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janeiro 30, 2007

Cardeal-Patriarca - Referendo: Sim ou Não? *

Referendo: Sim ou Não? *

IV – As verdadeiras soluções

1. Ao afirmarmos que a legalização do aborto não é a solução, nem legítima, nem eficaz, para enfrentar o drama do aborto clandestino, nem a resposta a dar às mulheres grávidas, que enfrentam com dificuldade a maternidade, aceitamos que nos perguntem: quais são, então, as verdadeiras soluções? Devemos procurá-las nos grandes valores da civilização cristã e de uma sociedade justa e humanista, que ponha os valores acima dos interesses.

2. O primeiro desses valores é o amor fraterno, que exige o domínio dos egoísmos individualistas e a generosidade para ajudar os outros, sobretudo os que enfrentam problemas e necessidades graves. A solidariedade, que no ideal cristão ganha a densidade da caridade, é o dinamismo fundamental da construção da comunidade e de uma sociedade solidária.

Num estudo recente, feito pela Universidade Católica Portuguesa, à pergunta dirigida às mulheres, se, num caso de maternidade difícil, optariam pelo aborto ou por aceitar a ajuda para poder levar a termo a sua maternidade, 76% das inquiridas responderam que, se fossem ajudadas, não recorreriam ao aborto. Este é um desafio feito ao Estado, à sociedade e também à Igreja. Temos de encontrar soluções positivas, na linha da solidariedade e da ajuda fraterna. É preciso organizar uma rede de apoio, discreta mas eficaz, de modo que toda a mulher a quem se coloque a tentação de recorrer ao aborto, saiba onde e a quem poderá recorrer, onde seja salvaguardada a sua intimidade e lhe seja garantida a ajuda de que precisa: espiritual, psicológica e material. Para nós cristãos, não passará também por aqui a tal “fantasia da caridade”?

3. Uma outra ordem de valores sobre a qual se pode construir uma solução, situa-se no âmbito da educação. A educação deve propor um quadro de compreensão da vida humana, dos instintos à liberdade, que abra para a generosidade e para a responsabilidade. Conceber o exercício da liberdade numa perspectiva individualista, em que cada um pode fazer tudo o que quer e lhe apetece, não leva nem ao crescimento da pessoa, nem à edificação de uma sociedade justa e solidária. A sociedade fica confrontada com a necessidade de resolver, de forma pragmática e eficaz, os percalços e os problemas criados por uma liberdade individual sem responsabilidade. É assim nos acidentes de viação, nas agressões contra o ambiente, no abandono e abuso de crianças, no aborto.

O exercício individualista da liberdade origina uma sociedade permissiva. O Estado gasta uma parte significativa das suas capacidades e energias a corrigir abusos da liberdade, e as leis que enquadram essa busca de soluções tendem a ser pragmáticas, não se enquadrando nos valores fundamentais de uma cultura que situe e motive a liberdade individual. Isso é tarefa da educação.

O caso concreto do aborto toca num aspecto fundamental: a educação para a sexualidade, generosa e responsável, que encontra no amor o contexto positivo do seu sentido. Enquanto o ambiente for o de cada um fazer o que lhe apetece, o uso da sexualidade levará, cada vez mais, ao desrespeito da pessoa humana de que resulta: a violência familiar, o abuso de crianças, a sida, a utilização da mulher como objecto, os percalços indesejáveis na adolescência, o aborto. Acordemos todo para uma educação que promova a dignidade da pessoa humana, e esteja à altura da civilização que herdámos.

Está na ordem do dia a equação do que deverá ser a educação sexual nas escolas. É bem-vinda e necessária. Mas se não se enquadrar nesta visão generosa da pessoa humana, ela poderá gerar mais permissivismo, mais violência, mais problemas. Um aspecto delicado é a educação para uma sadia regulação da própria fecundidade. A doutrina da Igreja, a este respeito, baseia-se no princípio da fecundidade responsável e generosa, no quadro do ideal cristão da castidade, que desafia os cristãos a viverem a sua sexualidade como experiência de amor generoso, no quadro da família, potenciada com a graça própria do sacramento do matrimónio. O não sancionamento ético, por parte da Igreja, de todos os métodos de regulação da fecundidade, não pode ser usado como argumento a favor do aborto. Eles dizem respeito à exigência do amor casto, caminho de santidade, situando-se no âmbito da consciência da pessoa, homem e mulher, não comprometendo a vida de outro ser humano, como no caso do aborto. São mandamentos diferentes na Lei de Deus: guardarás castidade é um mandamento, que é desafio para a vivência da própria sexualidade; e “não matarás”, que é exigência radical de respeito pela vida dos outros. Em termos religiosos ou simplesmente culturais, não haverá verdadeira educação sexual se não abrir para a perspectiva da castidade, concebida como vivência generosa e responsável da própria sexualidade.

Este é o quadro cultural em que se construirão soluções, não apenas para o problema do aborto, mas para a estabilidade do casamento, para os desregramentos que impedem uma vida sadia e para a erradicação de todas as formas de violência que têm a sua origem numa sexualidade desregrada e egoísta. Durante toda a vida, a sexualidade tem de ser expressão de vida e caminho de felicidade.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

* Quarto de 5 textos (semanais) do Cardeal Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto

Fonte: Patricarcado de Lisboa

janeiro 28, 2007

Bento XVI: Por uma aliança entre fé e razão

Bento XVI: Por uma aliança entre fé e razão
Intervenção durante o Angelus

CIDADE DO VATICANO, domingo, 28 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção que Bento XVI pronunciou este domingo ao meio-dia por ocasião da oração mariana do Angelus.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

O calendário litúrgico recorda hoje São Tomás de Aquino, grande doutor da igreja. Com seu carisma de filósofo e de teólogo, oferece um válido modelo de harmonia entre razão e fé, dimensões do espírito humano que se realizam plenamente quando se encontram e dialogam. Segundo o pensamento de São Tomás, a razão humana, por assim dizer, «respira», ou seja, move-se em um horizonte amplo, aberto, no qual pode experimentar o melhor de si mesma. Contudo, quando o homem se limita a pensar só em objetos materiais e experimentais, fecha-se aos grandes interrogantes da vida, sobre si mesmo e sobre Deus, se empobrece. A relação entre fé e razão constitui um sério desafio para a cultura atualmente dominante no mundo ocidental e, precisamente por este motivo, o querido João Paulo II quis dedicar-lhe uma encíclica, que leva precisamente por título «Fides et ratio», Fé e razão. Retomei também este tema recentemente, no discurso à universidade de Ratisbona.

Na realidade, o desenvolvimento moderno das ciências traz inumeráveis efeitos positivos, que há que reconhecer sempre. Ao mesmo tempo, contudo, deve-se admitir que a tendência a considerar verdadeiro só o que se pode experimentar constitui um limite para a razão humana e produz uma terrível esquizofrenia, evidente para todos, pela qual convivem racionalismo e materialismo, hipertecnologia e instintos desenfreados.

É urgente, portanto, redescobrir de uma maneira nova a racionalidade humana aberta à luz do «Logos» divino e à sua perfeita revelação que é Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem. Quando a fé cristã é autêntica, não mortifica a liberdade nem a razão humana; então, por que a fé e a razão devem ter medo, se ao encontrar-se e ao dialogar podem expressar-se da melhor maneira?

A fé supõe a razão e a aperfeiçoa, e a razão, iluminada pela fé, encontra a força para elevar-se ao conhecimento de Deus e das realidades espirituais. A razão humana não perde nada ao abrir-se aos conteúdos de fé, e mais, estes exigem sua livre e consciente adesão.

Com uma sabedoria de amplas vistas, São Tomás de Aquino conseguiu instaurar uma confrontação fecunda com o pensamento árabe e judeu de seu tempo, de maneira que é considerado como um mestre sempre atual de diálogo com as demais culturas e religiões. Soube apresentar essa admirável síntese cristã entre razão e fé que para a civilização ocidental representa um patrimônio precioso, ao que se pode percorrer também hoje para dialogar eficazmente com as grandes tradições culturais e religiosas do leste e do sul do mundo.

Rezemos para que os cristãos, especialmente os que se movem no âmbito acadêmico e cultural, saibam expressar o caráter razoável de sua fé e testemunhá-lo com um diálogo inspirado pelo amor. Peçamos este dom ao Senhor por intercessão de São Tomás de Aquino e sobretudo de Maria, Sede da Sabedoria.

[Após rezar o Angelus, o Papa lançou um chamado pela paz no Líbano e na faixa de Gaza]

Nos dias passados, a violência voltou a sangrar o Líbano. É inaceitável que se empreenda este caminho para defender as próprias razões políticas. Experimento um imenso pesar por esta querida população. Sei que muitos libaneses sentem a tentação de deixar toda esperança e se encontram como desorientados por tudo o que está sucedendo.

Faço minhas as fortes palavras pronunciadas por Sua Beatitude o cardeal Nasrallah Pierre Sfeir para denunciar os confrontos fratricidas. Junto a ele e junto aos demais responsáveis religiosos, invoco a ajuda de Deus para que todos os libaneses sem distinção possam e queiram trabalhar juntos para fazer de sua pátria uma autêntica casa comum, superando essas atitudes egoístas que impedem de dedicar-se verdadeiramente a seu país (cf. exortação apostólica de João Paulo II «Uma esperança para o Líbano», n. 94). Aos cristãos do Líbano, repito a exortação a ser promotores de um autêntico diálogo entre as diferentes comunidades, enquanto invoco sobre todos a proteção de Nossa Senhora do Líbano.

Desejo, também, que cesse o quanto antes a violência na faixa de Gaza. Desejo expressar minha proximidade espiritual a toda a população e assegurar-lhe minha oração para que prevaleça em todos a vontade de trabalhar juntos pelo bem comum, empreendendo caminhos pacíficos para superar as diferenças e tensões.

[Traduzido por Zenit]
ZP07012803

Fonte: Agência Zenit

© Innovative Media, Inc.

A reprodução dos serviços de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

A excomunhão

“Parece-me exorbitante ameaçar os católicos que votem “sim” com a excomunhão. Comparar o aborto ao terrorismo é fazer das mulheres aliadas da Al-Qaeda. A retórica deve ter limites.”

Frei Bento Domingues, PÚBLICO, 28-01-2007

Concordo com a frase de Frei Bento Domingues, hoje no Público.

Defendo o “NÃO” no próximo dia 11 de Fevereiro mas não concordo que se criem estigmas sobre quem vota “sim”, seja crente ou não-crente. Acredito que quem vota “sim” está tão animado de boas intenções como quem vota “NÃO”. Os apoiantes do “sim” têm uma visão diferente da vida, da sua concepção, do momento em que começa, e do direito da mulher em escolher se quer prosseguir, ou não, a sua maternidade e dos direitos do embrião e do feto. Tal como afirma Frei Bento Domingues, a retórica tem limtes.

Não há “pró-prisão” nem defensores da “cultura da morte”. Existe já um consenso generalizado sobre a despenalização do aborto e pessoas ligadas ao “NÃO” já propuseram alternativas legislativas. A polémica surge quando se procura liberalizar o aborto de uma forma que o fomenta e não termina com o aborto clandestino (mulheres que queiram abortar depois das 10 semanas poderão ser penalizadas por lei).

Como católico, defendo o “NÃO” mas não tenho qualquer problema quanto à despenalização. Penso que para a esmagadora maioria das mulheres já é um grande sofrimento optar pelo aborto e a maior penalização não será a social mas o que se passa no seu íntimo.

Continuo, todavia, a considerar que é um erro político liberalizar o aborto até às 10 semanas. Corre-se o risco do aborto ser encarado como mais um método contraceptivo e não como um acontecimento excepcional na vida da mulher. Por isso, vou votar “NÃO” no próximo dia 11 de Fevereiro.

Não concordo que o “sim” ao aborto por parte de um católico leve à excomunhão tal como uma mulher que aborte tenha também essa pena eclesiástica. A Igreja deve incluir, não deve excluir ninguém. E deve respeitar a liberdade de consciência dos católicos, pressupondo que estão a agir de boa fé. É pelo confronto e discussão pública de ideias que se geram consensos, não é com ameaças que só afastam ainda mais as pessoas da Igreja.

janeiro 26, 2007

O "Não" ao aborto

No próximo dia 11 de Fevereiro vou votar NÃO à pergunta colocada sobre a descriminalização e a liberalização do aborto. Faço-o porque entendo que a vida humana é inviolável desde a sua concepção. Entendo que a lei actual, ao permitir o aborto em várias situações perfeitamente determinadas, já é tolerante em relação a situações extremas que podem levar as mulheres a não quererem, ou não serem psicologicamente capazes, de levar ao fim a gravidez.

Entendo que o problema do aborto clandestino não se resolve com a sua legalização nem com a abertura de clínicas espanholas em Portugal. É preciso explicar que todos têm direito ao planeamento familiar, a uma educação sexual responsável e a determinarem o número de filhos que desejam ter. E para os jovens que iniciam a sua vida sexual há que explicar-lhes os cuidados a ter para evitar uma gravidez ou mesmo doenças sexualmente transmíssiveis.

O aborto não deve ser apresentado como mais um método contraceptivo de fácil acesso mas uma situação rara e excepcional. O Estado deve ter uma política activa pró-natalidade. Nenhuma mulher deveria sentir-se na necessidade de abortar por razões sociais ou económicas. O dinheiro dos nossos impostos devia servir para ajudar pessoas em situações de carência social e económica e que querem levar por diante uma gravidez. Pessoas pobres não deviam sentir-se penalizadas por terem muitos filhos. Compete ao Estado dar apoio a essas famílias, tirando-as da miséria e dando-lhes condições de vida dignas. Claro que é mais fácil (e mais barato?) colocar-lhes um bloco operatório à disposição. Mas não devia ser.

A vida humana é inviolável e deve ser protegida. Com os recursos actuais, o aborto por decisão unilateral, sem mais explicações, só porque não se quer ou não se deseja ter um filho, não me parece uma atitude eticamente correcta nem desejável face aos meios que estão á disposição para evitar ter filhos. Cria um clima de irresponsabilidade pessoal nocivo para a sociedade.

Dizer NÃO ao aborto não significa que se seja "pró-prisão", como se afirma por aí. Mas é necessário que socialmente o aborto seja considerado reprovável. Entendo que a lei deve ser suficientemente flexível para que um juíz, face a cada situação concreta, possa escolher a medida jurídica mais adequada que pode não passar, necessariamente, por uma pena de prisão. Não se podem colocar no mesmo nível todos os casos de aborto provocado. É diferente o caso de uma mulher com dificuldades económicas, desempregada, sem apoio familiar, que não se sente em condições psicológicas para ter um, ou mais um, filho do de outra mulher que banaliza o aborto de uma forma leviana.

Dizer NÃO ao aborto exige que se lute para que o Estado crie uma rede de apoio social e de aconselhamento a mulheres para quem uma gravidez se configura como um drama pessoal. A defesa da vida humana passa também pelo apoio às futuras e potenciais mães e não só, nem principalmente, por leis restritivas e penalizadoras.

Se o "sim" ganhar no próximo dia 11 de Fevereiro, aceitarei os resultados do referendo como devem ser aceites: com respeito e de forma democrática. Considero que existe um retrocesso civilizacional, que caminharemos para uma sociedade menos humana e mais egoísta. Mas nada nem ninguém nos impede de continuar a lutar pela vida humana, quer no plano das ideias e da discussão pública democrática, quer através da criação de estruturas sociais de voluntariado que ajudem mulheres em dificuldades e defendam o valor inviolável da vida humana.

Cabe a cada um de nós, na medida das nossas capacidades e possibilidades, lutar por um mundo melhor, mais pacífico, tolerante e onde as pessoas sejam felizes. Lutar contra a pobreza e o sofrimento humano é responsabilidade de todos. E o aborto é, sempre, uma forma de sofrimento.

janeiro 25, 2007

D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu: A Igreja perante a Vida

A Igreja perante a Vida

D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu

A Igreja tem, perante a vida humana, uma concepção maximalista quanto ao respeito, ao valor e à dignidade, fundamentados no dom e no bem precioso e único de todo e qualquer ser humano. Isto é, desde o início até ao fim terreno, provocado pela morte natural, toda e qualquer vida humana tem sentido e merece o reconhecimento da parte de todos, exigindo defesa, acolhimento e protecção, baseados na sua dignidade, grandeza e inviolabilidade. A Igreja diz mesmo que “o homem constitui o seu primeiro e fundamental caminho” (RH 14 in EV 2) e esta mensagem constitui o fundamento do conteúdo da Boa Nova de Jesus Cristo que se torna o fundamento da Boa Nova e da Missão da Igreja. Esta, a Igreja, recebeu do próprio Fundador, Jesus Cristo, o Evangelho da Vida e é chamada a anunciá-lo e a celebrá-lo, servindo a vida, ao jeito de Jesus que veio para que os homens “tenham a vida e vida em abundância” (cf Jo 10, 10).
Ao longo dos tempos existiram crises neste entendimento da grandeza, dignidade, igualdade fundamental e respeito que nos merece todo e qualquer ser humano. Estas crises mostram-nos aspectos de uma “cultura de morte” que a ciência, a técnica, a medicina, a deontologia dos profissionais da saúde e a evolução cultural dos povos foram possibilitando alterar, acrescentando qualidade à formação da consciência ética.

As leis, quanto à defesa da vida, sempre existiram… Matar a pessoa humana sempre foi considerado um horror, uma violência e um atentado… Viver é o primeiro direito de um ser humano e as Constituições, os Códigos de Direitos e outros Tratados Internacionais foram desenvolvendo e concretizando uma sensibilidade cada vez mais respeitadora e exigente para com a vida humana. As dificuldades foram estando no entendimento de quem cabe na designação de “pessoa humana” para se exigir a defesa e o respeito. Isto provocava uma enorme incoerência entre a teoria e a prática.

Umas vezes foi o sexo a determinar a diferença; noutras ocasiões foi a escravatura; houve épocas em que a cidadania era um critério de desigualdade; outras vezes era a raça, a religião ou a filiação partidária… Parece que, agora, será o tamanho, o peso, a idade, as diferenças, a produtividade… Daí que, a seguir ao referendo sobre o aborto, certamente outros virão: uso indistinto de embriões, eutanásia, homossexualidade, uniões de facto…

Dirão que não se está a falar disso agora, pois percebemos o intuito: uma escalada de relativismo ético onde os valores deixam de valer, onde os princípios deixam de ser exigências racionais e onde a deontologia deixa de interessar para orientar a formação da consciência e para fundamentar o comportamento.

Parece que, à medida que a ciência e a consciência vão apurando as reflexões e os dados inquestionáveis sobre a vida, no seu início e no seu fim, na sua dignidade e na sua igualdade, parece que, na mesma proporção, se vão intensificando o relativismo, o utilitarismo, o individualismo, gerando o desprezo, a indiferença e a insensibilidade, como base das injustiças, das guerras, das lutas que esquecem a inviolabilidade e o respeito pelas vidas mais indefesas, mais frágeis e mais inocentes…

Para cúmulo, se os Estados deveriam ser os defensores, os promotores e os arautos do respeito pela vida, pela dignidade e pela igualdade entre todos os cidadãos, são eles, na sua função legislativa, educativa e executiva a liderar as tendências liberalizadoras dos atentados à vida, a começar pela falta de defesa dos nascituros, ainda sem voz e sem meios de poder e de defesa. Esquece-se a função pedagógica das leis e, depois, admiram-se e espantam-se pelas consequências…

A Igreja quer afirmar-se, perante a vida, como o Povo da vida e a favor de toda e qualquer vida, independentemente da idade, do tamanho, da diferença ou deficiência, da doença ou fragilidade que a vida possua. A igreja apoia esta sua afirmação nos dados das ciências da vida que, de forma inequívoca, determinam o início e o fim terreno, natural. Fruto do contributo científico, a Igreja tem a certeza que a vida existe desde a concepção, realizada com a união dos gâmetas masculino e feminino, a partir da qual existe vida num ser humano que jamais deixará de o ser, ao longo de um desenvolvimento que, desde o início, contém todos os elementos patrimoniais, base de um programa genético onde tudo está inscrito e determinado…

Qualquer intervenção, seja para interromper = destruir = matar = aborto, seja para experimentar, seja para usar em proveito de outrem – ainda que seja para curar e salvar alguém (células estaminais) – é grave e imoral e é absolutamente contra o direito à vida que aquele ser humano tem desde o seu início. Apenas será lícita uma intervenção – hoje já possível – para curar e beneficiar o embrião ou o feto, ainda no seu processo intra-uterino.

A Igreja, defendendo a vida intra-uterina, não o faz a qualquer preço. Fá-lo defendendo a vida que, pode acontecer, sejam as duas, quando possível, seja a vida da Mãe a ter em primeiro lugar, no caso do “aborto terapêutico”, seja a vida do bebé se, porventura, a da Mãe está sem possibilidades de ser salva. Fá-lo num entendimento do chamado “conflito de valores” que, por vezes, estão mesmo em conflito… Quem resolve o conflito? Equipa médica; pessoal de saúde; mulher-mãe; marido… A Igreja, defendendo a vida intra-uterina, mesmo numa situação abortiva, não condena nem penaliza a mulher que pratica o aborto. Não é papel da Igreja condenar alguém. Não é o seu papel penalizar nem o reivindica e, na sua missão pastoral, vai ao encontro da mulher, que aborta, para lhe oferecer o perdão e a misericórdia de Deus, pedindo-lhe o arrependimento e a conversão. Aliás, sabemos que não é a despenalização que está em causa neste referendo. Isto, o Estado poderá fazê-lo e cabe a um Estado de direito averiguar as culpas e atribuir as penas… O que a Igreja não pode compreender e não pode calar, no seu papel e missão de se colocar do lado da vida e dos seres humanos mais frágeis e pobres, é que se esqueça a criança, o bebé (em qualquer fase do seu desenvolvimento, pois não há a fase posterior se é eliminada na anterior – ninguém de nós estaria aqui se lhe tivessem interrompido a vida às 10 semanas); o que a Igreja não pode compreender nem calar é que o eliminar uma vida humana = matar um ser humano, deixe de ser crime; o que a Igreja não pode compreender nem calar é que se possa liberalizar desta maneira infame podendo fazer-se, impunemente, até às 10 semanas; o que a Igreja não pode calar e quer denunciar pública e claramente, é que o Estado ofereça as condições, as clínicas, os meios… tudo pago pelos cidadãos como se se tratasse de qualquer interesse e benefício público…

Como tolerar que se façam contas aos gastos e aos números previsíveis de abortos, respondendo-se que o Estado tudo vai fazer para possibilitar essa execução… se as 23.000 crianças previstas para serem abortadas fazem tanta falta…

Importa dizer, de forma clara, que não é pelo facto de se legislar sobre o aborto, legalizando-o, que ele passa a ser um bem ou que deixa de ser crime… Ao contrário, torna o Estado e as pessoas que votam SIM, “estruturas” do mal…

Está inerente nesta lei uma enorme falácia: porquê até às 10 semanas?... Porque não até às 12, 15, 24, 36, ao nascer, aos 2, 5 ou 10 anos?... A gravidade nem era maior nem menor… O ser humano existe desde a concepção… É apenas uma questão de idade, de tamanho, de desenvolvimento…

Nada, hoje, vai na linha do aborto: a ciência, a medicina, a demografia, o equilíbrio social, o emprego... Somente o propalado direito da mulher à sua liberdade, juntamente com uma irresponsabilidade na vivência do prazer, do amor e da sexualidade…

Quanto à liberdade da mulher: como?... De forma egoísta, mata para se ver livre de alguém? Não é a Mãe a melhor defesa para um filho?... Não é a maternidade uma vocação nobre da mulher?... Estão a ser postos em causa valores nobres como: a dignidade, o nome, o carisma e a grandeza do papel e do lugar da mulher na sociedade? … Nunca se pode separar liberdade, de verdade, de responsabilidade e de dignidade, sem o que deixaríamos de ser humanos…

Quanto ao facto de o tema da vida / aborto ser uma questão de consciência individual ou religiosa… Nada mais negativo. É uma questão de vida, provada e demonstrada pela ciência e pela razão. É uma questão de direitos, liberdades e garantias da vida humana que, no artigo 24º da Constituição é defendida como “inviolável”.

