janeiro 16, 2004

Cenas à Brava

Fade In.

INT. RECEPÇÃO DE ESCRITÓRIO - DIA

Uma Recepcionista, com um ar de quem não faz muito, cerca de 25 anos está sentada na sua secretária, na recepção de um escritório sofisticado. Fala ao telefone, ou melhor, monologa, desinteressada de tudo a que a rodeia.

Recepcionista
...pois, porque a Índia não é bonito, mas Goa tem interesse para nós, porque foi uma cidade Portuguesa!

Entra uma mulher franzina, com um ar tresloucado.

Recepcionista
Olha, tenho aqui uma senhora, vou ter que desligar. Até logo!

A Recepcionista desliga o telefone e olha para a Mulher

Recepcionista
Sim?

Mulher
Boa tarde. Vinha falar com o senhor Horácio Veríssimo.

Recepcionista
Tem hora marcada?

Mulher
Bom... eu... sou uma amiga de longa data.

Recepcionista
E quem devo anunciar?

Mulher
Maria de Maio.

Recepcionista
É só um segundo.

A Recepcionista pega no telefone. Carrega num botão na central telefónica e aguarda resposta.

Recepcionista
Senhor Horácio? Está aqui a senhora Maria de Maio para falar consigo.

A Recepcionista ouve atentamente. Tapa o bocal e olha para Maria de Maio.

Recepcionista
O Senhor Horácio pergunta se quer pedir emprego ou dinheiro emprestado?

Maria de Maio
Eu... eu só queria tomar um café...

A Recepcionista acena com a cabeça e volta a falar com Horácio.

Recepcionista
A senhora diz que só quer tomar um café...(pausa de espera) muito bem!

A Recepcionista desliga o telefone e levanta-se da sua secretária. Dirige-se à máquina do café e tira uma bica em copo de plástico. Dá-o a Maria de Maio.

Recepcionista
Aqui tem o seu café. Quer açúcar ou adoçante?

Maria de Maio
Mas... eu tenho que falar com ele.

Recepcionista
Lamento, mas o senhor Horácio não a pode atender.

Maria de Maio
Mas eu tenho que falar com ele!!!

Recepcionista
O Sr. Dr. Veríssimo afirmou que a senhora passou 10 anos sem lhe dirigir a palavra. Dez anos! Parece que lhe deixou de falar quando ele ainda estava na miséria, não?

Maria de Maio
Eu... eu...

Recepcionista
Poooois... você é como todos os outros, ignoraram o coitado do meu patrão enquanto ele andava nas ruas da amargura e agora que ele é um empresário rico e bem sucedido, caem-lhe todos em cima!!!

Maria de Maio começa a soluçar.

Maria de Maio
Eu tenho que falar com ele, eu preciso de falar com ele... EU VOU FALAR COM ELE!!!

A Recepcionista pega no telefone.

Recepcionista
Segurança? Venham cá acima ao gabinete do senhor Horácio. Temos um problema.

Desliga e olha para Maria de Maio que começa a chorar.

Maria de Maio
Eu não entendo. Nós éramos tão amigos!

Abrem as portas do elevador e saem dois seguranças de fato, óculos escuros e auriculares. Agarram em Maria de Maio e arrastam-na para o elevador. Ela segura-se aos lados da porta, não a deixando fechar.

Maria de Maio
Não matem a Maria de Maio! Não matem a Maria de Maio!

A Recepcionista pega num pisa papéis e começa a bater com ele nos nós dos dedos de Maria de Maio. Esta larga finalmente a porta que se fecha, abafando os gritos. A Recepcionista recompõem-se e volta a sentar-se.

Fade Out.

