaturas da polícia que disparavam as suas armas (bem reais) para as bermas da estrada.

Uma bala de borracha não se parece em nada com uma bala real, tal como não se parecem as armas que as disparam. Uma bala de borracha é muitíssimo maior, em diâmetro e comprimento, e não pode ser disparada por uma espingarda, pistola-metralhadora ou fuzil de assalto.

As fotos dos jornais, quase todas tiradas por detrás da polícia pois fotógrafo também tem medo, mostram as forças policiais, fardadas ou à paisana (sem margem para dúvidas, pois nesse caso estão a prender pessoas), armadas de kalashnikovs, pistolas e, pontualmente, um ou outro deles com uma arma capaz de disparar granadas de gás lacrimogéneo e/ou balas de borracha.

Quarta-feira, um dos canais de televisão mostrou um passeio de viaturas policiais no Machaquene, disparando para as bermas e baleando uma pessoa junto dos repórteres.

Quinta-feira, imediatamente depois de o canal estatal de televisão apresentar uma peça em que o Hospital Central de Maputo declarou ter tratado 78 pessoas feridas por balas reais, e em que um par delas foram entrevistadas, o comandante nacional da Polícia reafirmou em estúdio que as forças sob o seu comando só dispararam gás lacrimogéneo e balas de borracha.

Publicado por Paulo Granjo às 09:58 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 07, 2008

Crónicas dos Motins - 1

UMA PEQUENA AVENTURA

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Antes de mais, estamos bem!
(Embora esta declaração vá chegar atrasada para acalmar preocupações, pois este blog - pago, ainda por cima - esteja a afixar os posts 2 ou 3 dias depois de serem escritos.)
Mas vamos à estória:

Aproveitámos este fim-de-semana alargado (não pelo Carnaval, mas pelo Dia do Herói Moçambicano) para dar um salto à África do Sul, em cumprimento das exigências do peculiar Visto que nos obriga a sair do país de tanto em tanto tempo.

Terça-feira, lá regressou a minha família num transfer do Kruger Park, junto com o respectivo condutor e 4 simpáticos turistas portugueses.
Atravessámos a fronteira pelas 10h30m, mas nenhuma autoridade nos avisou de qualquer acontecimento anormal - como, por exemplo, os tumultos que desde as 7 da manhã estavam a virar Maputo do avesso.
E a verdade é que chegámos à portagem da Matola sem nada vermos de estranho senão uns polícias que, para os lados da Casa Branca, pareciam estar a chatear algum vendedor de pneus que não pagara "refresco".

Mas a portagem estava fechada. Sobre a cidade, viam-se várias colunas de fumo. Pensámos primeiro num incêndio, embora fosse estranho que estivesse a ocorrer ao mesmo tempo em zonas tão afastadas. Ficámos a saber o que se passava quando telefonei para a senhora que nos ficara com a cadela, a avisar que a iríamos buscar mais tarde do que o previsto.

- Ai, doutor! Nem pense em vir! Estão a fazer greve por causa do aumento dos "chapas" e não deixam os carros passar, na cidade toda. Aqui, já queimaram carros e no Alto Maé um rapaz levou um tiro e não se sabe se vai conseguir viver.

Com o "garrafão" da portagem cada vez mais cheio, lá convencemos o condutor a recuar para a estação de serviço mais próxima. Volta para trás, regressa para a frente, e a zona continuava a parecer calma. Também o posto de gasolina parecia calmo, pelo menos até os 3 seguranças privados que lá estavam evacuarem precipitadamente o dinheiro da caixa...
Por sugestão da Marta, tinha entretanto tentado telefonar, sem sucesso, para uns amigos que moram ali perto, num condomínio mais ou menos seguro. Quando finalmente consegui resposta e declaração de boas vindas, o pessoal concordou em procurar lá abrigo.

Foi uma decisão acertada. Uma hora depois, essa mesma estação de serviço teve que ser ocupada pela tropa. E um amigo que preferiu ir em frente, através daquilo que na altura era uma estrada coalhada de carros imobilizados, chegou a casa com dois pneus rebentados à pedrada(!), embora tivesse passado as barricadas numa coluna rodeada de carros da polícia que disparavam gás lacrimogéneo, espingardas e kalashs indiscriminadamente para as bermas.

Nós regressámos, afinal, por onde já tinhamos passado duas vezes na última meia-hora, sem nada ver de ameaçador. Desta vez, um grupo de mulheres começou a gesticular na outra faixa e, antes de percebermos se aquilo era amigável, gozão ou hostil, vimos um pneu a arder no meio da nossa faixa e entrou-nos um pedregulho por um vidro dentro.

- Deitem-se! Ninguém está ferido?
(Ou, na primeira frase solta pela Marta, «Everibody lie down!»)

Sim, um dos portugueses estava ferido, mas não era grave. As pedras continuavam a cair mas, felizmente, apenas acertavam na chapa e o condutor manteve a velocidade e o controlo do carro, ao contornar os pneus em chamas.
Chegados ao cruzamento, lá conseguimos dar as voltas necessárias para chegar ao portão certo e convencer o segurança a deixar-nos entrar.

Já dentro, ficámos um bocado aparvalhados - eu, um pouco menos, pois tinha andado entretanto a servir de scout pedestre, por o primeiro portão do condomínio estar fechado. Cada um viu se estava mesmo bem, a minha filha chorou por fim um pouco, surpreendentemente pouco, e não estávamos à espera de mais do que a relativa segurança daqueles muros.

Era não contar com a hospitalidade e solidariedade da esposa do meu amigo (que por acaso tinha voado em trabalho nesse dia), que a todos abriu as portas de casa e todos tomou à sua guarda.
Pouco depois, acompanhando as notícias que davam conta da dimensão dos tumultos e ouvindo a confusão ali mesmo ao lado, já torneávamos eventuais preocupações com a precaridade da nossa segurança comentando (aqueles que os conheciam), os ruídos que nos chegavam.

- Olha: agora já não é gás lacrimogéneo e caçadeiras. São tiros de pistola.
- Ah! Agora são rajadas de kalashnikov!

Antes do jantar, já a nossa anfitriã (apoiada pela Marta, que durante umas horas falava inglês com os moçambicanos e português com os sul-africanos) tinha conseguido o impossível: camas para aquela gente toda, na sua casa e em mais duas. O que tinha começado como uma experiência assustadora e bem perigosa começou a parecer-se (apesar do perigo iminente que continuava a existir) com um contratempo relativamente pouco desconfortável.

Pela hora de jantar, os restantes telejornais trataram extensivamente o que se estava a passar. A estatal TVM gastou uns 90% do tempo a falar das ultrapassadas cheias do Zambeze.

A meio da noite, soubémos que as novas tarifas de transporte tinham sido suspensas.

Quarta-feira, com os tumultos também suspensos, voltámos a casa, fazendo slalong entre os restos de pneus, blocos de cimento arrancados sabe-se lá de onde e bocados de árvores que continuavam no meio das ruas. Em frente ao mercado de Malanga, as vendedoras varriam a estrada, para recriar um ar de normalidade que atraísse clientes.
Olhando para as pessoas nesse dia, nada parecia ter acontecido - a não ser por não se verem chapas em circulação e por, aqui e ali, alguns homens meio esfarrapados terem uma expressão de dignidade pouco habitual, os comerciantes paquistaneses tratarem de forma menos brusca os seus empregados e os condutores cumprirem as regras de trânsito.

Maputo era uma cidade bem mais simpática, nesse dia, do que costuma ser.

Publicado por Paulo Granjo às 10:06 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 06, 2008

Crónicas dos Motins - 2

ESTAVA ESCRITO

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in Savana, 1/2/2008

Não seria preciso ser profeta ou adivinho para dizer aquilo que ficou escrito, 5 dias antes dos acontecimentos, no penúltimo parágrafo do Editorial do jornal Savana.
A única surpresa possível será que os tumultos fossem tão virulentos e generalizados e que, numa população que já aguentou tanta coisa e continua a aguentar tanta mais, rebentassem logo no dia de entrada em vigor das novas tarifas dos "chapas".

Que é isso de "chapas" (oficialmente, "transportes semi-colectivos")? São velhas carrinhas de 9 lugares (ver foto no próximo post), recondicionadas para amontoarem 19 pessoas sentadas, para além daquelas que tenham suficiente pressa para seguir meias de pé, meias dobradas, com o rabo virado para a cara de outros passageiros ou saindo alegremente pela janela.
Porque é que as pessoas os usam? Porque a companhia pública de transportes tem 40 machimbombos (autocarros) a cair de podres para toda a cidade de Maputo, que ultrapassa largamente o milhão de habitantes.

Um percurso de chapa custa, na cidade, 5 ou 7,5 Meticais (cerca de 15 ou 22 cêntimos de Euro), conforme a distância. Para complicar a questão, algumas pessoas têm que usar dois percursos de chapa para o seu destino e, desde há uns tempos, os "chapeiros" descobriram um novo truque: fazem apenas parte do seu percurso e os passageiros são obrigados a transbordos e a pagar em cada um dos chapas.
Podemos contudo dizer que alguém com a sorte de usar apenas um chapa para o trabalho ou a escola gastará 210 ou 315 Meticais (6 ou 9 Euros). Não parece muito, mas o salário mínimo são 1.400 Meticais (40 Euros), há muito boa gente que só ganha 1.000 ou 800, e um saco de arroz custa mais de 500 Meticais.
Os aumentos decididos pelo governo (lógicos, numa perspectiva economicista, dado o aumento dos combustíveis) são de 50% para os percursos mais curtos e de 33,3% para os mais longos. Should I say more?

Talvez "I should", mas seria muito longo. Porque, temo bem, o problema não são apenas os chapas, mas uma vida que se torna cada vez mais insustentável, uma ausência de alternativas futuras e um sentimento de que, por parte de quem manda e de quem possui (alguma coisa, ou escandalosamente muito), apenas se é objecto de desprezo e de indiferença pela situação em que se vive.

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Noticias, 2/2/2008

Quanto às causas da fúria popular, não será preciso cavar muito fundo.

É o custo de vida que sobe, os salários que não aumentam ou descem, a necessidade de mobilizar a criatividade de toda a família - trabalhando os que conseguem, biscatando outros, vendendo qualquer coisa uns terceiros, numa cidade em que meio mundo anda a vender coisas ao outro meio, em porções cada vez menores - para chegar a um mínimo de subsistência que qualquer aumento como este põe em causa.

É o obsceno grau de diferença no acesso à riqueza e a sua ostentação.

É - pondo por outras palavras aquelas que o editorialista deixou escritas - o sentimento de um Estado padrasto que abandonou os seus filhos ao desenrasca perante as leis de um mercado que não existe, numa economia que tão pouco existe fora do "informal", do comércio e dos bons (ou óptimos) empregos a que não têm acesso, e em que os decisores políticos são os maiores patrões e fortunas, tendo aí chegado por já serem políticos quando decidiram privatizações e o dinheiro começou a chover do exterior.

Isto explica tudo? Uma grande parte.

Isto justifica o que aconteceu? Em grande parte.

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Que fique claro: não gosto mesmo nada de levar pedradas e não sei que reacções teria, caso a minha filha tivesse sido ferida com gravidade.

É também evidente que, para parar o trânsito na cidade, os manifestantes poderiam fazer barricadas intransponíveis, em vez de alguns pneus a arder, por onde os carros podiam tentar fugir e ser atacados. O seu objectivo (parar a cidade) não tornava necessário o ataque às viaturas e aos seus ocupantes.
Aqui, há uma outra vertente, nada simpática ou aceitável, mas compreensível: a raiva e vingança para com quem tem muito mais, parece achar natural tê-lo e os outros não, e não põe a hipótese de o perder.

Mas o tumulto que parasse a cidade, esse, temo bem que fosse, infelizmente, a única forma de as suas queixas serem seriamente ouvidas.
Alguém me disse em Moçambique, no ano passado: «Com isto da democracia, podemos dizer o que queremos. Mas ninguém liga ao que dizemos.»
É uma frase que poderíamos bem ouvir em Portugal e que, em parte, se pode aplicar à maioria dos países onde há, pelo menos, um mínimo de liberdade de expressão. Mas há por cá algumas particularidades que tornam a situação diferente em natureza/qualidade e não apenas em grau/quantidade.
Não me saem da cabeça, acerca disso, 3 artigos de um número da Análise Social acerca de Moçambique, que tenho vindo a editar e sairá em meados do ano.

Num deles, João Pereira mostra como as vitórias eleitorais do partido que está no poder desde a independência nada têm a ver com um bom desempenho económico da governação (que só o presidente do Banco Mundial parece ver, conforme reafirmou na véspera dos tumultos) mas, fundamentalmente, com a incerteza e medo daquilo que poderia ser a acção governativa da única força política que - infelizmente, digo eu - poderia constituir uma alternativa: a mesma Renamo que foi o brutal inimigo do governo durante a guerra civil. Ou seja, governa-se pressupondo que, faça-se o que se faça, o medo e a memória dos eleitores tradicionais garantirão que o poder seja mantido.

Noutro artigo, Jason Sumich cita uma sua amiga, filha das actuais elites politico-economico-sociais, num discurso que parece saído da boca de um(a) qualquer herdeiro(a) de grandes colonos de outros tempos: «Há aqui uma grande diferença que não creio que compreendas. Passas o teu tempo com pessoas como nós, que somos educados e ocidentalizados. Aqueles de entre nós que são privilegiados têm gostos e desejos que são muito diferentes dos restantes. É realmente uma questão de interesses. A maioria das pessoas neste país são camponeses, têm uma machamba e ficam satisfeitos com isso. Não precisam realmente de educação ou de mais e, de facto, não o querem. Muitas pessoas deste país não estão interessadas. Querem que as deixem em paz para cultivarem as suas machambas. Somos nós, os privilegiados, que queremos e precisamos das outras coisas.» Ou seja, as grandes elites económicas e políticas, que em geral são uma mesma e única coisa, parecem achar que os "pretos atrasados" não querem nem precisam de grande coisa, apenas que os deixem fazer a sua vidinha como puderem - e que, portanto, nada lhes é em última instância devido.

No terceiro artigo que não me sai da cabeça, Harry West mostra como, numa zona do país mítica para a Frelimo e para a luta de Libertação Nacional, o facto de os dirigentes políticos não se limitarem a «comer mais» (direito que lhes é popularmente reconhecido), mas «comerem sozinhos» à custa da fome de todos os outros, é traduzido em acusações de feitiçaria maléfica e canibal - ao contrário da feitiçaria em benefício e protecção de todos, que é sua obrigação e legitimaria a sua posição de poder.

Em suma, as pessoas têm boas razões para pensar, com base na sua experiência empírica, que o "pai" não protege os "filhos" nem sente responsabilidades relativamente a eles, e que meras queixas e lamúrias não seriam mais ouvidas do que todas as anteriores.
As pessoas fartam-se.
E, quando outros meios lhes são negados para, dizendo o que querem, ser ouvido o que dizem, só lhes restam estas tristes soluções - por muito que tal nos possa doer no espírito, no corpo ou na propriedade.

Publicado por Paulo Granjo às 03:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Crónicas dos Motins - 3

MULHERES "DE ARMAS"

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um "chapa", pomo da discórdia (foto Savana)

Vi-me ontem no meio de mulheres "de armas":

Antes de mais (com um enorme obrigado) a nossa amiga, que nos acolheu a nós e a mais 4 turistas e 1 condutor que não conhecia de lado nenhum, procurando e arranjando, com uma espantosa eficácia e sempre discreta, alojamento para essa pequena multidão (entretanto acrescida do pai de outro amigo seu), na sua casa e nas casas limítrofes.

Depois, a minha mulher, normalmente nervosa e preocupada em relação a possíveis perigos mas que, face ao perigo bem real, muito contribuiu para a calma dos outros e, depois disso, foi o também discreto e eficaz lugar-tenente da nossa anfitriã.

Por fim (e suscitando ainda mais a minha admiração), a minha filha. Sob as pedradas, disse-me muito baixinho «Pai, tenho medo», mas continuou a seguir atentamente as minhas instruções. Chegados a relativa segurança, um pequeno chorinho de descompressão - espantosamente curto, para uma criança tão nova. Depois disso, um integrar descomplexado e verbalisado do que acontecera e uma naturalidade que, também ela, muito contribuiu para a calma e boa disposição de todos.

