novembro 23, 2003

QUANDO NADA, VALE NADA

Há dez anos atrás descobri a banda basca Soziedad Alkoholica e na altura foi uma grande influência, quer para mim pessoalmente, quer para a banda onde eu vocalizava(uso este termo em vez de cantar, pois na realidade eu limitava-me a berrar). Com o tempo, fui esquecendo esta banda, apenas de vez em quando lá punha um ou outro CD deles, mas praticamente perdi-lhes o rasto.
Recentemente, ouvi em casa de um amigo um albúm ao vivo dos S.A. e resolvi procurar o site deles para me actualizar acerca do que esta banda fez nos últimos anos.
Escusado será dizer que minha febre voltou a surgir e hoje oiço-os diariamente em particular o tema "Cuando nada, vale nada" do albúm " No Intente Hacer Esto En Casa!" lançado em 1997.
No entanto, nunca me deu para ler as letras deles, se bem que conhecendo minimamente o castelhano, sempre consegui entrar no contexto da mensagem, mas hoje, resolvi ler atenciosamente a do Cuando Nada, Vale Nada e pela primeira vez na minha vida senti-me tocado pela letra duma canção.
Traduzia-a para vocês lerem também:

Os pequenos sítios crescem quando não há nada neles
e deambulas entre as paredes, chocando-te,
olhando para todos os lados, parece-te ouvir
a loucura chamando, não a deixes entrar.
Olham para ti como para um anormal,
olhares sujos e esquivos,
muitos até se riem
ignorando a tua miséria, mas a ti
esses sorrisos magoam-te mais
como mil agulhas espetadas nos dedos,
arrancando uma a uma, cada unha da pele,
arrancando cada uma.
Atirado como um trapo para qualquer lado,
passando noites entre cartões,
desfrutar dos sonhos
recompensa sobreviver.
Estás de joelhos, rodeado de roupa,
suja a mão que tens estendida,
nunca pára de tremer,
não pára de tremer, de frio, de cansaço, e algo mais.
As sombras que se tornam animalescas,
custa distinguir a realidade quando a vida não vale nada
quando já nada vale nada.
Perdoa-me porque eu fui mais um,
eu fui mais um, mais um
dos que viraram o olhar ao passar
ao teu lado, quis disfarçar
como se não fosse nada comigo.

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novembro 22, 2003

Granny pt 1

-Hello? Granny?
-Hello? – Granny replied.
-Granny? Hi, It’s me?
-Hello?
I was talking on my cell phone, in the middle of a shopping mall, were I went to buy a present for Alana. I was afraid of making this phone call, because my grandmother is getting deaf as a fish and I always end up screaming in public. I raised my voice a little.
- Granny? It’s me. Paul!
- Who?
- Paul, grandma. Your grandson.
- No, Paul’s not here.
Jesus. This was getting worse. I was losing my patience. I raised my voice some more.
- No Granny, it’s me, Paul!
- Paul doesn’t live here. This is his Grandmothers house.
Oh my God…
-GRANDMA! THIS IS PAUL SPEAKING!!!
-Paul? Why are you screaming? I’m not deaf!
Great! Everyone was looking at me right now. I smiled apologetically to the other shoppers that stopped on their tracks staring. I had to leave the building.

It was my Granny’s birthday. I called her so I could go and pick her up to have a nice cup of tea somewhere. I kind of like my Grandmother, but sometimes she can be a real nuisance. You know how it is with old people, always complaining about everything and moaning and bitching, but this was my granny, and I had to respect her for that.

I picked her up at home around 4:30 in the afternoon. We went to this nice little café, where I had some black tea with crumpets with butter only. She shared the tea with me and ate toast. The crumpets are too hard for her these days. She was picking on me all the time: about my hair, my earrings, that I was too thin, still unmarried, had a lousy job and hadn’t shaved. I told her that she was beautiful, even for an 80 year old.
-Paul, I have a horrible headache.
This was not good.
-Since you live close by, could I go to your apartment so I can take an aspirin?
I didn’t live as close as that. In fact, her house was just two blocks away. I knew her plan. She wanted to see my flat so she could criticize me a little more. To say that I didn’t take proper care of myself, that I should find a good woman to marry me and the old blah, blah, blah.
But this year I was prepared. I had cleaned the house in the morning. Not because of grandma, but because of Alana. I was going to have dinner with her and somehow I was feeling lucky. I just smiled.
-Ok, Granny. We can go there, and then I’ll take you home.

