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novembro 29, 2006

Agência Ecclesia - Cultura da Vida: Maternidade em Exposição

Cultura da vida: maternidade em exposição

Ir ao restaurante do Palácio da Independência, em Lisboa, não significa procurar uma simples refeição. Neste espaço, e até ao dia 30, o palato associa-se à visão e a partir daqui o cliente é convidado a deixar-se levar pelo mundo da “Maternidade”.
Várias peças de escultura e pintura de vários artistas portugueses, que se associaram a esta exposição e a esta causa, porque os fundos revertem a favor das instituições “Ponto de Apoio à Vida”, “Ajuda de Mãe” e ADAV (Associação de Defesa e Apoio da Vida).

“Não tenhas medo”, “O berço”, “Mãe e filhos” “A protegida”, “A grávida” são títulos de algumas obras e representam uma realidade para muitas mulheres nem sempre protegidas ou convenientemente acompanhadas.


“A origem deste projecto está na cultura da vida e na arte do bem fazer” esclarece à Agência ECCLESIA Sofia Guedes, que através do grupo Sinais de Vida, promove esta exposição. “A arte é também uma cultura à vida através da estética e do belo e esta é uma maneira de contemplar, falar e apoiar a maternidade” refere. Todas as peças são de artistas portugueses que desenvolveram trabalho nesta área e que “ofereceram para esta causa”.

Numa altura em que o tema do aborto está em cima da mesa consideram que “cada vez mais é importante falar no trabalho que várias instituições fazem no apoio às mulheres”.


José Abecassis, como responsável pelo restaurante explica que “o tema atraiu-me logo assim como o facto de podermos ajudar algumas associações”. As pessoas vêem com agrado a exposição e “circulam pelo restaurante” facto pouco habitual nos estabelecimentos. Os clientes “compram de facto as peças o que é muito positivo” sublinha José Abecassis e manifestam curiosidade “especialmente em relação ao tema que não esperavam e que consideram estar muito bem conseguido”.


Nas duas salas que ocupam a exposição podem encontrar-se peças para todos os gostos, sempre alusivos à maternidade: o corpo da mulher grávida, crianças fotografadas, pinturas infantis ou mãos pequenas que procuram junto de mãos maiores a protecção da maternidade.


Joana Tinoco de Faria é psicóloga no Ponto de Apoio à Vítima, uma das instituições beneficiárias da exposição. “É principalmente uma promoção à cultura da vida” explica à Agência ECCLESIA, sendo a arte uma delas. Mais do que ajudar em termos financeiros é importante “falar da vida de uma forma menos convencional” normalmente através de debates, mas onde as obras falam por si.


Desengravidar

Da sua experiência de um ano e meio ao serviço do Ponto de Apoio à Vida o crucial é “acolher as mulheres e ao seu sofrimento” fazendo caminho com elas “e não por elas” sublinha. Porque as mulheres que procuram a associação são pessoas que “lidam com gravidezes indesejadas e não planeadas” e que interferem no projecto que tinham estabelecido para as suas vidas “e isso causa sofrimento interior”. É um processo que demora tempo e não se mede, “porque lidamos com factores humanos” explica a psicóloga, sublinhando que não se consegue ajudar se “elas próprias não quiserem”. A procura da associação dá-se muitas vezes porque as mulheres “como elas mesmo afirmam querem desengravidar”.


Ao invés, a associação propõe um caminho que quem não tem condições sociais, financeiros e emocionais “e por isso tentamos ajudar, propondo objectivos diferentes”, porque como afirma “a mulher sente-se pressionada pelas próprias circunstâncias e o aborto acaba por não ser uma escola”. Dos casos que acompanha constata que ao aborto trás muito sofrimento a longo prazo “porque uma mulher que aborta não tem noção imediata do que está a fazer e a palavra desengravidar é bastante elucidativa da forma como inicialmente se lida com a gravidez indesejada” esclarece. Mas uma gravidez indesejada e negada psicologicamente torna-se numa gravidez muito desejada e num bebé muito desejado e a partir daí “tudo se torna mais fácil”.