Tenho, de facto, sorte com as mulheres que me rodeiam!

Publicado por Paulo Granjo às 02:54 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Crónicas dos Motins - 4

LUSÓ FACTO

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Aos cidadãos portugueses que ontem , no meio dos motins, quisessem reportar às autoridades diplomáticas a sua presença em Maputo, o seu paradeiro e situação, ou mesmo pedir ajuda, ninguém respondia no telefone do Consulado.
No telefone da Embaixada, respondia um senhor dizendo que «é feriado na Embaixada» e, para além disso «há problemas na rua»; «telefone amanhã» porque «hoje não está ninguém».
Tentei que tomasse nota dos nomes e paradeiro dos 7 cidadãos portugueses que faziam parte do meu grupo, esclarecendo que tinhamos sido atacados e havia um ferido ligeiro. Recusou, mandou-me de novo telefonar no dia seguinte e, quando tentei insistir para que apenas assentasse esses dados num papel, desligou-me o telefone na cara.

Publicado por Paulo Granjo às 02:30 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 01, 2008

«O Preço Certo» bloguístico

Ora vamos lá a adivinhar:

Quanto é que custa, em Euros, meio litro de água oxigenada, numa farmácia de Maputo?

A primeira pessoa que acertar terá direito a um exemplar de «Os bois para os boys», livro que, apesar do seu título aparentemente crítico e jocoso, é a apologia de um projecto de repovoamento pecuário pago por uma agência de desenvolvimento estrangeira, que teve como principais consequências tornar os ricos do distrito mais ricos, os pobres mais pobres e aumentar as assimetrias no acesso aos recursos (conforme o falecido Paulo Langa demonstrou, em 2004)

Publicado por Paulo Granjo às 03:09 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 31, 2008

Farsas e tragédias

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in Domingo


Numa altura em que o norte de Moçambique é desflorestado em grande velocidade por explorações madeireiras rapaces e descontroladas, as actuais retóricas acerca de uma tal de “Revolução Verde” (que não é a da Líbia) traz-me sempre à memória uma velha anedota e uma ainda mais velha citação.
A coisa acaba sempre, assim, por cair um bocado no jocoso. Esse tom passa bastante pelo post que se segue e, para vos convencer a lê-lo, começo pela anedota:

O patrão de uma lojeca de esquina repreendeu o empregado por ter dito a um cliente que não tinha o produto que ele pedira.
- A gente nunca diz que não tem! Não temos isso, mas temos sempre outra coisa que serve muito bem para o que o cliente quer. É preciso é convencê-lo.
Pouco depois, dizia o empregado a uma cliente:
- Pois… papel higiénico de momento não temos. Mas, para o que a senhora deseja, temos aqui uma lixa nº3 que é um mimo!

O que possa ser a tal de “Revolução Verde” (para além do que em seguida explicarei), ninguém sabe porque ninguém diz. O que se sabe, porque é a única coisa que entusiasticamente se fala e diz planear, é que ela é, nem mais nem menos, a produção extensiva de bio-combustíveis para um mercado internacional que se espera em crescimento exponencial – sendo de pressupor que isso só possa a ser feito tanto pelos camponeses, em detrimento da produção alimentar, como em grandes farms, estas provavelmente instaladas em terrenos de onde os camponeses sejam corridos, em troca de locais a que nos EUA se chamariam “reservas”.
Não interessa se o representante local da FAO disse, com pezinhos de lã (pois, por aqui, só falam com botas cardadas o Banco Mundial e o FMI), que isso agravaria os problemas de fome e segurança alimentar. Não interessa se os velhos teóricos periféricos do subdesenvolvimento, embora não tenham criado receitas eficazes para resolver o problema, apontaram bastante bem as suas causas e mecanismos de reprodução – incluindo, em lugar de destaque, estes grandes projectos/desígnios de monoculturas para exportação sem valor alimentar local. É, pelo menos na retórica, um imperativo de Estado – apadrinhado, claro está, pelos ditos BM e FMI – e isso basta.

Convém notar que a agricultura é, em Moçambique, uma coisa um bocado chata para as estatísticas.
Embora produtos agrícolas de primeira necessidade sejam, no essencial, a única coisa que o país produz para além de electricidade (Cahora Bassa), alumínio (Mozal), consultorias para as ONGs e, agora, madeiras nobres (enquanto as houver), e embora uma parte não negligenciável dessa produção acabe por ser comercializada, é-o nessa cena antiquada que passa ao lado de lojas registadas, impostos e controle estatal. Sobretudo, ao pessoal (seja produtor ou comprador) dá-lhe para comer esses bens económicos, que por isso não podem ser exportados.

Mas há sempre, como saída, a grande lição do patrão da lojeca, tão bem aprendida pelo seu empregado:
- Não temos petróleo (até ver), mas vamos cobrir o país de futuros bio-combustíveis!
- Não temos a colonial produção compulsiva de algodão (de que tão justamente se disse todo o mal que havia a dizer), mas teremos a “globalizada” Revolução Verde!

(Como antes se poderia ter dito:
- Não temos a Lei do Passe do apartheid, mas temos a Operação Produção!)

Entretanto, novas nostalgias e substituições se perfilam, num outro registo, como prefigura o artigo que ilustra esta diatribe:
- Já não temos Campos de Reeducação, Aldeias Comunais e deportações para o Niassa, mas temos uma nova Revolução (Verde) para organizar o desorganizado povo!
- Não mandamos em nós, mas mandamos nos camponeses!

Chega agora a citação:

O velho Marx tinha dito, no “18 de Brumário de Louis Bonaparte” se a memória não me atraiçoa, que a história se repete, uma vez como tragédia e a segunda como farsa.

Creio que o meu amado barbudo se enganou:
As réplicas farsolas podem ser muito mais do que uma. Podem até tornar-se um hábito.
E essas farsas podem facilmente transformar-se em tragédias.

Publicado por Paulo Granjo às 05:36 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 26, 2008

(Re)Parabéns, Irene Pimentel!

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Isto é resultado de uma mistura de nomadismo profissional, globalização da informação e terceiro-mundismo:

Como a coisa aconteceu quando me estava a instalar em Maputo, ainda de malas às costas e sem acesso à net, só há minutos atrás fiquei a saber da atribuição do Prémio Pessoa 2007, numa casual referência cruzada durante uma navegação acerca de outro tema. E deu-me um enorme prazer sabê-lo.

Muitos parabéns, minha "comadre" Irene Pimentel!

Publicado por Paulo Granjo às 11:31 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 25, 2008

«It’s just the starting engine» - The status of spirits and objects in south Mozambican divination

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A current complete tinhlolo set (image 1)

Tenho-me esquecido de ir actualizando os XXL - ou seja, os artigos que vão sendo publicados em papel.
Uma das razões é o trabalho que dá reformatar as notas e inserir as imagens uma a uma...
Cá fica um deles, a publicar no livro Divination on South-Saharan Africa, editado por Wouter van Beek e Philip Peek na Brill Publishers.
Em "continue a ler".

Continue a ler "«It’s just the starting engine» - The status of spirits and objects in south Mozambican divination"

Publicado por Paulo Granjo às 07:42 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 23, 2008

Até as mortes, meu Deus?


O tratamento noticioso das actuais cheias no centro de Moçambique cada vez me deprime mais.
Deixei escrito, há 4 dias atrás, que uma morte é uma desgraça absoluta. Os números são indicadores importantes (uma coisa é morrerem 7 pessoas, outra é morrerem 7.000) mas, em termos humanitários, apenas isso.
Entretanto, ficaram-se ontem a saber, pelo jornal Notícias, as causas de morte das 7 pessoas contabilizadas como vítimas das cheias. 4 morreram devido a arrastamento pelas águas e 3 por ataques de crocodilos, quando pescavam e tomavam banho.
Fiquei a saber que, ou as pessoas não pescam nem tomam banho quando não há cheias, ou até os mortos se manipulam.

Publicado por Paulo Granjo às 06:08 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 22, 2008

Terra à vista

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foto Notícias

Com a diminuição das descargas de Cahora Bassa, a água vai baixando no Zambeze e a crise parece estar passada.

Volto a louvar o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, pela abordagem prospectiva e atempada da situação.
Comentava hoje um colega, de forma algo blasé, que são previsíveis as zonas que irão alagar. Sê-lo-ão, certamente; mas para transformar essa previsibilidade em resposta eficaz é necessária planificação, organização e competência.
No dia em que (dream on...) essas características passem a estar presentes, ao nível exigível, nas instituições públicas - aqui ou noutros países, incluindo as estruturas de protecção civil - deixarei de me sentir na obrigação de as louvar.

A partir de agora, lá voltará o pessoal a casa - nuns 20.000 casos, segundo as estimativas iniciais, a reconstruir.
Voltarão também as polémicas citadinas acerca da suposta "burrice" e "casmurrice" das populações zambezianas.
Depois de cada cheia nesta zona, as instituições estatais costumam dar apoio em cimento, chapas de zinco e comida, a quem construa casas em alvenaria nas zonas altas. As pessoas têm, pelo seu lado, que fazer os tijolos e construir, o que não é complicado face às tipologias de habitação e aos saberes existentes.
Acontece que grande parte das pessoas costumam receber os materiais e ir construir em zonas alagáveis, apesar das acções de sensibilização.
Para alguma gente discutindo o assunto na poltrona da sua sala, afinal, «eles (e/ou os respectivos régulos) estão mesmo a pedi-las».

É esquecer, para além das razões simbólicas e micro-políticas, uma coisa simples: Sobretudo para populações ribeirinhas, porque é que se havia de partir os rins a cultivar terras secas e pouco férteis, quando estão ali disponíveis terrenos de aluvião, já bem conhecidos?
Depois, já mostrava Adolfo Yañez -Casal, no seu livro Antropologia e desenvolvimento : as aldeias comunais de Moçambique (aqui), quando uma pessoa se desloca a pé para fazer trabalhos agrícolas, a distância é uma variável essencial da racionalidade económica. A partir de certa altura, o tempo gasto na ida e vinda à machamba torna-se contraproducente. Ou seja, cultivar à beira rio implica não morar a grande distância da margem.

Com tanto dinheiro correndo para tantos estudos (quer os das sucessivas "modas" academico-oénegéticas, sempre repetitivos entre si, quer os mais absurdos que imaginar se possa), talvez fosse esse o estudo que realmente valesse a pena: como resolver este problema, a contento da segurança e das necessidades das populações?
Talvez se viesse a ver que alguns saberes antigos, como a dupla residência sazonal, mereceriam ser recuperados. Ou talvez se descobrisse, entre as pessoas, o germe de novas soluções.

Publicado por Paulo Granjo às 09:36 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 20, 2008

Tragédia das calamidades

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foto Savana

Fui hoje almoçar a uma conhecida esplanada de Maputo, que parece concebida para fazer com que os sul-africanos de origem europeia se sintam em casa.
Excepcionalmente, para um domingo de verão, não havia muitos representantes dessa digna e autoproclamada tribo africana. Em compensação, na mesa ao lado terminavam a sua refeição 3 italianos e 2 franceses.
Chegada a (sua ) hora do whisky e da cigarrilha, começaram a discutir com alguma gulodice, primeiro nas suas línguas respectivas e depois em inglês, all together, a quantidade de fundos que as suas conhecidas e respeitadas ONGs iriam conseguir angariar, «para depois das águas baixarem».
Que fique claro: aqueles homens não estavam a discutir (ao contrário do que noutras vezes ouvi abertamente a outra nacionalidade, acerca de outros assuntos) quanto dinheiro iriam conseguir meter no próprio bolso. Quanto a isso, suponho, bastar-lhes-ão os salários hiper-inflaccionados e o nível de vida que nunca poderiam ter nos seus países respectivos. A questão era dinheiro para projectos dirigidos pelas suas organizações.
A certa altura, um mais novato ou ingénuo disse algo que todos estavam carecas de saber e de ter em conta: «Depende muito da forma como o problema for apresentado nos media europeus».

No sentido original da palavra (grego e dramatúrgico), há uma tragédia com as calamidades, talvez também em muitos outros sítios, mas certamente aqui. A sua origem está no facto de, tirando as vítimas directas, quase toda agente beneficiar com elas.
O governo ganha mais fundos internacionais e mais tolerância para com o incumprimento de compromissos ou metas assumidas (tem apenas que gerir com cuidado a intervenção de ONGs e organizações internacionais, ou depois é difícil livrar-se da sua presencça no terreno).
A todos os níveis da administração, há quem ganhe com a abundância de meios financeiros e materiais ali à mão de semear, em alturas de confusão que justificam todas as discrepâncias entre o recebido e o utilizado no terreno.
Nos bairros populares, ainda hoje famílias pobres mas com alguma capacidade de pequeno investimento vivem da revenda à peça de "fardos das calamidades" oferecidos para as vítimas das cheias de 2000 e seguintes, mais tarde vendidos em leilões oficiais ou por quem então os desviou.
Os seus ainda mais pobres clientes têm com isso acesso a peças básicas de vestuário a preços comportáveis.
As ONGs reforçam os seus meios, conseguem sustentar e justificar as suas pesadas e caríssimas estruturas (caras não apenas com estrangeiros; para que não roube, paga-se a um contabilista local um salário líquido de 3.000 dólares, num país em que o salário mínimo é de uns 65), podem apresentar relatórios quantitativamente impressionantes e capazes de escamotear a ausência de resultados ou efeitos preversos por que, na maioria dos casos, se costuma pautar a sua acção corrente - e, afinal, legitimar a sua existência e custos.

Mas, para isso, uma boa calamidade é, como desnecessariamente salientava o novato da mesa ao lado, uma calamidade grande e descontrolada.

Pergunto-me se será por isso, ou por mera avidez mediática pelo sangue, que as primeiras reportagens internacionais foram factualmente erradas e, aparentemente, tão exageradas.
Pergunto-me se será por isso, ou por previdência em relação ao possível evoluir da situação, que, com uma previsão inicial (e aparentemente pessimista) de 90.000 vítimas, chegou ao porto da Beira comida para 250.000 pessoas.
Pergunto-me se será por isso que os números de evacuados flutuam tanto e que, somando os números de todos os campos de reassentamento mencionados nos media, se fica tão longe dos 63.000 oficiais.
Pergunto-me se será por isso (e pelo parágrafo anterior) que se fazem grandes parangonas com a suposta instigação dos régulos (assim, no generalizado) ao abandono dos campos de reassentamento e regresso a zonas alagadas, quando é apenas mencionado um caso, numericamente irrelevante.

Neste quadro, também, espanta-me que um vice-director do INGC responda aos media que os meios disponíveis ainda são suficientes, quando o seu governo acabara de conseguir, de estados estrangeiros, que o orçamento de combate a estas cheias venha a subir de 3,2 para 32 milhões de dólares.
Honestidade? Ingenuidade política da parte de alguém que raciocine essencialmente como técnico?

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janeiro 19, 2008

Voltemos ao que interessa

Zambeze.JPG
foto Savana

Uma morte é uma desgraça absoluta. Sete mortes, são 7 desgraças absolutas - e tudo o mais se torna contabilidade.
No entanto, no meio das confusões mediáticas acerca da cheia actual (desde a cidade de Tete submersa, inventada pela BBC, à încongruência de números e à sensação de quase rotina transmitida em jornais moçambicanos), há uma coisa que se vai tornando evidente e muito me agrada salientar:

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades parece dispor dos meios suficientes para lidar eficientemente com a situação e estar a abordá-la da forma mais correcta. As intervenções e as evacuações estão a ser sobretudo preventivas, prospectivas e atempadas - ou seja, estão a ser feitas antes de a ameaça sobre cada zona específica se transformar em alagamento e em pessoas sob perigo imediato, ou a flutuarem mortas sobre as águas.

É uma questão de opção estratégica, bom senso e organização.
Numa frase que deve ter deixado arrepiados os negociantes das calamidades e os sôfregos de "ficarem na fotografia" com tragédia alheia em pano de fundo, o director do referido Instituto declarou que «a nossa aposta de momento é evitar uma catástrofe humanitária». Antecipando-se a ela, acrescentaria.
Embora seja essa a sua obrigação, aplaudo entusiasticamente (até pelo facto de os poderosos terem obrigações não querer dizer que elas sejam cumpridas, e muito menos com eficiência) e fico satisfeito, pelas pessoas afectadas.