E a questão da “saúde pública”?!... Será de dar condições seguras à escolha de morte de alguém?... Como iremos justificar a criminalização e a consequente condenação de outros atentados à vida, à liberdade e à sociedade?... Não existe o Estado para, pelas leis e pelas consequências da sua aplicação, minimizar o mal, dissuadir do erro e educar as pessoas?... É a força e o papel pedagógico das leis!...

Quanto a outros aspectos… estão em causa as responsabilidades da família, da sociedade e do próprio Estado na revisão de toda uma educação que não está a formar para a vida, para o futuro, para uma sociedade livre, feliz e socialmente justa. De facto, quando uma sociedade mata para sobreviver ou para se defender, está a retornar aos tempos que se deveriam ter, há muito, ultrapassado…

Estará a Igreja isenta de culpas, podendo apresentar-se sem responsabilidades? Não… A Igreja precisa de fazer mais e melhor, no campo da família, no acolhimento de situações difíceis, na preparação para o matrimónio, no respeito e amor pelas pessoas, no diálogo com todos os que nos vêm ao encontro, respeitando as diferenças, na formação da juventude, na formação para a vivência da sexualidade e do amor, na corresponsabilidade pelo sentido da vida e dos valores, no anúncio da Boa Nova da Vida, etc.

É hora de nos darmos as mãos, apoiados nas ciências da vida, nas ciências médicas e na tecnologia que deve estar ao serviço de toda e qualquer vida, sem excepção, para encontrarmos saídas que nos dignifiquem e que nos ajudem a criar leis sábias e justas para podermos dizer com verdade este lema e convite: “VIDA: um DOM e uma RESPONSABILIDADE”, assumindo-a, também, como uma VOCAÇÃO e um DESAFIO.


Documentos | D. Ilídio Pinto Leandro| 25/01/2007 | 14:59 | 10153 Caracteres | 91 | Aborto

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 23, 2007

Cardeal-Patriarca: Referendo: Sim ou Não? *

III – Maternidade, grandeza e responsabilidade da mulher


1. Este período de esclarecimento das consciências em ordem à resposta a dar à pergunta que vai ser sujeita a referendo, sobre o alargamento legal do aborto voluntário, coincidiu com a Festa do Natal, nascimento de Jesus, Filho de Deus e da Virgem Maria. Maria, Mãe de Jesus, a “bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre”, convida-nos a meditar na grandeza da maternidade. O carácter misterioso do nascimento de Jesus, não retira a Maria a sua qualidade de Mulher-Mãe, em cujo ventre foi gerado e se desenvolveu o Homem Jesus de Nazaré. A mais sublime acção de Deus nas criaturas aconteceu no seio de Maria. Mas essa marca da acção de Deus nas criaturas, continua a acontecer sempre que uma mulher concebe e fica grávida, acolhendo no seu seio a mais maravilhosa obra da criação: o homem, outro homem, que prolonga o mistério da primeira criação. Cada mulher que concebe acolhe no seu seio o maravilhoso fruto do poder criador de Deus.

O facto da procriação humana se processar segundo dinamismos e leis precisos da natureza, hoje bastante conhecidos pela ciência, nada retira ao mistério da intervenção criadora de Deus, essa capacidade maravilhosa de comunicar a vida. Na maternidade, toda a mulher se auto-transcende, e toca a grandeza e a dignidade do mistério que está nela. Como em Maria, em toda a mulher a maternidade é uma missão, que não se exprime apenas na sua vontade, mas está profundamente impressa na sua natureza e no seu ser.


2. Tudo isto é simples e belo quando a maternidade é aceite e desejada, no seio da família radicada no amor. A maternidade é, então, um projecto de ambos os cônjuges, que se tornam pais, e pode elevá-los ao nível da contemplação e da beleza. Aliás, o sentido da paternidade só se encontra na maternidade, pois é no seio da mulher que a fecundidade do casal se exprime e desabrocha num horizonte mais vasto da fecundidade do seu amor. O marido-pai é o primeiro a contemplar, com enlevo, o mistério da vida. A mulher-mãe é a fonte do sentido da própria paternidade. E ambos se encontrarão, num único amor, ao acolher e ajudar a crescer, o filho que geraram, participando, assim, no poder criador de Deus.

Mas na realidade da vida, a maternidade é também fonte de exigência e de sofrimento, ocasião de queda e de fraqueza, desafio de coragem e generosidade. É desafio contínuo ao sacrifício e ao dom, e por isso ela é, para a mulher, caminho de amor. A missão de ser mãe é cenário de grandeza e de heroísmo, mas também de fraqueza e de pecado. E em todas as circunstâncias a fraqueza da mãe assume uma dramaticidade especial, porque está em causa a vida de uma criança. Em todo o percurso dessa missão, a mãe precisa de ser ajudada, pela família, pelos amigos, pela Igreja, pela sociedade. E ajudar a mãe significa sempre salvar a criança. Quando a mãe se torna incapaz ou se recusa a fazê-lo, a sociedade deve substituí-la nessa obrigação de salvar as crianças. Sempre assim foi, de diversas formas; é importante que assim continue a ser.


3. A dificuldade de uma maternidade não desejada pode ser a primeira dificuldade a ser ultrapassada pela mulher-mãe. As motivações do aborto não estão cientificamente estudadas. Elas vão desde a atitude egoísta de quem não está disposto a abraçar as dificuldades de criar um filho, ao medo dessas dificuldades, à pressão exercida, tantas vezes pelo pai da criança e pelo ambiente que rodeia a mulher. Para as mulheres que sentem essas dificuldades, o início da maternidade é momento de opção séria, de coragem e confiança, ou de desistência e de derrota, que tantas vezes atinge toda a sua vida futura. Nesse momento, a mulher precisa de ser ajudada, objectivamente ajudada, para que faça a opção da coragem e do respeito pela vida que se gerou no seu ventre. Esta coragem do início é, tantas vezes, largamente compensada, em amor e alegria.

Pensar que se ajuda a mulher, nessas circunstâncias, facilitando-lhe o aborto, é grave erro de perspectiva, pois facilita-se-lhe a derrota, não a ajudando à vitória sobre a fraqueza sentida. Uma lei facilitante torna-se numa tentação acrescida para uma mulher a sentir dificuldades em assumir a sua maternidade. Uma senhora escrevia-me há dias: “eu sei que matei um filho; mas nessa altura ninguém me ajudou”. Se queremos ajudar, não facilitemos a derrota, a mais triste na vida de uma mulher.


4. A exigência da maternidade faz parte da construção cultural do respeito pela mulher, pela sua dignidade e grandeza da sua generosidade. E é preciso reconhecer que a mulher se sentiu muitas vezes sozinha nesta luta pela sua dignidade. Neste aspecto houve grandes mudanças antropológicas e culturais nos últimos dois séculos. Recordo um estudo sobre a mulher francesa no séc. XVIII: casava cedo (15-16 anos), a esperança de vida era de 34 anos. Durante os cerca de 20 anos que durava o seu casamento, tinha, em média, 16 gravidezes, de que sobreviviam 4 filhos. A maternidade sofrida definia a vida da mulher. Tanta coisa mudou: a mulher conquistou uma outra inserção na sociedade, tem o mesmo direito à educação e ao trabalho, o planeamento familiar permite-lhe maior decisão sobre a sua maternidade. Esta deixou de ser a única dimensão a definir o ser mulher. Mas com isto também se acentuou a dimensão de projecto individual, onde o filho, se não foi desejado e decidido, pode aparecer como obstáculo.

Este é o novo quadro cultural em que é preciso situar a ajuda à mulher. Com toda a evolução do seu estatuto cultural e social, ajudá-la a não perder de vista que a sua vocação maternal é o centro da construção da sua dignidade. E isto é, também, um projecto de sociedade, porque o é de educação colectiva, que inclui a vivência responsável da sexualidade, a protecção da família, o esclarecimento para o exercício de um planeamento da fecundidade ao nível da dignidade do amor e da pessoa humana.

Que ninguém se iluda: facilitar o aborto não é o caminho para construir uma cultura de respeito pela dignidade da mulher. Dizer “não” ao aborto é dizer “sim” à dignidade da mulher, pois é ela, mais uma vez, que carrega a tristeza de ser “culpada” e “vítima”.


Lisboa, 21 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


* Terceiro de 5 textos (semanais) do Cardeal Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto

Fonte: Patriarcado de Lisboa

janeiro 21, 2007

Agência Zenit: O Papa insiste no papel dos católicos

Código: ZP07012137

Data de publicação: 2007-01-21

A responsabilidade civil dos católicos

O Papa insiste no papel dos católicos

Por Pe. John Flynn

ROMA, domingo, 21 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Os cristãos possuem o direito de voz quando se trata de assuntos políticos e civis. Esse foi uma das afirmações de Bento XVI ao se dirigir à Cúria Romana no dia 22 de dezembro. Após comentar a razão pela qual a Igreja se opôs à legalização do casamento homossexual, o Papa defendeu o direito dos fiéis, e da própria Igreja, de se pronunciar em relação a esse assunto.

«Se dizemos a nós mesmos que a Igreja não deve interferir em tais assuntos, não podemos, portanto, responder: Não estamos preocupados com os direitos humanos?» O Santo Padre declarou. É nosso dever, ele explicou, defender o ser humano.

Isso é gravemente necessário na sociedade contemporânea, explicou o pontífice em sua declaração. «O espírito moderno perdeu seu senso de direção», ele apontou, e isso significa que muitas pessoas estão insertas de quais regras transmitir a seus filhos. De fato, em muitos casos nós não sabemos mais como usar nossa liberdade corretamente, ou o que é moralmente correto ou errado.

«O maior problema do Ocidente é o esquecimento de Deus», comentou o Papa, e esse esquecimento está se espalhando.

Três dias depois o Papa voltou a esse tema, em sua mensagem antes de dar sua benção "urbi et orbi" no dia de Natal. «Apesar dos muitos avanços da humanidade, o homem sempre foi o mesmo: uma liberdade equilibrada entre o bem e o mal, entre a vida e a morte».

Na era moderna nossa necessidade de fé é maior que nunca, devido à complexidade do assunto que esta sendo enfrentado. A mensagem que vem sendo passada pela Igreja não diminui a humanidade, no entanto, o Papa foi rápido em apontar: «Na verdade, Cristo vem para destruir somente o mal, somente o pecado; tudo mais, todo resto, ele eleva e aperfeiçoa».

Fé na arena pública

Há, apesar disso, uma oposição à religião representando qualquer papel em debates públicos, disse Bento XVI. Em seu discurso do dia 9 de dezembro à União dos Juristas Católicos Italianos, o Papa examinou o conceito de «secularidade».

O termo, ele explicou, originalmente descreve o status da situação cristã que não pertence ao sacerdócio. Nos tempos modernos, no entanto, «significa a exclusão da religião e seus símbolos da vida pública por demarcá-los à esfera privada e à consciência individual».

Essa percepção de secularidade compreende a separação da Igreja e Estado de maneira que a Igreja não estaria apta em nenhum aspecto a intervir em questões relacionadas com a vida e conduta dos cidadãos, explicou o Papa. Além disso, também exige que todos os símbolos religiosos sejam excluídos de locais públicos.

De frente a esse desafio, Bento XVI disse a seus ouvintes que é tarefa dos cristãos formular um conceito alternativo de secularidade «que, de um lado, reconheça o local devido de Deus e sua lei moral, de Cristo e sua Igreja na vida humana, individual e social; e, por outro lado, aceite e respeite a “justa autonomia dos assuntos terrestres”» definida pela constituição do Concílio Vaticano Segundo «Gaudium et Spes», (No. 36).

Como deixou claro o documento do Vaticano II, «uma saudável secularidade», significa autonomia do controle da Igreja dos setores político e social. De modo, que a Igreja seja livre para expressar sua opinião e a população deve decidir a melhor maneira de organizar a vida política.

Mas não é autonomia de ordem moral. Seria um erro aceitar que a religião deveria ser estritamente confinada à esfera privada, da vida, argumentou o Papa. A exclusão da religião da vida pública não é uma secularidade justa, «mas sua deterioração em secularismo», disse ele.

Quando a Igreja comenta de assuntos legislativos isso não deve ser considerado como intromissão exagerada, mas de preferência, uma afirmação e defesa de valores importantes, que trazem um significado à vida das pessoas e salvaguardam sua dignidade». É dever da Igreja, disse o pontífice, «firmemente proclamar a verdade do homem e seu destino».

Concluindo seu discurso, o Papa recomendou que de frente às pessoas que desejam «excluir Deus de toda esfera da vida e mostrá-lo como inimigo do homem», os cristãos devem mostrar «que Deus é amor e quer o bem e a felicidade de todos os seres humanos».

«A lei moral dada a nós por Deus não busca a opressão, ele explicou, mas de preferência nos libertar do mal e nos tornar felizes».

Servindo a humanidade

Os discursos de dezembro do Papa sobre a função da fé na vida pública refletiram em uma de suas preocupações constantes do ano que se passou. Outro comentário importante de Bento XVI na questão veio no discurso do dia 19 de outubro aos participantes do national ecclesial convention, dado em Verona.

O Papa observou que a convenção organizada pela Igreja na Itália considerou a questão da responsabilidade civil e política dos católicos. «Cristo veio salvar o homem verdadeiro e concreto, que vive na história e na comunidade e, portanto, o cristianismo e a Igreja têm uma dimensão pública e valores desde o começo», ele afirmou.

A Igreja, disse o Santo Padre, não está interessada em tornar-se um «agente político», e é função do leigo fiel, como cidadão, trabalhar diretamente na esfera política. Mas, afirmou, a Igreja oferece uma contribuição por meio de sua doutrina social. Além disso, o fortalecimento moral e a energia espiritual significam que há probabilidade da justiça ser colocada antes da satisfação dos interesses pessoais.

Quando o presidente italiano Giorgio Napolitano fez sua primeira visita oficial a Bento XVI no dia 20 de novembro, o tema Igreja e Estado mais uma vez veio à tona. Ambas as instituições, enquanto distintas, têm em comum a função de servir a pessoa humana, comentou o pontífice.

O bem dos cidadãos não pode ser limitado a poucos indicadores materiais, tais como riqueza, educação e saúde. A dimensão religiosa é também parte vital do bem-estar, ao começar com liberdade religiosa.

Mas liberdade religiosa, argumentou o Papa, não é limitada ao direito de celebrar serviços ou não ter crenças pessoais atacadas. Liberdade religiosa também inclui o direito das famílias, de grupos religiosos e à Igreja de exercerem suas responsabilidades.

Essa liberdade não arrisca o Estado ou o interesse de outros grupos, pois é exercida com o espírito de serviço social, explicou Bento XVI. Então quando a Igreja e o fiel afrontam tais questões como salvaguardar a vida humana ou defender a família e o casamento, eles não o fazem devido às crenças de específicos grupos religiosos, mas «num contexto e obedecendo as regras de coexistência democrática do bem e de toda sociedade e em favor dos valores que toda pessoa correta poder compartilhar».

Esse esforço da Igreja e dos cristãos não é sempre aceito favoravelmente, o Papa apontou em seu discurso do dia 8 de setembro aos bispos canadenses da província de Ontário, na ocasião do aniversário de sua quinta visita a Roma.

Além disso, ele notou que alguns líderes civis cristãos «sacrificaram a unidade da fé e sancionou a desintegração da razão e do princípio da ética natural, por render fruto a questões sociais efêmeras e de interesse esporádico de opinião apurada».

Mas o Papa lembrou os bispos: « A democracia tem sucesso somente na extensão de que seja baseada na verdade e num correto entendimento da pessoa humana». Por essa razão, católicos envolvidos na vida política devem ser uma testemunha do «esplendor da verdade» e não podem separar moralidade de esfera pública.

Bento XVI encorajou os bispos a demonstrarem que nossa fé cristã, longe de ser um obstáculo ao diálogo, é uma ponte, precisamente pois junta razão e cultura». Um apelo válido para todos os cristãos em todos os países como um início de ano novo.

Fonte: Agência Zenit

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janeiro 20, 2007

Agência Zenit: Pregador do Papa explica verdade histórica dos Evangelhos

Código: ZP07011920

Data de publicação: 2007-01-19

Pregador do Papa explica verdade histórica dos Evangelhos

Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap., sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 19 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap. -- pregador da Casa Pontifícia -- sobre a liturgia do próximo domingo, III do Tempo Comum.


* * *

Os Evangelhos são relatos históricos?

III Domingo do Tempo Comum
Neemias 8, 2-4ª.5-6.8-10; I Coríntios 12, 12-31a; Lucas 1, 1-4; 4, 14-21


Antes de começar o relato da vida de Jesus, o evangelista Lucas explica os critérios que o guiaram. Assegura que refere fatos transmitidos por testemunhas oculares, verificados pelo mesmo com «comprovações exatas» para que quem lê possa perceber a solidez dos ensinamentos contidos no Evangelho. Isso nos oferece a ocasião de nos ocuparmos do problema da historicidade dos Evangelhos.

Até pouco tempo atrás, não se mostrava entre as pessoas o sentido crítico. Tomava-se por historicamente ocorrido tudo o que era referido. Nos últimos dois ou três séculos nasceu o sentido histórico, pelo qual, antes de crer em um fato do passado, ele é submetido a um atento exame crítico para comprovar sua veracidade. Esta exigência foi aplicada também aos Evangelhos.

Resumamos as diversas etapas pelas que a vida e o ensinamento de Jesus atravessaram antes de chegar a nós.

Primeira fase: vida terrena de Jesus. Jesus não escreveu nada, mas em sua pregação utilizou alguns recursos comuns às culturas antigas, os quais facilitavam muito a retenção de um texto na memória: frases breves, paralelismo e antítese, repetições rítmicas, imagens, parábolas... Pensemos em frases do Evangelho como: «Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos», «Larga é a entrada e espaçoso o caminho que leva à perdição..., estreita a entrada e o caminho que leva à Vida» (Mt 7, 13-14). Frases como estas, uma vez escutadas, até as pessoas de hoje dificilmente as esquecem. O fato, portanto, de que Jesus não tenha escrito Ele mesmo os Evangelhos não significa que as palavras neles referidas não sejam suas. Ao não poder imprimir as palavras no papel, os homens da antiguidade as fixavam na mente.

Segunda fase: pregação oral dos apóstolos. Depois da ressurreição, os apóstolos começaram imediatamente a anunciar a todos a vida e as palavras de Cristo, levando em conta as necessidades e as circunstâncias dos diversos ouvintes. Seu objetivo não era o de fazer história, mas de levar as pessoas à fé. Com a compreensão mais clara que agora temos disso, eles foram capazes de transmitir aos outros o que Jesus havia dito e feito, adaptando-o às necessidades daqueles a quem se dirigem.

Terceira fase: os Evangelhos escritos. Cerca de trinta anos após a morte de Jesus, alguns autores começaram a escrever esta pregação que lhes havia chegado por via oral. Nasceram assim os quatro Evangelhos que conhecemos. Das muitas coisas chegadas até eles, os evangelistas escolheram algumas, resumiram outras e explicaram finalmente outras, para adaptá-las às necessidades do momento das comunidades às quais escreviam. A necessidade de adaptar as palavras de Jesus a exigências novas e diferentes influiu na ordem com o que se relatam os fatos nos quatro Evangelhos, na diversa colocação e importância que revestem, mas não alterou a verdade fundamental deles.

Que os evangelistas tenham tido, na medida do possível naquele tempo, uma preocupação histórica e não só edificante é demonstrado na precisão a que situam o acontecimento de Cristo no espaço e no tempo. Pouco mais adiante, Lucas nos proporciona todas as coordenadas políticas e geográficas do início do ministério público de Jesus (Lc 3, 1-2).

Em conclusão, os Evangelhos não são livros históricos no sentido moderno de um relato o mais neutro possível dos fatos ocorridos. Mas são históricos no sentido de que o que nos transmitem reflete em substância o acontecimento.

Mas o argumento mais convincente a favor da fundamental verdade histórica dos Evangelhos é o que experimentamos dentro de nós cada vez que somos tocados em profundidade por uma palavra de Cristo. Que outra palavra, antiga ou nova, teve o mesmo poder?

[Traduzido por Zenit]

Fonte: Agência Zenit

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janeiro 19, 2007

Agência Ecclesia: Pelo reconhecimento dos Direitos Humanos dos Imigrantes Irregulares

Pelo reconhecimento dos Direitos Humanos dos Imigrantes Irregulares

Comissão Nacional Justiça e Paz

1. A existência de um número muito importante de imigrantes irregulares a viver na Europa e em Portugal é uma realidade.

Não há estatísticas exactas sobre o volume de imigrantes irregulares, ou seja, os nacionais de terceiros estados ou apátridas, que não possuem um documento válido, autorizando a sua estadia no país. As estimativas existentes apontam, na Europa, para várias centenas de milhar, senão milhões, de imigrantes irregulares.


Em Portugal, a realização das regularizações extraordinárias permitiu ficar a conhecer melhor esta realidade, que chegou a assumir uma grande relevância, tendo em conta o volume de pessoas cobertas por aquelas regularizações. Sabe-se, porém, que continuam a residir, entre nós, muitos imigrantes em situação irregular, sendo também possível acontecer que, imigrantes em posição regular, passem a situação irregular, devido a procedimentos administrativos morosos, desconhecimento da lei, perda do emprego, e outros factores.