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janeiro 10, 2004

Sem título

A

- O pior é começar – disse-me o Zé de dentes cerrados na ponta do seu Monte Cristo. Depois de a arrancar cuspiu-a para o lado e virou-o, rodando bem de forma a poder molhar a outra ponta. Acendeu um fósforo e colocou-o muito abaixo do charuto, mas mesmo assim acendeu. Nunca percebi como é que se conseguem acender charutos sem que a chama esteja em contacto directo com o tabaco, mas também nunca me dei muito bem com física.
- Dado o primeiro passo, a coisa começa a fluir e depois é só deixar andar…
Parou a pensar por uns instantes enquanto expelia uma baforada de fumo para o ar. O cheiro agradava-me, aliás, apesar de não fumar, sempre gostei do cheiro a tabaco, fosse ele qual fosse: cigarros, charutos, cachimbo… cachimbo então era algo que eu adorava. Principalmente quando era daquele tabaco Dinamarquês com cheiro a chocolate. Uma vez tive uma namorada que fumava tabaco de enrolar e quando fizemos três meses de namoro, ofereci-lhe um pacote desses. Adorava estar ao pé dela quando ela fumava aquilo. Só nunca percebi se ela passou a fumar aquela marca desde então, ou se só fumava do mesmo pacote que lhe tinha oferecido quando estava comigo. Eu nunca me lembrei de lhe perguntar… aliás, eu nunca me lembrava de lhe perguntar muitas coisas. Se calhar foi por isso que ela me trocou pelo Crítico de Cinema…
- Bom, estás interessado, ou não? – perguntou Zé de repente.
Não sabia o que lhe havia de dizer. Por um lado era uma proposta que me agradava, mas por outro… não sei. Não estava com ele há um bom tempo. Para falar a verdade, não estava realmente com ninguém nos últimos dois ou três anos… não que estivesse estado isolado do mundo. Na verdade eu lidava diariamente com dezenas de pessoas: colegas de trabalho, vizinhos, amigos, familiares, conhecidos, enfim, falava com eles, jantava fora, tinha encontros românticos casuais, saia à noite, tudo! Mas lá no fundo no fundo, sentia-me sempre isolado, dentro de uma redoma invisível que havia criado à minha volta.
Porquê?
Sinceramente?
Não sei.
- Então? Estás a dormir ou quê?

B

- No outro dia entrou-me aqui uma fulana, pá… eu… não sei… era linda, linda, linda… olhe… um espetáculo… voçê nem imagina…
Não é que eu atrofie com conversa de taxista. Muito antes pelo contrário. Eu adoro conversa de taxista. Quer dizer, quando a conversa tem realmente interesse. Quando eles começam com aquela meteorologia de tasca é que não suporto, mas quando me contam histórias passadas em corridas passadas, adoro! A sério, são uma grande fonte de inspiração. Aliás, eu tenho a certeza de que se um dia um taxista decidir escrever um livro, ou um guião, vai ser muito bem sucedido. Taxistas, barbeiros, porteiras, padeiras, são os primórdios do reality show.
Este até parece estar a contar uma história interessante mas a minha cabeça hoje está a 200.
- …foi aí que chegámos e ela diz-me: "não tenho dinheiro". E aí eu viro-me e digo:" Ah, não! Então, como é, vou ficar a arder?" Olhe, não é que a cabrona… desculpe o termo ó amigo, mas é que a gaja começa a desapertar a camisa e eu só olhava para a fotografia dos meus filhos.
Afinal, ele só está a tentar fazer-me acreditar numa das fantasias sexuais dele. Nem vale a pena ouvir mais. Afinal tenho muito mais em que pensar. Principalmente na proposta do Zé…
A proposta do Zé…
Quem é o Zé? Pois… boa pergunta.

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Cenas-quando ainda havia o Escudo

Fade Out

EXT. PORTA DE BANCO – DIA

A camera aproxima-se do quadro da cotação de câmbios e enquadra no valor da lira italiana: 0.10$.

EXT. RUA – DIA

A vítima fala ao telemóvel com um amigo.

Vítima
...EPÁ NÃO SEI. CHEGUEI AGORA MESMO DE ITALIA...
...AINDA NÃO TIVE TEMPO DE FAZER NADA...
...POSSO TE LIGAR AMANHÃ? OK HASTA...

A vítima desliga o telemóvel e surgem os dreads, Ofélia, Formiga e Gafanhoto, jovens, vestidos como se tivessem saído de um vídeo de Rap, com o andar característico e a expressão de mauzões do bairro na cara. Ofélia e Formiga são negros, Gafanhoto é branco. Olham para a Vítima e decidem assaltá-lo.