Nacional | Lígia Silveira| 29/11/2006 | 16:16 | 3890 Caracteres | 73| Aborto

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novembro 28, 2006

Agência Ecclesia: Papa pronto para viagem de risco

Reprodução autorizada pela Agência Ecclesia

Link: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=39755

Bento XVI decidiu assumir o risco e promover uma viagem apostólica à Turquia, visita que entrará certamente para a história deste pontificado. À margem da polémica gerada pelas manifestações de protesto de nacionalistas e radicais islâmicos – que nunca receberiam bem um Papa, da mesma maneira que prefeririam ver o Patriarca de Constantinopla desterrado na Grécia -, a Santa Sé preparou detalhadamente um programa que gira em volta de três eixos: o ecumenismo, o diálogo com o Islão e a situação da comunidade católica no país.
“A Turquia, que acolhe em si diversas tradições religiosas, é como uma varanda sobre o Médio Oriente, desde a qual se pode reforçar os valores do diálogo inter-religioso, da tolerância, da reciprocidade e da laicidade do Estado”, pode ler-se na apresentação da visita papal, divulgada pelo Vaticano.

Ecumenismo

Esta terceira deslocação de um Papa à Turquia, depois de Paulo VI (1967) e João Paulo II (1979), responde à prática do Patriarcado Ortodoxo de Constantinopla, já com meia centena de anos, de receber cada novo Bispo de Roma após a sua eleição, para a Festa de Santo André, a 30 de Novembro. Neste caso, a iniciativa foi de Bartolomeu I.

A aproximação ao mundo ortodoxo tem sido uma prioridade do pontificado de Bento XVI e, neste contexto, o contributo do Patriarca de Constantinopla – empenhado em promover o diálogo entre Igrejas Ortodoxas - é fundamental. Ambos irão assinar uma importante declaração comum sobre o caminho ecuménico.

Por causa desta relação, as relações entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas estão a melhorar de forma significativa. Prova disso foi o retomar, em Setembro, dos trabalhos da Comissão mista internacional para o diálogo teológico católico-ortodoxo, sobre o tema “A Teologia da comunhão”.

A nona sessão plenária da Comissão para o diálogo teológico ocorreu em Belgrado, após quase seis anos de paragem, devido a desentendimentos sobre o estatuto das Igrejas Católicas do Oriente, chamadas “uniatas” pelos Ortodoxos.

A comissão mista de diálogo entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa conheceu fortes dificuldades na última década, mas o empenho do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla permitiu o regresso aos trabalhos. Foram reorganizadas as duas Comissões de diálogo, compostas por 30 membros de cada parte, e o comité de coordenação, que é um instrumento técnico que prepara as sessões plenárias da Comissão.

No mundo ortodoxo, contudo, há discussões interna e relativas ao primado de honra da sede de Constantinopla entre as Igrejas Ortodoxas. Moscovo acusa a sede turca de lhe retirar protagonismo e impõe a um diálogo directo com a Santa Sé, tendo mesmo feito questão de anunciar, antes da viagem do Papa, que não está ainda disponível para receber Bento XVI na Rússia.

Islão

Bento XVI tem uma estratégia própria em relação ao Islão e não hesita em levantar questões desconfortáveis sobre os fundamentos religiosos e a influência política e cultural do Islamismo nos nossos dias.

Seria errado pensar a questão do diálogo com o Islão à luz da polémica gerada pelo discurso do Papa na Universidade de Regensburg (Alemanha). A citação do Imperador Bizantino não chega, nem de perto nem de longe, à problemática central: se os muçulmanos vêem a revelação do Corão como literalmente divina e imutável, como pode o Islão comprometer-se com o mundo moderno e aceitar conceitos como a democracia?

Mais do que partilhar a crença comum em Deus, o Papa quer que o diálogo enfrente temas delicados, como a relação entre violência e religião ou a ausência de reciprocidade na liberdade religiosa, de que os cristãos não gozam em muitos países de maioria muçulmana. A “estima e respeito profundo” pelo mundo islâmico, que Bento XVI várias vezes declarou, não estão em questão, até porque ele sabe que o diálogo entre as duas maiores religiões do mundo é fundamental para o futuro da humanidade.