Confesso a minha curiosidade em, qualquer dia, conhecer este homem. Cheira-me que se preocupa bastante mais em estudar os dossiers, planificar e rodear-se de colaboradores competentes do que em pavonear sinais exteriores de poder. A ser esse o caso, espero que uma atitude tão contrastante não lhe venha a trazer dissabores.

Publicado por Paulo Granjo às 05:57 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 16, 2008

Novo record

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33 graus dentro de casa.

Como é que vocês querem que eu escreva alguma coisa inteligente ou interessante, para aqui ou para outro lugar?

Publicado por Paulo Granjo às 12:45 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 10, 2008

Aviso à navegação


Não sei porquê, mas os últimos posts não foram afixados aqui, mas apenas nas categorias.
Como esses e quase todos os seguintes deverão aparecer na categoria "Moçambicando" (veja-se lá no final da página), mais vale ir lá dando uma olhadela, quando visitarem este vosso criado.
Abraços,

Publicado por Paulo Granjo às 05:37 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 09, 2008

Dilema alimentar

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Preparava-me eu, ontem, para grelhar este colorido peixe-papagaio quando me assaltou a dúvida:

Como-o ou emolduro-o?

Publicado por Paulo Granjo às 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 04, 2008

Tempestades e feitiços

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Estava eu, ontem à noite, a fazer o passeio do xi-xi com a cadela quando se viu um vago relâmpago muito ao longe, sem sequer se ouvir trovão. Chegou, no entanto, para começarem a cair umas pinguitas de água e, talvez um minuto depois, uma chuvada monumental. O costume.
O que não era costume foi chegar, fugindo à chuva, e encontrar fechada a porta exterior do edifício onde vou habitando.
Cadê o guarda, que é a única pessoa a ter essa chave? Batendo desesperado à porta, encharcado que nem um pinto, espreitei pela adjacente parede de tijolos ocos "decorativos" e lá descortinei essa instituição local. Encolhido, tentava esconder-se atrás da porta.
Foi preciso apelar à minha esquecida voz de ex-oficial de artilharia e berrar, em desespero: «Abra a merda da porta, seu caralho!»
Atabalhoadamente, abriu e balbuciou qualquer coisa. Tinha acumulado 3 cadeiras de plástico contra a porta, como num filme de desenhos animados.

Qualquer pessoa que conheça um pouco da escrita etnográfica acerca desta parte do mundo perceberá logo este terror por uma tempestade, mesmo tão distante, e as quase infantis medidas de protecção. O nosso bom guarda terá feito ou encomendado um feitiço qualquer e, como tal, tornou-se o alvo preferencial dos raios e das ameaças espirituais tempestuosas.

Suponho que muitos leitores, incluindo colegas, achem este incidente do quotidiano muito exótico, interessante e excitante.
A mim, molhado até aos ossos e sabendo o que a casa gasta, só me ocorreu pensar: «Santa paciência!...»
E, depois, resmungar entre dentes um pouco caridoso «Rai's partam!»

Publicado por Paulo Granjo às 07:40 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 01, 2008

Bom 2008!


Macaneta.JPG

Ano velho: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.
Ano Novo: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.

Mas alguma coisa esperamos, sempre, que mude.
Que, para todos vocês, mude para melhor.
Nós, por cá, todos bem.

Publicado por Paulo Granjo às 11:02 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 22, 2007

Não estamos sós

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Haverá quem diga que é por ser África.
Mas, mesmo passando ao lado do facto de essa vaga ideia de "África" corresponder a uma realidade enorme e mais diversificada do que a Europa, creio que poderia acontecer em qualquer cidade onde, no meio dos prédios, reste algum terreno vago e vegetado. Nem sequer baldio (que aqui não é, mas de culturas); apenas vago.
Chegada a noite, chega também uma vozearia de grilos, cigarras e sapos que, junto com outras bichezas mais discretas, não há como ignorar.
Fumando o cigarrinho na varanda das traseiras, não é sequer um pensamento. É uma evidência tão natural que apenas é capaz de surpreender um pouco, por contraste, quando nos lembramos dos nossos velhos hábitos de bichos urbanos: Não estamos, de todo, sós.

Publicado por Paulo Granjo às 08:15 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 14, 2007

«Gracias a la vida

Um discurso de agradecimento é um discurso de agradecimento, dirão muitos de vós. É uma coisa que, com mais sinceridade ou mais formalismo, pouco adianta e pouco atrasa.
Talvez.
Mas transcrevo aqui, em "continue a ler", o discurso de agradecimento do Prémio Sedas Nunes 2007 porque, de facto, me sinto agradecido às entidades mencionadas - sejam elas pessoas, o ensino público, instituições ou perspectivas daquilo que vale a pena fazer no trabalho científico.

Continue a ler "«Gracias a la vida"

Publicado por Paulo Granjo às 09:18 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 04, 2007

Estão todos convidados

entrega PSN.JPG

Para quem não sabe, o ICS fica numa rua sem saída com o pomposo nome de Av. Prof. Aníbal Bettemcourt, que parte de Entre Campos, entre o edifício dos serviços da Câmara e a Biblioteca Nacional.
Bem vindos!

Publicado por Paulo Granjo às 07:13 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 27, 2007

Boas notícias também são notícia

A minha filha gosta de histórias com final feliz.
Eu gosto de boas notícias. Não para imaginar o mundo mais cor-de-rosa. Por si só, pelo prazer de saber que aconteceram.

É bom saber que, conforme informa o Público de hoje, os habitantes do prédio de Setúbal cujos últimos andares rebentaram há uns dias estão a ser tratados adequadamente, com uma eficiência da parte da Câmara, do Governo Civil e (pasme-se!) das seguradoras que só lhes dão razões para dizer bem dessas instituições e empresas. É muito bom saber que, atingidas por um acontecimento que ninguém deseja para si, foram rapidamente asseguradas a essas pessoas as condições que sempre deveriam ser disponibilizadas em casos afins.

É menos bom que a razão para que isso seja notícia não derive do facto de a coisa ter acontecido, mas sim de os acontecimentos corresponderem à história do "homem que mordeu o cão".
Mas também nisso se descobre uma grande vantagem de notícias como esta: para além de nos permitirem louvar quem fez bem a sua obrigação (mesmo que fosse essa a sua obrigação), lembram-nos e demonstram-nos que não são "naturais" a incompetência, a desorganização, o desleixo ou o estar-se nas tintas, quando se assumiram responsabilidades públicas.
Nesse sentido, fazer bem o que deve ser feito torna-se em mais do que uma obrigação ou um exercício de competência. Torna-se um manifesto e uma exigência aos restantes poderes públicos.

Publicado por Paulo Granjo às 02:49 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 25, 2007

esta semana 3 - Regulações, proibições e purezas

Quem hoje lesse as crónicas de António Barreto e de Vasco Pulido Valente no Público, e lhes juntasse o conhecimento deste modesto e quase confidencial blog ("Linchem-se os Impuros", a 8 de Abril de 2007) era bem capaz de pensar que o ICS está cheio de perigosos libertários, em conspiração contra a santa obra de, regulando o que consumimos, fazer de nós pessoas mais puras e melhores.

Descansem os poderes instituídos. Não é assim. São por lá mais aqueles que acham que o meu cigarrinho, fumado à distância, lhes faz pior à saúde do que o fumo do seu carro faz à minha.

Mas dêem uma olhadela nessas crónicas. A do VPV nada adianta ao que já escreveu sobre o assunto; mas a do AB é assustadora, na mera enunciação do que tem vindo a ser proibido e na implícita sugestão de uma segunda razão para isso.

Publicado por Paulo Granjo às 06:33 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

esta semana 2 - Vasco X Miguel (Round 3)

Chegou-se ao 3º assalto do combate entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares.
4 páginas do primeiro no Público, desancando o mais recente livro do segundo, com base em argumentos de ignorância histórica e de pinderiquice de escrita.
Das luvas de boxe e eventual florete, passou-se agora à artilharia pesada, sem se poder sequer alegar que o homem não leu o livro.

O que se seguirá? Insultos às mãezinhas? "Revelações" pessoais que meio mundo já conhece? Um não metafórico duelo ao pôr-do-sol?
A malta vai acompanhando e curtindo.
Ele há ódios de estimação que são quase um serviço público.

Publicado por Paulo Granjo às 06:21 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

esta semana 1 - Sentença (in)Sana

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Fiquei tão embasbacado que preferi esperar para ver. Viu-se mais alguma coisa, mas o essencial manteve-se.

Há juízes capazes de considerar justa causa para despedimento (ou não renovação de contrato) de um cozinheiro o facto de ele ser seropositivo, com base na opinião tipo "eu cá acho que..." de médicos assumidamente não especialistas da matéria, um deles numa situação de conflito de interesses, e ao arrepio do que é consensual em termos científicos.
Mais: aplicando o princípio precaucionário de forma pioneira na jurisprudência portuguesa, considera que o caso "não tem a ver com riscos conhecidos, mas com a possibilidade desses riscos" - princípio que, sabe-se lá, talvez comece a ser aplicado aos campos electromagnéticos, às empresas potencialmente poluidoras ou perigosas e, talvez, à venda de automóveis, que apresentam sempre a "possibilidade do risco" de rupturas mecânicas ou avarias electrónicas casuadoras de acidentes, possivelmente mortais.

Embora nunca tenha acontecido, é de facto imaginável que um cozinheiro seropositivo se corte, derramando, sobre uma saladinha, sangue em quantidade suficientemente copiosa para contagiar alguém e que, sem que ninguém dê por isso, o dito acepipe seja servido em tempo recorde a um cliente cego e sem olfacto, de tal forma que o virus ainda esteja vivo quando o tal sangue lhe toca na ferida que tem na boca.
É curioso, no entanto, que este zelo precaucionário só se aplique a indivíduos fragilisados, e nunca aos grandes interesses económicos.
É curioso, também, que juízes prefiram acolher opiniões de mesa de café que confirmem os seus medos e idiossincrasias do que pareceres especializados que as contrariem.

Veio-se a saber mais tarde que, afinal, no julgamento original não tinham sido apresentados pareceres especializados, mas impressa da internet a informação disponibilizada pela agência estatal norte-americana que se dedica à prevenção e controle de doenças. O que mostra que, até para restabelecer a mais elementar justiça, é preciso ter dinheiro para pagar um advogado minimamente competente.
Quanto ao recurso para a Relação, o tribunal jura a pés juntos que não foi pedida a revisão dos factos dados como provados (que o tal senhor é seropositivo e que pode transmitir a sua situação, para além de pela saliva, pelo sangue, suor e lágrimas!) enquanto a outra parte jura que foi para esse efeito que, agora, se anexaram pareceres de especialistas.
Ou alguém mente, ou há incompetência mútua - pois, mesmo que seja verdade que o essencial não fosse pedido pelo advogado, que juízes são esses que têm entre mãos provas claras de que os "factos provados" não podem ser provados e olham para o lado?

Que respeito público esperam e julgam merecer, quando já são a única actividade em que uma declaração oficial de incompetência técnica (o provimento de um recurso, por verificação de erros processuais) não tem quaisquer consequências sobre a capacidade de exercer a profissão?

Publicado por Paulo Granjo às 05:07 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 23, 2007

Mais um livro que vale a pena


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Peguei nele mal voltei do lançamento, ontem, mas não quiz embandeirar em arco antes de lhe ler uma boa parte.

É uma selecção actualizada de artigos da Luísa Schmidt no Expresso que, todos juntos, nos dão um impressionante quadro global deste país e do que lhe andamos a fazer. Com a qualidade, o rigor, a acutilância e o humor do costume.

Recomendo vivamente!

Publicado por Paulo Granjo às 10:08 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Reflexões ociosas - 1

O problema dessa ideia caridosa de que o ridículo mata é que, normalmente, as potenciais vítimas mais merecidas não percebem a ironia (ou mesmo o sarcasmo) quando lhes é aplicado. Só se as coisas lhes forem ditas mesmo à bruta.

Publicado por Paulo Granjo às 01:15 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 13, 2007

O dia de todos os químicos

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Em Leça da Palmeira, umas explosões e fogo.
Não se sabe, nem interessa muito, a fonte de ignição. Interessa que havia uma concentração exagerada (como se provou) de hidrocarbonetos nos drenos e numa ETAR.
Por alguma purga de emergência, plausível após paragem de manutenção? Por uma também plausível acumulação de produtos em resultado dos próprios trabalhos de manutenção geral? Uma ou outra, agravada pelo deficit de atenção e cuidado que, um pouco por todo o mundo, costumam merecer os equipamentos que vão ser "passados à reforma"?
Talvez. E talvez até se venha a saber, mesmo que tais coisas venham a ser apresentadas como "normais", porque de facto são estranhamente "normais" nas cabeças de quem tem que pôr uma refinaria a funcionar depressa.

Para os lados de Aveiro, um desgraçado mandou um espirro mais forte e espalhou um camião de soda cáustica pela A1 fora...

Perto de Portalegre, uma ultrapassagem optimista cobriu a EN371 de ácido para trabalhar resinas e PVC.

Bem mais longe, o Mar Negro está negro de petróleo, depois do acidente de um navio que deveria estar proibido de navegar.

Uma ocasião para, sem alarmismos nem cabeças de avestruz, pararmos um pouco para pensar na nossa segurança, na do nosso país e na do nosso planeta (se é que não são uma só)?


Publicado por Paulo Granjo às 12:27 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

A Maldição da Cadeia 161

O Miguel Portas atou-me para sempre, aqui, à demoníaca Cadeia 161. Uma citação qualquer, de um livro qualquer, desde que da página 161.

Isso já me custou abrir a garrafa de sake que tinha amorosamente trazido (e guardado) de um bairro japonês numa cidade sul-americana, e descobrir que grande parte das minhas estantes anseiam pela visita de um espanador.

No livro que mais releio, um tal de Coronel Aureliano Buendia está, a páginas 161, letárgico com uma guerra civil que não adianta nem atrasa, respondendo ao anúncio da visita de uma delegação do seu Partido Liberal com um lapidar «Levem-nos às putas». Tem piada e algo mais, mas não sei se será a melhor citação para as gerações vindouras.
O poema que mais digo e recordo está num livro de menos de 161 páginas, tal como se fica pelas 126 o Corto Maltese en Sibérie que o transcreve entre imagens belíssimas.

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Inspiração divina! O Arranca Corações, do Boris Vian, tem exactamente 161 páginas impressas!
E na última diz,

«Devia ser maravilhoso estarem assim todos juntinhos, com uma pessoa para os acarinhar, assim dentro daquela gaiolinha tão quente, tão cheia de amor.»

São os tempos que correm, não?

Passo a bola às vítimas seguintes: Rogério Moreira, Miguel Cartaxo, Karin Wall, Cristiana Bastos e José Flávio Teixeira.

Publicado por Paulo Granjo às 12:42 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 09, 2007

90 anos da Revolução de Outubro

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Pois é. Foi anteontem mais um aniversário da Revolução de Outubro. Este, com um número bem redondo.
Assoberbado de trabalho por dois acontecimentos inadiáveis (um dos quais acabou por ser, à última hora, adiado por terceiros), não deu para um post digno e atempado.
Fica aqui a minha curta e modesta contribuição para as comemorações, antes que passe de todo a ocasião:

Disse um icone do século XX que «o primeiro dever de um revolucionário é fazer a revolução».
Acrescento que o segundo dever de um revolucionário é, saindo vitorioso, assegurar as condições de livre e efectiva oposição ao seu poder. A bem da revolução.

Publicado por Paulo Granjo às 09:35 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 07, 2007

Orçamento de quê?


E o previsível aconteceu.
Bastaram duas ou três fáceis frases assassinas para estilhaçar o mais vasto e desprotegido telhado de vidro da política portuguesa e reduzir a nada o mais surrealista dos nossos ex-primeiros-ministros.
Com isso, lá brilhou mais uma vez o novo rei da governação casmurra e autoritária, conseguindo mais uma vez disfarçar a inépcia governativa maquilhada de competência tecnocrática.
Entrementes, Louçã acabou por revelar, numa tentativa de piadinha com bastantes mais interpretações do que ele desejaria, o papel da restante oposição em todo este embróglio: o de meros espectadores que deram o dinheiro dos bilhetes por mal empregue.