2. As pressões para a imigração relacionam-se com a incapacidade da globalização criar novas oportunidades de trabalho nos locais onde as pessoas vivem, ao mesmo tempo que se acentuam as disparidades de rendimento e de padrões de vida. Frequentemente a imigração não resulta de uma livre escolha, como deveria ser, mas de uma verdadeira luta pela sobrevivência. É este o quadro em que se situa o fenómeno da imigração irregular.


3. São várias as circunstâncias que levam a situações de irregularidade, sendo necessário encontrar respostas para estas situações. Hoje, acredita-se que elas têm origem no fracasso das políticas de imigração seguidas desde há vários anos, sendo também de assinalar a acção do tráfico de pessoas. Entretanto, mantêm-se, quando não se acentuaram, as desigualdades económicas entre o Norte e o Sul, para além das guerras, conflitos, violação dos direitos humanos, desastres naturais e outras razões, que levam as pessoas a procurar condições de vida mais dignas, na ausência ou grande precariedade destas condições nos países de origem. Ora, combater a imigração irregular na Europa deveria levar, antes de mais, a lutar contra as causas das migrações forçadas, já que ninguém deixa o seu país sem razão. Por outro lado, é preciso reconhecer que as migrações foram e continuam a ser uma oportunidade para as economias europeias. A imigração tem enriquecido a sociedade portuguesa, tanto no aspecto económico como cultural e pode contribuir para o desenvolvimento dos países de origem, se for também acompanhada por uma eficaz política de ajuda ao desenvolvimento.


4. Todos os anos, milhares de imigrantes morrem ou são sujeitos a graves violações dos direitos humanos, ao tentarem aceder e trabalhar nos países de trânsito ou de destino. Um olhar sobre a situação dos imigrantes revela que muitos governos, empregadores e outros actores da sociedade civil não estão a cumprir com as suas obrigações e responsabilidades para com os imigrantes, particularmente os irregulares. Eles estão muitas vezes sujeitos á exploração do seu trabalho, a abusos e a falta de protecção no acesso ao alojamento, cuidados de saúde, justiça e educação dos filhos. Acresce que se arriscam a ser detidos ou expulsos para os seus países, no caso de se queixarem às autoridades.


5. O debate sobre a imigração tem contudo prestado muito pouca atenção à questão dos direitos humanos dos imigrantes, em contradição com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma que “Todos os seres humanos nasceram livres e iguais em dignidade e direitos, São dotados de razão e consciência e devem actuar uns com os outros em espírito de irmandade”. Daí que devam ser garantidas condições de vida que respeitem a dignidade humana a todos, incluindo o exercício de direitos básicos, independentemente da sua situação. A defesa e o reconhecimento dos direitos humanos dos imigrantes irregulares ganham, assim, uma importância fundamental na condução das políticas de imigração. Estes direitos estão relacionados com a integridade física e moral dos seres humanos e com a sua liberdade: o direito à vida, o direito a não serem sujeitos a tortura ou a tratamento desumano e degradante, o direito a não estarem sujeitos à escravidão ou servidão, os direitos familiares, o direito à segurança e liberdade e contra as detenções arbitrárias. Estes direitos estão reflectidos na Mensagem Evangélica e na Doutrina Social da Igreja. Para que se tornem efectivos, é necessário o empenhamento dos governos dos países de origem e de destino, das autoridades locais, dos empregadores, dos próprios migrantes e da sociedade civil.


6. É certo que a generalidade dos países europeus e, também Portugal, subscreveram e ratificaram algumas das Convenções Internacionais sobre os Direitos Humanos. Ora, mesmo quando as leis internacionais prevêem derrogações e restrições aos direitos humanos, alguns deles são considerados inalienáveis e impõem obrigações incondicionais aos Estados, que não os podem recusar a pessoas em situação irregular. Particularmente relevantes, nesta matéria, são a Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos Humanos, onde estão contemplados alguns dos direitos fundamentais dos imigrantes irregulares. Existem também Convenções Internacionais de Protecção dos Migrantes, tendo designadamente Portugal ratificado as Convenções nº 97 (1949) e 143 (1975) da OIT.


No entanto, porque as migrações são um fenómeno complexo, que cobre várias dimensões, torna-se necessário um corpo coerente de legislação internacional sobre as migrações, que reúna, aperfeiçoe e complemente as obrigações até agora dispersas por vários instrumentos, e que tenha em conta os desenvolvimentos recentes, designadamente o que está a acontecer com os fluxos migratórios em direcção à Europa. Daí a importância da Convenção das Nações Unidas sobre a Protecção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das Suas Famílias, que entrou em vigor em 2003, mas que não foi ratificada por nenhum Estado Europeu, à excepção da Bósnia Herzegovina e da Turquia (só assinatura, mas não a ratificação). Desde 2003 que têm vindo a verificar-se, tanto a nível internacional, como nacional, campanhas e apelos aos governos, com vista à ratificação desta Convenção.


Mais recentemente, reconhecendo que não existe um único instrumento internacional que se ocupe especificamente da protecção dos imigrantes irregulares e que são incertos os direitos mínimos que lhes são reconhecidos, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa aprovou, em 27 de Junho de 2006, a Resolução 1755, sobre o Direitos Humanos dos Migrantes Irregulares, que terá que ser apresentada à aprovação do Comité de Ministros do mesmo Conselho, sendo importante que os vários Estados Membros se pronunciem a favor da adopção da Resolução.


7. A Conferência Europeia das Comissões Nacionais Justiça e Paz entendeu, na sequência das campanhas que têm sido desenvolvidas por várias organizações da sociedade civil, apelar mais uma vez aos governos, no sentido da adopção daqueles dois documento e, dessa forma contribuir para a construção de uma Europa mais justa e mais consciente das suas responsabilidades em relação aos países do Sul.


A Comissão Nacional Justiça e Paz de Portugal está empenhada nesta acção, em conjunto com as restantes Comissões europeias. Trata-se de mais uma campanha a favor dos direitos dos imigrantes, que vem ao encontro dos esforços já desenvolvidos por muitas ONG portuguesas, com vista à ratificação da Convenção das Nações Unidas.


Esta actuação é tanto mais pertinente quanto Portugal se rege por uma Constituição baseada na dignidade da pessoa humana e que aplica a estrangeiros ou apátridas que aqui se encontrem a quase totalidade dos direitos atribuídos aos cidadãos nacionais. Também o Governo pretende ver aprovada uma Lei da Imigração e lançou recentemente um Anteprojecto de Plano de Acção para a Integração dos Imigrantes onde se incluem medidas que se destinam também a imigrantes em situação irregular.


Acresce que os temas da imigração constituem uma das prioridades da Presidência Portuguesa da União Europeia, no segundo semestre de 2007, estando o país em posição privilegiada para fazer propostas aos restantes parceiros, conducentes a uma melhor protecção dos imigrantes irregulares.


Ao realizar esta campanha, a Comissão portuguesa não esquece que, para lá da declaração dos direitos humanos, é necessário assegurar a salvaguarda desses direitos na prática, o que supõe um compromisso forte do governo e do Parlamento nesse sentido, designadamente através da adopção dos dois Instrumentos Internacionais em causa.

Pretendemos por isso:


• Conhecer e dar a conhecer a posição do governo, partidos políticos com representação na Assembleia da República, Confederações Patronais e Sindicais, em relação ao conteúdo dos Instrumentos Internacionais em análise (para o efeito, é lançado um questionário)

• Interpelar o Senhor Provedor da Justiça com vista a que seja assegurado o reconhecimento dos direitos humanos dos imigrantes irregulares, em Portugal

• Pedir que Portugal adopte, no Conselho de Ministros do Conselho da Europa, a Resolução 1755 e sensibilize os governos dos outros países para que adoptem igualmente a Resolução

• Apelar para que seja ratificada, juntamente com os restantes parceiros comunitários, a Convenção das Nações Unidas sobre a Protecção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das Suas Famílias.


Associaram-se a esta Acção as seguintes organizações: Amnistia Internacional – Secção Portuguesa, CARITAS, Centro Padre Alves Correia, Comissão Justiça e Paz da Conferência dos Institutos Religiosos, Fundação Evangelização e Culturas, Solidariedade Imigrante, Obra Católica Portuguesa de Migrações

Lisboa, 16 de Janeiro de 2007

Documentos | CNJP| 19/01/2007 | 10:28 | 9812 Caracteres | 53 | Migrações

Fonte: Agência Ecclesia

Textos de S. Josemaria: O mandamento novo do amor

“O mandamento novo do amor”

Jesus Nosso Senhor amou tanto os homens, que encarnou, tomou a nossa natureza e viveu em contacto diário com pobres e ricos, com justos e pecadores, com novos e velhos, com gentios e judeus. Dialogou constantemente com todos: com os que gostavam dele e com os que só procuravam a maneira de retorcer as suas palavras, para o condenar. – Procura comportar-te como Nosso Senhor. (Forja, 558)

Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante a injustiça individual e social que o coração humano é capaz de criar. Tantos séculos de convivência dos homens entre si, e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar!

Os bens da Terra, repartidos entre muito poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos... E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de uma estatística! Compreendo e compartilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pormos em prática o mandamento novo do amor.

É preciso reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; entrelaça-se com as demais. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade. (Cristo que passa, 111)

Fonte: http://www.opusdei.pt/art.php?p=20866

janeiro 16, 2007

Agência Ecclesia - Referendo: Sim ou Não? - Uma questão de civilização

Referendo: Sim ou Não? - Uma questão de civilização
Segundo de 5 textos do Cardeal-Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto

1. O facto de a Igreja Católica ser contra o aborto voluntário, em todas as circunstâncias, e devido à influência da doutrina da Igreja na definição dos parâmetros de moralidade, leva a opinião pública a considerar que esta disputa entre o “sim” e o “não” é um confronto entre a Igreja Católica e o resto da sociedade. A esta perspectiva dicotómica não escapam mesmo alguns defensores do “não”. Ora não me parece que esta seja a maneira mais correcta de situar o problema. Uma lei que permita a destruição da vida intra-uterina vai contra valores chave da nossa civilização. A defesa e a protecção da vida são um valor fundamental na estrutura de uma sociedade justa, onde o valor da vida humana é o principal fundamento da dimensão ética que deve inspirar toda a convivência em sociedade. Milénios de história e de evolução cultural, em que as religiões exerceram um papel significativo, levaram a humanidade a reconhecer, de forma progressiva, valores universais humanos, que não se impõem à sociedade por serem religiosos, mas por serem dados adquiridos da evolução cultural, na qual as religiões exerceram a sua influência específica.

O judeo-cristianismo, logo no decálogo da Lei de Moisés, confirmou estes valores universais. No que à vida diz respeito, exprimiu esse valor cultural no preceito “não matarás”. No cristianismo, este 5º mandamento da Lei de Deus, aprofunda-se com a exigência do amor fraterno. Esse é o principal mandamento da Lei: o amor de todo o seu semelhante. Como diz São João, “se alguém diz que ama a Deus e rejeita o seu irmão, é mentiroso” (1Jo. 4,20). Na moral católica, o valor universal do respeito pela vida, ganha a beleza e a exigência da caridade.

Uma lei que permita a destruição da vida humana é um atropelo de civilização, sinal de desvio preocupante no conjunto de valores éticos que são a base das sociedades humanistas, tão arduamente construídas ao longo de séculos. Os autores e defensores da proposta legislativa que vai ser referendada em 11 de Fevereiro próximo encontram justificação para esta deriva cultural na possível dúvida sobre o momento em que começa a vida humana no seio materno. É uma dúvida chocante, no actual estado dos conhecimentos científicos sobre a vida intra-uterina.

2. Neste quadro civilizacional, defender o aborto voluntário significa uma de duas atitudes: ou se duvida acerca do momento em que começa a vida humana, ou se tem uma atitude de desrespeito pela vida.

A questão do momento em que começa a vida humana é também ela uma atitude cultural. Na própria história do pensamento cristã, essa questão pôs-se. Alguns autores escolásticos, numa perspectiva dualista da união da alma e do corpo, defenderam que a infusão da alma se dava numa determinada etapa da evolução do feto. E nessa visão antropológica, só depois da infusão da alma se podia falar de vida humana. Semelhante a essa é, ainda hoje, a visão muçulmana da evolução do feto.

Essa questão foi completamente ultrapassada pela Teologia e pelo Magistério. A alma está presente desde o primeiro momento do corpo e exprime-se nele e através dele. A alma não habita o corpo, anima-o e humaniza-o. Será que os defensores do aborto são “escolásticos”, do ponto de vista antropológico? Não deixa de ser curioso!

Mas a palavra esclarecedora sobre esta questão é-nos dada pela ciência. A partir do embrião, toda a especificidade de cada ser humano está definida. É possível identificar, desde logo, o código genético e as etapas do crescimento estão caracterizadas. É uma vida humana, desde o início. Apoiar-se no carácter incompleto de cada etapa do crescimento, para justificar a interrupção desse mesmo crescimento, é incongruente. O homem é sempre um ser em construção e nenhuma imperfeição na realização de toda a sua potencialidade pode justificar a sua exclusão.

3. A atitude de desrespeito pela vida humana está, infelizmente, muito espalhada na sociedade. A violência, a exclusão, o assassinato indiscriminado, a própria pena de morte. Esta é uma luta em que a humanidade não pode esmorecer, pela defesa da dignidade e dos direitos fundamentais de todo o ser humano, o primeiro dos quais é o direito a viver e a ser protegido pela Lei. Passa pela educação, pelas leis justas e pela visão do homem e da sociedade que devem inspirar uma sociedade justa.

Esta é, de facto, uma questão de cultura e de civilização, donde, a partir do respeito pela vida, deve emergir o sentido da grandeza da maternidade.


Lisboa, 14 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


Documentos | D. José Policarpo| 16/01/2007 | 11:22 | 4514 Caracteres | 151 | Aborto

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 15, 2007

Agência Zenit: Filhos sem pai

Filhos sem pai

O crescimento das fertilizações in vitro deixa as crianças na escuridão

ROMA, domingo, 14 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Um crescente número de crianças se pergunta quem poderá ser seu pai. Alguns paises permitem que os homens sejam doadores anônimos de esperma para os programas de fecundação in vitro (FIV), privando assim às crianças de saber quem é na verdade seu pai.

Um exemplo eloqüente da angústia que isto causa foi o caso de Katrina Clark. Em 17 de dezembro o Washington Post contava a história da estudante da Universidade de Gallaudet, que descrevia como que, aos 18 anos, «não sei nada da metade minhas origens».

Clark foi concebida por meio de esperma de um doador desconhecido, quando sua mãe tinha 32 anos e tinha medo de não conseguir ter uma família de outra forma. Mas, como explicava Clark, o debate sobre a FIV tende a centrar-se nos adultos, com tendência à quem tenta ter filhos. Contudo, muitas crianças, resultado da FIV, sofrem de problemas emocionais.

«É hipocrisia que os pais e os profissionais da medicina assumam que as raízes biológicas não terão importância para os “produtos” de seu serviço de criobancos, quando o que em primeiro lugar leva clientes a estes bancos é alcançar uma relação biológica», explicava. As pesquisas de Clark a levaram há pouco tempo a descobrir seu pai, mas muitas outras crianças FIV não são tão afortunados.

Outras complicações devidas ao anonimato dos doadores foram o tema de um artigo do jornal australiano Daily Telegraph, em 27 de setembro. Descrevendo a situação nos Estados Unidos, o artigo falava de Justin Senk, do Colorado, que descobriu aos 15 anos que havia sido concebido por meio de esperma doado.

A investigação que consequentemente Senk realizou o levou ao terrível fato de que tinha quatro irmãos e irmãs que viviam em um raio de 25 quilômetros —com um total de cinco crianças nascidas de três mães que haviam se submetido a um tratamento de fertilidade na mesma clínica. A identidade do pai segue sendo desconhecida. Outro caso aconteceu em Virgínia, onde 11 mulheres tiveram filhos concebidos do esperma de um só homem.

Voltando à Austrália, o Daily Telegraph calculava que só 30% das crianças concebidas com esperma doado conhece a identidade de seu pai.

Em 11 de agosto, a Associated Press descrevia que se criou nos Estados Unidos um web site, Donor Sibling Registry, para ajudar a identificar aos nascidos com o esperma de um mesmo doador.

Riscos para a saúde
A uma mãe, Michelle Jorgenson, o web site permitiu descobrir que, alem de ser pai de sua filha Cheyenne, o mesmo doador teve outros seis filhos, dois deles sofrem de autismo, com outros dois que mostram sinais de disfunções sensoriais.

O site foi criado por Wendy Kramer, para conseguir que seu filho Ryan, também concebido com esperma doado, encontrasse seus irmãos. Segundo a Associated Press o site se converteu em um ponto de referência para quem busca informação sobre problemas de saúde perigosos.

«Há pessoas em nosso site que buscam irmãos porque seus filhos têm problemas médicos, para assegurar-se, porque nem sequer diante de uma emergência medica os bancos de esperma permitirão algum contato, o que é frustrante», afirma Kramer.

No ano passado, o New York Times apresentava outro caso de um doador de esperma que transmitiu uma grave enfermidade genética a cinco filhos, nascidos para quatro casais. O artigo, publicado em 19 de maio, observava que não se sabe com exatidão de quantas crianças é pai.

As crianças, todos de Michigan, carecem de um tipo de glóbulo branco, o neutrófilo. Isto significa que são muito vulneráveis às infecções e propensos à leucemia. As crianças têm 50% de chance de transmitir o problema genético a seus próprios filhos.

Não há necessidade de pai
Não conhecer o próprio pai implica muitos problemas. A maioria dos filhos que estão buscando seus pais ao menos cresceram em uma família com um pai presente, ainda que não fosse seu pai biológico. Contudo, cada vez há mais pressão para que se permita a utilização da FIV para mulheres solteiras.

Um recente informe na Grã Bretanha recomendava que se relaxassem as leis para adaptar-se a isto. Depois de uma pesquisa pública, um comitê designado pelo governo apresentou suas recomendações sobre as clínicas de fertilidade, segundo a BBC informou em 14 de dezembro. O parlamento terá agora que debater as propostas.

Uma das recomendações é dispensar às clínicas de ter que considerar a necessidade de um pai na hora de oferecer o tratamento. Se fosse adotada, esta mudança significaria que os centros de fertilidade não teriam a possibilidade de negar o tratamento às lésbicas e às mulheres solteiras.

Outra recomendação é reconhecer legalmente nos casais do mesmo sexo a ambas as partes como «pais». Josephine Quintavalle, da Comment on Reproductive Ethics, criticava a supressão da necessidade de um pai. «É uma declaração terrível sobre o papel dos homens», declarava à BBC. «Só podemos esperar que o parlamento rejeite sabiamente a absurda proposta de eliminar a necessidade de um pai para uma criança».

Por outro lado, ainda que as clínicas atualmente apresentam reservas sobre si o processo de FIV seguirá adiante quando não houver um pai, não existe uma proibição contra as mães. Nos últimos anos aumentou de forma notável o número de mulheres solteiras que conceberam através da FIV, segundo informou em 8 de outubro o jornal Telegraph, de Londres.

No ano passado, 156 mulheres lésbicas receberam tratamento nas clínicas de FIV, quando em 2000 só 36. O número de mulheres solteiras que receberam a FIV subiu de 215 para 536.

Em 10 de julho, um artigo no jornal Scotsman considerava o tema de se os bebês da FIV necessitavam de um pai. O artigo informava sobre certa preocupação sobre o tema. «Dar o tratamento de FIV a mulheres solteiras e lésbicas é trazer deliberadamente ao mundo crianças sem o pai que necessitam e no caso das lésbicas as crianças correm o risco de ser confinados a um estado de permanente falta de pai», comentava Norman Wells, diretor da organização Family Education.

Sem limites
Aumentou a preocupação pelo que possa acontecer na Grã Bretanha após as declarações de que não proibiria a FIV às mulheres em seus cinqüenta e sessenta anos por motivos de idade. Os comentários foram feitos em uma entrevista publicada em 14 de outubro no Times de Londres, por Lord Richard Harries. Harries, bispo anglicano emérito de Oxford, é presidente interino da Autoridade de Fertilização e Embriologia Humana.

Atualmente o serviço de saúde britânico não financia a FIV para mulheres acima dos 40 anos de idade. Mas a idade avançada não é uma razão suficiente para deixar os pacientes fora, declarou ao Times.

No ano passado, o médico italiano Severino Antinori ajudou uma mulher de 62 anos a ter um filho, como informou em 8 de julho o Times. Patrícia Rashbrook entrou no livro dos recordes como a mãe britânica mais velha.

Ao ano nascem mais de 20 bebês de mulheres com mais de 50 anos, informava em 8 de maio o Guardian. Em 2002, o último ano do qual se tem dados, nas clínicas de fertilidade britânicas foram tratadas 96 mulheres que superavam os 50 anos. Uma quarta parte delas ficaram grávidas.

Esta forma de conceber não é ética. «As técnicas que provocam uma dissociação da paternidade... são gravemente desonestas», indica o Nº 2376 do Catecismo da Igreja Católica. «Estas técnicas... lesionam o direito da criança de nascer de um pai e de uma mãe conhecidos por ele e ligados entre si pelo matrimônio».

Uma criança é um dom, explica o Nº 2378, e «não pode ser considerado como um objeto de propriedade, ao que conduziria o reconhecimento de um pretenso “direito ao filho”». Algo cada vez mais ignorado, com conseqüências tristes para muitas crianças.

Pelo Pe. John Flynn

ZP07011425

Fonte: Agência Zenit

janeiro 14, 2007

Bento XVI: A família migrante

A família migrante
Mensagem do Papa Bento XVI para o 93º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, celebrado a 14 de Janeiro de 2007

Por ocasião do próximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, ao olhar para a Sagrada Família de Nazaré - ícone de todas as famílias - gostaria de convidar-vos a reflectir sobre a condição da família migrante. O evangelista Mateus narra que, pouco tempo depois do nascimento de Jesus, José foi obrigado a partir, de noite, para o Egipto levando consigo o menino e sua mãe para fugir à perseguição do rei Herodes (cf. Mt 2, 13-15).
Comentando esta página evangélica, o meu venerável predecessor, o Servo de Deus, Papa Pio XII, escreveu em 1952: «A família de Nazaré no exílio - Jesus, Maria e José - emigrantes no Egipto e lá refugiados para se subtraírem à ira de um ímpio rei, são o modelo, exemplo e apoio para todos os migrantes e itinerantes de qualquer idade, origem ou condição que, ameaçados pela perseguição ou pelas necessidades, se vêem obrigados a abandonar a pátria, os parentes queridos, os vizinhos, o afecto dos amigos, deslocando-se para terras estrangeiras» (Exsul familia, AAS 44, 1952, 649).