Desafio europeu

Antes de viajar para a Turquia, o Papa recebeu no Vaticano o Presidente do Chipre que lhe levou um álbum com fotografias das igrejas destruídas na parte turca da Ilha. Esta “coincidência” ajuda a iluminar uma das principais dificuldades nesta viagem: muitos turcos consideram a aproximação à União Europeia – com a consequente resolução do problema de Chipre – como uma “traição” ao Islão.

O congelamento, total ou parcial, das negociações de adesão da Turquia à União Europeia parece, aliás, inevitável, depois do fracasso hoje das conversações da UE com Ankara sobre a abertura das fronteiras turcas a Chipre, um dos novos Estados comunitários.

A liberdade religiosa é outra das condições para a entrada da Turquia na UE, mas apesar de se assumir como um Estado laico, as minorias não encontram espaço para sobreviverem no contexto dum país em que 98 por cento das pessoas professam o Islamismo.

O clima de intolerância para com os cristãos agravou-se desde 2005, especialmente após a publicação das caricaturas de Maomé nos meios de comunicação ocidentais. Acusados de praticarem proselitismo (conversões forçadas) entre os muçulmanos, os sacerdotes católicos são alvo de agressões (são cada vez mais frequentes os casos de violência), difamação pública e temem pela sua segurança.


Internacional | Octávio Carmo| 27/11/2006 | 19:01 | 5220 Caracteres | 166| Bento XVI

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novembro 26, 2006

Agência Ecclesia - Bispo de Viseu: Vocação à Vida

Reprodução da notícia autorizada pela Agência Ecclesia

Link: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=39708

Bispo de Viseu

NOTA PASTORAL

Vocação à Vida


1. A vida emerge na forma de uma célula. É fruto de uma vocação que começa com o início da existência, anterior, na vontade do Criador, à própria consciência dos Pais biológicos, incapazes de criarem a vida e de serem seus autores. Esta célula, fruto da união de amor entre um homem e uma mulher, introduz-se no seu espaço natural, intra-uterino, mas não se dilui nem se confunde com o líquido envolvente. É preenchida pelo ADN, capaz de se reproduzir a si própria, subdividindo-se: 2 / 4 / 8 / 16 / 32… Esta célula esférica começa e aprende a conhecer o “mundo” à sua volta. É uma célula viva que “negoceia”, com o exterior, a sua própria sobrevivência. Porque tem a vocação de viver e de se multiplicar, subdivide-se sem morrer, dando origem sempre a células vivas, a constituir um organismo vivo (podem ser mais do que um – gémeos).

O ser humano procede de uma única célula. Cada um de nós já foi, um dia, uma única célula, isolada, irrepetível, habitando um meio líquido… Em 9 meses, esta única célula percorre, no tempo, o que a espécie humana percorreu em 9 milhões de anos, uma vez que a espécie humana foi sempre evoluindo ao longo destes milhões de anos. O zigoto, desde a fecundação, imediatamente desde a união do espermatozóide com o óvulo, contém toda a informação genética do ser humano que vai nascer, na história actual, precisamente no hoje do desenvolvimento civilizacional.

O ser humano começa por ser tão simples (uma única célula!) que somente se vê ao microscópio. Aqui, e com estes meios técnicos, pode fazer-se a primeira apresentação do corpo do homem. Sendo um corpo humano, tem toda a dignidade de um corpo humano… Em qualquer estádio em que se considere o seu desenvolvimento, é um corpo humano, com toda a informação genética do ser humano. Mais nada do exterior vai intervir para acrescentar, melhorar ou modificar esta realidade…

Com toda a evidência científica, nunca pode dizer-se que o “respeito” devido à pessoa humana tem a ver com o “tamanho” ou a idade do seu corpo…


2. Quanto à animação do ser humano deve dizer-se que, no momento em que está constituída a identidade genética (concepção), está constituída a alma “potencialmente”. Quer isto dizer que a “alma” existe no ser humano desde o primeiro momento da sua identidade como corpo, embora o seu exercício vá acontecer bastante mais tarde…

Qualquer lei que tenda a interromper este processo da vida é uma lei abortiva cujo resultado é a morte de um ser humano. Justificar o contrário é ir contra a ciência; é ir contra o direito à vida, defendido na Constituição da República; é reconhecer que o Estado se põe do lado do crime contra os mais frágeis da sociedade; ainda, é ir contra a tendência demográfica, que pede o aumento dos nascimentos.