Cada vez mais suspeito que Luís Filipe Menezes anda a manipular a imagem de ingenuidade, que lhe ficou do célebre episódio dos "sulistas, elitistas e liberais", para poder traçar em paz estratégias maquiavélicas.
Cada vez mais suspeito que este esperado suicídio/homicídio de Santana Lopes o tem como autor moral.

Publicado por Paulo Granjo às 09:55 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 04, 2007

Lisboa futurista em saldo

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Em Junho, a propósito do túnel do Marquês, fiz por aqui uma referência às aventuras de Filipe Seems.
Na altura, não consegui descobrir o primeiro album (o mais belo), "desaparecido em combate" na casa de um dos meus cunhados.
Reencontrei-o agora, em saldos da própria editora.
Para quem não conhece, convenham que, por 3 euros, vale a pena arriscar.
Eu, aconselho vivamente.

Publicado por Paulo Granjo às 11:13 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 03, 2007

A infância da literatura

Parámos hoje, a família e eu, numa dessas nobres e úteis inovações que são os cafés dentro de livrarias.
Íamos à procura de um livro chamado "A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça" pelo que, como imaginam, este não era um daqueles dias dedicados ao que os nossos pais e avós decidiram chamar, entre petulância e reverência, alta cultura.
Mas estávamos nós face às bicas, ao leitinho com chocolate e às torradas quando se iniciou, uns metros ao lado, a enésima (segundo percebi) divulgação de um livro de contos lançado há meses atrás.
O aspecto adolescente serôdio do autor (reforçado pelo do editor, que salientava a qualidade da escrita e a aposta ganha, visto que o livro estava quase esgotado) suscitou no meu coração quarentinho a expectativa da casual revelação de uma nova pérola literária.
A afirmação do contista de que o seu forte era escrever e não falar chegou depois de vários minutos de discurso que, se suscitavam dúvidas acerca da primeira parte deste seu statement, tinham tornado a segunda bastante evidente.
Confesso que, por essa altura, já o meu entusiasmo literário tinha esmorecido ao ponto de justificar, enquanto metáforas, as mais escabrosas piadas sobre disfunção eréctil de que se consigam lembrar. A curiosidade etnográfica, pelo contrário, crescia a olhos vistos. «Deve ser deformação profissional», pensei. «A tal de esquizofrenia cultural.»
Chegado ao fim da sessão, fiquei a saber que só por acidente bem involuntário poderei vir a descobrir se, afinal, o forte do homem é mesmo a escrita. Mas também acabei por aprender várias coisas.
Que o contista começou a escrever para concursos do jornal da escola secundária e que, como os ganhava com frequência, achou que se calhar até tinha jeito e valia a pena fazer umas coisas para um livro.
Que os amigos, sabendo que escreve contos, lhe perguntam se escreve para crianças e que, perante a sua negativa, assumem que o tema é o sexo - o que o escandaliza acerca da visão que as pessoas têm desse nobre género literário.
Que os contos se escrevem sem dor, pois a sua principal característica literária é terem duas ou três páginas.
Que considera uma crítica dizerem-lhe que os seus escritos têm interpretações diferentes em leituras diferentes, mas que prefere escrever complicado em vez de simples, pois quando se escreve simples as pessoas percebem logo e ninguém volta a ler.
Juntando isso com a informação do editor acerca do sucesso da obra, fiquei a saber muito sobre o autor, os seus amigos e os consumidores de escrita.
E também que ou o mundo está a ficar parvo ou eu estou a ficar velho.

Publicado por Paulo Granjo às 09:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 28, 2007

Afinal, o Salgado é bom

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Fiquei muito mais descansado ao ler o Expresso de hoje.
Afinal, o Miguel Sousa Tavares, que quando director da Grande Reportagem achava o Sebastião Salgado uma porcaria facilitista que nem sequer tinha visto na Serra Pelada (que o próprio grande jornalista e romancista visitou, fotografou e filmou) as cores, a alegria e a dignidade, gostou do novo livro do tal homem, África.

Estou certo que o Sebastião Salgado também ficou mais descansado.
Deve ser um alívio, para um gigante, saber que um anão deixou de o considerar baixinho.

Publicado por Paulo Granjo às 12:32 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 24, 2007

Prémio Sedas Nunes de Ciências Sociais - 2007

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Parabéns, Irene Pimentel.

Publicado por Paulo Granjo às 03:15 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

outubro 21, 2007

Reservem a quinta-feira

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Um seminário no ICS (a Entre-Campos, na primeira paralela à Av. das Forças Armadas), a que todos os interessados são bem-vindos.

Continue a ler "Reservem a quinta-feira"

Publicado por Paulo Granjo às 12:34 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 20, 2007

Que saudades que eu já tinha...

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Depois de arranjada e recuperada, pronta para venda, voltei à minha anterior e humilde casinha.
Acompanhado pela competencia fotográfica do Agostinho e com o gozo do Miguel a ressoar nos ouvidos: "As tuas casas só ficam au point quando sais delas para a seguinte..."
É. Antes, a sofreguidão da mudança é demasiada. Durante, há sempre qualquer coisa mais urgente para viver do que pintalgar caixilhos.
Agora, aquela luz a entrar pelas janelas sala dá-me vontade de por lá ficar.

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A passagem pelas Portas do Sol, com o seu hierático São Vicente e o Tejo em frente, lembra-me que era aí que lavava os olhos todas as manhãs, antes de ir trabalhar. Saudades, de novo.

E os esconsos do quarto da miúda lembram-me todas as brincadeiras da altura em que mais cresceu.

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Estou balhelhas, talvez. Ou saudosamente bacoco. Mas, se pudesse, nunca largaria esta casa.

Resto da reportagem em "continue a ler".

Informações para eventuais interessados em paulogranjo@yahoo.com.

Continue a ler "Que saudades que eu já tinha..."

Publicado por Paulo Granjo às 11:41 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 19, 2007

Birmânia 2

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Queixam-se os generais da Birmânia que a culpa é toda dos monges budistas.
Se eles tivessem ficado sossegadinhos nos conventos, em vez de virem para as ruas com a população atrás, os pobres homens não teriam sido obrigados a matar e a prender manifestantes.

É bom que alguém fale assim.
Quando temos ataques de complacência para com tiques autoritários, dissecando o grau o contexto e outras minudências, discursos destes sempre nos lembram que, como dizem os franceses, nestas coisas do poder o apetite cresce à medida que se come.

Publicado por Paulo Granjo às 02:02 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

É obra!

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Na eleição para líder parlamentar, o homem conseguiu perder os votos de 30% dos deputados que ele próprio tinha feito eleger, quando era líder partidário.

Ele há vocações que não se podem perder!

É obra!

Publicado por Paulo Granjo às 11:10 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Representatividade e Participação

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in Público de hoje

Escrevia-se aqui, já há alguns aninhos e a partir de uma extensa investigação, que os trabalhadores - estivessem mais críticos ou moderadamente satisfeitos em relação à forma como os sindicatos actuavam - cada vez menos se disponibilizavam a participar neles, embora os considerassem seus representantes e considerassem essa representação e defesa laboral um direito que lhes assistia, enquanto trabalhadores e cidadãos. Como um serviço público. Da mesma forma que se considera um direito ter escolas, hospitais, esgotos, policiamento e segurança social.

Com essa visão institucionalizadora por parte das pessoas, concluíamos, a própria noção clássica de representatividade sindical (com base na "contagem de espingardas" do número de sócios) era anacrónica, pela grande decalage entre quem aceita participar e o conjunto de todos aqueles que se consideram e exigem ser representados. Seria mais lógico pensar acerca da representatividade sindical de uma forma algo semelhante àquela que está subjacente às eleições primárias norte-americanas - não em função de uma filiação formal, mas em função do reconhecimento, por cada indivíduo, de uma representação preferencial.
Nada me indica que a situação se tenha alterado de forma significativa, nestes últimos anos.

Mas isto também quer dizer que, quando as pessoas participam e o fazem massivamente, essa participação é muito mais significativa (acerca da situação vivida e do seu descontentamento em relação a ela) do que nas alturas em que participar seja considerada uma coisa normal - como era, por exemplo, há uns 30 anos atrás. A excepcionalidade do acto demonstra a excepcionalidade do grau de descontentamento.

Poderá o nosso Primeiro querer ver em manifestações de descontentamento meras manipulações partidárias, e afirmá-lo publicamente de forma serôdia. Mas isso só o fragiliza e projecta uma imagem de odioso - não tanto junto dos manifestantes, mas sobretudo daqueles que não o foram.

Publicado por Paulo Granjo às 10:18 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Quartel-General em Abrantes

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in Público de hoje

Resolvidos os pesos relativos dos governos, resolveu-se a governância a curto prazo da instituição.
Falta resolver a democratização a partir do voto directo e o que é e deve ser o projecto europeu.
Mas não faz mal. Os governos e os burocratas pensam por nós.

Será que me estou a tornar federalista?

Publicado por Paulo Granjo às 10:04 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 16, 2007

Mestrados e Bolsas

Far Side.jpg

Começa hoje o II Mestrado de Antropologia Social e Cultural, lá no ICS.

Junto com os restantes alunos, deveriam estar dois assistentes universitários, que tiveram as melhores médias de sempre na licenciatura de antropologia da Universidade Eduardo Mondlane.
Não estão, porque a bolsa paga pelo IPAD (cooperação portuguesa) não lhes foi atribuída, pois o Ministério da Educação moçambicano, que gere e canalisa os pedidos, alegou que tinha passado o prazo.

Acontece que a sua aceitação como mestrandos foi feita excepcionalmente cedo, para que não existissem problemas desse tipo, mas só poderiam cobrir o prazo de candidatura, em qualquer universidade normal, se se candidatassem já para o ano seguinte.
Acontece também que, em conversa com bolseiros estudando em Portugal, com bolsa do Estado português, pude concluir que conseguiram obtê-las tendo "cunhas" no Ministério da Educação moçambicano, ou torneando o sistema através de formas lícitas, mas que não citarei.

Compreendo que a cooperação entre Estados não deve marginalisar um desses Estados. Mas, assim, talvez seja o Estado português a ficar marginalizado do processo, a não ser como pagador.
Compreendo que, noutros tempos, o Estado moçambicano queria controlar os seus quadros e respectivo regresso, estando uma simples viagem de férias dependente de várias autorizações estatais. Mas os tempos são, a esse respeito, felizmente outros.
Compreendo que a actual tendência de "bypassar" os Estados, para canalizar as "ajudas" e projectos directamente para os supostos beneficiários, tem custos e efeitos preversos sobre a governância estatal.
Mas isto cheira suficientemente mal para exigir um reequacionar dos procedimentos.

Publicado por Paulo Granjo às 11:10 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 14, 2007

Antropologia Militar, ou Militarização da Antropologia?

afeganistao.jpg

(Soon, the English version will be available, clicking in “continue a ler”)

João Pina Cabral, uma referência para mim e muitos outros antropólogos, chamou a atenção de vários colegas para este artigo aqui, acerca da utilização de equipas de antropologia por parte das tropas Norte-Americanas no Afeganistão.

É óbvio que os tempos mudaram desde a II Guerra Mundial, quando houve antropólogos com lata para explicar o “comportamento sádico” dos soldados japoneses com base no seu precoce treino de bacio, ou o “carácter maníaco-depressivo” dos soviéticos (e mesmo as purgas estalinistas) com base no hábito rural de enfaixar os bebés.
No entanto, olhando para algumas tarefas desempenhadas pelos antropólogos mencionados no artigo, já não estou tão certo de que os tempos tenham mudado assim tanto desde os estudos de Jorge Dias acerca dos Maconde, naquele mesmo planalto de Mueda onde a guerra de libertação moçambicana iria dentro em pouco começar. A monografia resultante desses estudos é bastante interessante, mas confesso que aguardo com mais curiosidade o dia em que se tornem públicos os seus concomitantes relatórios para a PIDE – segundo parece, mais substanciais em tamanho e conteúdo.

Devo dizer que, em abstracto, nada tenho contra a prática de antropologia aplicada – tendo essa posição pouco a ver com o facto de ela já ter sido o meu ganha-pão durante alguns anos.
Afinal, a produção de conhecimento nunca é inócua, a menos que ele seja socialmente irrelevante. A partir do momento em que o conhecimento é divulgado, está disponível para manipulação por parte de quaisquer entidades nele interessadas, tendo tal acontecido de forma sistemática e para efeitos tão diferentes como acções emancipadoras, dominações coloniais ou mesmo genocídios.
Sendo assim, porquê deixar a pessoas ou grupos com interesses parciais (e que normalmente apercebem de forma também ela parcial e simplificada as análises e dados antropológicos) o monopólio da aplicação prática desses conhecimentos? Não estarão as pessoas que os produziram em melhores condições epistemológicas e éticas para condicionar esse uso?

Também nada tenho, em abstracto, contra a profissionalização da antropologia.
Confesso mesmo que, por muito que os respeite, tenho uma enorme dificuldade em compreender os argumentos que se opõem à antropologia como profissão, quando os olho de uma perspectiva que extravase o microcosmos académico.
É claro que é socialmente importante, por si só, a existência de uma disciplina científica que equacione a humanidade e os fenómenos sociais na sua diversidade, unidade e nuances, nas suas continuidades e rupturas. É claro que, sobretudo na actualidade, seria óptimo que todas as crianças pudessem, na escola, ter contacto com essa tecnologia de pensamento e essa forma de questionar o mundo.
Mas quem cursa uma licenciatura de antropologia estuda-a para vir a fazer antropologia, não para se formar a si próprio como cidadão mais consciente, ou para exercer de forma mais completa outras profissões, que também elas requerem formação especializada.
Para além disso, pude verificar por experiência própria (e não apenas por wishful thinking), tanto na prática de antropologia “pura” como de “aplicada”, que a sua utilidade social é bem real, que existe espaço para antropólogos fora da academia e que ele deve ser colmatado.

Colmatado da forma que esse artigo nos dá a conhecer?
Isso já é outra conversa.

Mesmo na ocupação do Afeganistão, o envolvimento da antropologia não é novo. Por exemplo, há já um bom par de anos que os meus amigos Alex (antropólogo) e Gielt (cientista político) ensinam, a soldados holandeses a caminho de lá, coisas tão básicas como que um afegão que não nos olha na cara não está necessariamente a esconder alguma coisa mas a ser bem-educado (e que deveremos fazer o mesmo ao falar com ele), que ao perguntar-lhe por talibãs ele identificará todas as pessoas que sabem ler e escrever, ou que normalmente nos fornecerá, como número de habitantes de uma aldeia, um valor redondo que corresponda à sua noção de “poucos” ou de “muitos” e que, se não o fizer, contabilizará apenas os chefes de família. Isto, claro, a par de outros particularismos culturais, cujo conhecimento poderá evitar bastantes asneiras.

Não deixando isto de ser uma manipulação do conhecimento antropológico por parte de forças de ocupação, é, no entanto, essencialmente diferente do empenhamento de antropólogos nessa mistura de engenharia social com “acção psicossocial” (que tão bem conhecemos das “nossas” guerras coloniais) retratada pelo artigo norte-americano.
Não estamos, nesse caso, perante uma Antropologia Militar (que estuda instituições e conflitos armados), mas perante uma militarização da antropologia, tal como foi acontecendo com a física, com a química, com a biologia, com a engenharia, com a economia, com a sociologia, com a psicologia e com as respectivas aplicações tecnológicas.
Mas a diferença é que, ao contrário de todas essas ciências e apesar de algumas escorregadelas que deu no passado, a antropologia partilha hoje um lastro de conceitos, princípios e valores que são contrários à sua aplicação bélica. Mesmo depois de ultrapassados os tiques de preservacionismo cultural, o seu ethos tem a ver com a compreensão, diálogo e respeito (não acrítico) entre grupos que se concebem como diferentes, não com a manipulação do “outro”, sob ameaça armada, para melhor o dominar. Até o envolvimento da antropologia com o colonialismo, feito apesar de tudo sob condições bem diferentes em grau e em qualidade, é objecto de uma generalizada e assumida crítica ética.