No drama da família de Nazaré, obrigada a refugiar-se no Egipto, vemos a dolorosa condição de todos os migrantes, especialmente dos refugiados, exilados, deslocados, prófugos e perseguidos. Entrevemos as dificuldades de cada família migrante: as privações, as humilhações, as limitações e a fragilidade de milhões e milhões de migrantes, prófugos e refugiados. A família de Nazaré reflecte a imagem de Deus conservada no coração de cada família humana, mesmo se desfigurada e debilitada pela migração.


PROTEGER O LUGAR DA VIDA E DA INTEGRAÇÃO DE VALORES


O tema do próximo Dia Mundial do Migrante e Refugiado – a família migrante – coloca-se em continuidade com os de 1980, 1986 e 1993, e pretende realçar ulteriormente o compromisso da Igreja a favor, não só do indivíduo migrante, mas também da sua família: lugar e recurso da cultura de vida e factor de integração de valores. São tantas as dificuldades que a família do migrante encontra. O facto de estarem longe dos seus familiares e a impossibilidade de se reunirem é, muitas vezes, ocasião de ruptura dos vínculos originários. Instauram-se relações novas e nascem novos afectos; esquecem-se do passado e dos próprios deveres, que são provados duramente pela distância e pela solidão. Se não se garante à família emigrada uma real possibilidade de inserção e de participação é difícil prever o seu desenvolvimento harmonioso.

A Convenção Internacional para a Protecção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e membros das suas Famílias, que entrou em vigor a 1 de Julho de 2003, pretende tutelar os trabalhadores migrantes, homens e mulheres, assim como os membros das respectivas famílias. É reconhecido o valor da família também no que diz respeito à migração, fenómeno que já se tornou estrutural das nossas sociedades. A Igreja encoraja a ratificação dos instrumentos internacionais legais destinados a defender os direitos dos migrantes, refugiados e suas famílias e, oferece, através das suas Instituições e Associações, aquela advocacy que se torna cada vez mais necessária. Com essa finalidade foram abertos Centros de apoio aos migrantes, Casas para os acolher, Escritórios para serviços às pessoas e às famílias, assim como se criaram outras iniciativas para responder às crescentes exigências neste campo.


RECUPERAR A CULTURA DO RESPEITO E O VALOR DO AMOR


Já muito se faz pela integração das famílias dos migrantes, mesmo que ainda haja muito por fazer. Existem dificuldades reais relacionadas com alguns «mecanismos de defesa» da primeira geração emigrada, que correm o risco de constituir impedimento para o ulterior amadurecimento dos jovens da designada segunda geração. Eis por que se torna necessário predispor intervenções legislativas, jurídicas e sociais para facilitar tal integração.

Nos últimos tempos aumentou o número das mulheres que deixam o próprio País de origem em busca de melhores condições de vida, com vista a perspectivas profissionais mais promissoras. Outras mulheres - e não são poucas ! - tornam-se vítimas do tráfico de seres humanos e da prostituição. Quando as famílias se voltam a reunir, as assistentes sociais, sobretudo as religiosas, podem prestar um serviço de mediação apreciado que merece ser cada vez mais valorizado.


Quanto ao tema da integração das famílias dos migrantes, sinto o dever de chamar a atenção para as famílias dos refugiados, cujas condições parecem piorar em relação ao passado, no que se refere precisamente à reunificação dos núcleos familiares. Nos “campos” que lhes estão destinados, às dificuldades de alojamento e das próprias pessoas, relacionadas com os traumas e stress emocional devido às trágicas experiências vividas, por vezes junta-se o risco do envolvimento de mulheres e crianças na exploração sexual, como mecanismo de sobrevivência. Nestes casos é necessária uma atenta presença pastoral que, além da assistência capaz de aliviar as feridas do coração, ofereça um apoio por parte da comunidade cristã que restaure a cultura do respeito e faça redescobrir o verdadeiro valor do amor. É também necessário encorajar quem está interiormente destruído a recuperar a confiança em si mesmo. Por fim, é necessário que nos comprometamos para que lhes sejam garantidos os direitos e a dignidade das famílias e um alojamento correspondente às suas exigências. Dos refugiados deve-se pretender que cultivem uma atitude aberta e positiva em relação à sociedade que os acolhe, mantendo uma disponibilidade activa face às propostas de participação para assim construir juntos uma comunidade integrada, que seja «casa comum» de todos.


ESTUDANTES: O RISCO DA CRISE DE IDENTIDADE


Entre os migrantes há uma categoria que merece ser considerada de modo especial: é a dos estudantes de outros Países, que se encontram distantes da própria casa, sem o adequado conhecimento da língua, sem amizades e muitas vezes com uma bolsa de estudos insuficiente. A condição deles torna-se ainda mais grave quando se trata de estudantes casados. A Igreja, com as suas Instituições, esforça-se por tornar menos dolorosa a falta de apoio familiar destes jovens estudantes, e ajuda-os a integrarem-se nas cidades que os acolhem, pondo-os em contacto com famílias dispostas a hospedá-los e a facilitar o recíproco conhecimento. Como tive oportunidade de dizer noutra ocasião, ajudar os estudantes estrangeiros é «um importante campo de acção pastoral. De facto, os jovens que deixam o próprio País, por motivo de estudo, vão ao encontro de não poucos problemas e, sobretudo, correm o risco de uma crise de identidade» (Discurso aos estudantes das Universidades de Roma, in L’Osservatore Romano: 15.12.2005).


INSISTIR NA SENSIBILIZAÇÃO DOS CRISTÃOS E DA OPINIÃO PÚBLICA


Caros irmãos e irmãs, que o Dia Mundial do Migrante e Refugiado se torne uma ocasião propícia para sensibilizar as comunidades eclesiais e a opinião pública para as necessidades e problemas, assim como para as potencialidades positivas, das famílias migrantes. Dirijo de modo especial o meu pensamento a quantos estão directamente relacionados com o vasto fenómeno da migração, e empregam as suas energias pastorais ao serviço da mobilidade humana. As palavras do apóstolo Paulo «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) os estimule a comprometerem-se preferencialmente com os irmãos e irmãs em maior vulnerabilidade. Com estes sentimentos, invoco sobre cada um de vós a assistência divina e a todos concedo com afecto uma especial Bênção Apostólica.


Vaticano, 18 de Outubro de 2006

BENEDICTUS PP. XVI

Documentos | Bento XVI| 12/01/2007 | 13:14 | 7535 Caracteres | 120 | Bento XVI

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 13, 2007

D. Javier Echevarría: O reino de Deus constrói-se na história

38 novos diáconos na festa de Cristo Rei

D. Javier Echevarría ordenou como diáconos 38 fiéis do Opus Dei, procedentes de 18 países dos cinco continentes. Na cerimónia, celebrada em Roma, convidou os aspirantes ao sacerdócio e todos os presentes a servir os outros para construir o Reino de Deus.

2006/11/25

Na ordenação dos diáconos, celebrada na basílica romana de Santo Eugénio, o Prelado do Opus Dei falou da festividade de Cristo Rei. Reproduzimos alguns parágrafos da homilia.

A cerimónia teve lugar na basílica de Santo Eugénio. “Se queremos ser verdadeiros discípulos do Senhor, temos que ser, como Ele, servidores de todos, sem excepções, sem reivindicar presumíveis "direitos" decorrentes da idade, da situação económica ou social, do êxito, etc. O ensinamento de Jesus Cristo é muito clara: que o maior entre vós faça-se como o mais pequeno e o que manda como o que serve”.

”Qual é a nossa atitude neste ponto? Desgraçadamente, vivemos numa sociedade altamente competitiva, em que, para muitos, a única coisa importante parece ser o êxito pessoal a qualquer preço; com o preço de descuidar os deveres mais elementares como, por exemplo, a cuidadosa atenção ao cônjuge, aos pais e aos filhos; as relações de lealdade com amigos e companheiros e, inclusivamente, com o preço de pisar as obrigações mais estritas de justiça e de caridade com o próximo”.

”O caminho para seguir Cristo é radicalmente distinto. Certamente o cristão que procura santificar-se no meio do mundo há-de empenhar-se cada dia em alcançar o máximo prestígio possível na sua profissão ou no seu ofício; deve tirar partido dos dons recebidos de Deus, de que um dia terá que prestar contas ao Senhor. Mas deve fazê-lo não movido por uma auto-afirmação pessoal egoísta, mas para servir com maior eficácia os irmãos. Com palavras do Fundador do Opus Dei, vos digo: Necessitamos de nos esquecermos de nós mesmos, não aspirar a outro senhorio que o de servir os outros, como Jesus Cristo (...). Isso requer a inteireza de submeter a própria vontade ao modelo divino, trabalhar por todos, lutar pela a felicidade eterna e o bem-estar dos outros. Não conheço melhor caminho para ser justo – assim conclui São Josemaria – que o de uma vida de entrega e de serviço”.

”O reino de Deus constrói-se na história. Não se edifica de modo aparatoso, mas especialmente na intimidade dos corações; não se manifesta com bandeiras ao vento, mas na humildade do cumprimento do dever e do serviço quotidiano”.

REINO DE DEUS, HUMILDADE E SERVIÇO QUOTIDIANO

Quando um pai ou uma mãe de família cuida o seu lar com amor e se preocupa com a educação cristã dos filhos, está a edificar o reino de Deus. Quando um profissional, um operário, um estudante, realiza bem o seu trabalho, por amor a Deus e ao próximo, está a edificar o reino de Deus. Quando um empresário ou um político se ocupa legitimamente em aumentar a sua influência na sociedade, procurando contribuir para a realização do bem comum com sacrifício pessoal, renunciando ao uso de meios proibidos pela consciência cristã, está a edificar o reino de Deus. Quando um doente oferece ao Senhor as suas dores e limitações, unido a Cristo na Cruz, está a edificar – e de um modo muito eficaz – o reino de Deus”.

O reino de Deus constrói-se na intimidade dos corações; não se manifesta com bandeiras ao vento, mas na humildade do cumprimento do dever e do serviço quotidiano".“Tenhamos presente esta realidade, queridos irmãos e irmãs, em qualquer momento e circunstância; especialmente quando ao propagar-se o mal possa fazer surgir dentro de nós uma sensação de desgosto ou desânimo”.

Dirigindo-se aos diáconos e aos seus familiares e amigos, recordou que celebrar esta ordenação na festividade de Cristo Rei “é uma coincidência muito significativa. Todos sabeis que a palavra diaconía significa serviço. Os diáconos acedem a este primeiro grau do sacramento da Ordem para ajudar o Bispo e os presbíteros no cumprimento do seu ministério sacerdotal”.

”Quando prestardes os vossos serviços, tanto no plano litúrgico quer no ensinamento ou da caridade, o próprio Cristo servirá os homens e as mulheres por vosso intermédio. Que alegria tão grande deriva do facto de servir verdadeiramente os outros! Sirvamos, pois, com cara alegre, porque Deus ama o que dá com alegria. Sirvamos o Senhor sempre com alegria”.

(...)

© 2007, Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet

Reprodução autorizada pelo Gabinete de Informação da Opus Dei em Portugal

O título deste artigo é da responsabilidade do blogue Razão Crítica

Bispo de Angra: Notal Pastoral sobre o Referendo ao Aborto

Nota Pastoral
REFERENDO AO ABORTO

Os portugueses são chamados mais uma vez a se pronunciarem, em referendo, sobre a questão do aborto. Embora para a Igreja o direito à vida não seja matéria de referendo, temos de participar no debate, para esclarecer o que realmente está em causa. E não podemos deixar de ir às urnas. Votar é sempre uma obrigação grave. Raramente se justifica a abstenção, muito menos, neste caso do referendo sobre o aborto. Não sendo uma questão meramente religiosa, também não é uma questão simplesmente política ou partidária. É uma questão de humanidade e de civilização.

A pergunta do referendo é algo capciosa. Induz facilmente ao “sim”. Mas nós católicos devemos votar “não”. O que está realmente em causa não é a «despenalização», mas sim a «liberalização legalizada» da prática do aborto. «O ser humano está todo presente, desde o início da vida, quando ele é apenas embrião. Esta é hoje uma certeza confirmada pela Ciência: todas as características e potencialidades do ser humano estão presentes no embrião». (CEP, Nota Pastoral, 2006/10/19).

A assim chamada «interrupção voluntária da gravidez» é a interrupção de uma vida humana. Moralmente, não podemos concordar com uma lei, que, despenalizando uma das partes envolvidas, condena à pena de morte um ser inocente e indefeso.

Ninguém quer condenar ninguém. O que se pretende é garantir o direito à vida dos nascituros. «O aborto não é um direito da mulher… Desde que uma vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano» (Ibid), que um Estado de Direito tem a obrigação de proteger e defender. Por isso, dizemos “não” ao aborto.

A lei tem um efeito pedagógico. Plasma as mentalidades e os costumes. Uma lei permissiva abre caminho à liberalização do aborto. Os constrangimentos da lei ajudam a criar a mentalidade de que o aborto é uma grave desordem moral, que se deve evitar a todo o custo: elimina uma vida humana e põe em causa a saúde e bem-estar da mulher.
Todos queremos o melhor para a mulher. Então, poupemo-la do drama do aborto, que, em qualquer circunstância, deixa sequelas indeléveis para toda a vida.

Não se pode confundir a questão do direito à vida, com as situações dramáticas de gravidezes indesejadas e do aborto clandestino. Há outros caminhos para combater o «aborto clandestino». Passam «por um planeamento equilibrado da fecundidade e por um apoio decisivo às mulheres para quem a maternidade é difícil» (Ibid.). Isso é que é sinal de «progresso» e de «modernidade».

Diz-se que o aborto é uma questão de consciência. E está certo. Como em tudo. Nenhum Partido ou Governo podem substituir a nossa consciência. Um cidadão católico procura formar a própria consciência, em consonância com a fé que professa, tal como é interpretada pelo ensinamento perene da Igreja, que sempre defendeu o direito à vida, desde a concepção até ao seu termo natural. É de toda a coerência que um católico vote “não”, no referendo ao aborto.

+ António, Bispo de Angra

Angra, 04 de Janeiro de 2007.


Documentos | D. António de Sousa Braga| 12/01/2007 | | 3016 Caracteres

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Copyright© Diocese de Angra

Fonte: http://www.ecclesia.pt/angra/

janeiro 12, 2007

10 semanas, 10 perguntas - Um exercício de Amor

10 semanas, 10 perguntas

Instruções

Com liberdade, responda a estas 10 perguntas. No final, some os "Sim" e os "Não". Terá descoberto, através deste Exercício de Amor, qual o sentido de voto que a sua consciência lhe pede.

A uma mulher com dificuldades na vida é a morte do filho que a sociedade oferece?

Liberalizar o aborto torna a sociedade solidária?

A mulher é mais digna por poder abortar?

Uma sociedade que nega o direito a nascer, respeita os Direitos Humanos?

É maior o direito da mãe a abortar do que o direito da criança a viver?

Sem razão clínica, abortos são cuidados de saúde?

Concorda que a saúde de outras mulheres fique à espera? (para que o aborto se faça até às 10 semanas)

Aborto "a pedido da mulher". Há filho sem pai?

Quem engravida gera um filho. Mata-se o filho?

É-se mais humano às 10 semanas e 1 dia do que às 10 semanas?

Fonte: www.positivamentenao.com

janeiro 11, 2007

Agência Ecclesia - Referendo: Sim ou Não?

Referendo: Sim ou Não?
D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa

I – O que é que se pretende?

1. Aproxima-se a consulta popular em que o eleitorado vai ser convidado a dizer “sim” ou “não” a um alargamento legal do aborto, até às dez semanas de gravidez, tendo como motivo a justificá-lo apenas a vontade da mulher grávida. Embora a Igreja, porque é contra o aborto em todas as circunstâncias, não concorde com a Lei actualmente em vigor, ela apresenta razões para justificar o pedido da mulher: violação, mal-formação do feto, graves distúrbios psíquicos para a mãe. Agora pretende-se tornar legal que a mulher grávida peça o aborto só porque o quer.

O que é que se pretende? Que motivos levam a esta ousadia legislativa? O Estado democrático, através das leis que aprova, procura o bem da comunidade nacional. A arte de legislar tem uma forte componente cultural: as leis aplicam à vida concreta da sociedade, em ordem a harmonizá-la, os valores fundamentais da cultura de um Povo. É daí que provém a exigência ética de todas as leis. Será que a nossa cultura deixou cair o valor humano universal que é a dignidade da vida humana e o dever do Estado de a defender e proteger? Será que esta intenção legislativa propõe um bem fundamental para todos os portugueses?

2. Os motivos que parecem justificar esta proposta legislativa, vamo-nos apercebendo deles nas diversas declarações de governantes, de partidários da lei, de movimentos a favor do “sim”.

* Parece ser a busca de uma solução para o drama do aborto clandestino. Que ele existe e é um drama, é uma realidade. Mas qual a sua dimensão? O várias vezes anunciado estudo sobre esta realidade nunca foi realizado. O cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez fizeram diminuir a realidade do aborto de “vão de escada”. Esta nova realidade traz a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência e não é razão para esta alteração na Lei. Não quero, com o que acabo de dizer, negar a realidade do “aborto clandestino”. Penso só que era preciso tipificar melhor a realidade, nas suas dimensões evolutivas, antes de propor à decisão dos portugueses uma tão grave alteração legal.

E será uma solução? Estudos feitos em países que seguiram este caminho, mostram que a legalização não resolveu significativamente o problema. Ao contrário, aumentaram os números globais de abortos.

* Pretende-se, depois, despenalizar a mulher que aborta. “Nem mais uma mulher para a cadeia” tornou-se “slogan”. Declarações que recentemente vi nos meios de comunicação social, dizem que, nos últimos trinta anos, nenhuma mulher foi presa por esse motivo. A afirmação surpreendeu-me. Houve, é certo, alguns julgamentos, e esses podemos contá-los, porque foram invariavelmente sublinhados com ruidosas manifestações dos movimentos “pró-aborto”. Mas também me consta terem sido dadas instruções à Polícia Judiciária para não ter entre as suas prioridades as investigações sobre o “crime” de aborto. Neste quadro, será urgente uma lei com tais problemas éticos? É notória a ambiguidade: não é possível “despenalizar” sem “legalizar”.

* Vi também apresentar como motivo, fazer alinhar Portugal entre os países mais progressistas da Europa, como se defender a vida fosse sinal de atraso cultural. Cautela Europa! Um continente a definhar por deficit de natalidade, a renunciar aos grandes valores da sua cultura, poderá ser a vítima do caminho que construir.

* Dizem outros que é um reconhecimento de um direito da mulher. “A mulher tem direito ao seu corpo”. Só que o feto é um corpo de outro ser humano, que a mulher mãe recebe no seu corpo, para o fazer crescer. O seio materno foi o primeiro berço de todos nós. É um corpo acolhido por outro corpo. Pergunto-me, sinceramente, pelo respeito que toda a mulher me merece, quantas mulheres-mães, mesmo as que passaram pelo drama do aborto, se pensarem um pouco, ouvindo o mais íntimo de si mesmas, serão capazes de fazer tal afirmação.

* A última razão que ouvi, e essa entristeceu-me particularmente, pois vinha de alguns católicos, que se querem distanciar da doutrina da Igreja: no aborto estão em questão duas vidas, a do feto e a da mãe. Estão a falar de aborto só quando a vida da mãe está em risco? E mesmo nessas circunstâncias é o caso em que a maternidade convida a correr riscos e apela ao heroísmo. Ou fazem equivaler a destruição da vida do feto ao incómodo de uma maternidade indesejada?

3. É notória a fragilidade de todos estes objectivos. O único que se afirma com a crueza da realidade é o drama do aborto clandestino do qual, como ficou dito, não se conhecem as fronteiras da realidade. Esta lei será uma solução? E, sobretudo, será uma solução legítima? Não o é, pois uma tal lei fere princípios éticos universais, é uma questão de civilização. Cultural e moralmente, o “Não” é a única resposta legítima.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Documentos | D. José Policarpo| 09/01/2007 | 14:44 | 4918 Caracteres | 491 | Aborto

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 10, 2007

Associação Mulheres em Acção: Manifesto "Somos Médicos por isso Não!"

Se é médica/o ou estudante de medicina, não nos deixe sós!

Assine a declaração de princípios do movimento “Somos Médicos, por isso NÃO.” (VER FOLHA DE RECOLHA DE ASSINATURAS EM ANEXO).

Recolha assinaturas.

Envie depois para o Apartado indicado na declaração em anexo.

Se já assinou para algum movimento de cidadãos pelo Não, pode assinar esta declaração.

Se não é médica/o ou estudante de medicina não nos deixe sós! E ajude nesta campanha!

Um abraço amigo

Alexandra Teté

ANEXO: Formulário "Somos Médicos por isso NÃO"

Fonte: Associação Mulheres em Acção

Para qualquer dúvida ou esclarecimento contactar a Associação Mulheres em Acção para o endereço de mail geral@mulheresemaccao.org.

janeiro 09, 2007

Resumo e excertos de uma entrevista ao treinador de futebol Fernando Santos, no Jornal “A Bola”

Em 1994, o padre Luís deu a Fernando Santos um exemplar do livro «A Fé Explicada», da autoria do clérigo norte-americano. Leo J. Trese. E a vida do técnico encarnado começou a mudar, aproximando-se de Deus. Mais tarde, a presença num Curso de Cristandade, por altura do seu despedimento do Estoril, em 1994, acabou por consumar o «clique» anteriormente sentido. Foi nesse Curso que lhe deram o crucifixo que o acompanha em todos os momentos. Até durante os jogos de futebol. Foi também nessa altura que lhe disseram «Cristo conta contigo» e Fernando Santos respondeu «pode contar.»

— Que significa para si a espiritualidade?
— É algo que só se sente. No meu caso sinto a presença do Espírito Santo. Quando dizemos que alguém tem muita espiritualidade, tem a ver com a presença desse espírito, que nos conduz a algo em que acreditamos, que pauta a vida segundo certos e determinados princípios.

— Esse sentimento altera a vida de uma pessoa?
— Claro. E tem a ver com Fé, que é algo em que se acredita sem se ver, ao contrário de São Tomé. Para se ter Fé é preciso acreditar numa coisa que não se conhece, porque a partir do momento em que é conhecido deixa de ter sentido falar em Fé. Mas quando se encontra esse Caminho da Fé, isso passa a pautar a nossa vida.