Apoiar esta lei é negar aos nascituros o direito de nascer; é negar às pessoas com deficiências o direito de apoio e de vida social; é abrir precedentes para a eliminação de todos os que não são contribuintes líquidos para uma sociedade, cada vez mais intolerante e desigual.


3. A proposta de referendo prevê que a interrupção deste processo, causando a morte de um ser humano, possa ser a pedido da mulher. Pergunta-se: pode a mulher decidir do seu corpo? Sim, pode. A mulher pode sempre decidir do seu corpo, pela autonomia a que tem direito, para se realizar bem e para se valorizar, como pessoa, na totalidade do seu ‘ser corpo’ e do seu ‘ser pessoa’… Porém, na mulher grávida, existe um outro corpo: autónomo também e independente do seu corpo de mulher. O pai e a mãe são os garantes da vida deste corpo sobre o qual têm “responsabilidade”, mais do que “poder”. As decisões sobre este corpo têm que ser sempre éticas, baseadas nos valores e não na violência e na destruição…

Mas, quem concorda que a mulher seja penalizada? Ninguém quer penalizar a mulher e o Estado deve tornar-se a garantia da realização da mulher e da criança – 2 seres humanos perante os quais o Estado deve intervir em defesa da sua vida e do seu futuro. Porquê não criar condições – tornadas legítimas, conhecidas e apoiadas – para que a mulher que não queira a criança, a entregue e a doe para adopção? Porquê não criar condições para um “banco” de crianças (em vez de outros “bancos” muito mais dispendiosos – de esperma e de embriões), com as inscrições de mães (pais) que as entreguem e pais que as aceitem para adopção? Não seria este um investimento do Estado, no futuro da sociedade e no respeito igual para todos os cidadãos? Ou será a liberalização das leis eliminadoras da vida, a alternativa que o Estado tem para as violências sobre os cidadãos inocentes do nosso país?

Votar SIM no referendo é aceitar esta alternativa como a única; votar NÃO é exigir do Estado e de todos os cidadãos, a defesa justa e a protecção necessária para todos, a começar pelos mais frágeis e pelos mais inocentes.


VISEU, 23 de Novembro de 2006

Ilídio Pinto Leandro

Bispo de Viseu

Documentos | D. Ilídio Pinto Leandro| 24/11/2006 | 23:08 | 4946 Caracteres | 165| Diocese de Viseu

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novembro 25, 2006

Agência Zenit - Desafio da ciência: estar realmente ao serviço do homem

Notícia da agência de informação Zenit publicada em 24 de Novembro de 2006.

Republicação autorizada pelo editor

Código: ZP06112421

Data de publicação: 2006-11-24

Desafio da ciência: estar realmente ao serviço do homem

Entrevista ao Dr. Ventura-Juncá, da Academia Pontifícia para a Vida

MADRI, sexta-feira, 24 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- «O grande desafio da ciência e da tecnologia, hoje em dia, é que estejam ao serviço do homem respeitando sua vida e sua dignidade», alerta o doutor Patrício Ventura-Juncá del Tobar, membro do conselho diretivo da Academia Pontifícia para a Vida.

Com estas palavras sintetizou, nesta entrevista concedida à agência Zenit, o núcleo da palestra-marco que pronunciou no VIII Congresso Católico e Vida Pública (Madri, 17-19 de novembro).

«O desafio de ser homem» é o tema que centrou esta grande convocação anual, iniciativa da Associação Católica de Propagandistas e da Fundação Universitária São Paulo -- CEU.

Médico cirurgião neonatologista e professor de Bioética na Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Chile, o doutor Ventura-Juncá sublinhou a Zenit enorme importância atual de «ter muito claro quais são as bases científicas da embriologia e da genética moderna com relação ao momento em que se inicia a vida».

-A ciência está realmente, neste momento e nesta sociedade na qual vivemos, ao serviço do homem ou o homem está ao serviço da ciência?