Ofélia
Ò Sócio, orienta aí um nite!

Vítima
Desculpe?

Formiga
Um cigarro!

Vítima
Eu não fumo.

Gafanhoto
Deixa lá curtir o teu telelé.

Vítima
O quê?

Ofélia tira-lhe o telefone da mão.

Ofélia
É fixe! Quanto é que te custou?

Vítima
Vintes contos! Mas o que é que vocês estão a fazer? A Assaltar-me?

Os três riem-se em coro. Formiga tira uma navalha.

Formiga
Ya, meu. É isso mesmo. Deixa lá ver o relógio.

Vítima
Mas, mas...

Formiga agarra-lhe no pulso e arranca-lhe o relógio.

Formiga
Aí, altamente. Curte lá o relógio do man.

Ofélia
Agora passa para cá a carteira!

Vítima
Mas... vocês não me podem fazer isso!

Ofélia tira-lhe a carteira do bolso de trás. Abre-a e tira quatro notas de mil Liras italianas de dentro.

Ofélia
Curtam lá. O bacano tem dinheiro camone na carteira.

Formiga
Hi, bué da fixe.

A Vítima passa-se e resolve reagir.

Vítima
Vocês devem tar mesmo muita felizes!
Que é que vão dizer à polícia quando vos apanhar?
Vão apresentar uma factura do telemóvel?
Vão dizer que o relógio é vosso?
Que a faca é porque vocês vivem num bairro perigoso e que é só pra se defenderem?
Que as 4 mil liras a polícia é que vai ter de responder porque vocês nunca as tinham visto na vida?
E ainda por cima isso só vale...

Ficam todos em suspense a olhar para a vítima.

Gafanhoto
Vale quanto, dread?

A vítima fica com um olhar maldoso.

Vítima
Cem contos. A lira tá a 25 escudos.

Ofélia
Cem barras!

Formiga
Quanto é que isso dá a dividir por três?

Começam a fazer contas de cabeça.

Insersor: 23 minutos depois.

Estão todos de roda de Ofélia que tem uma caneta e um papel na mão.

Gafanhoto
Epá, eu acho que é...

Ofélia
Tem lá calma, Tem lá calma!

A vítima continua especada a olhar pra eles. Revira os olhos e pergunta:

Vítima
Porque é que não usam a calculadora do telemóvel?

Eles olham feitos parvos para a vítima.

Ofélia
Já sei! Vamos é fazer assim: temos quatro notas.
Uma é pra mim. Outra pra ti (dá a gafanhoto). Esta é pra ti ( dá a formiga) e outra é aqui pro dread ( dá à vítima). Toma lá pra não ficares tristes e se alguém te vier catar diz que és amigo do Ofélia.

Eles afastam-se e a vítima olha para a nota de mil liras e chama-os de volta.

Vítima
Ouçam lá, querem fazer um negócio?

Eles viram-se para trás.

Ofélia
Que negócio?

Vítima
É assim: eu compro de volta o meu relógio e o meu telemóvel.

Formiga
Ai é? E quanto é que dás?

A vítima acena a nota de mil liras.

Vítima
Vinte e cinco contos.

Eles olham uns para os outros e conferenciam. Voltam a olhar para a vítima.

Gafanhoto
Mas assim vai ser fodido para voltar a dividir o dinheiro.

Vítima
'Tão, vão jantar todos e pagam com a minha nota...

Voltam a conferenciar. Voltam para a vítima.

Ofélia
Negócio fechado!

Fazem a troca.

EXT. PORTA DE RESTAURANTE DE LUXO – DIA

Os dreads estão à porta.
Um empregado vê os aproximar e barra-lhes a passagem

EMPREGADO
Onde é que vocês vão?

Ofélia
Queriamos uma mesa pra três.

EMPREGADO
Tá tudo reservado.

Conferenciam.

Ofélia
Pá a gente devia era dar qualquer coisa aqui ao bacano.

Gafanhoto
Podiamos dar uma das nossas notas estrangeiras.

