janeiro 02, 2004

Memórias de um ex-pornógrafo I

- Sabes o que é que os Gomorritas faziam?
Paco olhou para mim de lado e encolheu os ombros.
- Boa coisa não devia ser...- respondeu desinteressadamente – para nem vir mencionado na Bíblia.
Acenei com a cabeça. Tirei um cigarro do maço que acendi expelindo uma generosa baforada.
- Olha lá, o gajo disse que telefonava quando? – perguntei como quem quer mudar de assunto.
- Ele disse que ligava dali a 5 minutos.
Olhei para o meu telemóvel a fim de verificar quanto tempo tinha passado.
- Já passou um quarto de hora... – comentei.
Ficámos em silêncio. Paco tinha a carrinha desligada, pelo que o frio de Janeiro já se começava a sentir lá dentro. Estava uma noite de céu limpo, mas a temperatura era de rachar. Os vidros começavam a ficar embaciados.
- Tens pena da Sara? – Perguntei para quebrar o gelo.
- Quem é essa?
- A mulher de Lot.
- Ah! A que ficou transformada em sal?
- Yep...
- Tou-me a cagar...
Aceitei a resposta mas tinha que me manter acordado. A noite ainda era uma criança, mas ultimamente as visitas do João Pestana não eram das mais assíduas.
- Eu tenho... – acrescentei.
- Porquê?
- Tadinha. Se calhar estava só a ver se tinha fechado bem a porta.
Paco ia a responder mas o móvel dele tocou. Era o Dr. Trompas.
- Olha o gajo! – afirmou Paco antes de atender – Tou?... Sim, estamos à porta, dentro da carrinha... quantas?...Achas que chega?... ok...vamos lá buscar a cena então... até jazz!
Paco desligou o telefone.
- Bora lá. – ordenou.
Saímos da carrinha e dirigimo-nos à Sex Shop. Lá dentro o ambiente era bastante mais acolhedor, embora a música de carrinhos de choques quebrasse um bocado a cena. Mas também não íamos ali para passar um bom bocado. Apenas para nos abastecermos de algum material. Para além do empregado de balcão, um homem de meia idade com um ar de alcoólico em quadragésima nona recuperação, encontravam-se apenas dois ou três indivíduos mal encarados que folheavam revistas ou liam as contracapas das K7’s ou DVDS, como se o enredo lhes interessasse para alguma coisa. Paco encostou-se a mim com um ar cúmplice.
- Epá... achas que não vai dar cana? - perguntou-me.
- Porquê?
- É uma cena assim uma beca...
- O que é que foi?- perguntei um tanto ou quanto no gozo – Tás com algum problema?
- Euuuuu... não!
- Atão?
Um dos clientes, com cara de poucos amigos e de muito ter aprendido à chapada na tromba, olhou para nós. Provavelmente pensou que estávamos a gozar com ele pois imediatamente recolocou uma revista na prateleira e passeou-se com ar de quem estava ali só para fazer uma visita de mera curiosidade.
- Não achas mau estar a perguntar ao homem? – perguntou Paco.
- Eu não? Queres que seja eu a perguntar?
- Não, deixa tar. Eu pergunto.
Paco encheu o peito de ar para ganhar coragem e dirigiu-se ao balcão determinado.
- Boa noite, nós estávamos à procura de...
Um dos clientes deitou um olhar inquisidor a Paco. Ele ficou hesitante. Comecei a sentir-me um pouco menos à vontade. Ao fim e ao cabo, aquilo que tínhamos ido ali buscar poderia levantar suspeitas...
Paco baixou a voz:
- ... Lubrificante.
O homem queria rir. Eu conseguia ver nos olhos dele. Não precisava de ser o melhor telepata do mundo para o fazer. Mesmo assim ele conseguiu manter a compostura. Mas levantou a voz de modo a que os outros clientes pudessem saber ao que nós tínhamos vindo.
-Lubrificantes é ali naquele expositor.
Todos os olhares estavam colocados em nós. Sentíamo-nos como um rato encostado a um canto rodeado por gatos famintos.
- O-obrigado – agradeceu Paco.
Dirigimo-nos calmamente ao expositor, sem querer dar muito nas vistas, apesar de tal ser agora completamente impossível. Havia vários, de todas as cores e feitios, com sabores, sem sabores, com embalagens redondas, quadradas...
Descobrimos um da mesma marca daquele que havíamos utilizado antes. Apontei a Paco.
- Olha, não foi este que utilizámos da última vez?
- ya. Mas estão aqui dois... um com rótulo vermelho e outro com rótulo preto. Lembraste qual deles era?
- Não...
- Se calhar é melhor perguntar...
- Perguntar o quê? – perguntei um tanto ou quanto alarmado.
- Qual é a diferença...
Sem que eu tivesse tempo de responder, já Paco ia na direcção do balcão. Voltou acompanhado pelo homem.
Eu dirigi-me a uma prateleira com vídeos nacionais na esperança de ver um nosso, como se isso fosse mudar alguma coisa. Ouvi Paco questionar o empregado:
-Olhe, nós queríamos levar este, mas gostávamos de saber qual é a diferença entre o vermelho e o preto.
O homem tirou um molho de chaves do bolso e abriu o expositor, retirando lá de dentro as duas embalagens.
-É assim, -disse em alto e bom som – este aqui, o vermelho é mais “quente”, ‘tá a ver? Este outro, é o mais normal.
Estendeu as embalagens a Paco que as segurou intrigado.
- Pois... eu não sei, como não sou eu que vou... – dito isto, Paco ergeu as embalagens de modo a que eu pudesse ver – O que é que achas?
Naquele momento desejei ser uma avestruz para poder enterrar a cabeça no chão. Além de gay, pensavam agora que eu era o passivo.
- É...melhor o normal. – respondi timidamente, agarrando num DVD que estava à minha frente de modo a não sentir os olhares de escárnio dos restantes presentes.
Para minha grande sorte, o filme tinha o sugestivo título de “Chicks With Dicks #9”. Pousei rapidamente e fui até ao balcão onde Paco pagava o produto.
-Quer que embrulhe? – perguntou o empregado.
- Não é preciso... – respondeu Paco – é para ser utilizado já.
Meu Deus. Não podia ser pior.
O empregado colocou a embalagem num pequeno saco que Paco agarrou.
- Já agora não me podia dar um recibo? – perguntei.
O homem olhou para mim de lado, com cara de que me queria partir o focinho.
- É para um trabalho – expliquei.
O empregado passou o recibo. Pelo canto do olho conseguia ver a frieza com que os outros clientes me olhavam. O homem estendeu-me a factura.
-Obrigado. –agradeci.
Ao sairmos da loja, não sei porquê, mas virei-me para trás.
- estamos a fazer um filme... – expliquei – Um porno...
Ninguém mudou a expressão facial. Olhavam todos com aquela cara de quem diz “Pois, pois...”
Paco voltou atrás e puxou-me pelo braço.
- A sério! - gritei
- Vamos embora. - disse-me Paco.
E fomos.


Publicado por Toy em janeiro 2, 2004 06:03 PM
Comentários

Ganda Maluco!!!!
Li o teu último texto apenas, quando tiver tempo vou ler os outros.
Diz coisas...
Um abraço,
Bruno

Afixado por: Bruno em março 24, 2004 09:13 PM