— Ter Fé é um processo evolutivo, ou pode ser um clique, um instante que tudo muda?
— Ser chamado à Fé pode revestir muitas formas. Há uma passagem no Evangelho que diz que logo pela manhã estavam os trabalhadores sentados numa praça à espera que os chamassem para a labuta e afinal uns eram imediatamente convocados, outros só ao meio-dia, outros à tarde e outros à noite e no fim todos recebiam por igual. Eu interpreto essa passagem como as diferentes vias de chegar à Fé. Há quem tenha sido baptizado e nunca tenha andado afastado da Igreja, outros só mais tarde é que regressaram aos caminhos da Fé e outros ainda só já na idade adulta receberam o baptismo.

— Como foi o seu caso?
— Foi um caso de clique. Como quase todos os miúdos do meu tempo fui baptizado, andei na catequese, fiz a primeira comunhão, fui crismado e depois... desliguei. Dediquei-me aos estudos, ao futebol e a Fé ficou, de algum modo, de lado, embora nunca tenha deixado de agradecer, rezando à noite. Isso, fiz sempre. Posso, nesses tempos, ter-me afastado da Igreja, mas nunca me afastei de Deus. E a Fé precisa de ser alimentada, é, nesse aspecto, como a vida, porque se não comermos nem bebermos acabamos por morrer.

— Mas voltando ao seu caso...
— Ainda antes do clique que senti, costumo dizer que tive um período mais do que ligado à Fé, ligado à fezada. Toda a gente sabe do que estou a falar. Quando estamos aflitos ou vamos à Igreja, ou vamos a Fátima, ou colocamos uma vela para que o exame corra bem. É uma facilidade terrível... é dar um chouriço e ficar à espera, em troca, de um porco. Quando entramos no futebol, esta fezada confunde-se amiúde com religião mas é, acima de tudo, superstição: entrar com o pé direito, com o benzer e por aí fora. Mas, neste processo de algum afastamento, nunca abandonei os princípios da Igreja Apostólica, Católica e Romana: casei pela Igreja, baptizei os meus filhos e coloquei-os em colégios de matriz cristã. Ia sobretudo à Igreja quando tinha casamentos e baptizados mas, como tenho cerca de 60 afilhados, posso dizer que fui lá muitas vezes.

— E o clique?
— Aconteceu durante a inauguração da clínica de um amigo meu, o Manuel Pinto Coelho. Estava lá o sacerdote - o padre Luís - que foi realizar a bênção do espaço e no fim pediu-me boleia. No caminho falámos bastante e quando o ia deixar em casa disse-lhe que um dia gostava de conversar com maior profundidade com ele. Passados uns tempos liguei-lhe e fomos almoçar. Ofereceu-me um livro, «A Fé Explicada», de 1959, autoria do padre norte-americano, Leo J. Trese, porque já sabia das minhas dúvidas, especialmente aquela ideia que nos colocavam na cabeça na escola de um Deus castigador.

— O livro ajudou-o?
— A verdade é que li o livro e ajudou-me bastante. Descobri que Deus não só não é castigador como perdoa sempre; e a gravidade daquilo que fazemos depende muito das circunstâncias e da consciência do pecado que está a ser cometido. Outra questão que me metia confusão era a da criação do Universo. Cientificamente está provado que foi através do Big Bang. Mas quem carregou no botão? E aí, para mim, a resposta só pode ser uma: Deus.

— Tudo mudou, a partir dessa conversa e desse livro?
— Comecei a ir à Igreja, à eucaristia, dando expressão a uma necessidade de aproximação e entendimento. Aliás, eu sempre fora demasiado racional e queria perceber tudo. Ora, a Fé não se percebe, sente-se.

— Esse clique inicial foi aprofundado?
— Sim. No dia em que fui despedido do Estoril, em 1994, um casal amigo, à noite, em minha casa, falou-me de um curso de cristandade, argumentando que se tratava de um retiro durante três dias que poderia ser bom para mim. Primeiro disse que não, mas depois, pensando melhor, porque me sentia em baixo, acabei por aceder.

— Estava mesmo a viver um grande problema?
— Reconheço hoje que aquilo que me parecia um drama pessoal, ter saído, após 20 anos, do Estoril, não tinha esse valor: eu mantinha o meu emprego de engenheiro no Hotel Palácio, a minha mulher era professora, os meus filhos estudavam e o ambiente em minha casa era bom, mas a verdade é que na altura acreditava estar perante um grande problema e três dias de retiro podiam ser interessantes. E lá fui, na expectativa de que me ajudasse a pensar, a organizar ideias, a ter uma nova perspectiva sobre o que queria da vida.

— E o que aconteceu?
— Não deixando de continuar a ser eu, com os meus defeitos e virtudes, a minha vida mudou. Sem magias ou pozinhos de prilimpimpim, apenas encetando um relacionamento diferente com os outros. E recordando algumas coisas, por exemplo que Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo, que é omnipresente, que Deus está vivo em cada um de nós. Disseram-me «tu és Cristo». «Eu, Cristo?», pensei, mas em todos os baptizados Cristo é continuado.

Fonte: “A Bola”, www.abola.pt, 2 de Janeiro de 2007, pág. 4 e 5

A FÉ EXPLICADA
LEO J. TRESE

Editorial Quadrante, S. Paulo, Brasil
9ª edição, Agosto 2005.
PVP: 16,80 €
Pode adquirir nas livrarias ou na distribuidora em Portugal Ed. DIEL,

info@dielnet.com

janeiro 08, 2007

Agência Zenit: Estende-se pelo ocidente a epidemia de «cristofobia»

Estende-se pelo ocidente a epidemia de «cristofobia»
Aumentam as tentativas de eliminar os sinais públicos de fé

BIRMINGHAM, domingo, 7 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- É necessário que os fiéis se alertem perante quem deseja reconstruir a sociedade de uma forma que excluiria o cristianismo. Esta foi a advertência contida na homilia do arcebispo britânico Vincent Nichols no dia 26 de novembro, festa de Cristo Rei.

O arcebispo de Birmingham, que celebrava missa na Catedral de St. Chad’s, explicava que Cristo ensinou a importância de ser testemunhas da verdade. «Seu testemunho esclarece nossa tarefa como sociedade», afirmava o prelado. Construir tal sociedade, acrescentava, é «uma empresa moral sem ambigüidades».

Não obstante, continuava o arcebispo católico, muitos desejam hoje construir uma sociedade que exclua a moral e reduza todo juízo ao que é legal. «É processo da democracia secular em nosso país neste momento, enquanto se pede que se atue sem interesses e de forma moralmente neutra, está imerso de fato em uma reestruturação intensa e em ocasiões agressivas de nosso marco moral», observava o Monsenhor Nichols.

Também se queixava de que o governo britânico esteja tentando impor à Igreja «condições que contradizem nossos valores morais». Isso implica áreas como as escolas, as agências de adoção e os programas sociais.

A homilia do arcebispo atraiu a atenção da imprensa britânica. Prossegue o duro debate sobre a formulação da legislação que estipularia como se penalizam as organizações cristãs por não aceitar plenamente a homossexualidade.

Se as propostas do governo seguem adiante, a Igreja anglicana pode ver-se forçada a fechar seus clubes de jovens e suas organizações de caridade, advertia o bispo anglicano de Rochester, Michael Nazir-Ali.

«Serão os pobres e os indigentes os perdedores», eram suas palavras citadas pelo Daily Mail em 29 de novembro. O prelado anglicano também expressou seu apoio ao declarado pelo arcebispo Nichols em sua recente homilia.

As cruzes excluídas

A exclusão do cristianismo também foi destacada em uma controvérsia sobre a decisão da companhia aérea British Airways de pedir a uma de suas trabalhadoras que não leve uma cruz no pescoço. Pediu-se a uma funcionária do setor de check-in, Nadia Eweida, que ocultasse seu colar com uma cruz, informou em 14 de outubro a BBC.

Sua cruz infringia supostamente a proibição de símbolos religiosos da British Airways. No entanto, tão logo se viu que a companhia aérea permitia usar os turbantes dos sijs e as vestes típicas dos muçulmanos.

O tema levantou debates durante algumas semanas, durante as quais Eweida foi obrigada a trabalhar com uma permissão. Em 20 de novembro British Airways lhe afirmou que havia tomado a decisão final de recusar seu apelo de levar a cruz, informou no mesmo dia a BBC.

A decisão atraiu duras críticas. O arcebispo anglicano de York, John Sentamu, denunciou que era algo «sem sentido», informava em 21 de novembro no Daily Mail. «Usar uma cruz não é somente o símbolo de nossas esperanças, mas também a responsabilidade de atuar e viver como cristãos», indicou.

Em 20 de novembro o Daily Mail informava que 92 membros do parlamento britânico assinaram uma moção condenando a decisão da companhia aérea. Os firmantes provêm de todos os principais partidos.

Dado que continuaram os protestos, a British Airways se retratou e anunciou que permitiria a seus trabalhadores usar pequenas cruzes, informou em 25 de novembro o Times.

Cruzada nas universidades

O debate sobre o papel do cristianismo também surgiu nos campus. As organizações cristãs estão preparando ações legais contra as autoridades universitárias, informava em 18 de novembro o Times.

As associações de estudantes em quatro universidades têm proibido os grupos cristãos porque os acusa de excluir os não cristãos e promover o ódio aos homossexuais. A Universities and Colleges Christian Fellowship, uma organização que abriga 350 uniões estudantis na Grã-Bretanha com mais de 20.000 estudantes, afirmou que seus membros enfrentam a uma luta «sem precedentes» em seus 83 anos de história, informou o periódico.

Alarmados pela ameaça aos cristãos nos campus, alguns líderes religiosos, incluindo oito bispos anglicanos e católicos, escreveram uma carta ao Times, publicada em 24 de novembro.

Sustentavam que, ainda que os organismos universitários têm a responsabilidade de assegurar que as sociedades reconhecidas oficialmente atuam de forma apropriada e leal, «isto não lhes dá, nem a ninguém, o direito a restringir ou mudar as crenças essenciais de ditas sociedades, ou impor como líderes pessoas que não compartilham suas crenças essenciais».

As universidades escocesas também estão apresentando problemas aos cristãos. A Universidade de Edimburgo proibiu a União Cristã de ministrar um curso sobre abstinência no campus, informou o periódico Scotland on Sunday no dia 19 de novembro.

As autoridades universitárias sustentaram que os conteúdos do curso contravêm «as normas de igualdade e diversidade», depois de escutar histórias de pessoas que haviam sido «curadas» de sua homossexualidade. «A universidade está se fechando de forma eficaz à liberdade de expressão», protestava Laura Stirrat, vice-presidente da União Cristã da Universidade de Edimburgo.

Os colégios católicos da Escócia também têm recebido ataques, informava o periódico Scottish Herald em 27 de novembro. Peter Quigley, presidente do Instituto de Educação da Escócia, um sindicato de professores, afirmou que a lei que permite aos representantes da Igreja bloquear a contratação de professores segundo argumentos de crenças religiosas ou caráter discrimina os não católicos.

O artigo observava que os comentários do líder do sindicato tiveram lugar somente uns meses depois de que um tribunal de trabalho ditasse que um ateu sofreu discriminação religiosa porque não se lhe permitiu que se apresentasse a um posto de promoção em um colégio católico em Glasgow. Como resultado David McNab recebeu 2.000 libras (3.900 dólares) como compensação.

Cristofóbicos

Em meio a estas múltiplas controvérsias, o cardeal Cormac Murphy-O’Connor publicava um artigo em 25 de novembro no Times, perguntando se a sociedade britânica está se voltando contra a religião.

O arcebispo de Westminster insistia na necessidade de «um diálogo e cooperação respeitosos» entre cristãos, membros de outras crenças, agnósticos e laicistas. «O multiculturalismo grosseiro que não consegue apreciar a base de cultura da fé», defendia, «nos conduz para longe da coesão social».

«Estou me cansando da piada de quem parece ver as comunidades de fé, especialmente as cristãs, como intrusas e contrárias ao bem comum», acrescentava o cardeal. «Os rotulava de cristofóbicos».

Estão-se gerando novas controvérsias. Em 26 de novembro, o periódico Telegraph de Londres informava que um magistrado cristão, Andrew McClintock, empreenderia ações legais contra o governo.

Sustenta que foi forçado a renunciar seu papel de proporcionar às crianças cuidados devido a sua convicção religiosa de que a homossexualidade é imoral. McClintock afirma que se viu obrigado a presidir casos que implicavam a pais homossexuais. Sustenta que isso constitui discriminação contra suas crenças. McClintock, de 62 anos, foi magistrado no South Yorkshire Bench durante 18 anos e esteve em sua seção dedicada à família nos últimos 15 anos.

Sem lugar para o Menino Jesus

A Grã-Bretanha, supostamente, não é o único país sacudido por debates sobre o cristianismo. Os funcionários da cidade de Chicago receberam duras críticas por sua decisão de proibir um video-clip do filme «Jesus – A História do Nascimento». As cenas seriam mostradas no Christkindlmarket, um festival de Natal que tem lugar na Daley Plaza, informava em 29 de novembro em Chicago Tribune.

Jim Law, diretor executivo da cidade para eventos especiais, afirmou que mostrar as cenas do filme seria «insensível para muitas pessoas de crenças diferentes», que assistem ao festival. Os funcionários permitem, no entanto, que estejam na praça a meia lua islâmica e a menorah judia, junto à apresentação de Natal, observava o Tribune.

A Espanha também está afetada. Um colégio público de Zaragoza proibiu o tradicional festival de Natal, informava em 29 de novembro o periódico ABC. As autoridades escolares tomaram a decisão devido à presença de estudantes de outros credos e culturas. Os cristãos, como o Menino Jesus, não são bem-vindos em muitos lugares.

Pe. John Flynn

ZP07010715

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janeiro 07, 2007

Agência Zenit - Bento XVI: Acolher a Cristo no coração

Código: ZP07010610

Data de publicação: 2007-01-06

Bento XVI: Acolher a Cristo no coração

Audiência geral de 3 de janeiro de 2007

CIDADE DO VATICANO, sábado, 6 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI durante a audiência geral desta quarta-feira, 3 de janeiro de 2007, celebrada na Sala Paulo VI, no Vaticano.


* * *


Queridos irmãos e irmãs:

Obrigado por vosso afeto. A todos desejo um feliz ano. Esta primeira audiência geral do novo ano é celebrada ainda no clima natalino, em uma atmosfera que nos convida à alegria pelo nascimento do Redentor. Ao vir ao mundo, Jesus distribuiu abundantemente entre os homens dons de bondade, de misericórdia e de amor. Interpretando os sentimentos dos homens de todos os tempos, o apóstolo São João afirma: «Vede com que amor nos amou o Pai para nos chamar filhos de Deus» (1 Jo 3, 1). Quem se detém a meditar diante do Filho de Deus que jaz inerme no presépio não pode não ficar surpreendido por este acontecimento humanamente inacreditável; não pode não compartilhar o assombro e o humilde abandono da Virgem Maria, que Deus escolheu como Mãe do Redentor precisamente por sua humildade.

No Menino de Belém todos os homens descobrem que são amados gratuitamente por Deus; com a luz do Natal nos é manifestada a cada um de nós a infinita bondade de Deus. Em Jesus o Pai celestial inaugurou uma nova relação conosco; nos fez “filhos em seu Filho”. Durante estes dias São João nos convida a meditar precisamente sobre esta realidade, com a riqueza e a profundidade de sua palavra, da qual escutamos uma passagem.

O Apóstolo predileto do Senhor sublinha que “somos realmente filhos” (cf. 1 Jo 3, 1). Não somos só criaturas; somos filhos. Deste modo Deus está próximo de nós; deste modo nos atrai a si no momento de sua encarnação, ao fazer-se um de nós. Por conseguinte, pertencemos verdadeiramente à família que tem a Deus como Pai, porque Jesus, o Filho unigênito, veio colocar sua morada em meio a nós, a morada de sua carne, para congregar todas as pessoas em uma única família, a família de Deus, que pertence realmente ao Ser divino: todos estamos unidos em um só povo, em uma só família.

Veio para nos revelar a verdadeira face do Pai. E se agora nós usamos a palavra Deus, já não se trata de uma realidade conhecido somente de longe. Nós conhecemos a face de Deus: é a face do Filho, que veio para fazer mais próximas a nós, à terra, as realidades celestes. São João explica: «Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas no fato dele nos ter amado primeiro» (1 Jo 4, 10).

No Natal ressoa no mundo inteiro o anúncio simples e desconcertante: «Deus nos ama». «Nós amamos —diz São João— porque ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Este mistério já está colocado em nossas mãos porque, ao experimentar o amor divino, vivemos orientados às realidades do céu. E o exercício destes dias consiste também em viver realmente orientados a Deus, buscando antes de tudo o Reino e sua justiça, com a certeza de que o resto, todo o resto, nos será dado como acréscimo (cf. Mt 6, 33). O clima espiritual do tempo natalino nos ajuda a crescer nesta consciência.

Contudo, a alegria do Natal não nos faz esquecer o mistério do mal (mysterium iniquitatis), o poder das trevas, que tenta obscurecer o esplendor da luz divina; e, infelizmente, experimentamos cada dia este poder das trevas. No prólogo de seu Evangelho, que proclamamos várias vezes nestes dias, o evangelista São João escreve: «A luz brilha nas trevas, e as trevas não a acolheram» (Jo 1, 5).

É o drama da rejeição de Cristo que, como no passado, também hoje se manifesta e se expressa, infelizmente, de muitas formas diversas. Talvez na época contemporânea estejam também mais disfarçadas e perigosas as formas de rejeição de Deus: vão desde a rejeição em si até a indiferença, desde o ateísmo cientificista até a apresentação de um Jesus que dizem moderno e pós-moderno. Um Jesus homem, reduzido de modo diverso a um simples homem de seu tempo, provado de sua divindade; ou um Jesus tão idealizado que parece às vezes personagem de uma fábula.

Mas Jesus, o verdadeiro Jesus da história, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e não se cansa de propor seu Evangelho a todos, sabendo que é «sinal de contradição para que se revelem os pensamentos de muitos corações» (cf. Lc 2, 34-35), como profetizou o velho Simeão. Na verdade, só o Menino que jaz no presépio possui o verdadeiro segredo da vida. Por isso pede que o acolhamos, que lhe demos espaço em nós, em nosso coração, em nossas casas, em nossas cidades e em nossas sociedades.

Na mente e no coração ressoam as palavras do prólogo de São João: «A todos os que o acolheram lhes deu poder de tornar-se filhos de Deus» (Jo 1, 12). Tratemos de nos contar entre os que o acolhem. Diante dele ninguém pode ficar indiferente. Também nós, queridos amigos, devemos tomar posição continuamente.

Qual será, portanto, nossa resposta? Com que atitude o acolhemos? Vem em nossa ajuda a simplicidade dos pastores e a busca dos Magos que, através da estrela, perscrutam os sinais de Deus; servem-nos de exemplo da docilidade de Maria e a sábia prudência de José. Os mais de dois mil anos de história cristã estão cheios de exemplos de homens e mulheres, de jovens e adultos, de crianças e idosos que acreditaram no mistério do Natal e abriram seus braços ao Emanuel, convertendo-se com sua vida em sinais de luz e esperança.

O amor que Jesus trouxe ao mundo ao nascer em Belém une aos que o acolhem em uma relação duradoura de amizade e fraternidade. São João da Cruz afirma: Deus «o que falava antes em partes aos profetas já falou no todo, dando-nos o Todo, que é seu Filho. (...) Ponha os olhos somente nele (...) e achará nele ainda mais do que pede e deseja» (Subida do monte Carmelo, livro II, cap. 22, 4-5).

Queridos irmãos e irmãs, no início deste novo ano renovemos em nós o compromisso de abrir a Cristo a mente e o coração, manifestando-lhe sinceramente a vontade de viver como verdadeiros amigos seus. Assim seremos colaboradores de seu projeto de salvação e testemunhas da alegria que Ele nos dá para que a difundamos abundantemente ao nosso redor.

Que Maria nos ajude a abrir nosso coração ao Emanuel, que assumiu nossa pobre e frágil carne para compartilhar conosco o fatigoso caminho da vida terrena. Contudo, na companhia de Jesus este fatigoso caminho se transforma em um caminho de alegria. Caminhemos juntamente com Jesus, caminhemos com Ele; assim o ano novo será um ano feliz e bom.

[Traduzido por Zenit
© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana]

Reprodução autorizada pela Agência Zenit

janeiro 06, 2007

Bento XVI: Homilia de Domingo, 31 de Dezembro de 2006

VÉSPERAS DA SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, COM O CANTO DO “TE DEUM”

Basílica do Vaticano
Domingo, 31 Dezembro de 2006

(...)

Na tarde de 31 de Dezembro entrecruzam-se duas perspectivas diferentes: a primeira, vinculada ao fim do ano civil; a segunda, a solenidade litúrgica de Santa Maria, Mãe de Deus, que conclui a oitava da santa natividade. O primeiro acontecimento é comum a todos; o segundo é próprio dos cristãos. O entrecruzar-se das duas perspectivas confere a esta celebração vespertina um carácter singular, num clima espiritual particular que convida à reflexão.

O primeiro tema, muito sugestivo, está vinculado à dimensão do tempo. Nas últimas horas de cada ano solar assistimos à repetição de alguns “ritos” mundanos que, no contexto actual, estão marcados sobretudo pela diversão, com frequência vivida como evasão da realidade, ou como forma de exorcizar os aspectos negativos e favorecer improváveis golpes de sorte.

Quão diversa deve ser a atitude da comunidade cristã! A Igreja é chamada a viver estas horas fazendo seus os sentimentos da Virgem Maria. Juntamente com ela está convidada a fixar o seu olhar no Menino Jesus, novo Sol que surgiu no horizonte da humanidade e, confortada pela sua luz, e apressar-se a apresentar-lhe “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos “ (Gaudium et spes, 1).

Assim pois, confrontam-se as valorizações da dimensão “tempo”: uma quantitativa e outra qualitativa. Por um lado, o ciclo solar, com os seus ritmos; por outro lado, o que São Paulo chamava a “plenitude dos tempos” (Ga 4, 4), isto é, o momento culminante da história do universo e do género humano, quando o Filho de Deus veio ao mundo.

O tempo das promessas cumpriu-se e quando a gravidez de Maria chegou ao seu fim, “a terra – como diz um salmo – deu o seu fruto” (Sal 66, 7). A vinda do Messias, anunciada pelos profetas, é o acontecimento qualitativamente mais importante de toda a história, à qual confere o seu sentido último e pleno. As coordenadas histórico-políticas não condicionam as decisões de Deus; o acontecimento da Encarnação é que “enche” de valor e sentido a história.