--Dr. Ventura-Juncá: Creio que nisto há distintas posições. Creio que há um grupo de pessoas que verdadeiramente quer pôr a ciência ao serviço do homem, e os exemplos disso são muitos: o aumento da expectativa de vida é um efeito do avanço da medicina e da ciência, a diminuição da mortalidade infantil também, e os numerosos tratamentos que existem atualmente para numerosas doenças que antes eram incuráveis, as vacinas...

Contudo, um dos âmbitos de maior conflito está no início da vida: se nós reconhecemos que desde o momento da fecundação, como demonstra a genética e a embriologia moderna, temos a um ser humano, e que, como diz inclusive um evolucionista materialista como Ernst Haeckel, desde o momento da fecundação começa o desenvolvimento de um novo organismo que vai ser uma criança e um adulto, isso temos que ter presente como um elemento fundamental para respeitar todo ser humano, independentemente de sua etapa de desenvolvimento.

--Falamos da urgência de respeitar a dignidade do ser humano desde o início da vida, que parece que ser a parte que mais se discute. De quais aspectos você diria que é importante tomar consciência?

--Dr. Ventura-Juncá: Creio que o respeito à vida é um dos pilares de uma sociedade civilizada e humana. E aí temos o debate no âmbito da fertilização «in vitro»; de não congelar embriões, porque dos embriões congelados não todos sobrevivem, e têm um destino incerto; de não clonar seres humanos, porque a clonagem de seres humanos destrói todas as relações da família; de impulsionar a investigação com células tronco -- com células-tronco adultas -- e não destruir embriões para obter células-tronco embrionárias, que também neste momento têm muitas limitações, inclusive no âmbito científico -- na medicina regenerativa; de não usar anti-concepcionais «de emergência», que se tomam no período da ovulação ou posterior, e podem impedir a implantação e, portanto, produzir um aborto. Creio que esses temas que estão no centro do debate são muito importantes.

--A ciência ao serviço do homem, acha verdadeiramente que está pondo tudo de sua parte para enfrentar a situação de doentes terminais, sejam da idade que for, vistas também as disposições que se está impulsionando desde vários países, não só orientadas à eutanásia em adultos, mas também a privar a crianças da vida, inclusive os neonatos?

--Dr. Ventura-Juncá: Creio que o respeito pela vida dá um imperativo absoluto: não podemos matar nenhum ser humano intencionalmente. Mas por outro lado, é preciso entender que no final da vida, muita gente solicita a eutanásia não porque tenha uma dor incontrolável, mas porque as pessoas estão sós em uma sociedade individualista, na qual se sentem abandonados pela família, pela própria sociedade, sendo um peso para a família, um peso para a sociedade. E a experiência demonstra que o que se deve desenvolver é a medicina paliativa: esta implica não somente os controles da dor, de conforto, mas também do acompanhamento. O mal do homem moderno é a solidão e, como dizia a Madre Teresa, a pessoa não ter quem a ame.

--Dor moral e dor física, então. Mas você, como médico, pode nos confirmar que existem maneiras adequadas de paliar a dor e, digamos, de terminar a vida sem sofrimento, mas sem adiantar a morte, ou seja, morrer naturalmente, mas sem sofrimento?

--Dr. Ventura-Juncá: Isso é muito importante, e para meus alunos digo: nós, os médicos, temos como tarefa cuidar do desenvolvimento da vida, mas isso não significa prolongar a vida a qualquer custo, e é muito importante que as pessoas entendam que limitar tratamentos que não são proporcionados ou que são extraordinários não afeta uma obrigação moral, e ao contrário, é uma visão muito humana de que as pessoas podem morrer com os tratamentos comuns e rodeado, tomara, em sua casa, por seus entes queridos, de seus filhos e de seus netos.

A reprodução dos serviços de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

novembro 24, 2006

Bernardo Motta: Pio XII e o Nazismo

Artigo reproduzido do blogue Espectadores, com autorização do autor.