A ética, contudo, nunca é abstracta, absoluta e intemporal, por muito que filósofos a busquem como tal, há séculos. É, à imagem de tantas outras coisas, também o resultado de relações de poder e da negociação entre as interpretações valorativas e políticas de agentes sociais que estão situados em posições diferentes nessas relações de poder.

Que esse empenhamento de antropólogos "embedded" no exército dos Estados Unidos possa salvar vidas e facilitar o trabalho de ocupação, não tenho dúvidas.
Que, num tempo e num país que chamou “Patriot Act” a um conjunto de leis de excepção que limita fortemente os direitos de cidadania, essa actividade seja considerada de interesse nacional e um dever patriótico pelas instituições e indivíduos nela envolvidos, tão pouco será de espantar.
Que isso é uma violação da antropologia tal como a vivemos e concebemos, é também certamente verdade.

Está para a antropologia da mesma forma que a produção da bomba atómica está para a física, com a agravante de que esta última não partilha o ethos humanista que nos atribuímos.

Publicado por Paulo Granjo às 08:10 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

El mondo loco

PSL.jpg

No início da actual guerra do Iraque, corria pela net uma piada mostrando que o mundo estava louco:

- O melhor cantor de rap era "branco"
- O melhor golfista era "negro"
- A Suiça tinha ganho as regatas da America Cup
- Os franceses acusavam os norte-americanos de arrogância
- A Alemanha não queria entrar numa guerra.

Portugal vai contribuindo para que não passe essa onda:

- Há pouco tempo, Santana Lopes deu uma lição de bom-senso!
- Agora, há quem o queira (no seu próprio partido, não no PS) para líder do grupo parlamentar do PSD...

Publicado por Paulo Granjo às 01:09 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 07, 2007

Ainda não foi desta

Lewis Hamilton.jpg

Mal acordei, corri para a internet, em busca da notícia que hoje queria receber da China: a vitória de Lewis Hamilton no Campeonato Mundial de Condutores, vulgo fórmula 1.
Não foi desta. Desistiu e fica a decisão adiada para um emocionante G. P. do Brasil.

O meu fascínio por automobilismo (e mais ainda, sabe quem me conhece bem, pelas 24 Horas de Le Mans) precisaria de um longo texto para ser explicado, se é que eu o conseguiria explicar.
A minha preferência por Hamilton - que, tenho reparado, partilho com muitos brasileiros em busca de um sucessor de Ayrton Senna nos seus afectos - é mais simples.

Teve uma carreira automobilística dirigida a dedo, mas todas elas o são, hoje em dia.
No caso dele, isso não o transformou num puto mimado, estupidamente inacessível e só abrindo a boca para dizer mal dos outros ou se queixar de desvantagens, para ficar ainda em maior vantagem.
Caloiro, sobrepõe-se em luta directa ao bi-campeão mundial que, digno sucessor de Schumacker ou Prost, só pensa em assegurar contractualmente todas as vantagens dentro da equipe e em ter colegas inócuos.
É, ainda, um rapazinho atrevido que, quando necessário, mostra que ultrapassar "no pulso" não é tão impossível como dizem.
Sobretudo, vi-o conduzir no G.P. de Mónaco (pela TV, claro, que o dinheiro não dá para mais) e há qualquer coisa especial na maneira como o faz. Sendo ela muito diferente, fez-me sentir um nível de emoções estéticas que me lembraram muito a visão de Senna.

Suponho que tudo isto é estranho e estúpido, para quem não partilhe a minha atracção por este peculiar desporto, tanto de máquinas quanto de pessoas. Mas é verdadeiro e genuíno.

Publicado por Paulo Granjo às 11:33 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 05, 2007

Galinha com um Grão na Manga

Mais uma história antropogastronómica, desta vez a pedido:
(Entre parentesis, também para essas coisas é que serve a caixa de comentários. Escusam de comentar, debater ou fazer pedidos por telefone, e-mail ou cara a cara; ao menos, aqui a coisa é partilhada com os outros.)

Em Moçambique, a manga está muito longe de ser um produto de luxo. Quase todas as espécies, que são muitas, amadurecem ao mesmo tempo, há muito por onde escolher e o problema dos felizes proprietários de mangueiras (que, para além de darem mangas, são árvores com uma sombra agradabilíssima) é, muitas vezes, dar-lhes vazão antes que apodreçam.
Foi numa altura dessas que, juntando a fartura à sua natural simpatia, o meu querido amigo Rafael da Conceição chegou a um almoço no Mercado do Peixe com o carro carregado de sacos de mangas para os colegas.
No dia seguinte, passando um olhar lanzeirento de fim-de-semana pela cozinha, só vi as mercearias do costume, uma galinha halal made in Brasil e uma pilha de mangas cheirosas, para onde olhava com ar guloso o cágado Futzo (passe a redundância, para quem saiba changana).
Da generosidade do Rafael e da minha preguiça em ir às compras nasceu, então, este prato - que toda a gente acha muito africano, mas que só o é de nascimento e nada tem a ver com as tradições gastronómicas locais.

Corta-se uma galinha ou frango em 8 pedaços, retitando a pele e as pontas das asas.
Dá-se uns golpes em cada peça de carne, para absorver mais profundamente o molho, salga-se e junta-se meia cabeça de alho picada e duas mangas desfeitas - de preferência, das chamadas mangas douradas, pelo sabor e menos fios.
Mistura-se tudo, cobre-se com cerveja (ver sugestões de marcas em "Camarão à Antropólogo") e deixa-se umas horas em seu descanso.
Trata-se, então, de derreter margarina numa panela de bom tamanho, de forma a que fique uma camada generosa a cobrir-lhe o fundo. Aí, deitam-se os pedaços de galinha, escorridos mas ainda cobertos com o molho em que estagiaram.
Vai-se pseudo-fritando (pois esses restos de molho vão-se misturando à margarina) em lume forte, virando os pedaços de carne até nenhum deles ter zonas cruas à superfície.
Nessa altura, deita-se na panela o molho onde a galinha/frango estagiou, junta-se mais cerveja até a carne estar coberta e mexe-se um pouco, para homogeneizar.
Ficam as coisas assim, num lume brando apenas suficiente para manter fervura, continuando-se pontualmente a mexer, até o molho se tornar acastanhado e o cheiro mudar, lembrando o de fruta cozida.

Está então pronto para servir. O melhor acompanhamento é arroz basmati, cozido com um caldo de galinha.
Mas, para fazer juz ao nome do prato (em que o "Grão na Manga" é, claro, um trocadilho com o "grão na asa" de toda aquela cerveja), pode juntar-se também uma malga de grão com um cheirinho de coentros, que para mais até sabe bem.

Publicado por Paulo Granjo às 12:08 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 04, 2007

Mais Livros

Reclamaram co-autores, com vagas ou explícitas acusações de narcisismo da minha parte, que "desprezei" aqui no Antropocoiso os livros colectivos.
Mas, de facto, não os tinha divulgado por outras razões:

Este, só já deve estar disponível nalgum canto de armazéns da Cosmos ou da CGTP-IN... Pode aceder-se às conclusões aqui.
capa Sindicalismo.JPG


Este, realmente, foi falha de que me penitencio. Mas, tirando nalgumas livrarias universitárias, quem o quiser comprar terá que contactar a Cooperativa Cultural Popular Barreirense, por exemplo clicando aqui.
capa 4 Olhares.JPG


Este é outra conversa.
É estupidamente caro e os próprios autores tiveram que comprar o seu exemplar, se o quiseram ter! Estranhos negócios são aceites pelos editores de obras colectivas...
É um livro francamente interessante mas, em situações como esta, não serei certamente eu a reprovar a pirataria por parte dos leitores.
capa War and Peace.JPG

Publicado por Paulo Granjo às 11:21 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

setembro 30, 2007

Camarão à Antropólogo, aka Camarão à Pai

A antropologia tem, por vezes, resultados inesperados. Este é gastronómico.

Quando estudava a refinaria de Sines, convivia bastante com um operador de consola que fazia gala em falar comigo de tudo menos do seu trabalho. O Canotilho é uma pessoa muito assertiva e, durante um jantar em sua casa, soltou no seu estilo lapidar: «Isso de camarão cozido é só do pequeno. Camarão grande é para fritar em cerveja!»
A coisa ficou-me a marinar no bestunto e, na ausência de mais explicações, acabou por resultar na primeira receita que inventei, na tentativa de desvendar esse mistério do "fritar em cerveja".

A coisa faz-se assim:

Descasca-se um meio quilo de camarão de bom tamanho, deixando agarradas a cabeça e a ponta da cauda e dando um corte fundo ao longo das "costas" dos bichos.
Num wok ou numa frigideira alta, põe-se uma talhada de margarina a derreter (suficiente para fritar os animaizinhos, mas não para os afogar), com sal, meia cabeça de alhos cortados às tiras e duas malaguetas, daquelas pequeninas e mal-dispostas.
Quando essa mistura já frita em lume forte, metem-se lá os camarões e viram-se quando necessário, para levarem uma fritura ligeira mas geral, a toda a volta.
É nessa altura que se espreme limão (um pequeno, ou metado de um grande) e se dão umas borrifadelas de molho de soja.
Após umas rápidas voltas que vão homogeneizando o molho, deita-se cerveja (de preferência Super Bock ou, em Moçambique, Manica) até os camarões ficarem submersos. Mexe-se de novo e deixa-se tapado, agora num lume brando mas suficiente para manter fervura.
Quando o cheiro muda e se torna irresistível, ao mesmo tempo que o molho engrossa sem deixar de ser líquido, a coisa está pronta.

Sirva-se com arroz branco ou "à guloso", apenas acompanhado de pão para ensopar o molho.

Este prato, chamado "Camarão à Antropólogo" (era originalmente "à Antropólogo Industrial", mas os convivas achavam que isso dava uma imagem poluída ao assunto), foi crismado "Camarão à Pai" quando não se usam as malaguetas.

Publicado por Paulo Granjo às 10:14 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Fado do Esgraçadinho, versão Canis Lupus

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Joguei rugbi, na minha tenra adolescência.
Primeiro, num aproximativo clube de liceu onde os jogadores-treinadores mais velhos não se deram ao trabalho de verificar o meu ano de nascimento, pelo que tive a sorte de jogar a 3/4 ponta na equipe do escalão seguinte, em vez de andar a martirizar putos com a minha idade mas metade do tamanho.
Depois, num clube à séria, onde treinava a médio de abertura mas quase nunca jogava, por haver um outro que era bem melhor do que eu para o lugar.

Suponho que a simpatia inicial pelo jogo se ficou muito a dever às regulares transmissões televisivas do então Torneio das Cinco Nações, em que um avanço da linha de 3/4 do País de Gales enchia bem mais o olho do que 2 horas de saltos de ski, que os jogos de hóquei em que não se via a bola, ou mesmo que as anuais transmissões da final da Taça de Portugal e do G.P. do Mónaco.
Essa simpatia desenvolveu-se muito, depois, com a sua prática. Talvez pelos ventos revolucionários da altura, tinha deixado de ser uma modalidade de "betos" sobrealimentados, como dizem que de novo é. Dava gozo jogar e tinha aspectos de fair-play quase aristocrático, como o túnel que os vencidos faziam para aplaudir os vencedores (depois retribuído por estes), ou o facto de nunca ter sido aleijado deliberadamente por um adversário - ao contrário da contínua carga de pancada com que fui brindado no meu único jogo oficial de andebol.

Em suma, é um desporto que gosto muito de ver e que gostaria ainda de praticar, se existisse a um nível de solteirosXcasados e eu não me tornasse um segundo Mr. Magoo logo que tiro os óculos.
Por essa simpatia, mais me pareceu desprezível o faduncho armado em torno da participação - tirando esse aspecto, digna e louvável - dos tais de "Lobos" no mundial de rugbi.
«Para mim foi como se fossem campeões» por perderem por poucos com a Roménia? «Foram verdadeiros heróis» por marcarem um ensaio à Nova Zelândia? Haja paciência e decoro!
Uma equipe amadora comportou-se decentemente num desporto que, como quase todos, é profissional. Num desporto em que há selecções cujos jogadores nem sequer jogam em clubes, mas apenas nelas. Óptimo. E então? Embarca por isso um país na retórica dos "pobrezinhos mas honrados", das "vitórias morais", dos "Davides contra Golias", quando são 15 para cada lado e as condições ou se criam ou não podem ser criadas, mas só servem de atenuante e eterna justificação para quem se habitua à mediocridade?

Disse-se que esta campanha mundialista foi uma enorme acção de divulgação do rugbi.
Foi, sobretudo, um hino à auto-complacência e uma reedição do Fado do Esgraçadinho. A mensagem passada aos potenciais novos praticantes da modalidade foi: «Venham ser uns perdedores esforçados, com um g'anda par de tomates, uma g'anda desculpa para as derrotas e um país a apaparicar-vos».
Pode ser que aqueles rapazinhos musculados e os jornalistas entusiasmados (mesmo que não saibam escrever "talonador" ou em que é que isso consiste) se revejam neste filme, tão conhecido de outras eras. Mas quero crer que a chavalada não. Felizmente.

Se a ideia é prestar um serviço à divulgação do rugbi, mais valeria televisionarem em canal aberto os jogos finais do campeonato.
Afinal, o que leva putos para o basquetebol é a beleza dos jogos da NBA. Não é a selecção nacional (profissional, elàs) a, muito esforçadamente, quase ganhar jogos.

Publicado por Paulo Granjo às 06:35 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

setembro 28, 2007

Birmânia

birmania.JPG

Não é inesperado e duvido mesmo que alguém acreditasse que não iriam haver cargas, mortos e feridos.
Tão pouco que não fosse presa muita gente para "interrogatório" sob tortura, ainda por cima por mera punição e nem sequer para obter qualquer informação relevante.
A barbárie em estado puro, enfim, de quem sente direito a poder absoluto e o direito de matar e punir com sofrimento quem o questione.

É inaceitável e chocante o que aconteceu, mas mais inaceitável ainda é a prática e a visão de poder que lhe subjaz.
Tendo na memória histórica poucas e curtas ditaduras militares, a par desse particularismo (embora não de todo exclusivo) de termos vivido um golpe militar com objectivos democráticos, temos tendência a vê-las como uma coisa meio folclórica, ou típica de países "ingovernáveis", como se tal coisa existisse. Só acordamos com sangue em directo, como se fosse tolerável o poder de senhores da guerra, obtido e mantido pela posse das armas, nas tintas para qualquer vontade ou consenso de quem não as tem.

Em abstracto, nada disto se torna mais grave pela presença mobilizadora de religiosos. São tão pouco inatacáveis, detentores da verdade ou "reservas morais da nação" como os militares com apetites de poder. Podem até encabeçar chamadas à violência generalizada, em defesa de hegemonias próprias, como as recentes freirinhas timorenses. Na Birmânia, contudo, tiveram o eloquente papel de usar o seu estatuto para demonstrar e expressar o consenso da sociedade - o que é muito e vale muito.

É esse consenso que está a ser reprimido. De uma forma tão mais merecedora da nossa admiração e da nossa solidariedade quanto, como comecei por dizer, as cargas, os mortos e os feridos eram previsíveis - e muito mais para quem desfilou do que para nós.

Publicado por Paulo Granjo às 02:32 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

julho 12, 2007

Militares e direitos

liberdade militar.JPG
- P'rá choça! O seguinte!! (in Eccomics, Éditions Syllepse, 1991)

Decorreu até há pouco uma vigília de militares, junto de S. Bento.
Ao longo da semana, os Estados-Maiores dos vários ramos foram proibindo a participação aos militares no activo, com o argumento do carácter sindical da coisa - argumento tão anacrónico como a lei de excepção que, passados 32 anos sobre o 25 de Novembro e 33 sobre o 25 de Abril, lhe continua a servir de base, apesar das suas evidentes inconstitucionalidades.
Tão esticada foi, desta vez, a interpretação da lei (e, em rigor, ilegal naquilo que era proibido) que o Tribunal Administrativo de Lisboa veio, hoje, dar razão aos que convocaram o protesto.

