janeiro 10, 2004

Sem título

A

- O pior é começar – disse-me o Zé de dentes cerrados na ponta do seu Monte Cristo. Depois de a arrancar cuspiu-a para o lado e virou-o, rodando bem de forma a poder molhar a outra ponta. Acendeu um fósforo e colocou-o muito abaixo do charuto, mas mesmo assim acendeu. Nunca percebi como é que se conseguem acender charutos sem que a chama esteja em contacto directo com o tabaco, mas também nunca me dei muito bem com física.
- Dado o primeiro passo, a coisa começa a fluir e depois é só deixar andar…
Parou a pensar por uns instantes enquanto expelia uma baforada de fumo para o ar. O cheiro agradava-me, aliás, apesar de não fumar, sempre gostei do cheiro a tabaco, fosse ele qual fosse: cigarros, charutos, cachimbo… cachimbo então era algo que eu adorava. Principalmente quando era daquele tabaco Dinamarquês com cheiro a chocolate. Uma vez tive uma namorada que fumava tabaco de enrolar e quando fizemos três meses de namoro, ofereci-lhe um pacote desses. Adorava estar ao pé dela quando ela fumava aquilo. Só nunca percebi se ela passou a fumar aquela marca desde então, ou se só fumava do mesmo pacote que lhe tinha oferecido quando estava comigo. Eu nunca me lembrei de lhe perguntar… aliás, eu nunca me lembrava de lhe perguntar muitas coisas. Se calhar foi por isso que ela me trocou pelo Crítico de Cinema…
- Bom, estás interessado, ou não? – perguntou Zé de repente.
Não sabia o que lhe havia de dizer. Por um lado era uma proposta que me agradava, mas por outro… não sei. Não estava com ele há um bom tempo. Para falar a verdade, não estava realmente com ninguém nos últimos dois ou três anos… não que estivesse estado isolado do mundo. Na verdade eu lidava diariamente com dezenas de pessoas: colegas de trabalho, vizinhos, amigos, familiares, conhecidos, enfim, falava com eles, jantava fora, tinha encontros românticos casuais, saia à noite, tudo! Mas lá no fundo no fundo, sentia-me sempre isolado, dentro de uma redoma invisível que havia criado à minha volta.
Porquê?
Sinceramente?
Não sei.
- Então? Estás a dormir ou quê?

B

- No outro dia entrou-me aqui uma fulana, pá… eu… não sei… era linda, linda, linda… olhe… um espetáculo… voçê nem imagina…
Não é que eu atrofie com conversa de taxista. Muito antes pelo contrário. Eu adoro conversa de taxista. Quer dizer, quando a conversa tem realmente interesse. Quando eles começam com aquela meteorologia de tasca é que não suporto, mas quando me contam histórias passadas em corridas passadas, adoro! A sério, são uma grande fonte de inspiração. Aliás, eu tenho a certeza de que se um dia um taxista decidir escrever um livro, ou um guião, vai ser muito bem sucedido. Taxistas, barbeiros, porteiras, padeiras, são os primórdios do reality show.
Este até parece estar a contar uma história interessante mas a minha cabeça hoje está a 200.
- …foi aí que chegámos e ela diz-me: "não tenho dinheiro". E aí eu viro-me e digo:" Ah, não! Então, como é, vou ficar a arder?" Olhe, não é que a cabrona… desculpe o termo ó amigo, mas é que a gaja começa a desapertar a camisa e eu só olhava para a fotografia dos meus filhos.
Afinal, ele só está a tentar fazer-me acreditar numa das fantasias sexuais dele. Nem vale a pena ouvir mais. Afinal tenho muito mais em que pensar. Principalmente na proposta do Zé…
A proposta do Zé…
Quem é o Zé? Pois… boa pergunta.

Publicado por Toy em janeiro 10, 2004 05:12 PM
Comentários