Os que nascemos dois mil anos depois desse acontecimento podemos afirmá-lo – pode-se dizer assim – também à posteriori, depois de conhecer toda a vida de Jesus, até à sua morte e ressurreição. Nós somos, cada um, testemunhas da sua glória e da sua humildade, do valor imenso da sua vinda e do infinito respeito de Deus pelos homens e pela nossa história. Ele não chegou ao tempo vindo das alturas, mas chegou de “dentro”, tornando-se uma pequena semente para levar a humanidade até à sua plena maturação.

Este estilo de Deus tornou necessário um largo tempo de preparação para chegar desde Abraão até Jesus Cristo, e depois da vinda do Messias a história não acabou mas continuou o seu curso, aparentemente igual, mas na realidade visitada por Deus e orientada até à segunda e definitiva vinda do Senhor no final dos tempos. A maternidade de Maria, que é ao mesmo tempo acontecimento humano e divino, é o símbolo real e o sacramento de tudo isto.

Na passagem da carta aos Gálatas que acabamos de escutar São Paulo afirma: “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Ga 4, 4). Orígenes comenta: “Repara bem que não disse: nascido através de uma mulher; mas: nascido de uma mulher” (Comentário à carta aos Gálatas: PG, 14, 1298). Esta observação pertinente do grande exegeta e escritor eclesiástico é importante porque, se o Filho de Deus, tivesse nascido somente através de uma mulher, na realidade no teria assumido a nossa humanidade, e é isto precisamente o que aconteceu ao tornar-se carne de Maria.

Por conseguinte, a maternidade de Maria é verdadeira e plenamente humana. Na frase “Deus enviou o seu Filho, nascido da mulher” encontra-se condensada a verdade fundamental sobre Jesus como Pessoa divina que assumiu plenamente a nossa natureza humana. Ele é o Filho de Deus, foi gerado por ele; e ao mesmo tempo é filho de uma mulher, de Maria. Vem dela. É de Deus e de Maria. Por isso a Mãe de Jesus se pode e deve chamar Mãe de Deus.

É provável que este título, que em grego se diz Theotókos, tenha aparecido pela primeira vez precisamente na região de Alexandria do Egipto, onde vivia Orígenes na primeira metade do século III. Mas só foi definido dogmaticamente dois séculos depois, no ano 431, pelo concílio de Éfeso, cidade que teve a alegria de ir em peregrinação há um mês, durante a visita apostólica à Turquia. Precisamente tendo presente esta inesquecível visita, como não expressar toda a minha filial gratidão à santa Mãe de Deus pela especial protecção que me concedeu nesses dias de graça?

Theotókos, Mãe de Deus: cada vez que rezamos a Ave Maria dirigimo-nos à Virgem com este título, suplicando-lhe que rogue “por nós, pecadores”. Ao finalizar o ano, sentimos a necessidade de invocar de modo muito especial a intercessão maternal de Maria santíssima em favor da cidade de Roma, de Itália, da Europa e do mundo inteiro. A ela, que é a Mãe da Misericórdia encarnada, encomendamos-lhe todas as situações a que só a graça do Senhor pode levar paz, consolo e justiça.

“Para Deus nada é impossível”, disse o anjo à Virgem quando lhe anunciou a sua maternidade divina (cf. Lc 1, 37). Maria acreditou e por isso é bem-aventurada (cf. Lc 1, 45). O que resulta impossível para o Homem é possível para quem crê (cf. Mc 9, 23). Por isso, ao terminar o ano de 2006, pedimos à Mãe de Deus que nos obtenha o dom de uma fé madura: uma fé que queremos que se assemelhe, na medida do possível, à sua; uma fé nítida, genuína, humilde e por sua vez impregnada de esperança e entusiasmo pelo reino de Deus; uma fé que não admite o fatalismo e está aberta a cooperar na vontade de Deus com obediência plena e gostosa, com a certeza absoluta que aquilo que Deus quer para sempre para todos é amor e vida.

Oh Maria, alcançamos uma fé autêntica e pura.

Damos-te graças e te bendizemos sempre, santa Mãe de Deus. Ámen.

© Copyright 2006 - Liberaria Editariam Vaticina

Fonte. http://www.vatican.va

Traduzido da versão espanhola por Razão Crítica

Agência Ecclesia: Movimentos cívicos pelo «Não» realçam as feridas do aborto

Movimentos cívicos pelo «Não» realçam as feridas do aborto

Na convenção nacional, Isilda Pegado apelou também para o tipo de linguagem preferencial.

A convenção Nacional pelo «Não ao Aborto» foi um motivo para os grupos cívicos da campanha pelo “Não à liberalização do aborto se encontrassem e afinassem alguns argumentos” – disse à Agência ECCLESIA Isilda Pegado, presidente da Federação Portuguesa pela Vida. Hoje (6 de Janeiro), na Edifício da Alfândega do Porto, realizou-se um encontro nacional de grupos de cidadãos eleitores que se propõem defender o «Não» no referendo ao aborto, a realizar dia 11 de Fevereiro. Nesta iniciativa, os participantes definiram também algumas estratégias comuns, “respeitando, obviamente, a diversidade que cada um deles trouxe”.

Esta diversidade é uma “riqueza ao movimento pelo não” – realçou Isilda Pegado. E acrescenta: “não há, propriamente, uma estratégia porque cada grupo cívico tem uma estratégia”. Dar indicações e apontar caminhos para os tipos de “linguagem que nos parecem preferenciais” foram pontos focados nesta convenção. A demonstração de que o problema central do aborto é “a eliminação de uma vida humana” e, em simultâneo, também destrói “a vida de uma mulher” – foi motivo de reflexão.

Do ponto de vista social, com a liberalização do aborto o “dinheiro dos portugueses” será, em parte, “canalizado para clínicas de aborto” – disse. Na convenção – com a participação de muitos movimentos -, os presentes apelaram também para a “cultura da responsabilidade e da seriedade”. O aborto “é sempre uma ferida, na criança que nasceria e também mãe” – esclarece Isilda Pegado.

De norte a sul do país, muitos cidadãos eleitores estão mobilizados para esta questão e nascem com frequência grupos a defender o «não» ao aborto. Não existem movimentos em demasia porque os “tempos de antena são divididos entre os diferentes grupos existentes no país”. Se, do lado dos defensores do «sim», existirem “cinco grupos e nós tivermos 15 grupos teremos mais tempo de antena”. E avança: “é uma estratégia” mas “respeitamos a diversidade do país”.

Para o próximo sábado (13 de Janeiro), em Fátima, realizar-se-á uma jornada pela vida promovida pelos movimentos cívicos defensores do «não» ao aborto

Nacional | Luís Filipe Santos| 06/01/2007 | 17:34 | 2093 Caracteres | 21 | Aborto

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 04, 2007

Associação Mulheres em Acção

Referendo ao Aborto - 11 de Fevereiro de 2007

Um não dito com convicção é melhor e mais importante

que um sim dito meramente para agradar, ou,

pior ainda, para evitar complicações

(M. Gandhi)

Está preparado para decidir como votar?

Sabe o que está em causa neste referendo?

Conhece a pergunta e todas as questões que ela coloca?

Este tempo – prévio ao referendo sobre o aborto – deve ser aproveitado para serena e seriamente reflectirmos e debatermos sobre esse assunto. Não é uma questão menor: trata-se da protecção do valor primordial – a vida humana – e do tipo de sociedade que queremos construir.

A Associação Mulheres em Acção está disponível para dar o seu contributo, visando a clarificação das dúvidas sobre o que está em causa neste referendo, em debates ou sessões de esclarecimento a promover com todas a instituições ou grupos de cidadãos interessados.

Procure informação.

Decida com convicção.

Ligue para: 226007130 / 969298781

Fax: 226094027


www.mulheresemaccao.org


www.portinaoaborto.com


Fonte: Associação Mulheres em Acção

janeiro 03, 2007

Padre Hugo de Azevedo: O Fim e os Meios

O FIM E OS MEIOS

É frequente ouvir pessoas honestas queixarem-se de não poderem usar os meios fraudulentos que usam outros nos seus negócios. Sentem-se prejudicados pela sua própria consciência, que não lhes permite manejar as mesmas armas nesta luta pela vida, e consideram-se justificados quando algumas vezes se vêem na pretensa «necessidade» de utilizá-las.

Há várias formas pitorescas de exprimir essa atitude, como a daquele homem próspero que foi apresentado a alguém por um eclesiástico como um «católico cem por cento»: - «Perdão – emendou o apresentado -, 99 por cento! Com o 1 por cento restante é que me governo!» Ou a do outro que se vangloriava: -«Para ser hoje uma pessoa honrada, tive de passar muitos anos a roubar!»

«O fim não justifica os meios», diz o conhecido princípio moral. S. Paulo dizia-o assim: «Não se pode fazer um mal para que venha um bem» E quer dizer uma coisa tão simples e evidente como esta: um fim bom não justifica usar meios maus. Servir o cliente, por exemplo, não justifica enganá-lo...

No fundo, o problema só se põe quando o fim de um negócio ou de qualquer outra ocupação não é o de servir, mas servir-nos: acima de tudo, ganhar dinheiro, conquistar uma posição de domínio, vencer os que competem connosco. Mas nessa altura, começa por ser mau o próprio fim, que não justifica meio nenhum, porque não se justifica a si mesmo.

E quando o ambiente de trabalho se degrada a tal ponto, que nos vemos cercados de sistemas fraudulentos? É um estímulo ao brio e à imaginação! Como os bons desportistas, que se dispõem a vencer todos os obstáculos que se lhes apresentem... E mais do que isso: como gente honesta que se dispõe a criar um ambiente honesto ao seu redor, servindo realmente, não só os seus clientes, fregueses, doentes, etc., mas toda a sociedade em geral. Pois a fraude pode ser lucrativa a curto prazo, mas não dá lucro «sustentado», nem contribui para o bem comum. E, sem bem comum, o próprio bem individual se torna frágil e fugaz. «Quem à espada mata, à espada morre». Nada funciona bem quando não há lisura de processos.

E se por desventura caímos no meio da refrega? Vale a pena: por nós mesmos e por todos, porque não contribuiremos para o apodrecimento social.

Sempre haverá situações dramáticas. A vida está cheia delas: injustiças, perseguições, «ratoeiras»... Quem não conta com elas é um ingénuo; quem não pode suportá-las, um fraco... que devemos amparar e animar, mas não mal aconselhar.

Conste que pode haver problemas morais tão enredados, que nem os moralistas saibam resolvê-los. Bem diz o Concílio que «não pensem (os leigos) que os seus pastores sejam sempre de tal forma peritos que possam ter de repente uma solução concreta para qualquer problema que surja, mesmo grave, ou que seja essa a sua missão» (Gaudium et Spes, 43). Em muitos casos terão de ser os mesmos profissionais, conhecedores do seu mundo, a resolvê-los, e até a esclarecer os moralistas. O que não podem é passar por alto os problemas, pelo critério irresponsável de «fazer o que os outros fazem».

Aliás, toda a gente sabe que a honestidade «compensa»: a confiança mútua é a base de uma sociedade sã. Nos meios sociais corrompidos, nem os mais poderosos estão seguros. Compensa, mas não basta, é claro. Começaria por não ser honesto quem enveredasse por empreendimentos para os quais não estivesse preparado tecnicamente. Por mais honrado que fosse. Como dizia Camões: «... pois nunca louvarei / o capitão que diga: - Não cuidei.»

Padre Hugo de Azevedo

* * *

Fonte: newsletter da capelania da AESE - www.aese.pt

O Capelão da AESE, Padre Hugo de Azevedo, está disponível no seu gabinete para atender quem o desejar às quintas-feiras, das 13,00h às 15,30, e a qualquer outra hora e dia da semana, combinando previamente o encontro.

Informações e contacto: capelania@aese.pt

janeiro 02, 2007

Agência Ecclesia: Papa pediu fim-de-ano diferente para os católicos

Papa pediu fim-de-ano diferente para os católicos

Bento XVI criticou no último dia de 2006 a repetição, nas últimas horas do ano, de “alguns ritos mundanos, marcados sobretudo pela diversão e vividos muitas vezes para fugir à realidade”. Falando na tradicional cerimónia de acção de graças pelo ano que acaba, celebrada na Basílica de São Pedro, o Papa classificou muitas das celebrações de passagem de ano como "fuga à realidade".
Os cristãos devem ter, defendeu, um comportamento "diferente". Nesse sentido, pediu-lhes que apresentem à Virgem Maria "as alegrias, esperanças, tristezas e angústias do homem moderno, dos pobres e de todos os que sofrem".

Na Oitava da Natividade, dedicada à Virgem, o Papa centrou a sua homilia na "maternidade de Maria". A definição dogmática de Maria como "Mãe de Deus", "Theotokos", foi estabelecida no Concílio de Éfeso, em 431.

“A comunidade cristã, seguindo o exemplo da Mãe de Deus, é convidada a manter o olhar fixo no Menino Jesus, novo Sol que apareceu no horizonte da humanidade e confortada pela sua luz, e a apresentar-lhe as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angustias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem”, afirmou Bento XVI fazendo referência a uma passagem da Constituição Gaudium et Spes.

Os fiéis foram ainda convidados a uma reflexão sobre o tempo. “Uma dimensão – sublinhou o Papa - que se deve avaliar de um ponto de vista qualitativo e quantitativo”. “Dum lado o ciclo solar com os seus ritmos, do outro, aquela que São Paulo chama plenitude do tempo, isto é o momento culminante da historia do universo e do género humano, quando o Filho de Deus nasceu no mundo”, prosseguiu.

“Somente Deus pode dar paz, conforto e Justiça. Nada é impossível a Deus”, disse Bento XVI a concluir a sua homilia.

(Com Rádio Vaticano)

Internacional | Agência Ecclesia| 02/01/2007 | 11:08 | 1777 Caracteres | 70 | Bento XVI

Fonte: Agência Ecclesia

janeiro 01, 2007

Papa Bento XVI compara aborto a terrorismo?

Vários jornais online afirmam, em título que "Papa Bento XVI compara aborto ao terrorismo" . Discordo firmemente dos títulos apontados, face ao que foi dito na mensagem de Bento XVI, publicada integralmente neste blogue:

5. Quanto ao direito à vida, cabe denunciar o destroço de que é objecto na nossa sociedade: junto às vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz? O aborto e as pesquisas sobre os embriões constituem a negação directa da atitude de acolhimento do outro que é indispensável para se estabelecerem relações de paz estáveis.

Como se pode ler o Papa apenas coloca a cultura de morte que é provocada por uma série de situações contemporâneas nas nossas sociedades em confronto como o direito à vida e à sua defesa, que a Igreja diz defender em todas as situações.

Para se entender esta passagem do discurso de Bento XVI é necessário ler o que é escrito antes:

(...)a paz é simultaneamente um dom e uma missão. Se é verdade que a paz entre os indivíduos e os povos — a capacidade de viverem uns ao lado dos outros tecendo relações de justiça e de solidariedade — representa um compromisso que não conhece pausa, é também verdade, antes é-o mais ainda, que a paz é dom de Deus. A paz é, com efeito, uma característica da acção divina, que se manifesta tanto na criação de um universo ordenado e harmonioso como também na redenção da história humana necessitada de ser recuperada da desordem do pecado. Criação e redenção oferecem, portanto, a chave de leitura que introduz na compreensão do sentido da nossa existência sobre a terra. O meu venerado predecessor João Paulo II, dirigindo-se à Assembléia Geral das Nações Unidas no dia 5 de Outubro de 1995, teve a ocasião de dizer que nós « não vivemos num mundo irracional ou sem sentido, mas [...] existe uma lógica moral que ilumina a existência humana e torna possível o diálogo entre os homens e os povos ».(3) A “gramática” transcendente, ou seja, o conjunto de regras da acção individual e do recíproco relacionamento entre as pessoas de acordo com a justiça e a solidariedade, está inscrita nas consciências, nas quais se reflecte o sábio projecto de Deus. Como recentemente quis reafirmar, « nós cremos que na origem está o Verbo eterno, a Razão e não a Irracionalidade ».(4) A paz é, portanto, também uma tarefa que compromete cada indivíduo a uma resposta pessoal coerente com o plano divino. O critério que deve inspirar esta resposta não pode ser senão o respeito pela “gramática” escrita no coração do homem pelo seu divino Criador.

Nesta perspectiva, as normas do direito natural não hão-de ser consideradas como directrizes que se impõem a partir de fora, como se coarctassem a liberdade do homem. Pelo contrário, devem ser acolhidas como uma chamada a realizar fielmente o projecto universal divino inscrito na natureza do ser humano. Guiados por tais normas, os povos — no âmbito das respectivas culturas — podem aproximar-se assim do maior mistério, que é o mistério de Deus. Por isso, o reconhecimento e o respeito pela lei natural constituem também hoje a grande base para o diálogo entre os crentes das diversas religiões e entre estes e os não crentes. É este um grande ponto de encontro e, portanto, um pressuposto fundamental para uma autêntica paz.

(...)

4. O dever de respeitar a dignidade de cada ser humano, em cuja natureza se reflecte a imagem do Criador, tem como consequência que não se possa dispor da pessoa arbitrariamente. Quem detém maior poder político, tecnológico, económico, não pode aproveitar disso para violar os direitos dos outros menos favorecidos. De facto, é sobre o respeito dos direitos de todos que se baseia a paz. Ciente disso, a Igreja faz-se paladina dos direitos fundamentais de cada pessoa. De modo particular, ela reivindica o respeito da vida O respeito do direito à vida em todas as suas fases estabelece um ponto firme de importância decisiva: a vida é um dom de que o sujeito não tem completa disponibilidade. Igualmente, a afirmação do direito à liberdade religiosa põe o ser humano em relação com um Princípio transcendente que o furta ao arbítrio do homem. O direito à vida e à livre expressão da própria fé em Deus não está nas mãos do homem. A paz necessita que se estabeleça uma clara fronteira entre o que é disponível e o que não o é: assim se evitarão intromissões inaceitáveis naquele património de valores que é próprio do homem enquanto tal.

Como se pode concluir é com base na defesa do direito à vida e no significado de "paz", que deve ser entendida a afirmação citada pelos jornais. Só aquele parágrafo isolado leva a leituras dúbias como as que foram publicadas online.

Chama-se, ainda, a atenção para as seguintes passagens:

6. Na raiz de não poucas tensões que ameaçam a paz, estão certamente as inúmeras injustas desigualdades ainda tragicamente presentes no mundo. De entre elas são, por um lado, particularmente insidiosas as desigualdades no acesso a bens essenciais, como a comida, a água, a casa, a saúde; e, por outro lado, as contínuas desigualdades entre homem e mulher no exercício dos direitos humanos fundamentais.

(...)

7. A mesma insuficiente consideração pela condição feminina introduz factores de instabilidade no ordenamento social. Penso na exploração de mulheres tratadas como objectos e nas numerosas formas de falta de respeito pela sua dignidade; penso também — num contexto distinto — nas visões antropológicas persistentes em algumas culturas, que reservam à mulher uma posição ainda fortemente sujeita ao arbítrio do homem, com consequências lesivas da sua dignidade de pessoa e para o exercício das próprias liberdades fundamentais. Não devemos iludir-nos de que a paz esteja assegurada enquanto não forem superadas também estas formas de discriminação, que lesionam a dignidade pessoal, inscrita pelo Criador em cada ser humano.(5)

(...)

(...) ao lado da ecologia da natureza existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. E isto requer que a humanidade, se tem a peito a paz, tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana. A experiência demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente provoca danos à convivência humana, e vice-versa. Surge assim com mais evidência um nexo incindível entre a paz com a criação e a paz entre os homens.(...)

(....)

9. Quão seja estreito este nexo entre uma e outra ecologia ajuda-nos a compreender o problema, cada dia mais grave, do abastecimento energético. Nestes anos, novas Nações entraram decididamente no sector da produção industrial, aumentando as necessidades energéticas. Isto está a provocar uma corrida sem precedentes aos recursos disponíveis. Entretanto, persistem ainda em algumas regiões do planeta situações de grande atraso, onde o desenvolvimento está praticamente bloqueado devido também ao aumento dos preços da energia. Que acontecerá àquelas populações? Que tipo de desenvolvimento ou de não-desenvolvimento lhes será imposto pela escassez de reabastecimento energético? Que injustiças e antagonismos provocará a corrida às fontes de energia? E como reagirão os excluídos desta corrida? Estas perguntas põem em evidência quanto o respeito pela natureza esteja intimamente ligado à necessidade de tecer entre os homens e entre as Nações relações respeitadoras da dignidade da pessoa e capazes de satisfazer as suas autênticas necessidades. A destruição do ambiente, um uso impróprio ou egoísta do mesmo e a apropriação violenta dos recursos da terra geram lacerações, conflitos e guerras, precisamente porque são fruto de um conceito desumano de desenvolvimento. Com efeito, um desenvolvimento que se limitasse ao aspecto técnico-económico, descurando a dimensão moral-religiosa, não seria um desenvolvimento humano integral e terminaria, ao ser unilateral, por incentivar as capacidades destruidoras do homem.

(...)

10. É urgente, portanto, mesmo no quadro das actuais dificuldades e tensões internacionais, empenhar-se em dar vida a uma ecologia humana que favoreça o crescimento da “árvore da paz”. Para tentar semelhante empresa é necessário deixar-se guiar por uma visão da pessoa não viciada por preconceitos ideológicos e culturais ou por interesses políticos e económicos, que incitem ao ódio e à violência. É compreensível que as visões do homem variem nas distintas culturas. Mas o que não se pode admitir é que sejam cultivadas concepções antropológicas que contenham nelas mesmas o germe da contraposição e da violência. São igualmente inaceitáveis concepções de Deus que estimulem o descaso para com os próprios semelhantes e o recurso à violência contra eles. Trata-se de um dado em que se deve insistir com clareza: uma guerra em nome de Deus jamais é aceitável. Quando uma certa concepção de Deus está na origem de factos criminosos, é sinal de que tal concepção já se transformou em ideologia.

(...)