Infelizmente, temo que isso não impeça as altas hierarquias militares de decretarem mais umas tantas detenções (numa outra particularidade do direito militar, a possibilidade de punir com privações de liberdade sem julgamento), mesmo que correndo o risco de, depois, serem desautorizadas pelos tribunais.
Temo também que não impeça Miguel Sousa Tavares de voltar a dizer na televisão, com a jactância dos ignorantes, que isso de reivindicações de militares são coisas terceiro-mundistas.

Tudo indica, enfim, que o desenrolar dos acontecimentos me obrigue a voltar a este tema, de forma mais aprofundada que este desabafo.

Publicado por Paulo Granjo às 11:07 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

julho 06, 2007

3 (ou 4) pombos na varanda

ovos 1.JPG

Detesto pombos.
Bem sei que alguns tipos (ou todos) têm um GPS particular que é uma maravilha da evolução, que ficam muito jeitosos a voar às dezenas ou centenas à volta das malfadadas velhinhas que os alimentam nos jardins, que os machos fazem um belo efeito lúbrico ao arrastarem as penas do traseiro pelo chão, quando tentam convencer as fêmeas mais renitentes.
Mas a sua imagem de marca, para mim, são as inúmeras doenças que transportam e os ácidos cócós que inevitavelmente soltam sobre a roupa estendida e sobre a janela do meu escritório, fosse qual fosse a casa lisboeta em que tenha vivido.
Confesso-me entusiástico apoiante do controle de natalidade desses ratos voadores e, mesmo, que me cheguei a informar acerca do tal de trigo roxo - que talvez nunca tenha usado por medo de suscitar algum pânico relacionado com a gripe das aves.
Eu, que adoro animais e até mantenho uma relação afectiva duradoura com um cágado que dá pelo nome, tenho de facto um problema com esses bichos.

Eis senão quando me surge um e depois dois ovos plantados na varanda, dentro de um vaso que a minha senhora tinha ali deixado, para abrigar sementes bravias que andassem pelo ar.
Em vez de plantas sem-abrigo, tenho agora ovos de rato voador e duas pombas (ou um casal, mas duvido) que se revezam a chocar os ditos cujos.
Rapidamente nos habituámos a fechar a portada respectiva para não espantar os bichos e, quais padrinhos, vamos cuidadosamente espreitando, de vez em quando, para ver se tudo está bem. Ontem, até houve quem ficasse de atalaia, porque uma gaivota nos rondava a varanda!
Entretanto, as pombas já nos olham com a desfaçatez da foto em baixo, continuando nas suas sete quintas, sempre que damos uma espreitadinha.

pomba a.JPG

Cada vez mais me convenço. A reprodução é um golpe baixo da natureza.

Publicado por Paulo Granjo às 03:27 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

julho 04, 2007

Paulo Langa – 1976/2007

Paulo Langa parecia ainda mais novo do que era. Talvez ajudasse a essa impressão a sua permanente curiosidade que, por exemplo, o fazia meter conversa acerca de assuntos de antropologia e epistemologia, com um ar de juvenil urgência, sempre que me encontrava. E, durante a minha última estada em Moçambique, isso acabou por acontecer muitas vezes.
Bastante alto e magro, fui-me habituando tanto a essas suas características que tiveram que ser os colegas mais novos, do Departamento de Antropologia da UEM, a alertar-me para a sua crescente magreza. As suas chamadas de atenção para que ele procurasse apoio médico parecem, no entanto, ter chegado tarde de mais.
Nunca foi meu assistente – coisa que, aliás, me pediu que acontecesse na minha próxima ida a Maputo - mas, apesar disso, tivemos um longo caminho comum.
Como todos os antropólogos formados na UEM, foi meu aluno e, numa das cadeiras em que isso aconteceu, apresentou um trabalho de elevada qualidade, citado no artigo que aqui afixei em 18 de Fevereiro – um artigo que, de forma perturbante, dediquei a um irmão que tinha acabado de falecer.
Mais tarde, fui orientador da sua tese de licenciatura, acerca de um caso muito interessante de efeitos perversos de um projecto de ONG internacional. Também esse seu trabalho, para além do prazer que nos deu a discutir durante a sua feitura, veio a ser premiado com uma nota elevada.
Procurarei sintetizá-lo em artigo, para que seja tornado público, como merece.

Lido mal com a morte.
Sobretudo com a morte de um homem de 31 anos que, há poucas semanas, se entusiasmava com a perspectiva de, avançando para mestrado, poder fazer pesquisa fora da lógica das consultorias. E que se preparava para o fazer.
Um ex-aluno não é, obviamente, como um filho. Mas, tal como a raposa da nossa infância tardia, é difícil não nos sentirmos responsáveis por aqueles que cativámos.

Publicado por Paulo Granjo às 12:57 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

junho 30, 2007

Bom para Lisboa - 1

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(imagem do Expresso)

O Expresso dizia hoje, com chamada à primeira página, que "Santana tinha razão: túnel do Marquês é bom para Lisboa".
Não me impressiona particularmente a ideia de que o menino pudesse vir a ter razão nalguma coisa, algum dia.
Impressiona-me aquilo que, para o Expresso, é "bom para Lisboa": que tivessem passado a entrar na cidade mais 14.000 automóveis por dia, com mais alguma fluidez de tráfego.
Ou seja, bom para Lisboa são mais uns milhares de viaturas vindas de fora da cidade (presume-se que conduzidas por pessoas que antes recorriam aos transportes públicos em cuja qualidade não se investe), deitando para o ar mais umas toneladas de dióxido de carbono e restantes mimos poluentes, entre os quais se incluem os aditivos que permitem à gasolina sem chumbo ter o nível de octanas suficiente para não explodir nos motores quando lhe apetece. Bom para Lisboa é o pandemónio de mais 14.000 carripanas à procura de estacionamento e a dificultar o tráfego após a entrada na cidade.

Bom para Lisboa (e para o país) seria, talvez, que nos jornais de referência se pensasse um pouco antes de escrever, mesmo que acerca de estudos de fluxos de tráfego todos bonitos.

E, já agora: quem foi a brilhante equipa técnica que fez este estudo de impacto de uma obra nova, tendo como termo de comparação fluxos de tráfego de há 7 anos e meio?

Publicado por Paulo Granjo às 07:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Bom para Lisboa - 2

Mas, infelizmente, o que de mais grave está em causa não são fluxos de trânsito, lugares de estacionamento e mais uns quilos de dióxido de carbono (e etc.) no ar.
Parecemos esquecer que grande parte da baixa está assente sobre água, que em cada um dos vales que separam as célebres 7 colinas correm ribeiras hoje subterrâneas, e que a água encontra sempre forma de passar. Se lhe tapam o caminho (por exemplo, com um enorme túnel de betão), irá corroer à volta o que antes era terreno firme, sem que se possa prever com certeza onde, quando e com que consequências para o que está edificado em cima.
Para mais, duvido que alguém saiba, hoje, qual o percurso preciso dessas ribeiras.

Alexandre Quintanilha tornou-se o divulgador em Portugal de uma curiosa teoria acerca dos riscos tecnológicos: a natureza é robusta. Quer isto dizer, basicamente, que aguenta com as asneiras tecnológicas e tecno-científicas que formos fazendo, pelo menos até que os autores das asneiras (ou outros seus colegas) descubram uma solução ou um paliativo para o mal que foi feito.

Parece que a mesma profissão de fé guiou, e continua a guiar, estes esburacanços em Lisboa. Com as diferenças de que nem sequer previsões sérias de impacto são feitas, e de que essa fé na natureza e na capacidade dos técnicos está, neste caso, mal colocada.
A natureza poderá ser robusta, acabando mais tarde ou mais cedo por levar à frente terra, rochas e mesmo túneis; mas o que cá está em cima, a tal cidade em que vivemos, só tem a robustez que a natureza em que assenta lhe deixe ter. E pode ruir.

Mas parece, também, que nada disso importa, desde que mais 14.000 carros possam entrar por dia - ou qualquer outra coisa "boa para Lisboa".

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E, depois, há sempre a possibilidade de uma nova fé, num futuro com oníricas Lisboas venezianas, como as imaginadas por António Gonçalves e Nuno Silva, nas aventuras de Filipe Seems.

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maio 30, 2007

Dragões, Régulos e Fábricas

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Figura 1 - Ruínas do Hotel Quatro Estações

Este é o tal artigo do dragão agora homeless, de que divulguei o extracto inicial uns posts mais abaixo.
Sairá num número temático sobre “Moçambique actual, continuidades e mudanças” da Análise Social, a publicar no primeiro trimestre de 2008 e editado por este vosso criado.
Na altura deverá ter alterações, quer pelas sugestões que chegarão de colegas a quem pedi uma leitura crítica, quer pelas exigências de peers reviewing a que também os editores se submetem (somos uma revista séria, que raio!).
Aceitam-se também críticas de bloguistas, aí na caixa de comentários. Não se admirem se parecer que o comentário não entrou. Leva eternidades, eu próprio não tenho acesso a eles durante uns tempos, mas acabam por entrar. Já agora, identifiquem-se, para eu poder agradecer na versão final do artigo.


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Publicado por Paulo Granjo às 12:17 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Saúde, doença e cura em Moçambique

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Farmácia popular, bairro da Machava, perto de Maputo

É um artigo que repega algumas coisas de outros, em posts mais antigos.
Essas partes serão repetitivas, para quem já conhece. Não obstante, a perspectiva a partir da qual a questão é tratada é diferente, havendo bastantes dados inéditos e reflexões novas.
Sairá no livro Migração, Saúde e Diversidade Cultural, que foi organizado pela Elsa Lechner. Para ela, um abraço.

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Publicado por Paulo Granjo às 12:05 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

maio 23, 2007

Mais bombinhas

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Há dois dias atrás, iniciou-se a explosão controlada de material obsoleto do paiol de Maputo.
Foi na Moamba, a dois passos da cidade e das zonas mais atingidas pelas explosões de há tempos atrás.
Ninguém avisou ninguém e, claro, instalou-se o terror entre a populacão.
Dizem os militares que, como todos podiam ver o grande movimento de camiões do exército, acharam que não era preciso, que toda a gente tinha percebido o que se estava a passar.

Sensíveis, estes rapazes...

Publicado por Paulo Granjo às 01:31 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

maio 02, 2007

Dragão homeless

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Não. Não é uma piada qualquer ao FêCêPê.
A visão da baía de Maputo foi marcada, nos últimos 32 anos, pelas ruínas inacabadas de um alto edifício cuja construção foi interrompida na altura da independência. Estava, então, para ser o Hotel Quatro Estações.
Um marco tão forte e insólito, assim cravado na paisagem, suscitou muitas histórias. Uma delas – que é, afinal, também todas as outras – dizia que era ali a casa de um dragão, que soprava o vento quando se virava para terra e fazia as trovoadas no mar, quando se zangava.
Deixo-vos no “continue a ler” esses relatos, tirados de um artigo que só será publicado em 2008.
Isto porque, todos estes anos depois, o Quatro Estações foi implodido.
Pobre dragão. Virou um sem-abrigo.

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Publicado por Paulo Granjo às 12:16 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

abril 24, 2007

Mais um do joão Paulo

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"Campo de Trânsito".
Ainda não li mas, mesmo antes de ver as cartas, aposto todas as fichas em como é bom.
Afinal, todos os anteriores são.

Publicado por Paulo Granjo às 01:37 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 22, 2007

«Reduzir à sua real expressão»

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As minhas leituras dominicais no WC reservam-me, por vezes, surpresas.
Esta manhã, foi a coluna de João Pereira Coutinho no Expresso de ontem (p.45).

No essencial, queixa-se o senhor em questão que «as cabeças pensantes que se exibem por aí» se apressaram a discutir razões sociais para o massacre de Virginia Tech, com isso desresponsabilizando o psicopata que o cometeu. Que tais acontecimentos tenham algo a ver com as particulares características do capitalismo e sociedade dos EUA, ou com a sua política acerca de armas, será uma falácia mal intencionada.
A questão para ele é cristalina: «reduzir esta chacina à sua real expressão seria atribuir a culpa ao criminoso e não procurar razões quando elas não existem.»
Não há, então, nada de complicado a pensar. Acontecimentos destes são culpa de "maus" ou de "malucos", e aí se esgotam os seus antecedentes, condições e consequências sociais, reduzindo a coisa «à sua real expressão»: a de actos individuais tresloucados, por muito que se possam repetir.
Ou seja, após cento e tal anos de sociologia e demais ciências sociais (com raízes que recuam mais uns cento e tal), ainda se pode escrever sem corar que os comportamentos desviantes são exclusivamente individuais, ou quanto muito decorrentes da psicologia individual - e, provavelmente, que não são desviantes em relação a normas sociais mas a normas absolutas, talvez "naturais" ou "divinas".

Eu, que ainda há dias ouvi um taxista rosnar, ao passar por uma parede onde algum puto tinha escrito uma declaração à namorada, «Eu sei como é que resolvia isto, se mandasse! À primeira, cortava-lhes as mãos; à segunda, a cabeça.», sei bem que raciocínios como o do sr. colunista existem.
Encontrar um tal nível de indigência mental e de arrogante ignorância em alguém que é pago por um dos mais respeitados jornais portugueses para comentar assuntos sociais é que continua a ser capaz de me surpreender.
Ajuda-me, até, a compreender a ênfase que os sociólogos põem na sua "ruptura com o senso comum", que sempre me soa arrogante.
E dá-me vontade de citar ao colunista Coutinho uma frase de uma personagem de Clint Eastwood da qual será certamente um grande fã. Dizia Dirty Harry, acerca destas opiniões do tipo "eu cá acho que": «Opiniões são como os olhos do cú. Cada um tem a sua.»

Pela minha parte, não sou nem pretendo vir a ser um especialista na(s) sociedade(s) estado-unidense(s). Mas podemos sempre aprender - e reflectir - com quem sabe.
Para quem o quiser fazer, sugiro modestamente, acerca deste assunto, o livro de Denis Duclos The Werewolf Complex - America's fascination with violence, disponível aqui.

Publicado por Paulo Granjo às 11:53 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

«Reduzir à sua real expressão» - 2

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E já agora, para confundir um pouco a simplicidade do mundo do Sr. Pereira Coutinho e para estimular (muito) mentes que sejam menos simples, publicito este outro livro de Denis Duclos.

Pode encontrar-se aqui e, dando uma vista de olhos no índice e primeiras páginas disponíveis aqui, dá para ver que a malandra da «cabeça pensante» do autor até já estudou, na parte 2, opiniões semelhantes à do Sr. Coutinho como se elas não fossem (sacrilégio!) iluminações individuais, mas um fenómeno social.

Publicado por Paulo Granjo às 11:41 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 19, 2007

Un peut de tendresse

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Decorreu ontem um jantar comemorativo de 70º aniversário de Maria Eduarda Cruzeiro, há muitos anos presidente do conselho directivo do Instituto de Ciências Sociais.
Devido à obrigação legal de os académicos (ao contrário dos papas e outras lideranças oligárquicas) se jubilarem aos 70 anos, era também uma festa de despedida.
Teve os costumeiros toques institucionais; mas o que depressa ressaltou foi a genuína afeição e ternura dos presentes para com a homenageada.

Há muitíssima gente capaz de liderar.
São bastante menos as pessoas capazes de gerir um "porta-aviões" como o actual ICS com eficiência, firmeza e sem que o imenso trabalho de gestão se faça notar.
Contudo, muitíssimo poucos são capazes de, fazendo-o, suscitarem tais sentimentos generalizados.

Também por isso, a minha singela homenagem.

Publicado por Paulo Granjo às 11:12 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 17, 2007

Columbine X quase 3

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As respostas não estão todas, obviamente, em Bowling for Columbine. Ignorar o as pistas que levanta é, no entanto, criminoso - sobretudo nesses Estados Unidos em que estes tiroteios escolares se passam.