We got inside my house. Granny started to look around, or should I say inspecting. Yes, that’s a better definition. She didn’t even pretend a bit. Right in front of me, she ran her finger on the top of my furniture, looking for traces of dust. But today she wasn’t lucky.
-So, you need an aspirin, right?
-What?
-Aspirin. – I repeated – for your headache.
She nodded. She started to take her coat of and gave it to me. She was planning to stay for a while. I had time, so I didn’t complain. I took her coat and left the living room while she sat on the couch.
The doorbell rang when I was going to hang the coat. I went to the door. It was Henry.
-Hi Paul! – Henry saluted.
-Hey Hank!
I was at the door, praying he didn’t invite himself to get in.
-So, what’s up? – He asked.
-I’m fine. And you?
-Fine too, thanks. – He replied – Can I come in?
Thanks, Lord.
-Uuuuhhhh – I started – Not a good time.
He looked at me quizzically. Then he saw granny’s coat on my arm.
-Ooooh! I see. – He gave me a kinky smile – naughty, naughty, naughty boy!!!!
-It’s not what you think.
-Nooooooo?
-No. It’s my Grandmother. She’s here.
-Oooooh! Right.
-So, what do you want Henry?
Henry looked around, and then lowered his voice.
-I was wondering. Did you take care of the little things for Jonathan’s stag night?
I should have known. The guy only showed up for interest.
-Yes, I did.
-Where are they? Can I see?
-Jesus, Hank! My grandmother is here. Can’t you leave it for another day?
He was really excited.
-Please! Where do you have them?
I looked over my shoulder. Granny was still on the couch. I lowered my voice.
-In the bathroom. Inside the aspirin box.
-Whoooooa. Tell her I’m here and I need to go to the toilet.
-Hank! No!
-Please!
I had to get rid of him, otherwise my Granny could come and that would complicate things even more.
-O.k., but just for a few seconds.
-Ok, ok, ok.
Henry could be such a child sometimes. I let him in.
-Granny! – I called – I have a friend here, he just wants to use the bathroom.
She didn’t reply.
-Get in. – I said to Henry – Quick!
Henry ran inside my flat. He looked at Grandma.
-Hello there!
Grandma kept quiet. I hurried him up.
-Come on, Hank! Let’s go.
Hank followed me into bathroom. To my surprise, the medicine cabinet was open. My heart froze.
-Shit! – I exclaimed.
-What?
-The aspirins…
-What?
-GRANNYYYYYY!

To be continued…

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novembro 21, 2003

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Sexo Violência e siga para bingo II

C

Chegaste ao supermercado e como de costume, dirigiste-te ao painel dos anúncios afixados. Esfregaste o teu couro cabeludo com a mão enquanto olhavas para os cartões pregados na cortiça com pioneses e sentiste como o teu corte a pente um feito esta manhã parecia lixa. Começaste a tua rotina habitual de Sábado.
- Ora bem, ora bem. – murmuravas para os teus suspensórios – “Senhor ucraniano...” sai. “Brasileira toma conta de crianças” também. Este... pela letra e pelo nível de português deve ser preto... ok.
Retiraste todos os cartões que não te agradavam e ao veres que restavam só meia dúzia de anúncios, acenaste lamentavelmente com a cabeça. Rasgastes os cartões que tinhas na mão e deitaste-os para o lixo. Um segurança olhava para ti fixamente. Era um indivíduo de cor e tu quiseste que ele te dissesse alguma coisa. Mas ele só olhou para ti. Ainda te puseste em frente dele, com uma atitude de provocação, mas ele limitava-se a olhar. Não te quiseste dar por vencido e por isso, acabaste por lhe mandar um sorriso malvado e viraste-lhe as costas.
Avançaste pelo supermercado adentro, seguro de ti e da tua aparência. Algumas pessoas olhavam de lado, mas tu não te incomodavas com isso. Aliás, dava-te um sensação de poder e de autoridade. Tiraste o Bomber Jacket para que as pessoas pudessem ver as tuas tatuagens: um punhal com uma caveira e uma suástica no braço direito, dois martelos de guerra cruzados rodeados por doze estrelas, no braço esquerdo e o algarismo oitenta e oito, tatuado de maneira que parecia gravado a ferros no pescoço. Tinhas orgulho nelas e no eco das tuas botas em contacto com ao azulejos.