Formiga
Tás ta passar? Isto é bueda guita meu!

Ofélia
Algum de vocês tem dinheiro português?

Formiga
Pá tenho aqui uma nota de cinco.

Ofélia
Fixe. Siga lá.

Dirigem-se À porta.
O empregado olha para eles.

Ofélia
O chefe tá com ar de quem tá a ter um ataque de anésica. Veja lá se isto dá pro tratamento.

Estende a nota ao empregado. Este mete-a no bolso e deixa-os entrar.

INT. RESTAURANTE DE LUXO – DIA

Os dreads estão sentados a uma mesa coberta de carcaças de lagosta e garrafas de Moet et Chandon vazias.
Fumam charutos e têm umas boazonas à volta deles.

Ofélia
Isto é que é ser gangsta!

Formiga
Ouve lá isto deve ser muita caro, meu.

Ofélia
Caras são as putas. Até parece que tás ta esquecer quanta guita é que tens ai no bolso. Gafanhoto! Pede aí a conta.

Gafanhoto estala os dedos.

Gafanhoto
Garçon! A conta.

O empregado vem com a conta. Formiga apanha-a e assobia ao ver o preço.

Formiga
Hi meu bueda caro!

Ofélia olha para a conta e faz um ar indiferente.

Ofélia
Não passa nada! Ó chefe! Aceitam dinheiro estrangeiro?

Empregado
Não, mas tem uma maquina de cambio automático ali do outro lado da rua.

Ofélia
Tá-se bem! Malta, venho já. Tomem bem conta das nossas amigas.

Gafanhoto
Aproveita e troca o meu.

Dá-lhe a nota. Formiga faz o mesmo.

Ofélia afasta-se.

EXT. MÁQUINA DE CÂMBIO AUTOMÁTICO – DIA

Ofélia mete uma nota de mil liras na máquina. Esta deixa cair uma moeda de cem escudos. Ofélia olha para a moeda incrédulo. Começa a dar murros na máquina.

Ofélia
Puta de máquina! Tas ma gamar a guita?

Pontapeteia a máquina. Aparece um bancário mas não vemos a cara dele. A camera assume o seu ponto de vista.

Bancário
Que é que se passa aqui?

Ofélia
A máquina tá ma catar a guita.

Bancário
Desculpe?

Ofélia
Meti aqui mil liras e isto só me deu cem paus.

Bancário
Que é que tava à espera que lhe desse?

Ofélia
Atão, vinte e cinco contos.

Bancário
Vinte e cinco contos? Mas a lira só vale dez centavos!

Ofélia
Dez centavos? Mas o pula disse que era vinte cinco paus.

Bancário
Quem?

Ofélia fica a pensar. Olha para as notas.

Ofélia
Já sei! Como ele era branco pra ele era vinte cinco mas pa mim que sou preto já é dez centavos.

Bancário
Não. O senhor não está a perceber...

Ofélia
Tou tou. Isto aqui é racismo! Escravizaram-nos tanto tempo e agora ainda nos tão a explorar pá.

Bancário
Mas...mas...

Ofélia
RACISTA!!!

Ofélia afasta-se. Vemos que o bancário é um homem negro que olha para Ofélia intrigado.

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janeiro 08, 2004

Cenas 5.8

Fade In.

INT. GUICHET DE ATENDIMENTO – DIA.

Dois Funcionários Públicos trabalham sentados em frente aos seus repectivos computadores. UmJovem que coxeia, aproxima-se do balcão.

Jovem
Bom dia.

Os dois Funcionários mantém-se impávidos e serenos, como se nada fosse. O Jovem olha para eles.

Jovem
Bom dia. Se faz favor...

Os Dois Funcionários olham um para o outro. Um deles mostra-se contrariado e levanta-se em direcção ao balcão.

Funcionário
Bom dia. O que deseja?

Jovem
Recebi este postal hoje de manhã e vinha cá para rectificar a minha situação militar.

O Jovem estende um postal ao Funcionário. Este olha para o postal e de seguida para o Jovem. Afasta-se e vai até ao seu computador. Depois de se certificar da situação, faz um sorriso sacana e volta ao Guichet.