Outra coisa que deveria merecer reflexão é que, após Virginia Tech, a fasquia fica muito alta para o futuro remake que, mais anos menos anos, inevitavelmente se seguirá, caso nada de profundo se faça.
Isto porque este caso foi tratado com laivos de competição para o Guiness Book, com sistemática apresentação do Hall of Fame de melhores resultados anteriores: 32 mortos agora, 12 em Columbine 1999 e por aí fora, por vezes deixando de parte (pelas suas implicações políticas?) o brilhante resultado de 13 mortos, obtido em 1966 por um Marine, na Universidade do Texas.
É inócua, esta actual fixação dos media e do público em números e em rankings?
Duvido. Suponho que, se se decide desatar a disparar indicriminadamente, ao menos que se "fique na história" e sem ser numa posição mixuruca. Uns tiritos, tornam-se cada vez mais ridículos; agora, exigem-se morticínios cada vez maiores a quem entre por esses caminhos.
A tal fixação nos números e rankings, se é hoje instigada pelos media, não foi suscitada por eles - nem, hoje, a apetência quantitativa dos consumidores noticiosos passaria sem isso. Não são eles "os maus"; limitam-se a reproduzir, na tragédia, a lógica de uma sociedade que quer quantificar e hierarquizar tudo.

E nós?

Publicado por Paulo Granjo às 06:41 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Einstein: volta! Estás perdoado.

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A campanha até tem impacto e humor.
A primeira vez que a vi, até dei comigo a sorrir. Só 10 segundos depois vieram os "ses".
Se ela não tivesse como pressuposto que só o conhecimento escolar é válido...
Se não esquecesse que um canudo é, muitas vezes, um caminho para o desemprego...
Se não tratasse uma série de profissões como coisas indignas...
Se não tratasse quem as faz como falhados...
Se não fosse o rosto de uma política estatal...
Se...

Se quem a escolheu tivesse pensado mais de 10 segundos... talvez escolhesse uma campanha que não fosse achincalhante para o seu público alvo.
Mas, para perceber porquê, talvez precisasse de 10 anos, ou de uma vida diferente.

Se não tivesse caído em cima da bronca do nosso primeiro... talvez não merecesse clones como este.
Salva-se o humor.

Publicado por Paulo Granjo às 03:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 16, 2007

Ainda o paiol de Malhazine

Mostra-se no óptimo Ma-schamba (já nos idos de 29 de Março) que ainda há muita coisa velha por explodir, armazenada ao deus-dará, no paiol de Malhazine.

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Por favor, que não se espere pela próxima.

Publicado por Paulo Granjo às 03:13 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 15, 2007

Dilemas holandeses

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Também pela Holanda as leis anti-tabagistas importadas de Bruxelas vão atacando.
Na terra dos coffee shops, inventados para separar o comércio e consumo da canabis do das outras drogas e para o pessoal mandar as suas fumaças ali, em vez de na rua, preparava-se a proibição total de consumo de tabaco em estabelecimentos de restauração.
A coisa ia de vento em poupa, de forma até um bocado acrítica para os hábitos locais de cidadania, até alguém se lembrar de fazer uma pergunta que deixou embaraçados os legisladores mais apressados:

«E nos coffee shops como é que é? Só é legal fumar um charro se não se lhe misturar tabaco?»

Publicado por Paulo Granjo às 11:12 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

O senhor da foto

Perguntaram-me algumas pessoas (surprise! de vez em quando, há quem dê aqui uma vista de olhos) quem é a pessoa que está ao meu lado, na foto que serve de cabeçalho a este blog.
É o régulo Martins Matsolo, que dirigiu a cerimónia em que foi pedida aos seus antepassados autorização e proteção para que a Mozal fosse contruída e funcionasse.
Já agora, a foto foi tirada por Amade Miquidade.
Um abraço para ambos!

Publicado por Paulo Granjo às 02:21 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Manières de table no Renascimento

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dos Apontamentos de Cozinha de Leonardo da Vinci:

«Há hábitos impróprios, de que um convidado para a mesa do meu Amo (1) se deve abster, sendo a lista que se segue baseada nas observações que fiz daqueles que tomaram assento junto do meu Senhor durante o ano que passou:
- Nenhum convidado se deve sentar em cima da mesa, nem de costas voltadas para ela, nem ao colo de outro comensal.
- Nem deve pôr as pernas em cima da mesa.
- Nem se deve sentar debaixo da mesa, por pouco tempo que seja.
- Nem deve pôr a cabeça por cima do prato para comer.
- Nem deve tirar comida do prato do vizinho, sem primeiro lhe pedir licença.
- Não deve colocar no prato do vizinho partes desagradáveis ou já mastigadas da sua própria comida, sem que primeiro lhe tenha pedido licença.
- Não deve limpar a sua faca às vestes do vizinho.
- Nem usar a sua faca à mesa para trinchar.
- Não deve limpar à mesa as suas armas.
- Não deve retirar comida da mesa, guardando-a na bolsa ou na bota para consumo ulterior.
- Não deve dar dentadas nos frutos que se encontram na fruteira para voltar depois a colocá-los nela.
- Não deve cuspir à frente do meu senhor.
- Nem ao seu lado.
- Não deve beliscar ou dar palmadas no vizinho.
- Não deve arfar pesadamente ou dar cotoveladas.
- Não deve revirar os olhos ou fazer caretas assustadoras.
- Não deve meter o dedo no nariz ou no ouvido durante a conversação.
- Não deve fazer maquetas, nem acender fogos, nem treinar-se na arte da pantomina em cima da mesa (a menos que o meu senhor o solicite).
- Não deve soltar os seus pássaros em cima da mesa.
- Nem o fazer com cobras ou escaravelhos.
- Não deve tocar alaúde ou outro instrumento qualquer que possa importunar o seu vizinho ( a menos que o meu Senhor o solicite).
- Não deve cantar, discursar, nem proferir impropérios, e menos ainda fazer adivinhas lascivas quando ao seu lado estiver uma senhora.
- Não deve conspirar à mesa (a menos que seja com o meu Senhor).
- Não deve fazer propostas obscenas aos pagens do meu Senhor, nem abusar dos corpos deles.
- Nem deve pegar fogo ao vizinho enquanto se encontra à mesa.
- Nem deve agredir um criado (a menos que seja em defesa própria).
- E, se sentir necessidade de vomitar, que saia da mesa.
- Tal como se tiver de urinar.»

Bon apetit.

(1) Ludovico Sforza, governador de Milão.

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abril 13, 2007

Cúmulo da auto-complacência


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Não. Desta vez, não é a opinião do nosso primeiro acerca do seu percurso académico.
É um daqueles SMS anónimos que, volta e meia, nos apitam no telemóvel:

Quando te sentires deprimid@ ou inútil, lembra-te que já houve um dia em que foste o espermatozóide mais rápido de todo o grupo.

Publicado por Paulo Granjo às 11:21 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 12, 2007

Doutoramentos surreais

A uma semana das provas de doutoramento de um colega e amigo (o João Vasconcelos, é dia 19, às 14.30, na Reitoria da clássica), fui desenterrar num canto do computador a crónica surrealista do meu próprio doutoramento, na esperança de lhe desanuviar estes últimos dias de espera.

Está aí, no "continue a ler", para quem quiser.

Como diz o Inimigo Público, "Se não aconteceu, podia ter acontecido".

Continue a ler "Doutoramentos surreais"

Publicado por Paulo Granjo às 02:03 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 09, 2007

Artes de Amar

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Foi recentemente re-editado, depois de há muito esgotado, e é uma leitura deliciosa.
Dá para folhear (infelizmente só as páginas iniciais) clicando aqui.

Publicado por Paulo Granjo às 12:43 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

abril 08, 2007

Linchem-se os impuros! (1 de 3)

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Na véspera do último aniversário da morte de Samora Machel, assisti no telejornal de uma televisão privada moçambicana ao linchamento pelo fogo de 3 pessoas.
Por pouco, seria em directo. As imagens não estavam quase editadas, o que dava mais de 15 minutos de um homem moído de pancada tentando rastejar para longe dos pneus em chamas onde dois outros ardiam já mortos, apenas para se ir chocar com o círculo de gente de onde saiam outros homens, que lhe batiam um pouco mais e o arrastavam até à fogueira - onde de cada vez se retorcia, até que já não conseguiu sair de lá.
A intervenção dos homens que saiam do círculo, diferentes de cada vez, era saudada por aplausos e gritos dos outros presentes, enquanto crianças dançavam e chutavam terra para cima do homem arrastado.
Seguiam-se entrevistas. Com o senhor bem vestido a quem os 3 jovens (e mais 2 que fugiram) tinham roubado o telemóvel e a carteira, supostamente com 1 milhão de meticais antigos - uns 30 euros, que para ele seriam trocos mas que, para os outros participantes, podiam significar metade ou mesmo um salário inteiro. Também com uma rapariga do bairro, várias vezes assaltada, que explicava a necessidade de assustarem dessa forma os ladrões, face à inacção da polícia. O seu discurso consensual foi, no entanto, entremeado por uma nota de desânimo que não chegava a ser dúvida: já há duas semanas, disse, tinham tido que fazer aquilo e eles nunca mais aprendiam.

Por chocantes que fossem as imagens, o seu tratamento exaustivo como "furo" televisivo, ou o à-vontade de quem dava a cara para justificar aquele brutal homicídio colectivo, chocava-me mais ainda o contraste entre aquelas pessoas, naquele momento, e aquilo que elas seriam todos os dias.
Isto porque não há nada nos cânones sociais moçambicanos - e muito menos num qualquer ethos colectivo local - que incite a tal barbaridade. Pelo contrário, há ainda marcas da brutalidade da guerra e o que deseja toda a gente que ela afectou directa ou indirectamente é mandar esses acontecimentos traumáticos para o mais longe possível.
Aquilo não pretendia ser uma justa punição, socialmente aceitável e legítima. Pretendia ser um recado preventivo a outros ladrões e, para que o fosse, teria que ser excessivo para o acto cometido, desmesurada e inaceitavelmente brutal, embora legitimado pela participação de todos.
Excepto no caso das crianças (que deverão ter retirado desta sua experiência mais lições normativas do que a mera "roubar é perigoso"), as pessoas presentes sabiam não estar a seguir nem uma regra social, nem um comportamento esperado. Independentemente da real euforia que a dinâmica daquela performance macabra nelas suscitou, aquelas pessoas estavam a violentar-se a si próprias, a praticar actos para si repugnantes, tendo em vista um futuro melhor, mais seguro, mais correcto, mais puro.

Publicado por Paulo Granjo às 05:51 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Linchem-se os impuros (2)

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O que me faz regressar a esta memória, que também me violenta, poderá parecer estranho (e também desmesurado) a quem ler.
Não foi, desta vez, a actual e terrível banalização do velho princípio de que os fins justificam os meios, acompanhada pela nossa plácida indiferença ou aceitação da tortura e da destruição de direitos individuais em nome de um vago combate ao terrorismo.
Foi algo bem mais comezinho e aparentemente mais inócuo, embora me pareça partilhar os mesmos princípios e poder conduzir aos mesmos desenlaces: a progressiva (re)emergência da pureza como princípio subjacente a actos e decisões políticas, e a sua paulatina aceitação por quem mais razões teria para se arrepiar - a esquerda.
Não me refiro, claro, às denúncias de golpadas, corrupções, compadrios, tráficos de influências e outras canalhices. Penso em dois casos recentes e, repito, aparentemente comezinhos.

Um, é a lei que aí se prepara sobre o consumo de tabaco.
A sua longínqua legitimação social é, claro está, a protecção dos fumadores passivos. Mas, sistematicamente e sem que tal possa ser atribuido a imbecilidade do legislador, alarga os espaços proibidos - e a proibição, dentro deles, de zonas delimitadas de fumadores - a casos que extravasam completamente essa legitimação inicial.
Não se trata já de proteger a saúde de quem não fuma. O resultado final só faz sentido numa lógica de punição sistemática daqueles que se dedicam ao impuro vício de fumar, mesmo em condições que não prejudicassem terceiros.
Tal punição poderá ser aceitável para muitos, que encontram na sua pureza a legitimidade para a decretar. Muitos outros poderão achar que assim se contribuirá para erradicar esse vício impuro, da mesma forma que se acredita que linchementos e pena de morte contribuem para dissuadir o crime. Mas a base (consensual) de legitimidade da lei deixou de existir.

Um segundo caso, um pouco mais antigo, é a justificação pública que dirigentes do Bloco de Esquerda apresentaram para a manutenção em funções da sua presidente da câmara, apesar de arquida num processo.
A diferença entre essa situação e a de outras câmaras em que o BE exigia demissões (e, julgo eu, muito bem) era sintetizável em dois pontos:
1. A senhora em causa não é acusada de utilizar o cargo para favorecer ilicitamente terceiros ou a si própria, mas para desfavorecar um munícipe.
2. O processo em causa seria uma perseguição do tal senhor, que se diz perseguido por não ter obtido um alvará para uma casa de alterne.
Pressupõe esta justificação que favorecimento ilícito e desfavorecimento ilícito são coisas de natureza diferente; que desde que alguém não se "encha" abusando do cargo fica supostamente impoluto, e a coisa é muito menos grave. Impuro será meter dinheiro aos bolsos, próprios e dos amigos, enquanto um abuso de poder que seja puro será toda uma outra conversa. Pressupõe também (e espera que quem ouve se solidarize com esses pressupostos) que recusar ilegalmente um alvará para uma coisa tão impura como uma casa de alterne é mais compreensível/desculpável, e que o facto de o queixoso se dedicar a um negócio como esse o descredibiliza a si e à sua queixa.

Punição dos impuros (mesmo que legais), atenuante do ilícito pela pureza e sonegação de direitos e de credibilidade aos impuros (mesmo que também legais e recordando populismos ao estilo "Mães de Bragança"), não nos chegam, nestes casos, de conservadores retrógrados.
Vêm de um governo que, classifiquem-se como se classificarem as políticas que aplica, é de um partido que se reclama de esquerda e vêm de um partido de esquerda onde muita gente - sei-o - não se revê em tais tiradas retóricas e nos pressupostos que lhes subjazem.

Publicado por Paulo Granjo às 04:51 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Linchem-se os impuros! (3)

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Antes daquele linchamento a que assisti quase em directo, era outra a imagem que me costumavam suscitar acontecimentos como esta lei ou estas declarações de responsáveis do BE.
Vinha-me à memória um filme sobre o holocausto (perdoem, mas não me lembro do nome) em que, antes de a guerra estalar, uma delegação da Cruz Vermelha vai inspeccionar as condições de detenção dos judeus num campo de concentração - como se a questão fosse a qualidade dessas condições e não o facto de estarem prisioneiros por serem judeus.

A comparação (com este caso e com o linchamento) é excessiva? Admito que possa ser.
É absurda? Aí, só se não pararmos para pensar como é fácil aceitamos acriticamente novos abusos, por virem embrulhados em objectivos purificadores e/ou em aparente bom senso - objectivos e "bom senso" enraizados, afinal, no que de pior e mais repressivo existe na nossa herança civilizacional, e que ciclicamente julgamos ter ficado enterrado numa qualquer esquina da história. É que, ao aceitá-los, não banalizamos apenas cada abuso; banalizamos também a aceitabilidade desses pressupostos enquanto base para novos abusos futuros.
Porque o mais terrível nos processos de banalização (atinjam eles métodos, práticas, ou princípios piedosos e controladores) é a sua insaciável capacidade de naturalizar tudo.
Lembrem-se por um momento, nesta época de vistos e de controle armado da imigração, que a generalização do passaporte, essa coisa tão evidentemente "natural", é posterior à I Guerra Mundial. Ou, neste tempo de guerras feitas à distância sobre as cidades, que o bombardeamento de populações civis, tão generalizado na II Guerra Mundial até ter chegado ao uso da bomba atómica, era tão inconcebível poucos anos antes que fez tremer de indignação a Europa, com o seu ensaio geral em Guernika.

Os casos que referi poderão ser comezinhos, mas a aceitação da pureza como critério de acção e justificação política não o é.
Se não nos pomos a pau, ainda acabamos a gritar que se linchem os impuros.

Publicado por Paulo Granjo às 04:43 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

março 27, 2007

Livros mais recentes - 2

O mesmo para este:

capa lobolo.JPG

Publicado por Paulo Granjo às 02:27 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Livros mais recentes - 1

Já que aparecem em baixo outros posts que partem deste livro,

capa sines.jpg

podem clicar na foto e dar uma vista de olhos.