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Sexo, Violência e siga para bingo I

A

Vasco estava já há um bom bocado a olhar para o ecrã do seu monitor. Os seus pensamentos vagueavam enquanto fixava os olhos nas palavras “Relatório Anual – Dr. Vasco Ferreira”, carregados a negrito e que eram a única coisa que tinha escrito desde que chegara da hora de almoço. O relógio do seu PC mostrava que faltavam apenas 22 minutos para as 18:00h.
Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. Naquele momento sentia-se totalmente vazio, como se o seu cérebro fosse um disco rígido que havia sido formatado. Não era uma sensação que o incomodasse, mas antes pelo contrário: pela primeira vez em sabia Deus quantos anos, Vasco sentia-se bem e em paz com ele próprio.
Levantou-se e foi até à casa de banho do seu gabinete. Lá dentro olhou-se ao espelho, contemplando o seu reflexo, os seus cabelos encaracolados, um tanto ou quanto grisalhos, mas ainda com umas generosas madeixas escuras. O seu tom moreno de pele, dava-lhe o aspecto de alguém que estava sempre bronzeado, o que lhe dava um certo charme e menos anos do que os que realmente tinha. A sua estatura física também ajudava. Lembrou-se das vezes em que uns anos antes, tinha tentado imaginar a sua aparência quando chegasse à sua idade. Estava diferente do que tinha pensado, mas ao mesmo tempo haviam algumas semelhanças.
Dirigiu-se à sanita e sentou-se, quando de repente enrolou um bocado de papel higiénico na sua mão direita no qual defecou. Ficou a olhar para a massa que segurava, sentindo o calor que ela emanava através do papel higiénico e reconhecendo alguns bocados mal mastigados das suas últimas refeições, sem que aquilo lhe provocasse algum asco.


B

- O que é isto? – perguntou Joaquim segurando uma folha de papel A4 impressa em computador.
Vasco olhou para ele e com um sorriso respondeu:
- O que é que achas? É o meu relatório anual.
Joaquim olhou para ele com um ar de admiração.
- Eu percebi que é o teu relatório. Por isso é que o apanhei antes que alguém mais o visse.
- Mas qual é o problema?
Joaquim riu nervosamente.
- Qual é o problema? – perguntou – Aonde é que queres chegar com este... “Relatório”?
- A lado nenhum – retorquiu Vasco – Achas que disse alguma coisa errada.
Joaquim virou bruscamente a folha para si e começou a ler.
- “No ano transacto, contribui com aproximadamente 45,625 Kg para as aproximadamente 3,878 toneladas de merda produzidas por esta empresa.”
- Pois, não sei se os dados estarão totalmente correctos, por isso é que utilizei o termo aproximadamente. Só comecei a pesar os meus excrementos na última semana, mas fiz uma média e multipliquei pelos 85 funcionários da empresa...
Joaquim atirou a folha para cima da mesa e levantou-se enervado. Olhou pela janela do seu gabinete e esfregou o seu cabelo.
- A sério... isto não é nenhuma brincadeira, ok?
- Não? – perguntou Vasco, mais sério – mandarem-me fazer um relatório de produtividade anual referente à minha pessoa, individualmente???
- Não quer dizer nada...
- Não quer?! Desculpa, mas em mais de 25 anos de casa, nunca me aconteceu tal coisa. Queres-me dizer que não se passa nada?
Vasco ficou a olhar para Joaquim que se sentou um pouco embaraçado.
- Epá... sim, passa-se. Mas tu sabes que comigo aqui não vais ter problemas... quer dizer, não irias ter, mas com um relatório destes...
- Contigo aqui... eu não preciso que intercedas por mim em nada. E depois, mesmo que não me despeçam por tua causa, vão-me retirar responsabilidades, tratar-me como um fardo.
Joaquim acenou negativamente com a cabeça.
- Não vai ser bem assim. As coisas vão correr bem, vais ver o...
Vasco interrompeu-o furioso.
- Estás a dizer isso, porque tens metade da minha idade, uma posição superior e és o futuro genro do patrão! Para ti é fácil ver as coisas assim. Mas se tens remorsos por me ver sair... esquece! Se eu ficar nesta empresa é pelo meu valor e todos aqueles que trabalham comigo e que podem dar-se ao luxo de dizer que me conhecem como profissional sabem qual é! Não é preciso vir para aqui um borra-botas que comprou a empresa anteontem e pedir-me um relatório pessoal!!!
Caiu um silêncio absoluto. Vasco ficou a olhar para Joaquim que não levantava os olhos de um clip que rodopiava entre os dedos. Estava arrependido de ter levantado a voz e de se ter exaltado. Decidiu quebrar o gelo.
- Jantam connosco amanhã?
Joaquim acenou timidamente que sim.
- Ok. Bom, se não te importas, tenho que ir tratar de uma coisa.
Preparou-se para se levantar, quando Joaquim levantou a cabeça:
- Eu sei que não é fácil, mas tens que compreender que para mim...
Vasco interrompeu-o:
- Ah! Leva uma sobremesa e se puderes leva um vinho branco, que nós só temos tinto, tá bem? - e continuou a dirigir-se para a porta, enquanto Joaquim tentava falar com ele.
- Espera! – gritou Joaquim, sem que Vasco reagisse – Opá... estás a ouvir? Pai!!!
Vasco fechou a porta com um estrondo.