Autor: Bernardo Motta

Porque nasceu o mito do "Papa de Hitler"

«By the middle of 1997, I was in a state of moral shock. The material I had gathered amounted not to an exoneration but to an indictment more scandalous than Hochhuth's. The evidence was explosive. It showed for the first time that Pacelli was patently, and by the proof of his own words, anti-Jewish. It revealed that he had helped Hitler to power and at the same time undermined potential Catholic resistance in Germany. It showed that he had implicitly denied and trivialized the Holocaust, despite having reliable knowledge of its true extent. And, worse, that he was a hypocrite, for after the war he had retrospectively taken undue credit for speaking out boldly against the Nazi persecution of the Jews.» - John Cornwell

Por detrás da obra Hitler's Pope, de John Cornwell (1999) esconde-se um fenómeno cultural de grandes proporções e que se manifesta nesta e noutras muitas formas. Uma crise no seio do catolicismo, crise essa que divide uma corrente crescente e revolucionária, chamada frequentemente de "corrente liberal", de uma corrente conservadora e tradicionalista.
John Cornwell, ex-seminarista, abandonou uma possível carreira no sacerdócio em 1965 (1), tendo-se debatido deste então com a situação da Igreja Católica na modernidade, e com o rumo que ela deveria, segundo ele, tomar. Muitas das atitudes de Cornwell demonstram uma opção decidida pelas ideias ditas "liberais".
Tentemos mergulhar um pouco nestes termos polarizados: "liberal" e "conservador". São termos que provêm do mundo da política, e que, na minha opinião, são usados abusivamente quando surgem fora do seu domínio original. No presente caso, são usados no domínio da religião, um domínio no qual não deveriam ser usados. E explico porquê...
A Política regula a organização e a gestão das sociedades. Neste sentido, apesar de existir objectividade em princípios políticos quase universalmente aceites hoje em dia (como por exemplo, partindo da "Declaração Universal dos Direitos do Homem"), a aplicação destes princípios, a forma pela qual eles são instituídos, sempre foi fortemente condicionada pelo local e pelo tempo.
Cada sociedade, cada civilização, procura construir a sua forma de fazer política. E em política, faz sentido o uso de termos como "conservador" para representar aqueles que, tendencialmente, dão prioridade ao carácter perene das ideias em política, e "liberal" para representar aqueles que, tendencialmente, dão prioridade ao carácter transitório das ideias em política.
Muitos liberais poderiam contestar as minhas palavras, sobretudo aqueles que são adeptos da teoria do Progresso, segundo a qual a Humanidade tem progredido ao longo dos últimos séculos, e está neste momento a progredir, sendo que a espera um futuro que só poderá ser risonho, desde que continuem a ter espaço na sociedade as políticas liberais.
Os políticos liberais consideram que o liberalismo "liberta" progressivamente a Humanidade. Ou seja, desde que se seja "liberal", desde que se contestem ideias excessivamente perenes, a Humanidade seguirá o seu caminho de Progresso. Segundo os políticos liberais, as ideias demasiado rígidas e fixas limitam o Progresso.
É evidente que é natural e que há espaço, em Política, para a polarização nestas duas formas de pensar a organização das sociedades: uns dando primazia à manutenção de um cerne de ideias perenes e outros dando primazia à constante mudança com vista a um aperfeiçoamento que consideram inevitável e que não deve ser travado.