Publicado por Paulo Granjo às 02:22 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

março 24, 2007

Tragédias anunciadas

ferry Inhaca.jpg

Lá pelas 11 da noite, um amigo moçambicano "mandou-me um bip". Ou seja, telefonou-me e desligou, para que eu lhe telefonasse de volta.
Servia esta instituição das práticas locais de telecomunicação para me dar os parabéns pelos 4-0 à Bélgica.
Claro que quiz saber dele, da família, dos amigos comuns e de outras notícias acerca da explosão no paiol de Maputo, há 2 dias atrás.
Notícias, não havia muitas. Ou, pelo menos, não eram muito diferentes da sucessão (cada vez mais espaçada) de números crescentes de mortos que os telejornais foram anunciando, ou do terror, sofrimento e progressiva resignação que seriam de imaginar.
O resto, já teria adivinhado quem conheça a situação e a cidade: um qualquer foco inicial de explosão ou incêndio, seguido de uma chuva de velhos rockets e engenhos explosivos obsoletos sobre os bairros em volta, muito densos, de casas pobres e na maioria precárias. Depois, mais explosões, sucedendo-se segundo os humores rabujentos desses velhos engenhos de destruição, espalhando a morte bélica no coração da cidade, em tempo de paz.
Escrevi "coração da cidade" pois, por muitas que possam ser as pessoas querendo restringi-la aos prédios do tempo colonial e às mansões de riquezas recentes, a Maputo que vive como cidade vai muito para além do cimento, espalhando-se pelo "caniço" onde vive a esmagadora maioria dos seus cidadãos - esteja esse "caniço" quase no centro, um pouco mais longe, na periferia ou mesmo para lá do Infulene e das suas fronteiras administrativas.
Este paiol, o material obsoleto que abrigava e as vítimas que fez estão em plena malha urbana.
A pergunta pertinente não é "como é que isto se deu?"; é "como é que se arrastou por tanto tempo uma situação que teria que dar nisto?".
Esta é uma tragédia anunciada. Não por especialistas pagos a peso de ouro, mas por um mínimo de bom senso.
Tal como a foto em cima, de um muito belo e exótico ferry boat , ligando a Inhaca a Maputo.

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Publicado por Paulo Granjo às 11:49 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 19, 2007

O rabo do lagarto

Alberto João Jardim não pára de me surpreender.
Deu para quase nos habituarmos ao comportamento bronco, agressivo, aldrabão e demagógico, de godfather e tiranete. Mas de pouco perspicaz (ou politicamente criativo) o homem não tem nada.
O aparente absurdo de se demitir "em protesto" e recandidatar, por indigno que seja e ridículo que soe, é um golpe de mestre.
Agora é a última altura em que, no quadro financeiro criado, AJJ ganhará eleições - e estou quase certo de que as ganhará, sem que o discurso histérico do "ataque à Madeira" precise, sequer, de ser decisivo.
No termo normal do mandato, as bases do seu poder (a "obra" sem olhar a meios, que alguém há de pagar, a distribuição de benesses, a punição financeira, profissional e social de todos os vagamente insubmissos) estariam destruídas. Seria a derrota por apodrecimento natural, com pequenas e grandes traições à mistura.
Assim, serão mais 4 anos. Mais alguns de poder e, entretanto, a possibilidade de "fazer a agulha" para fundos estruturais de hiper-periferia e a hipótese de que a situação se altere a nível nacional.
AJJ não está a fazer teatro. Está a jogar a sua sobrevivência da forma mais eficiente que consigo imaginar.
Ferido de morte, golpeado onde há muito se sabia estar o ponto fraco do seu pedestal, ainda esperneia.
Espero sinceramente que seja, já, o abanar do decepado rabo do lagarto.

Publicado por Paulo Granjo às 11:40 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

fevereiro 18, 2007

Aprendendo o perigo e a ser um de nós. Integração profissional na indústria de refinação

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Em memória de Luís Manuel Simões (1958-2007)

No prelo em Revista Lusófona de Educação

Partindo da observação participante da laboração na refinaria de Sines, este artigo expõe a forma como os trabalhadores aprendem e apropriam o perigo laboral, através de um processo auto-organizado de “participação periférica legítima”, e discute as capacidades e potencialidades que os conhecimentos e as noções nele reproduzidos apresentam para a gestão do perigo tecnológico – no contexto estudado e num âmbito mais geral. O equacionamento desta questão torna-se legítimo e necessário pelo facto de o processo de aprendizagem e integração profissional que foi observado ter efeitos directos sobre a percepção da ameaça (reproduzindo uma visão não probabilística do perigo conducente a atitudes baseadas no “princípio da precaução”), na limitação dos perigos decorrentes da tecnologia manipulada e na neutralização de factores sociais que os potenciam.

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Publicado por Paulo Granjo às 10:52 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 17, 2007

Adeus, "Lico"

Ser o filho mais novo tem uma coisa terrível. É a probabilidade de, a certa altura, irmos assistindo à morte dos nossos irmãos.
Tinha perdido um deles há anos, tinha apanhado um segundo susto entretanto e, esta madrugada, perdi um segundo irmão - o Luís.
A repetição não ajuda a naturalizar a morte, ou a aliviar o choque da sua chegada - por natural que ela sempre seja e por muito esperada que, neste caso, ela fosse.
Doi sempre da mesma maneira.
Não falarei mais disto. Mas os posts "Ser antropocoiso" 2 e 3 terão que esperar. O próximo post será um artigo cuja aceitação para publicação me chegou, também, hoje de manhã. Um artigo que será publicado em memória de Luís Manuel Simões.
Adeus, "Lico".

Publicado por Paulo Granjo às 03:47 PM | Comentários (2) | TrackBack (0)

fevereiro 12, 2007

Ser antropocoiso

Há antropólogos de todos os tipos e feitios.
Mesmo se, depois do Holocausto e da vergonha do racismo "científico", poucos passaram a ser os maduros dedicados a medir crânios, a lista é infindável:

Houve-os que contribuíram, acrítica ou afincadamente, para as dominações coloniais e houve-os que as puseram em causa ou contra elas agiram, levando a histórias de expulsões e mesmo assassinatos às mãos da "secreta" do apartheid.
Há aqueles que reclamam estudar "sociedades", outros "culturas", outros "relações" ou "dinâmicas" sociais e outros ainda os "universais humanos" - podendo cada uma dessas expressões representar coisas bem diferentes para cada um deles.
Há os que olham os "outros" para discorrer acerca dos "seus", os que deles falam com chico-espertismos de "topa-tudo", os que lhes pretendem "dar voz" (muitas vezes a sua, reduzindo o espaço para a deles), os que os fazem desaparecer em elegantes abstracções.
Há os que acreditam poder pensar e sentir como o "outro", os que o buscam compreender num processo demorado de presença e relação, os que questionam a tal de observação participante (quantas vezes por serem incapazes de a fazer sem superficialidade ou sem serem rejeitados), os que analisam do sofá, com ou sem uma pontual e breve visita de cortesia a uns quaisquer "indígenas".
Há os notários ou defensores de "mundos evanescentes", os intérpretes da mudança, os prosélitos da justiça, os crentes na neutralidade do seu trabalho e, mesmo, os passadores de "certificados de indígena".

Que é, então, ser antropólogo?
Em que é que o facto de eu o ser se torna relevante para o que for ficando escrito neste blog?

Resposta em breve.

Publicado por Paulo Granjo às 11:05 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 11, 2007

Cheguei agora, de votar Sim

Cheguei agora a casa, de votar "sim".
Sem indecisões ou dúvidas, que já não se tinham posto há 8 anos, nem sequer há uns 27 - quando era o único homem (ou jovenzinho) no meio de não sei quantas mulheres, protestando à porta da Boa Hora contra um julgamento por aborto.
Agora, como então, a minha motivação imediata foi acabar com os julgamentos e eventual prisão de mulheres que se viram obrigadas a abortar. Também sou sensível à questão de saúde pública e não me são indiferentes os vários tipos de negociata em torno do aborto clandestino.
A razão essencial para o meu voto não foi, contudo, nenhuma dessas. E, por ela não ser necessariamente "boazinha" para muita gente, a calei durante a campanha. Que, entre tanta táctica mainstream de marketing no campo do "sim", não me viessem os amigos acusar de ter um efeito contraproducente.

O ponto onde, antes de mais, se sustenta a minha posição a favor do "sim" é fácil de enunciar: reconheço a cada mulher, e só a ela, o arbítrio sobre o uso do seu corpo e da sua fertilidade.
Isto inclui, claro, em que alturas e circunstâncias ter filhos, ou recusar-se de todo a tê-los. Isto independentemente, também, da situação da mulher ser ou não trágica em termos financeiros, emotivos ou sociais.
É para mim um direito essencial, e basta - em qualquer altura, mas sobretudo nestes tempos em que recrudescem as tentações de policiamento sobre a vida, o corpo e as formas de os viver.

Repugna-me, pelo que tem de excessivo, de ignorância e/ou de miséria, a utilização do aborto como método de contracepção, em vez de último recurso. Mas antes albergar na lei e nos serviços de saúde tais excepções do que punir a sexualidade alheia - pois é disso que, em última instância, se trata.

Publicado por Paulo Granjo às 06:27 PM | Comentários (2) | TrackBack (0)

fevereiro 04, 2007

Interrogações sobre a globalização no quotidiano

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Publicado em Vértice, nº90 (1999)

A palavra “globalização” tornou-se parte integrante do nosso discurso corrente. Aparentemente, é clara, tal como clara parece ser a existência de um processo novo e actual que através dela designamos. É também uma ideia comum (mesmo que aceite de forma implícita) que ela conduz a uma uniformização cultural à escala planetária.
Esta aparente clareza suscita e merece algumas interrogações.
Tendo como pano de fundo o impacto da globalização no quotidiano, irei aqui discutir implicações dos fenómenos de contacto e troca cultural, questionando qual o poder uniformizador da globalização e em que medida ela é (ou pode ser) manipulada pelas culturas não hegemónicas. Antes, sugerirei que nos interroguemos a que ponto e em que acepção é a globalização actual diferente em grau ou em qualidade de fenómenos anteriores.

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Publicado por Paulo Granjo às 11:36 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

QUANDO A IDENTIDADE É UM PERIGO - mutações identitárias na refinaria de Sines

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Publicado em Etnográfica, vol. VI, nº 1 (2002)

Pode uma mutação nas identidades socio-profissionais tornar-se um factor de perigo industrial? Inesperadamente, sim. Um grupo de trabalhadores fulcral na refinaria de Sines, o dos “operadores de consola”, está em pleno processo de recusa de uma identidade “operária” e de construção de uma alternativa. Busca-a por oposição a outro grupo, considerado indiscutivelmente operário, e enfatizando as vertentes técnica e hierárquica das suas funções. Ao fazê-lo, distancia-se da visão não-probabilística do perigo e do quadro de representações e valores que os operários inculcam nos novatos, e que servem depois de base aos mecanismos de precaução que aplicam e à neutralização de outros factores sociais de perigo. De um obstáculo à indução de perigos acrescidos, os operadores de consola parecem estar a tornar-se, por este processo, num factor que a favorece.

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Publicado por Paulo Granjo às 11:01 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

A MINA DESCEU À CIDADE - memória histórica e a mais recente indústria moçambicana

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Publicado em Etnográfica, vol. VII, nº2 (2003)

A recente implantação em Moçambique de uma grande fundição de alumínio, com tecnologia de última geração, não tinha à sua espera um vazio conceptual acerca do trabalho e dos seus perigos. As referências para a interpretação popular e operária desta fábrica - a Mozal - não vieram contudo das indústrias já existentes, mas da memória histórica acerca do trabalho mineiro na África do Sul, que se sucede desde há mais de um século. Essa memória modela não apenas a imagem pública da empresa mas, com base nela, a própria avaliação que os operários fazem dos perigos laborais e do seu trabalho. Como consequência, perigos concebíveis como semelhantes aos do trabalho nas minas são enfatizados e objecto de cautelas aparentemente excessivas, enquanto diminui a vigilância para com os restantes. Também o emprego é visto, à imagem da migração mineira, como uma situação transitória e bem paga, destinada a criar condições para uma vida melhor, noutro lugar.

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Publicado por Paulo Granjo às 10:05 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Há uma cultura do risco?

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Do livro “4 olhares sobre a cultura”, editado pela Cooperativa Cultural Popular Barreirense (2006)

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Publicado por Paulo Granjo às 09:37 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Working at Mozal: the construction of a “border culture”

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Comunicação à conferência “Re-thinking worlds of labour. Southern African labour history in unternational context”, Wits University, Joanesburg (2006)

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Publicado por Paulo Granjo às 09:00 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Quando o conceito de “risco” se torna perigoso

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Publicado em Análise Social, nº 181 (2006)

Os dados de uma pesquisa na refinaria de Sines indicam que a utilização impressiva da noção probabilística de “risco” pode induzir novos perigos na laboração, enquanto visões não-probabilísticas das ameaças se revelam empiricamente mais adequadas e potenciadoras da segurança. Se as limitações da análise probabilística se tornam mais evidentes nos contextos tecnológicos complexos, não menos preocupantes são os efeitos de sentido que resultam da hegemonia do conceito de “risco” e as consequências do papel que este assume nas relações de poder entre tecnociências, empresas, Estado e cidadãos, ou que resultam da sua aplicação impressiva por parte destes últimos. Com parcial responsabilidade na reprodução dessa hegemonia durante as últimas décadas, deverá caber hoje às ciências sociais um papel central na crítica do estatuto epistemológico da noção probabilística de “risco” e das suas consequências sobre a esfera política, o perigo e a segurança dos cidadãos.

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Publicado por Paulo Granjo às 06:37 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Wining back our good luck: bridewealth in nowadays Maputo

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Publicado em Ufahamu, vol.32, nº3 (2006)

Previously translated as “bridewealth”, south Mozambican lobolo is often reduced to an archaic economical transaction that vilifies the woman and regulates descent. A case recently observed in Maputo rather presents it as a “traditional” toll which allowed the couple to overpass problems arising from innovative conjugality, by manipulating ancestors’ spirits’ role. Departing from this case and from the historical and synchronic variation of lobolo, it emerges as a polysemic institution, adaptable to very different and changeable needs. It’s also seen as a dignification source to individuals and their families, presenting unique abilities of descent legitimation and control over uncertainty – factors that reinforce its continuity, regardless of what will happen to the hegemonic gender ideology.

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Publicado por Paulo Granjo às 05:53 PM | Comentários (2) | TrackBack (0)

Limpeza ritual e reintegração pós-guerra em Mozambique

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Publicado em Análise Social, nº182 (2007)

A eficaz reintegração social dos veteranos e de outras pessoas envolvidas na guerra civil de Moçambique foi inseparável da performance generalizada de rituais de limpeza, descritos no artigo. A eficácia desses rituais, reinventados nas últimas décadas, deve-se em grande medida à coerência que mantêm com os sistemas locais de interpretação do infortúnio, com o problema que pretendem resolver e com procedimentos previamente conhecidos e respeitados. O seu papel superou a reintegração individual, tendo contribuído para a aceitabilidade dos antigos inimigos enquanto «pessoas como as outras» e da competição democrática por meios pacíficos, em substituição do confronto militar.

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Publicado por Paulo Granjo às 05:48 PM | Comentários (2) | TrackBack (0)

Determinismo e caos, segundo a adivinhação Moçambicana

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Tradução de artigo publicado em Etnográfica, vol. XI, nº1 (2007)

Embora seja habitual assumir que os sistemas de interpretação do infortúnio desenvolvidos na África austral são deterministas, a noção de caos determinístico parece ser mais adequada para compreender os princípios subjacentes à adivinhação moçambicana através do tinhlolo. Esse sistema é baseado numa estrutura determinista, pretende explicar e regular a incerteza, mas o seu output é caótico devido à complexidade dos factores envolvidos, incognoscíveis na sua totalidade e caracterizados por agência. Entendê-lo como um sistema de domesticação do aleatório legitima novos campos comparativos de âmbito mundial (incluindo com a noção probabilística de "risco") e altera o foco do estudo de fenómenos de tipo Ngoma, dos seus mecanismos de reprodução enquanto cultos de aflição para as lógicas e visões do mundo que lhes estão subjacentes.

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Publicado por Paulo Granjo às 05:11 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)