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novembro 19, 2003

Cenas 1

Fade in.

INT. HALL DE ENTRADA – DIA.

Um Pai, de mais ou menos 35 anos, com um ar meio ordinário, que veste um fato barato tipo Maconde, grita com a filha de 8 anos. A camera filma de uma forma subjectiva como se fosse o ponto de vista de alguém que observa a cena. Não vemos mais ninguém em cena.

Pai
NÃO! NÃO! NÃO E NÃO!

Filha
Porquê?

Pai
Não! N...a com til... o. Percebeste?

Filha
Mas, ó pai...

Pai
Nem pai nem meio pai. Já te disse mais de mil vezes que não quero disso cá em casa. Mas tu é teimosa!

Filha
Não, pai... ela é que me seguiu. Juro!

Pai
Seguiu? Não gozes comigo! Pensas que eu não sei que tu guardas as sandes que a tua mãe faz para comeres no recreio para atrair animais cá para casa?

Filha
Não...

Pai
Não o quê? Vá, leva lá isso daqui para fora antes que ela suje mais a minha entrada.

Filha
Mas eu gosto tanto dela. Porque é que não a deixas ficar.

Pai
O quê? Deves estar a brincar comigo! Mal temos espaço para nós nesta casa, quanto mais.

Filha
Mas ela pode dormir no meu quarto.

Pai
Nem pensar! Esse ninho de pulgas e carraças, vai-me enfestar a casa toda.

Filha
Ó pai, eu dou-lhe banho...

Pai
O quê? Meter essa coisa nojenta na minha banheira? Além do mais não é só o banho. Já viste as doenças?

Filha
Ela não me parece doente. Ó pai, vá lá...

Pai
Pois...não parece, mas quando fores a ver está mais minada que sei lá o quê. Um dia ainda acordas com ela morta e depois apanhas um desgosto.

Filha
Ó pai... vá lá. Eu tomo conta dela, juro. Vais ver que não vai haver problema. Eu limpo tudo o que ela sujar. Eu prometo!

Pai
Já te disse que não. Mal tenho dinheiro para sustentar esta família, quanto mais essa coisa!

Filha
Mas eu queria tanto ficar com ela...

Pai
Também eu queria muita coisa e não tenho. Aguente-se. Já és crescida o suficiente para aprenderes que nem tudo na vida é como a gente quer.

A criança amua.

Pai
E escusas de ficar de trombas. Vá leva-me essa coisa daqui, antes que seja eu a correr com ela ao pontapé!

A Filha olha para a camera. O pai vira as costas e sai de cena. A criança aproxima-se da camera. Em contra – plano, vemos uma velha mendiga, com sacos de plástico. Ao ver a miúda triste, faz-lhe uma festa na cabeça.

Mendiga
Deixa estar... eu não levo a mal. Já estou habituada.

A Mendiga pega nos sacos e sai porta fora. A Menina fica já janela a ver a Mendiga afastar-se. Uma lágrima corre-lhe pelo rosto enquanto ouvimos em off uma discussão dos pais na cozinha.

Fade Out.

Publicado por Toy em 11:36 PM | Comentários (3) | TrackBack