Funcionário
Poooiis! Com que então, andamos a brincar com a tropa, não é?

Jovem
Desculpe, mas se alguém anda aqui a brincar, não sou eu. São vocês!

Funcionário
Como é que é?

Jovem
Esse postal, só mostra a vossa incompetência.

Funcionário
Qual incompetência? O senhor faltou à inspecção no passado dia 10 de Outubro. Você é que não teve o cuidado de ir consultar os editais à sua Junta de Freguesia.

Jovem
Eu não fui ver os editais, porque já tinha a minha situação militar regularizada.

Funcionário
Tinha, tinha. Tem é medo de ir à inspecção!

Jovem
Não é uma questão de ter ou não ter medo. Trata-se de...

Funcionário
Isto, o Senhor sabe, que aqui na tropa, a gente não brinca em serviço. Estamos atentos a tudo. Vocês escusam de tentar fugir porque mais cedo ou mais tarde vêem todos cá parar.

Jovem
Pois, mas...

Funcionário
Nunca ouviu o ditado: Quem não quer ir à fonte acaba por lá ir parar. Não damos hipóteses a ninguém.

Jovem
O Senhor não me está a deixar explicar. Passa a vida a interromper-me.

Funcionário
Isto não tem explicação. O Senhor sabe que como cidadão deste país, tem os seus deveres e as suas obrigações.

Jovem
Mas eu já cumpri os meus deveres.

Funcionário
Já cumpriu? Então como é que eu tenho aqui no nosso sistema informático que você ainda nem fez a inspecção.

Jovem
Isso é que eu não sei. Mas de certeza que o erro é vosso.

Funcionário
O senhor está a pôr em causa o bom funcionamento do seu país?

Jovem
Sim. Eu e mais dez milhões.

Funcionário
Eu acho cá uma graça a esta gente. Falam muito, nas no fim de contas não sabem nada.

Jovem
Eu não vim aqui para discutir consigo. Eu só vim dizer que este postal não tem razão para existir, porque eu já cumpri o meu Serviço Cívico.

Funcionário
Serviço Cívico?

Jovem
Sim. Estive como voluntário na Cruz Vermelha e foi-me dada a equivalência ao Serviço Cívico.

Funcionário
Pois. Serviço Cívico. Essa porcaria só serve para mariquinhas e covardes. Eu logo vi pelo seu ar que você não tinha estômago para ser um defensor do país.

Jovem
Desculpe, mas eu...

Funcionário
Vocês jovens de hoje em dia não sabem o que é a vida. No meu tempo não havia cá Objectores de Consciência para ninguém. Ia tudo para lá para baixo defender o que era nosso.

Jovem
Olhe lá...

Funcionário
Eu fui comando de guerra, ò jovem! Vi morrer muitos camaradas meus. Não tinha pai e a minha mãe estava doente e mesmo assim enfrentei o meu destino. Objectores de Consciência... Cobardes, é o que vocês são.

Jovem
Por acaso também tive que enfrentar muitas vezes a morte.

Funcionário
Ah sim! Não me diga. O condutor da sua ambulância era assim tão mau?

Jovem
Não. Ofereci-me para ir em missão para Angola, num campo de refugiados, a prestar auxílio às vítimas de minas anti-pessoal.

Funcionário
Pffff! Que perigo! Nem sei como é que você conseguiu voltar. Deve ter sido muito grave.

Jovem
Por acaso foi. Por acaso era comum levantarmos a meio da noite com o nosso campo a ser bombardeado por morteiros. Todas as semanas tinha que incinerar corpos de crianças mortas, par além de...

Funcionário
Isso não é nada comparado com a Guiné. Lá é que corríamos perigo. Isso Angola é só meia dúzia de pretos ao estalo por causa de uns quantos diamantes.

Jovem
Desculpe, mas começo a ficar ofendido com a sua conduta.

Funcionário
Ofendido! Eu é que estou ofendido com a sua presença no meu local de trabalho. Ofendido. Você nem sabe o que é levar tiros, quanto mais.

Jovem
Por acaso sou capaz de ter uma boa ideia. Aparentemente, até melhor que o senhor.