12. Uma paz verdadeira e estável pressupõe o respeito dos direitos do homem. Mas se estes direitos se baseiam numa concepção débil da pessoa, como não hão-de ficar também eles enfraquecidos? Daqui se vê claramente a profunda insuficiência de uma concepção relativista da pessoa, quando se trata de justificar e defender os seus direitos. A aporia neste caso é patente: os direitos são propostos como absolutos, mas o fundamento aduzido para eles é apenas relativo. Causará surpresa se, diante das exigências “incómodas” postas por um direito ou outro, aparecer alguém a contestá-lo ou decidir ignorá-lo? Somente radicados em instâncias objectivas da natureza dada ao homem pelo Criador, é que os direitos a ele atribuídos podem ser afirmados sem medo de contestação. De resto, é evidente que os direitos do homem, por sua vez, implicam deveres. Bem o afirmava a propósito mahatma Gandi: « O Gange dos direitos desce do Himalaia dos deveres » Somente deixando claro este pressuposto de base é que os direitos humanos, hoje sujeitos a contínuos ataques, podem ser adequadamente defendidos. Sem esta clareza, acaba-se por utilizar a mesma expressão, precisamente ‘direitos humanos', mas subentendendo sujeitos bem distintos entre si: para uns, a pessoa humana dotada de dignidade permanente e de direitos sempre válidos, em toda a parte e para todos; para outros, uma pessoa de dignidade mutável e de direitos sempre negociáveis nos conteúdos, no tempo e no espaço.

(...)

14. A partir da consciência de que existem direitos humanos inalienáveis ligados com a natureza comum dos homens, foi elaborado um direito internacional humanitário, a cuja observância os Estados se comprometem mesmo em caso de guerra. Isto infelizmente não encontrou coerente actuação, prescindindo do passado, em algumas situações de guerra acontecidas recentemente. Foi o que se deu, por exemplo, no conflito que há alguns meses, teve por cenário o sul do Líbano, quando a obrigação de proteger e ajudar as vítimas inocentes e de não envolver a população civil foi em grande parte desatendida. O doloroso episódio do Líbano e a nova configuração dos conflitos, sobretudo desde que a ameaça terrorista pôs em prática inéditas modalidades de violência, requerem que a comunidade internacional reafirme o direito internacional humanitário e o aplique a todas as situações actuais de conflito armado, incluindo as não previstas pelo direito internacional em vigor. Além disso, a praga do terrorismo postula uma reflexão aprofundada sobre os limites éticos que são inerentes ao uso dos instrumentos actuais de tutela da segurança nacional. Com frequência sempre maior, com efeito, os conflitos não são declarados, sobretudo quando os provocam grupos terroristas decididos a alcançar por qualquer meio os seus fins. Face aos desconcertantes cenários destes últimos anos, os Estados não podem deixar de sentir a necessidade de dotar-se de regras mais claras, capazes de contrastar eficazmente o extravio dramático que estamos assistindo. A guerra representa sempre um insucesso para a comunidade internacional e uma grave perda de humanidade. Mas quando, apesar de tudo, ela acontece, convém pelo menos salvaguardar os princípios essenciais de humanidade e os valores básicos de toda a convivência civil, estabelecendo normas de comportamento que limitem ao máximo os seus danos e procurem aliviar os sofrimentos dos civis e de todas as vítimas dos conflitos.(7)

(....)

Construir a Paz pelo Amor e pela Beleza

Construir a Paz pelo Amor e pela Beleza

“Construir a Paz pelo Amor e pela Beleza”

Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus,

Dia Mundial da Paz

Paróquia de Santo António do Estoril,

1 de Janeiro de 2007


1. Todos nós, e a maior parte dos nossos contemporâneos, andamos preocupados com a paz global. Impressionam-nos os conflitos sangrentos, repudiamos o terrorismo e as novas formas de violência; assusta-nos a escalada na busca de armas de destruição maciça, mas esquecemo-nos que a paz global se decide no horizonte mais restrito da nossa vida pessoal, na nossa harmonia interior, no respeito sagrado pela vida e pela pessoa dos outros, na exclusão da violência no universo mais restrito da nossa vida pessoal. Há uma certa incongruência e mesmo hipocrisia quando nos arvoramos em defensores da paz global e cedemos à violência e à injustiça, na família, no ciclo limitado das nossas relações, na maneira habitual de viver em sociedade. Toda a forma de violência prejudica a paz. Quem é violento para com aqueles que lhe são próximos é capaz de ser violento em relação a toda a comunidade humana. É essa a mensagem que nos dirigiu, hoje, o Santo padre Bento XVI, ao dizer-nos que “a pessoa humana é o coração da paz”.

A nossa meditação neste Dia Mundial da Paz, não pode ignorar as múltiplas formas de violência que existem na nossa sociedade: contra as crianças, mesmo antes de nascerem, a violência familiar de que a mulher é a principal vítima, as injustiças no trabalho e nos negócios, a busca egoísta dos próprios interesses, abafando os dinamismos de generosidade e de busca do bem-comum. As injustiças na sociedade tornam-se focos de violência e não facilitam a construção da paz global. Quero, hoje, aprofundar convosco, dois aspectos de uma espiritualidade para a paz, no universo próprio da nossa vida: a generosidade do amor e a contemplação da beleza.


2. Nunca haverá paz sem amor, porque a convivência entre os homens assenta na consciência de que, cada um de nós, só será feliz se procurar contribuir para a felicidade dos outros. É-se pessoa, ajudando os outros a sê-lo; somos corresponsáveis, com as pessoas com quem nos cruzamos, pela harmonia da vida e pela construção da felicidade e da paz. Uma visão da vida, centrada sobre si mesma, é egoísta e não leva à felicidade e à paz. A multidão de homens e mulheres, de todas as culturas e religiões, que dão a sua vida para ajudar outras pessoas que sofrem, são, no mundo de hoje, talvez muito mais do que os governantes das nações, os grandes obreiros da paz. A generosidade para com os outros aprofunda no próprio coração o sentido da dignidade de toda a vida e de cada pessoa humana. É nesse sentido que o Santo Padre nos diz que a paz é um dom e uma missão.

Nós os crentes, sabemos que a paz, sem deixar de ser nossa responsabilidade e missão, é um dom de Deus, e encontra a sua expressão mais profunda na harmonia nas relações de cada homem com Deus que o criou e com o Seu Filho Jesus Cristo, que nos salvou. Só aqueles que o experimentaram, podem saborear a paz profunda que, no nosso coração, brota da nossa relação confiante com Deus, sobretudo com Jesus Cristo, que nos permite viver, no coração de Deus, a intimidade de filhos. É essa a mensagem de Paulo aos Gálatas: “a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Abbá, ó Pai. Assim já não és escravo, mas filho” (Gal. 4,6-7).

A missão da Igreja, ao ajudar as pessoas a descobrir Deus e a aprofundar esta relação filial com Ele, constitui um contributo importante para a paz. Nem sempre a sociedade reconhece este esforço silencioso e persistente de humanização, e não está consciente de que se trata de uma missão fundamental e prioritária, porque quem está em paz com Deus é, espontaneamente, um construtor da paz entre os homens. A religião é o mais sagrado santuário da liberdade. O respeito pela liberdade religiosa e o apreço por aqueles que tomam, livremente, essa opção, é um dos mais sólidos pilares da paz.

A paz, como missão, significa que ela deve ser compromisso de todos, particularmente dos cristãos. Esse é, aliás, o dinamismo de todos os dons de Deus: suscitar e fortalecer nas pessoas o desejo de amor. Tudo o que Deus nos dá é para nos tornarmos capazes de amar, de ser Sua imagem. A sua primeira exigência é o respeito pela vida. Esta é, sempre, uma participação na vida divina, e não a respeitar, mesmo quando ela é apenas um embrião promissor, é uma violência, gérmen de outras violências. A vida não é um bem arbitrário, de que se possa dispor ao sabor de políticas, de interesses pessoais ou mesmo de sofrimentos inevitáveis. No respeito pela vida e pela dignidade dos outros, cada um exprime e reconhece a dignidade da sua própria vida e reforça o direito de a ver respeitada. A paz como missão significa a determinação de lutar contra todas as formas de violência, de discriminação, de negação da dignidade e de direitos inalienáveis de toda a pessoa humana.


3. Um dos frutos do amor é a contemplação da beleza. Entre o amor e o belo há uma identidade de natureza. O amor é a experiência humana que mais nos conduz a tocar a beleza como harmonia do ser. Na beleza toca-se aquela dimensão profunda em que toda a realidade se auto-transcende e encontra a sua conaturalidade com a beleza divina. Contemplar a beleza é caminho para a paz.

A beleza não é algo a acrescentar à realidade do Universo e da pessoa humana. Antes ela é a dimensão mais profunda de toda a realidade criada. Tem-se acesso à beleza indo ao fundo das realidades. Nas realidades criadas, a beleza é a assinatura do Seu autor, de Deus que as criou. Ela é a maravilhosa harmonia impressa em todo o Universo, no mistério do seu início, no ritmo do seu crescimento, nas leis que o regem e o orientam para o homem, única criatura a encarnar a própria beleza de Deus. Podemos contemplá-la, a desafiar-nos e a transcender-nos, no infinitamente pequeno como na imensidão do cosmos; ela extasia-nos, particularmente, na harmonia da vida. Particularmente acessível no casal que gera um filho e que a mãe contempla a crescer no seu seio, torna-se mais exigente, a clamar pela generosidade do amor, quando a vida é difícil. De toda a educação da pessoa humana deveria fazer parte a educação para a beleza, porque ela fortalece o coração para o amor e para a defesa da vida; a sua força exclui a violência e, é, em si mesma, uma expressão de paz. Os modernos movimentos ecológicos procuram ser uma educação para a beleza. Bento XVI, na sua Mensagem, convida-nos a ir mais longe e a completar a ecologia da natureza com uma “ecologia humana”, procurando e preservando, acima de tudo, a beleza impressa no coração do homem.


4. Mas para além da beleza impressa no íntimo de toda a criação, o homem, a obra prima da criação, a criatura mais bela no conjunto da harmonia global, torna-se criador de beleza. Chamamos-lhe, então, artista, porque a arte que produz torna mais acessível à contemplação de todos a beleza tantas vezes escondida. Como na aventura da revelação de Deus, os Profetas foram aqueles que escutaram a Palavra de Deus e a comunicaram por suas palavras aos outros, incapazes de escutar a Palavra na sua origem divina, assim os artistas são os “profetas da beleza”, porque a captam na sua transcendentalidade e a tornam acessível a outros. No judeo-cristianismo, como nas outras grandes religiões, estes “profetas da beleza” completaram sempre a missão dos Profetas da Palavra. Ambos se encontram na expressão do louvor de Deus. Na Liturgia, a Palavra e a beleza dão-se as mãos. A beleza torna-se caminho de oração e de contemplação.

Os artistas são, assim, tal como os arautos do amor, grandes artífices da paz. Ao tocar a beleza, eles abrem-se à universalidade do mistério do homem, horizonte onde se situa a paz. Quando o artista fica prisioneiro de projectos reduzidos, que podem ser ideologias ou ânsia de poder, negam-se como profetas da transcendência que toda a beleza exprime e anuncia.

A educação para a beleza é um caminho para a paz e ela pode ser, também, uma educação pela arte e para a arte. A Igreja aceita ter responsabilidades específicas nesse desafio, ela que vê ligada à sua fé a mais significativa expressão do nosso património artístico, e estamos dispostos a estudar caminhos novos para proporcionar, sobretudo às nossas crianças e aos nossos jovens essa descoberta da vida através da beleza.

Se desejamos a paz, reunamos o mais generoso do nosso contributo na generosidade do amor e na contemplação da beleza.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Documentos | D. José Policarpo| 01/01/2007 | 12:00 | 8555 Caracteres | 6 | Dia Mundial da Paz

Fonte: Agência Ecclesia

Paz: mais belo nome de Deus; grande desejo do coração humano

Paz: mais belo nome de Deus; grande desejo do coração humano

Dia Mundial da Paz
Sé do Porto

2007.01.01


1 – Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Dia Mundial da Paz. Primeiro de um novo ano que, como sempre, iniciamos envolvidos em votos de paz que ouvimos dos mais diversos quadrantes e nos formulamos. É o mais belo nome de Deus[1], a paz, a meta da humanidade, o grande desejo do coração humano, o maior.

Colocamos Maria no centro destas ocorrências.. Mãe de Deus, Mulher de paz. Rainha e a Mãe da Paz, ela é, também e por isso, sua grande promotora. Pedimos-lhe que nos ensine e ajude a vivê-la e a construi-la.

Foi, de facto, aceitando-se e assumindo-se na verdade de si mesma, (a verdade é geradora de paz) de criatura diante do seu Criador e Senhor, colocando-se nas suas mãos, confiante e segura (...faça-se), que Maria se constituiu em espaço aberto e propício à incarnação do Filho de Deus, daquele que, “Príncipe da Paz” (Is 9,5), é “a nossa Paz” (Ef 2,14) Paz que é a súmula de todos os bens – shalom – que Deus prometera ao seu povo na demanda da Terra Prometida, terra de liberdade e bem estar, terra onde corre leite e mel, terra da paz (Nm 6,22- 27)


2 – Mas Maria é ainda, e como dissemos, promotora da concórdia entre os homens. Ela indica o caminho para uma vida harmónica perfeitamente integrada na teia das diversificadas relações humanas.

Primeiro passo desse caminho é entregar-se a Deus. Confiar-lhe a vida. As necessidades, os problemas e as dificuldades. Os sonhos e os projectos. Entregar-se à sua misericórdia e ao seu perdão.

Ela mesma, colocando-se a nosso lado, sentindo-nos, leva tudo isto a Seu Divino Filho. Entrega-o à eficácia do seu amor. “Eles não têm vinho...” (Jo 2,3)

O segundo passo, simultâneo com o primeiro, é ouvir e conformar a vida com a Palavra. Responder, vivendo, às exigências e interpelações dessa Palavra que se fez carne, Jesus Cristo. “Fazei o que Ele vos disser...” (Jo 2,5)

É este o caminho da paz que ela nos apresenta e quer percorrer connosco. Paz que é portanto , e ao mesmo tempo, dom de Deus que nos ouve, e conquista do homem fiel a Jesus, que é a sua verdade.


3 – “A Pessoa Humana, Coração da Paz” (PHCP) é o tema que o Santo Padre escolheu para a sua mensagem neste primeiro dia de 2007, inspirado, como ele diz, nas crianças “que, na sua inocência enriquecem a humanidade de bondade e beleza e com o seu sofrimento a todos nos animam a sermos obreiros da justiça e da paz” (PHCP nº1)

“Coração da paz” a pessoa humana há-de entender-se, pois, como instância ou referência de dinamismos de sã convivência, de fraternidade, de diálogo, de paz. Instância ou referência capaz de transformar e purificar as relações entre os homens, tantas vezes viciadas.

Coração da paz, também ela, a pessoa humana, necessitada de paz para ser e se desenvolver, para crescer na resposta à verdade de si mesma, na resposta à Palavra Criadora e Redentora.


4 – O homem não foi criado para viver sozinho. “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18) Porque só, não é. Não se encontra. Não toma consciência de si mesmo. Criado à semelhança de Deus, o homem, a pessoa humana é com. É na pluralidade. É na pluralidade que se constrói, que se desenvolve, que actualiza as suas potencialidades. Não se dilui, a pessoa, antes é com os outros que conquista a sua singularidade, a sua identidade. Que conquista, diria mesmo, a sua autonomia. E vive a sua dignidade.

O ser do homem é um ser de-com-para. Vive com os outros dos outros e para os outros. Em termos mais concretos diríamos que o homem vive dando e recebendo, ensinando e aprendendo, perdoando e aceitando o perdão, servindo e aceitando ser servido, mandando e obedecendo. De maneira abrangente diríamos, vive no, do e para o Amor[2]. O amor ao outro e o amor do outro. Em Deus.[3] Respeitar-se nesta verdade é entrar a percorrer os caminhos da paz.


5 – Chamado a vivê-lo, na natural dependência do seu Criador, o homem não foi capaz. Quis ser igual Àquele de quem era imagem e semelhança. Quis ser igual a Deus – um deus, falso, de resto, um ídolo – porque também Deus, o verdadeiro, é para (o Pai) de (o Filho) e com (o Espírito Santo), relação pura, na insondabilidade do seu Mistério.

Falseou a ideia de Deus, adulterou-se ou adulterou a sua verdade de criatura, perturbou a ordem cósmica. Também a criação ficou à espera da sua libertação (cf Rm 8,22). A terra produzirá, mas com suor e dor. Perturbou a ordem entre os humanos. A solidariedade conjugal feriu-se – “foi ela”. A bom entendimento entre os irmãos e as classes (lavradores e pastores) – Abel e Caim – deu lugar à luta e à violência. O próprio homem desequilibrou-se interiormente. Se antes não havia problema, depois teve de se cobrir (cf Gn 3). Foi-se a ordem. A tranquilidade. A paz.


6 – Obra de um Deus que é paz, e tem a paz como característica do seu agir (cf PHCP n.º 3), a criação foi pois profundamente perturbada na sua harmonia. O homem pode perturbar e perturbou, e perturba, muitas vezes o projecto do criador, mas não o anula.

E Deus não o abandonou ao seu devaneio. Prometeu a paz. E ela veio. E ela nasceu. Jesus de Nazaré. N’Ele Deus dá-se todo até à morte, para conquistar o homem que Lhe fugiu, para o seu amor e para o amor dos irmãos (cf Jo 12,32). Redimiu o homem, o tempo e o universo. Restaurou o homem reconduzindo-o a verdade de si mesmo. À possibilidade de si. À possibilidade da paz. Deu ao tempo dimensão eterna. E fez da história, da vida do homem nas suas relações, teatro e caminho para o encontro com Ele.

Ficou aberto o caminho da paz.


7 – Compete ao homem percorrê-lo. Aí está o dom. Ao homem o conquistá-lo. E o homem, se podemos dizer assim, está apetrechado para isso.

Tem inscrita no mais profundo de si, “uma gramática” transcendente de paz, “isto é, um conjunto de regras de acção individual e de recíproco relacionamento entre pessoas de acordo com a justiça e a solidariedade” (PHCP n.º 3). Como recordava já João Paulo II, nós não podemos esquecer ou “perder a convicção que os dinamismos constitutivos do homem, o reconhecimento da sua verdadeira natureza, levam o homem ao encontro, ao respeito mútuo, à fraternidade com os outros, à paz” .[4]


8 – A partir daqui, na fidelidade a si mesmo, está o homem preparado para uma “ecologia de paz” que resultará, como diz Sua Santidade, da harmonia e correlação entre uma “ecologia natural” e uma “ecologia humana, social” (PHCP n.º8).

De facto, ainda segundo o pensamento de Bento XVI, se o mundo foi doado ao homem para que ele o domine e o coloque ao serviço de si mesmo de acordo com o projecto do criador, também o homem é doação de Deus ao mesmo homem. Também, por isso, merece e exige o cuidado do homem. Respeitá-lo na sua vida, criar-lhe condições de desenvolvimento, abrir-lhe caminhos de realização equilibrada nos diversos âmbitos, nomeadamente, da educação, da saúde e do trabalho, é pois tarefa, obrigação e dever do homem. E seu direito.


9 – Mas nem aqui o homem está entregue a si mesmo. Ele é fraco[5]. É débil. É capaz de se desviar dos caminhos que lhe estão inscritos no coração. Deus, vem em sua ajuda. Enviou-lhe o Seu Espírito, Espírito que Jesus lhe mereceu. Espírito que é luz. Que é inteligência. Que é força. Que é Amor derramado nos nossos corações (cf Rm 5.5). Que é fonte de paz e de liberdade (cf Rm 8,15; Gl 4,6).


10 – Quer dizer, o homem é capaz de paz. A paz é possível. E temos muitos sinais, neste nosso mundo e nesta nossa história.


11 – Quantos missionários e missionárias vão por esse mundo fora, até ao dom total de si mesmos, no serviço daqueles a quem o Senhor os chama. Quantos homens e mulheres, adultos e jovens, deixam os seu lares as suas famílias para irem por aí fora pôr as suas capacidades e habilitações ao serviço dos mais desprotegidos. Quantos pais e mães se entregam até ao fim pela vida de seus filhos, desde a sua geração. Não é isto levar a sério o ser e viver com, o ser e viver para? Não há tanta solidariedade entre povos e nações? Não há tantas tentativas de diálogo?

Não há tanto amor nas nossas famílias. Em tantas casas onde crianças e idosos se recolhem ao cuidado de voluntários e voluntárias que por eles dão o seu tempo, o seu saber e o seu carinho? Não é isto levar a sério o ser e viver de, o ser e viver com, o ser e viver para? Não é isto corresponder à verdade da pessoa humana, coração da paz. E mais...e mais...

Há tanto amor! É a grande experiência de paz, o amor. Que nos torna ávidos dela, que nos faz seus promotores.


12 – Mas há também sombras. O homem é pobre. É pecador. Referindo de modo particular os direitos à vida e à liberdade religiosa, tantas vezes desrespeitados e esquecidos, o Santo Padre lembra as “vítimas de conflitos armados, do terrorismo, e das mais diversas formas de violência, das mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas investigações sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz? – Interroga-se Bento XVI –. O aborto e as pesquisas sobre embriões, continua, constituem a negação directa da atitude de acolhimento do outro que é indispensável para se estabelecerem relações de paz estáveis” (PHCP n.º 5) Também aí o homem se nega a ser de com e para. Se nega na sua verdade, para ser só. É o desrespeito por si mesmo. O negar-se. É a violência.


13 – Depois vamos assistindo neste nosso mundo, a uma tentativa mais ou menos generalizada de esconder Cristo. De o retirar da visibilidade dos homens. Será que Ele mete medo a alguém? Será que há homens que têm medo dele? Desse homem que passou pela terra a fazer o bem? Que nasceu na categoria dos excluídos – não havia lugar para ele (Lc 2,7) – e morreu naquela cruz, sem oferecer qualquer espécie de resistência!? Nessa cruz que querem esconder.

Não é nova a tentativa. Mas, como então, não será possível, nem agora. Acreditamos. Acreditamos mas sofremos com isto. E sofremos por e com aqueles que o pretendem. Quiseram calá-lo. Reduzi-lo ao silêncio. Teceram-lhe toda a espécie de ratoeiras. Resistiu. Mataram-no. Era a solução. Enterrou-se. Acabou. Não incomoda mais.

Foi. Mas ele ressuscitou. Está vivo e para sempre. Está entre nós como prometeu, de muitas e variadas maneiras. E continua a incomodar, é claro. Porque Ele é a voz da fidelidade inteira à verdade de si mesmo, à missão que assumiu na sociedade do tempo. Porque Ele é a voz da verdade. Porque Ele é a voz do amor. Porque Ele é a voz da liberdade. E perturba, naturalmente. Porque nos acusa a nós mesmos. Dói mas é para curar. É para salvar. É porque nos quer bem. Por amor. Porque nos quer todos na paz para que fomos criados. À volta do Pai comum. “Ele é a nossa paz”,

Não temos que ter medo de Jesus.


