janeiro 08, 2004

Cenas 5.8

Fade In.

INT. GUICHET DE ATENDIMENTO – DIA.

Dois Funcionários Públicos trabalham sentados em frente aos seus repectivos computadores. UmJovem que coxeia, aproxima-se do balcão.

Jovem
Bom dia.

Os dois Funcionários mantém-se impávidos e serenos, como se nada fosse. O Jovem olha para eles.

Jovem
Bom dia. Se faz favor...

Os Dois Funcionários olham um para o outro. Um deles mostra-se contrariado e levanta-se em direcção ao balcão.

Funcionário
Bom dia. O que deseja?

Jovem
Recebi este postal hoje de manhã e vinha cá para rectificar a minha situação militar.

O Jovem estende um postal ao Funcionário. Este olha para o postal e de seguida para o Jovem. Afasta-se e vai até ao seu computador. Depois de se certificar da situação, faz um sorriso sacana e volta ao Guichet.

Funcionário
Poooiis! Com que então, andamos a brincar com a tropa, não é?

Jovem
Desculpe, mas se alguém anda aqui a brincar, não sou eu. São vocês!

Funcionário
Como é que é?

Jovem
Esse postal, só mostra a vossa incompetência.

Funcionário
Qual incompetência? O senhor faltou à inspecção no passado dia 10 de Outubro. Você é que não teve o cuidado de ir consultar os editais à sua Junta de Freguesia.

Jovem
Eu não fui ver os editais, porque já tinha a minha situação militar regularizada.

Funcionário
Tinha, tinha. Tem é medo de ir à inspecção!

Jovem
Não é uma questão de ter ou não ter medo. Trata-se de...

Funcionário
Isto, o Senhor sabe, que aqui na tropa, a gente não brinca em serviço. Estamos atentos a tudo. Vocês escusam de tentar fugir porque mais cedo ou mais tarde vêem todos cá parar.

Jovem
Pois, mas...

Funcionário
Nunca ouviu o ditado: Quem não quer ir à fonte acaba por lá ir parar. Não damos hipóteses a ninguém.

Jovem
O Senhor não me está a deixar explicar. Passa a vida a interromper-me.

Funcionário
Isto não tem explicação. O Senhor sabe que como cidadão deste país, tem os seus deveres e as suas obrigações.

Jovem
Mas eu já cumpri os meus deveres.

Funcionário
Já cumpriu? Então como é que eu tenho aqui no nosso sistema informático que você ainda nem fez a inspecção.

Jovem
Isso é que eu não sei. Mas de certeza que o erro é vosso.

Funcionário
O senhor está a pôr em causa o bom funcionamento do seu país?

Jovem
Sim. Eu e mais dez milhões.

Funcionário
Eu acho cá uma graça a esta gente. Falam muito, nas no fim de contas não sabem nada.

Jovem
Eu não vim aqui para discutir consigo. Eu só vim dizer que este postal não tem razão para existir, porque eu já cumpri o meu Serviço Cívico.

Funcionário
Serviço Cívico?

Jovem
Sim. Estive como voluntário na Cruz Vermelha e foi-me dada a equivalência ao Serviço Cívico.

Funcionário
Pois. Serviço Cívico. Essa porcaria só serve para mariquinhas e covardes. Eu logo vi pelo seu ar que você não tinha estômago para ser um defensor do país.

Jovem
Desculpe, mas eu...

Funcionário
Vocês jovens de hoje em dia não sabem o que é a vida. No meu tempo não havia cá Objectores de Consciência para ninguém. Ia tudo para lá para baixo defender o que era nosso.

Jovem
Olhe lá...

Funcionário
Eu fui comando de guerra, ò jovem! Vi morrer muitos camaradas meus. Não tinha pai e a minha mãe estava doente e mesmo assim enfrentei o meu destino. Objectores de Consciência... Cobardes, é o que vocês são.

Jovem
Por acaso também tive que enfrentar muitas vezes a morte.

Funcionário
Ah sim! Não me diga. O condutor da sua ambulância era assim tão mau?

Jovem
Não. Ofereci-me para ir em missão para Angola, num campo de refugiados, a prestar auxílio às vítimas de minas anti-pessoal.

Funcionário
Pffff! Que perigo! Nem sei como é que você conseguiu voltar. Deve ter sido muito grave.

Jovem
Por acaso foi. Por acaso era comum levantarmos a meio da noite com o nosso campo a ser bombardeado por morteiros. Todas as semanas tinha que incinerar corpos de crianças mortas, par além de...

Funcionário
Isso não é nada comparado com a Guiné. Lá é que corríamos perigo. Isso Angola é só meia dúzia de pretos ao estalo por causa de uns quantos diamantes.

Jovem
Desculpe, mas começo a ficar ofendido com a sua conduta.

Funcionário
Ofendido! Eu é que estou ofendido com a sua presença no meu local de trabalho. Ofendido. Você nem sabe o que é levar tiros, quanto mais.

Jovem
Por acaso sou capaz de ter uma boa ideia. Aparentemente, até melhor que o senhor.

Funcionário
Porquê? Já levou tiros, foi?

O Jovem fica a olhar enfurecido. Tira uma prótese da perna esquerda e coloca-a em cima do balcão.

Jovem
Não. Mas como pode averiguar, não me convém dar-lhe um pontapé no cu.

Volta a colocar a prótese e afasta-se. O Funcionário vê-o a ir-se embora. Ri-se.

Funcionário
É bem feita. Para a prender que não adianta fugir. Queria se safar à guerra e acabou nela.

Um Colega do Funcionário olha para ele intrigado.

Colega
Olha lá. Tu não me tinhas dito que o teu pai tinha metido uma cunha para não ires para África e que acabaste por fazer a tropa cá?

Funcionário
Sim e depois?

Colega
Então? Tiveste aquela conversa toda com o rapaz...

Funcionário
Oh! Ele sabe lá...

Volta a sentar-se na sua secretária e olha para o computador.

Funcionário
Ora... onde é que eu ia? AH!...

Plano do ecrã do PC onde se vê que o funcionário está a jogar Solitaire.

Fade Out.

Publicado por Toy em janeiro 8, 2004 01:17 PM
Comentários

YEYEYE (VERSO MELOSO)
POR GOSTAR DA CRIATIVIDADE


Acordei com um pesadelo
Tive medo da morte
Por isso estou com sorte
De poder padecer

Fecho os olhos
durmo sem querer
o que eu encontro
vejo você

a sorte
já não me alcança
Não me fere
com uma lança
estar longe de ti

Mas quem espera
alcança
com palavras
na lembrança
porque você
existe para mim

Afixado por: Maceió em maio 28, 2004 05:51 AM