Funcionário
Porquê? Já levou tiros, foi?

O Jovem fica a olhar enfurecido. Tira uma prótese da perna esquerda e coloca-a em cima do balcão.

Jovem
Não. Mas como pode averiguar, não me convém dar-lhe um pontapé no cu.

Volta a colocar a prótese e afasta-se. O Funcionário vê-o a ir-se embora. Ri-se.

Funcionário
É bem feita. Para a prender que não adianta fugir. Queria se safar à guerra e acabou nela.

Um Colega do Funcionário olha para ele intrigado.

Colega
Olha lá. Tu não me tinhas dito que o teu pai tinha metido uma cunha para não ires para África e que acabaste por fazer a tropa cá?

Funcionário
Sim e depois?

Colega
Então? Tiveste aquela conversa toda com o rapaz...

Funcionário
Oh! Ele sabe lá...

Volta a sentar-se na sua secretária e olha para o computador.

Funcionário
Ora... onde é que eu ia? AH!...

Plano do ecrã do PC onde se vê que o funcionário está a jogar Solitaire.

Fade Out.

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janeiro 02, 2004

Memórias de um ex-pornógrafo I

- Sabes o que é que os Gomorritas faziam?
Paco olhou para mim de lado e encolheu os ombros.
- Boa coisa não devia ser...- respondeu desinteressadamente – para nem vir mencionado na Bíblia.
Acenei com a cabeça. Tirei um cigarro do maço que acendi expelindo uma generosa baforada.
- Olha lá, o gajo disse que telefonava quando? – perguntei como quem quer mudar de assunto.
- Ele disse que ligava dali a 5 minutos.
Olhei para o meu telemóvel a fim de verificar quanto tempo tinha passado.
- Já passou um quarto de hora... – comentei.
Ficámos em silêncio. Paco tinha a carrinha desligada, pelo que o frio de Janeiro já se começava a sentir lá dentro. Estava uma noite de céu limpo, mas a temperatura era de rachar. Os vidros começavam a ficar embaciados.
- Tens pena da Sara? – Perguntei para quebrar o gelo.
- Quem é essa?
- A mulher de Lot.
- Ah! A que ficou transformada em sal?
- Yep...
- Tou-me a cagar...
Aceitei a resposta mas tinha que me manter acordado. A noite ainda era uma criança, mas ultimamente as visitas do João Pestana não eram das mais assíduas.
- Eu tenho... – acrescentei.
- Porquê?
- Tadinha. Se calhar estava só a ver se tinha fechado bem a porta.
Paco ia a responder mas o móvel dele tocou. Era o Dr. Trompas.
- Olha o gajo! – afirmou Paco antes de atender – Tou?... Sim, estamos à porta, dentro da carrinha... quantas?...Achas que chega?... ok...vamos lá buscar a cena então... até jazz!
Paco desligou o telefone.
- Bora lá. – ordenou.
Saímos da carrinha e dirigimo-nos à Sex Shop. Lá dentro o ambiente era bastante mais acolhedor, embora a música de carrinhos de choques quebrasse um bocado a cena. Mas também não íamos ali para passar um bom bocado. Apenas para nos abastecermos de algum material. Para além do empregado de balcão, um homem de meia idade com um ar de alcoólico em quadragésima nona recuperação, encontravam-se apenas dois ou três indivíduos mal encarados que folheavam revistas ou liam as contracapas das K7’s ou DVDS, como se o enredo lhes interessasse para alguma coisa. Paco encostou-se a mim com um ar cúmplice.
- Epá... achas que não vai dar cana? - perguntou-me.
- Porquê?
- É uma cena assim uma beca...
- O que é que foi?- perguntei um tanto ou quanto no gozo – Tás com algum problema?
- Euuuuu... não!
- Atão?
Um dos clientes, com cara de poucos amigos e de muito ter aprendido à chapada na tromba, olhou para nós. Provavelmente pensou que estávamos a gozar com ele pois imediatamente recolocou uma revista na prateleira e passeou-se com ar de quem estava ali só para fazer uma visita de mera curiosidade.
- Não achas mau estar a perguntar ao homem? – perguntou Paco.