14 – É este o nosso mundo. É neste mundo que vivemos. É aqui que havemos de ser construtores da Paz. Bem-aventurados os pacíficos. Na resposta a este compromisso, a esta tarefa e missão, que é de todos, o homem, o homem de paz, sabe e aprende de Cristo que não deve calar os seus atropelos e desvios, que deve chamar-lhes pelo nome, denunciá-los, lutar pela sua remoção. Mas sabe, e também de seu Mestre, que não é com violências ou sentimentos de vingança que o consegue. Antes com mansidão e humildade, à imagem do seu Jesus (cf Mt 11,29), com sentimentos de misericórdia.

De facto não é com violência, seja de que natureza for, que se combate a violência. É em paz é com gestos de paz, que havemos de construir a paz.


15 – Que a todos vós o Senhor Jesus vos conceda um Ano Novo feliz e santo, na sua Paz.


16 – Termino com a oração de Sua Santidade “Seja Maria, Mãe de Deus, a mostrar-nos no seu Filho o caminho da paz, e ilumine os nossos olhos para que saibamos reconhecer o seu Rosto, no rosto de cada pessoa humana, coração da paz” (PHCP n.º 17)


Janeiro, 01.2007.

+ António Taipa

Bispo Auxiliar do Porto


Bibliografia

IGREJA CATÓLICA. Papa, 2005-...(Bento XVI) – A Pessoa Humana Coração da Paz (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 22007)


IGREJA CATÓLICA. Papa,1958-1963 (João XXIII) – Pacem in terris (Encíclica 11.4.1963)


IGREJA CATÓLICA. Papa, 1978-2005 (João Paulo II) – A verdade, força da paz (Mensagem para o dia Mundial da Paz, 1980)


IGREJA CATÓLICA. Papa, 1978-2005 (João Paulo II) – A Fé e a Razão (Encíclica 14.09.1998)


IGREJA CATÓLICA. Papa, 1978-2005 (João Paulo II ) – O Esplendor da Verdade (Encíclica, 6.8.1993)


RATZINGER, Joseph, Deus e o Mundo, a Fé cristã explicada por Bento XVI. Entrevista com Peter Seewold, Coimbra, Tenacitas , 2006


RATZINGER, Joseph, Fé Verdade Tolerância, O Cristianismo e as grandes religiões do mundo, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2006


IGREJA CATÓLICA, Concilio Vaticano II. 1962-1965, Const. Pas, Gaudium et Spes


[1] IGREJA CATÓLICA. Papa, 2005-.. (Bento XVI), Homilia I Vésperas, 1º Dom. do Advento. 2006


[2] IGREJA CATÓLICA. Papa, 1978-2005 (João Paulo II) – Fé e Razão (Encíclica 14.09.1998) n.º 32


[3] RATZINGER, Joseph, Fé Verdade Tolerância, O cristianismo e as grandes religiões do mundo, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2006, p. 2009 ss


[4] IGREJA CATÓLICA, Papa. 1958-2005 (João Paulo II), A Verdade força da Paz, (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1980 ) n.º4


[5] IGREJA CATÓLICA, Concílio Vaticano II, 1962-1965 – Const. Past. Gaudium et Spes, n.º 78


Documentos | D. António Taipa| 01/01/2007 | 12:03 | 13248 Caracteres | 6 | Dia Mundial da Paz

Fonte: Agência Ecclesia

Bento XVI: Mensagem para o Dia Mundial da Paz

Mensagem para o Dia Mundial da Paz

A pessoa humana, coração da paz

Mensagem de Bento XVI para a celebração do Dia Mundial da Paz 2007


1. No início do ano novo, desejo fazer chegar aos Governantes e aos Responsáveis das Nações, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade os meus votos de paz. Envio-os, de modo particular, a quantos se encontram na tribulação e no sofrimento, a quem vive ameaçado pela violência e pela constrição das armas ou, espezinhado na sua dignidade, aguarda o próprio resgate humano e social. Envio-os às crianças que, com a sua inocência, enriquecem a humanidade de bondade e de esperança e, com o seu sofrimento, a todos nos animam a sermos obreiros de justiça e de paz. Pensando precisamente nas crianças, especialmente naquelas cujo futuro está comprometido pela exploração e pela maldade de adultos sem escrúpulos, quis que, por ocasião do Dia Mundial da Paz, a atenção se concentrasse sobre o tema: Pessoa humana, coração da paz. De facto, estou convencido de que respeitando a pessoa promove-se a paz e, construindo a paz, assentam-se as premissas para um autêntico humanismo integral. É assim que se prepara um futuro sereno para as novas gerações.


A pessoa humana e a paz: dom e missão

2. A Sagrada Escritura afirma: « Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher » (Gn 1,27). Por ter sido criado à imagem de Deus, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa; não é só alguma coisa, mas alguém, capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e de entrar em comunhão com outras pessoas. Ao mesmo tempo, ele é chamado, pela graça, a uma aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que mais ninguém pode dar em seu lugar.(1) Nesta admirável perspectiva, compreende-se a missão confiada ao ser humano de amadurecer pessoalmente na capacidade de amar e de fazer progredir o mundo, renovando-o na justiça e na paz. Numa síntese eficaz Santo Agostinho ensina: « Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós ».(2) É, pois, um dever de todos os seres humanos cultivar a consciência do duplo aspecto de dom e de missão.


3. Do mesmo modo a paz é simultaneamente um dom e uma missão. Se é verdade que a paz entre os indivíduos e os povos — a capacidade de viverem uns ao lado dos outros tecendo relações de justiça e de solidariedade — representa um compromisso que não conhece pausa, é também verdade, antes é-o mais ainda, que a paz é dom de Deus. A paz é, com efeito, uma característica da acção divina, que se manifesta tanto na criação de um universo ordenado e harmonioso como também na redenção da história humana necessitada de ser recuperada da desordem do pecado. Criação e redenção oferecem, portanto, a chave de leitura que introduz na compreensão do sentido da nossa existência sobre a terra. O meu venerado predecessor João Paulo II, dirigindo-se à Assembléia Geral das Nações Unidas no dia 5 de Outubro de 1995, teve a ocasião de dizer que nós « não vivemos num mundo irracional ou sem sentido, mas [...] existe uma lógica moral que ilumina a existência humana e torna possível o diálogo entre os homens e os povos ».(3) A “gramática” transcendente, ou seja, o conjunto de regras da acção individual e do recíproco relacionamento entre as pessoas de acordo com a justiça e a solidariedade, está inscrita nas consciências, nas quais se reflecte o sábio projecto de Deus. Como recentemente quis reafirmar, « nós cremos que na origem está o Verbo eterno, a Razão e não a Irracionalidade ».(4) A paz é, portanto, também uma tarefa que compromete cada indivíduo a uma resposta pessoal coerente com o plano divino. O critério que deve inspirar esta resposta não pode ser senão o respeito pela “gramática” escrita no coração do homem pelo seu divino Criador.


Nesta perspectiva, as normas do direito natural não hão-de ser consideradas como directrizes que se impõem a partir de fora, como se coarctassem a liberdade do homem. Pelo contrário, devem ser acolhidas como uma chamada a realizar fielmente o projecto universal divino inscrito na natureza do ser humano. Guiados por tais normas, os povos — no âmbito das respectivas culturas — podem aproximar-se assim do maior mistério, que é o mistério de Deus. Por isso, o reconhecimento e o respeito pela lei natural constituem também hoje a grande base para o diálogo entre os crentes das diversas religiões e entre estes e os não crentes. É este um grande ponto de encontro e, portanto, um pressuposto fundamental para uma autêntica paz.


O direito à vida e à liberdade religiosa

4. O dever de respeitar a dignidade de cada ser humano, em cuja natureza se reflecte a imagem do Criador, tem como consequência que não se possa dispor da pessoa arbitrariamente. Quem detém maior poder político, tecnológico, económico, não pode aproveitar disso para violar os direitos dos outros menos favorecidos. De facto, é sobre o respeito dos direitos de todos que se baseia a paz. Ciente disso, a Igreja faz-se paladina dos direitos fundamentais de cada pessoa. De modo particular, ela reivindica o respeito da vida e da liberdade religiosa de cada um. O respeito do direito à vida em todas as suas fases estabelece um ponto firme de importância decisiva: a vida é um dom de que o sujeito não tem completa disponibilidade. Igualmente, a afirmação do direito à liberdade religiosa põe o ser humano em relação com um Princípio transcendente que o furta ao arbítrio do homem. O direito à vida e à livre expressão da própria fé em Deus não está nas mãos do homem. A paz necessita que se estabeleça uma clara fronteira entre o que é disponível e o que não o é: assim se evitarão intromissões inaceitáveis naquele património de valores que é próprio do homem enquanto tal.


5. Quanto ao direito à vida, cabe denunciar o destroço de que é objecto na nossa sociedade: junto às vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz? O aborto e as pesquisas sobre os embriões constituem a negação directa da atitude de acolhimento do outro que é indispensável para se estabelecerem relações de paz estáveis. Mais: no que diz respeito à livre manifestação da própria fé, outro sintoma preocupante de ausência de paz no mundo é representado pelas dificuldades que frequentemente tanto os cristãos como os adeptos de outras religiões encontram para professar pública e livremente as próprias convicções religiosas. No caso particular dos cristãos, devo ressaltar com tristeza que por vezes não se limitam a criar-lhes impedimentos; em alguns Estados são mesmo perseguidos, tendo-se registado ainda recentemente episódios de atroz violência. Existem regimes que impõem a todos uma única religião, enquanto regimes indiferentes alimentam, não uma perseguição violenta, mas um sistemático desprezo cultural quanto às crenças religiosas. Em todo o caso, não se respeita um direito humano fundamental, com graves repercussões sobre a convivência pacífica, o que não deixa de promover uma mentalidade e uma cultura negativas para a paz.


A igualdade de natureza de todas as pessoas

6. Na raiz de não poucas tensões que ameaçam a paz, estão certamente as inúmeras injustas desigualdades ainda tragicamente presentes no mundo. De entre elas são, por um lado, particularmente insidiosas as desigualdades no acesso a bens essenciais, como a comida, a água, a casa, a saúde; e, por outro lado, as contínuas desigualdades entre homem e mulher no exercício dos direitos humanos fundamentais.


Constitui um elemento de primária importância para a construção da paz o reconhecimento da igualdade essencial entre as pessoas humanas, que brota da sua transcendente dignidade comum. A igualdade a este nível é, pois, um bem de todos inscrito naquela “gramática” natural que se deduz do projecto divino da criação; um bem que não pode ser descurado ou desprezado sem provocar pesadas repercussões que põem em risco a paz. As gravíssimas carências de que sofrem muitas populações, especialmente no Continente africano, estão na origem de violentas reivindicações e constituem assim um tremendo golpe infligido à paz.


7. A mesma insuficiente consideração pela condição feminina introduz factores de instabilidade no ordenamento social. Penso na exploração de mulheres tratadas como objectos e nas numerosas formas de falta de respeito pela sua dignidade; penso também — num contexto distinto — nas visões antropológicas persistentes em algumas culturas, que reservam à mulher uma posição ainda fortemente sujeita ao arbítrio do homem, com consequências lesivas da sua dignidade de pessoa e para o exercício das próprias liberdades fundamentais. Não devemos iludir-nos de que a paz esteja assegurada enquanto não forem superadas também estas formas de discriminação, que lesionam a dignidade pessoal, inscrita pelo Criador em cada ser humano.(5)


A «ecologia da paz»

8. Na Carta Encíclica Centesimus annus escreve João Paulo II: « Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a intenção originária de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem é doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral, de que foi dotado ».(6) É respondendo a esta incumbência, que lhe foi confiada pelo Criador, que o homem, juntamente com seus semelhantes, pode dar vida a um mundo de paz. Assim, ao lado da ecologia da natureza existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. E isto requer que a humanidade, se tem a peito a paz, tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana. A experiência demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente provoca danos à convivência humana, e vice-versa. Surge assim com mais evidência um nexo incindível entre a paz com a criação e a paz entre os homens. Uma e outra pressupõem a paz com Deus. A poesia-oração de S. Francisco, conhecida também como « Canção do Irmão Sol », constitui um admirável exemplo — sempre actual — desta variegada ecologia da paz.


9. Quão seja estreito este nexo entre uma e outra ecologia ajuda-nos a compreender o problema, cada dia mais grave, do abastecimento energético. Nestes anos, novas Nações entraram decididamente no sector da produção industrial, aumentando as necessidades energéticas. Isto está a provocar uma corrida sem precedentes aos recursos disponíveis. Entretanto, persistem ainda em algumas regiões do planeta situações de grande atraso, onde o desenvolvimento está praticamente bloqueado devido também ao aumento dos preços da energia. Que acontecerá àquelas populações? Que tipo de desenvolvimento ou de não-desenvolvimento lhes será imposto pela escassez de reabastecimento energético? Que injustiças e antagonismos provocará a corrida às fontes de energia? E como reagirão os excluídos desta corrida? Estas perguntas põem em evidência quanto o respeito pela natureza esteja intimamente ligado à necessidade de tecer entre os homens e entre as Nações relações respeitadoras da dignidade da pessoa e capazes de satisfazer as suas autênticas necessidades. A destruição do ambiente, um uso impróprio ou egoísta do mesmo e a apropriação violenta dos recursos da terra geram lacerações, conflitos e guerras, precisamente porque são fruto de um conceito desumano de desenvolvimento. Com efeito, um desenvolvimento que se limitasse ao aspecto técnico-económico, descurando a dimensão moral-religiosa, não seria um desenvolvimento humano integral e terminaria, ao ser unilateral, por incentivar as capacidades destruidoras do homem.


Visões redutoras do homem

10. É urgente, portanto, mesmo no quadro das actuais dificuldades e tensões internacionais, empenhar-se em dar vida a uma ecologia humana que favoreça o crescimento da “árvore da paz”. Para tentar semelhante empresa é necessário deixar-se guiar por uma visão da pessoa não viciada por preconceitos ideológicos e culturais ou por interesses políticos e económicos, que incitem ao ódio e à violência. É compreensível que as visões do homem variem nas distintas culturas. Mas o que não se pode admitir é que sejam cultivadas concepções antropológicas que contenham nelas mesmas o germe da contraposição e da violência. São igualmente inaceitáveis concepções de Deus que estimulem o descaso para com os próprios semelhantes e o recurso à violência contra eles. Trata-se de um dado em que se deve insistir com clareza: uma guerra em nome de Deus jamais é aceitável. Quando uma certa concepção de Deus está na origem de factos criminosos, é sinal de que tal concepção já se transformou em ideologia.


11. Hoje, porém, a paz não é posta em discussão só pelo conflito entre as visões redutoras do homem, ou seja entre as ideologias. É-o também pela indiferença face àquilo que constitui a verdadeira natureza do homem. Muitos contemporâneos negam, com efeito, a existência de uma específica natureza humana, tornando assim possível as interpretações mais extravagantes dos constitutivos essenciais do ser humano. Também aqui faz falta a clareza: uma visão “débil” da pessoa, que deixe espaço a qualquer concepção excêntrica, só aparentemente favorece a paz. Na verdade, impede o diálogo autêntico e abre o caminho à intervenção de imposições autoritárias, terminando assim por deixar a própria pessoa indefesa e, consequentemente, presa fácil da opressão e da violência.


Direitos humanos e Organizações internacionais

12. Uma paz verdadeira e estável pressupõe o respeito dos direitos do homem. Mas se estes direitos se baseiam numa concepção débil da pessoa, como não hão-de ficar também eles enfraquecidos? Daqui se vê claramente a profunda insuficiência de uma concepção relativista da pessoa, quando se trata de justificar e defender os seus direitos. A aporia neste caso é patente: os direitos são propostos como absolutos, mas o fundamento aduzido para eles é apenas relativo. Causará surpresa se, diante das exigências “incómodas” postas por um direito ou outro, aparecer alguém a contestá-lo ou decidir ignorá-lo? Somente radicados em instâncias objectivas da natureza dada ao homem pelo Criador, é que os direitos a ele atribuídos podem ser afirmados sem medo de contestação. De resto, é evidente que os direitos do homem, por sua vez, implicam deveres. Bem o afirmava a propósito mahatma Gandi: « O Gange dos direitos desce do Himalaia dos deveres » Somente deixando claro este pressuposto de base é que os direitos humanos, hoje sujeitos a contínuos ataques, podem ser adequadamente defendidos. Sem esta clareza, acaba-se por utilizar a mesma expressão, precisamente ‘direitos humanos', mas subentendendo sujeitos bem distintos entre si: para uns, a pessoa humana dotada de dignidade permanente e de direitos sempre válidos, em toda a parte e para todos; para outros, uma pessoa de dignidade mutável e de direitos sempre negociáveis nos conteúdos, no tempo e no espaço.


13. À tutela dos direitos humanos fazem constante referência os Organismos internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas que, com a Declaração Universal de 1948, se propôs, como missão fundamental, promover os direitos do homem. Tal Declaração é vista como uma espécie de compromisso moral assumido por toda a humanidade. Isto encerra uma verdade profunda, sobretudo se os direitos humanos descritos na Declaração são considerados como detentores de fundamento não simplesmente na decisão da assembleia que os aprovou, mas na mesma natureza do homem e na sua inalienável dignidade de pessoa criada por Deus. É, portanto, importante que os Organismos internacionais não percam de vista o fundamento natural dos direitos do homem. Isto preservá-los-á do risco, infelizmente sempre latente, de resvalar para uma interpretação meramente positivista. Se isso acontecesse, os Organismos internacionais terminariam carecendo da autoridade necessária para desempenhar o papel de defensores dos direitos fundamentais da pessoa e dos povos, motivo principal da sua mesma existência e actividade.


Direito internacional humanitário e direito interno dos Estados

14. A partir da consciência de que existem direitos humanos inalienáveis ligados com a natureza comum dos homens, foi elaborado um direito internacional humanitário, a cuja observância os Estados se comprometem mesmo em caso de guerra. Isto infelizmente não encontrou coerente actuação, prescindindo do passado, em algumas situações de guerra acontecidas recentemente. Foi o que se deu, por exemplo, no conflito que há alguns meses, teve por cenário o sul do Líbano, quando a obrigação de proteger e ajudar as vítimas inocentes e de não envolver a população civil foi em grande parte desatendida. O doloroso episódio do Líbano e a nova configuração dos conflitos, sobretudo desde que a ameaça terrorista pôs em prática inéditas modalidades de violência, requerem que a comunidade internacional reafirme o direito internacional humanitário e o aplique a todas as situações actuais de conflito armado, incluindo as não previstas pelo direito internacional em vigor. Além disso, a praga do terrorismo postula uma reflexão aprofundada sobre os limites éticos que são inerentes ao uso dos instrumentos actuais de tutela da segurança nacional. Com frequência sempre maior, com efeito, os conflitos não são declarados, sobretudo quando os provocam grupos terroristas decididos a alcançar por qualquer meio os seus fins. Face aos desconcertantes cenários destes últimos anos, os Estados não podem deixar de sentir a necessidade de dotar-se de regras mais claras, capazes de contrastar eficazmente o extravio dramático que estamos assistindo. A guerra representa sempre um insucesso para a comunidade internacional e uma grave perda de humanidade. Mas quando, apesar de tudo, ela acontece, convém pelo menos salvaguardar os princípios essenciais de humanidade e os valores básicos de toda a convivência civil, estabelecendo normas de comportamento que limitem ao máximo os seus danos e procurem aliviar os sofrimentos dos civis e de todas as vítimas dos conflitos.(7)


15. Outro elemento causador de grande inquietação é a vontade, manifestada recentemente por alguns Estados, de possuírem armas nucleares. Isto fez com que se acentuassem ainda mais o generalizado clima de incerteza e de medo por uma possível catástrofe atómica. O que faz retornar à lembrança o passado, aquelas ânsias desgastantes do período da assim chamada “guerra fria”. Desde então esperava-se que o perigo atómico estivesse definitivamente afastado e que o suspiro de alívio dado pela humanidade pudesse finalmente durar. Como se revela actual, a este respeito, a admoestação do Concílio Ecuménico Vaticano II: « Toda a acção bélica que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação ».(8) Infelizmente sombras ameaçadoras continuam adensando-se no horizonte da humanidade. O caminho para garantir um futuro de paz para todos é constituído não somente por acordos internacionais que visem a não proliferação das armas nucleares, mas também pelo esforço de procurar com determinação a sua diminuição e definitiva abolição. Não se poupem esforços para se chegar, pela negociação, a alcançar, tais finalidades! Está em jogo o destino de toda a família humana!


A Igreja em defesa da transcendência da pessoa humana

16. Desejo, enfim, dirigir um premente apelo ao Povo de Deus, a fim de que cada cristão sinta-se comprometido a ser incansável promotor de paz e acérrimo defensor da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos inalienáveis. Agradecido ao Senhor por tê-lo chamado a pertencer à sua Igreja — que, no mundo, é « sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana »,(9) o cristão não se cansará de Lhe implorar o bem fundamental da paz, que tanta importância tem na vida de cada um. Além disso, ele sentirá o orgulho de servir com generosa dedicação a causa da paz, indo ao encontro dos irmãos, especialmente daqueles que, além de sofrer pobreza e privações, estão também privados deste precioso bem. Jesus revelou-nos que « Deus é amor » (1 Jo 4,8) e que a vocação maior de cada pessoa é o amor. Em Cristo, podemos encontrar as supremas razões para nos tornarmos paladinos seguros da dignidade humana e corajosos construtores de paz.


17. Portanto, jamais deixe de faltar a colaboração de cada crente para a promoção de um verdadeiro humanismo integral, conforme os ensinamentos das Cartas Encíclicas Populorum progressio e Sollicitudo rei socialis, das quais nos preparamos para celebrar precisamente este ano o 40o e o 20o aniversário. À Rainha da Paz, Mãe de Jesus Cristo “nossa paz” (Ef 2,14), confio a minha instante súplica por toda a humanidade no início do ano de 2007, que vislumbramos — mesmo entre perigos e problemas — com o coração cheio de esperança. Seja Maria a mostrar-nos no seu Filho o Caminho da paz, e ilumine os nossos olhos, para que saibamos reconhecer o seu Rosto no rosto de cada pessoa humana, coração da paz!


Vaticano, 8 de Dezembro de 2006.


BENEDICTUS PP. XVI


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(1) Cf. Catecismo da Igreja Católica, 357.

(2) Sermão 169, 11,13: PL 38,923.

(3) N. 3.

(4) Homilia no Islinger Feld de Regensburg (12 de Setembro de 2006).

(5) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo (31 de Maio de 2004), nn. 15-16.

(6) N. 38.

(7) A este respeito, o Catecismo da Igreja Católica estabeleceu critérios muitos severos e precisos: cf. nn. 2307-2317.

(8) Const. past. Gaudium et spes, 80.

(9) Conc. Ecum. Vat. II, Ib., 76.


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Fonte: Agência Ecclesia