- Eu não? Queres que seja eu a perguntar?
- Não, deixa tar. Eu pergunto.
Paco encheu o peito de ar para ganhar coragem e dirigiu-se ao balcão determinado.
- Boa noite, nós estávamos à procura de...
Um dos clientes deitou um olhar inquisidor a Paco. Ele ficou hesitante. Comecei a sentir-me um pouco menos à vontade. Ao fim e ao cabo, aquilo que tínhamos ido ali buscar poderia levantar suspeitas...
Paco baixou a voz:
- ... Lubrificante.
O homem queria rir. Eu conseguia ver nos olhos dele. Não precisava de ser o melhor telepata do mundo para o fazer. Mesmo assim ele conseguiu manter a compostura. Mas levantou a voz de modo a que os outros clientes pudessem saber ao que nós tínhamos vindo.
-Lubrificantes é ali naquele expositor.
Todos os olhares estavam colocados em nós. Sentíamo-nos como um rato encostado a um canto rodeado por gatos famintos.
- O-obrigado – agradeceu Paco.
Dirigimo-nos calmamente ao expositor, sem querer dar muito nas vistas, apesar de tal ser agora completamente impossível. Havia vários, de todas as cores e feitios, com sabores, sem sabores, com embalagens redondas, quadradas...
Descobrimos um da mesma marca daquele que havíamos utilizado antes. Apontei a Paco.
- Olha, não foi este que utilizámos da última vez?
- ya. Mas estão aqui dois... um com rótulo vermelho e outro com rótulo preto. Lembraste qual deles era?
- Não...
- Se calhar é melhor perguntar...
- Perguntar o quê? – perguntei um tanto ou quanto alarmado.
- Qual é a diferença...
Sem que eu tivesse tempo de responder, já Paco ia na direcção do balcão. Voltou acompanhado pelo homem.
Eu dirigi-me a uma prateleira com vídeos nacionais na esperança de ver um nosso, como se isso fosse mudar alguma coisa. Ouvi Paco questionar o empregado:
-Olhe, nós queríamos levar este, mas gostávamos de saber qual é a diferença entre o vermelho e o preto.
O homem tirou um molho de chaves do bolso e abriu o expositor, retirando lá de dentro as duas embalagens.
-É assim, -disse em alto e bom som – este aqui, o vermelho é mais “quente”, ‘tá a ver? Este outro, é o mais normal.
Estendeu as embalagens a Paco que as segurou intrigado.
- Pois... eu não sei, como não sou eu que vou... – dito isto, Paco ergeu as embalagens de modo a que eu pudesse ver – O que é que achas?
Naquele momento desejei ser uma avestruz para poder enterrar a cabeça no chão. Além de gay, pensavam agora que eu era o passivo.
- É...melhor o normal. – respondi timidamente, agarrando num DVD que estava à minha frente de modo a não sentir os olhares de escárnio dos restantes presentes.
Para minha grande sorte, o filme tinha o sugestivo título de “Chicks With Dicks #9”. Pousei rapidamente e fui até ao balcão onde Paco pagava o produto.
-Quer que embrulhe? – perguntou o empregado.
- Não é preciso... – respondeu Paco – é para ser utilizado já.
Meu Deus. Não podia ser pior.
O empregado colocou a embalagem num pequeno saco que Paco agarrou.
- Já agora não me podia dar um recibo? – perguntei.
O homem olhou para mim de lado, com cara de que me queria partir o focinho.
- É para um trabalho – expliquei.
O empregado passou o recibo. Pelo canto do olho conseguia ver a frieza com que os outros clientes me olhavam. O homem estendeu-me a factura.
-Obrigado. –agradeci.
Ao sairmos da loja, não sei porquê, mas virei-me para trás.
- estamos a fazer um filme... – expliquei – Um porno...
Ninguém mudou a expressão facial. Olhavam todos com aquela cara de quem diz “Pois, pois...”
Paco voltou atrás e puxou-me pelo braço.
- A sério! - gritei
- Vamos embora. - disse-me Paco.
E fomos.


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