Contudo, em religião, estes conceitos polarizantes, quando aplicados, dão sempre resultados insatisfatórios. Ultrapassando a esfera do Ocidente e do Médio Oriente, espaço geográfico das religiões abraâmicas, e usando uma expressão mais geral como a de "doutrinas tradicionais", as sociedades nas quais a espiritualidade se revestiu da forma de uma doutrina organizada institucionalmente sempre valorizaram o carácter perene dessa doutrina. Por natureza, as grandes tradições espirituais da Humanidade são perenialistas. Sucede isto fora do espaço religioso abraâmico com o Hinduísmo, com o Taoísmo, com o Budismo, entre outras tradições. Uma ideia antiga como o Mundo é a de que uma doutrina espiritual, para ser verdadeira porque divinamente inspirada, deve ser perene. E isto porque deve vigorar sempre, independentemente do tempo e do espaço. Porque uma doutrina espiritual, sendo de origem transcendente, não deve vogar ao sabor das volições humanas. Assim, torna-se evidente que o pensamento tradicional em religião é algo de perfeitamente natural e está intimamente associado a esta ideia de "perene" de qualquer mensagem que se venera como sendo divinamente inspirada.
Por estas razões, deveria ser entendido de uma vez por todas que qualquer doutrina espiritual digna desse nome é tradicional, ou seja, apoia-se na transmissão ("traditio") idealmente inalterada de doutrinas perenes.
Contudo, e a partir dos finais do século XVIII, começou a crescer na Europa uma corrente intelectual que advogava para a Religião uma fórmula semelhante à do liberalismo político: a Religião, para progredir, ou seja, para acompanhar um Progresso que se crê imparável, deveria estar preparada para rever as suas doutrinas, para adaptá-las ao tempo e ao espaço.
É, então, a partir do desprezo da essência tradicional de qualquer religião, e do Cristianismo em particular, que nasce no Ocidente a ideia de uma "liberalização" da Religião. Esta ideia, a par com uma crescente contestação à centralização representada na figura do Papa, contestação essa que principiou com a Reforma protestante, daria lugar, no século XIX, à ideia de um "retorno às origens", a um cristianismo que fosse mais próximo do que se julgava serem os ensinamentos de Cristo, de um cristianismo que fosse despojado do peso da autoridade papal e que "aligeirasse" a doutrina do seu carácter impositivo e dogmático.
Simultaneamente, o significado atribuído pela opinião pública ao termo "dogma" também sofreu uma radical transformação, passando a ser visto como um termo pejorativo.
Na sua acepção grega original, a palavra "dogma" era usada em dois contextos diferentes: significava ora um decreto ora uma opinião. Mais tarde, já num contexto cristão, a palavra foi usada pela primeira vez para designar os decretos resultantes do Primeiro Concílio de Jerusalém (2). Para os cristãos, a palavra "dogma" tinha agora o significado de doutrina, de postulado ou axioma religioso, e era usada para fixar em conceitos sintéticos a tradição oral apostólica. Mas a bem sucedida campanha de diabolização da palavra "dogma" trá-la, em pleno século XX, para junto da opinião pública já numa forma distorcida. O "dogma" seria então o instrumento privilegiado do poder da Igreja Católica, uma organização vista como déspota, que prezaria o crente obediente e que não questiona, e que silenciaria com tirânicos "dogmas" o crente desafiador e interrogativo.
Como se vê, a intrusão desadequada do termo "liberalismo" no seio da intelectualidade católica moderna, a par com a perda do significado primevo do conceito de "dogma", tão valorizado pela patrística muito antes ainda de a Igreja de Roma se revestir do poder e autoridade de que mais tarde veio a usufruir, provocou a actual situação de evidente fractura.
Tal qual como num qualquer Parlamento, os católicos vão-se dividindo hoje em dia entre os chamados "católicos liberais", também vistos convenientemente por uma certa opinião anti-clerical como "modernos" ou "moderados", um grupo cada vez mais crescente e dominante mesmo nalgumas camadas da hierarquia da Igreja, e os chamados "católicos conservadores", que nalguns sectores violentamente anti-clericais são mesmo chamados de católicos "fundamentalistas", ou "fanáticos".
Assim, nos dias de hoje, a adesão de um católico à Tradição perene da Igreja, conforme chegou aos nossos dias através das vidas e obras de de homens e mulheres durante dois mil anos, é sinal de falta de espírito crítico, de obediência cega às hierarquias, de um receio de modernidade que só pode ser fruto da ignorância e da falta de espírito científico.
Por outro lado, aquele católico que contesta todas as principais facetas da doutrina católica é visto como alguém com maturidade intelectual, como alguém que tenta trazer a Igreja para os dias de hoje, para a modernidade.
É neste contexto que tantos católicos se sentem divididos. John Cornwell é apenas mais um desses católicos indecisos entre a atracção pela revolução doutrinal e pela contestação à hierarquia e o receio perante um evidente apodrecimento da essência do ser católico, o chamado "sensus catholicus". Na sua entrevista à Crisis Magazine, Cornwell dá já sinais claros dessa sua permanente dúvida interior, dando as suas palavras um exemplo disso mesmo quando ele fala acerca do empobrecimento crescente da liturgia nos tempos modernos:

«... é que o Missal Romano foi menosprezado de uma forma que contribui para este processo geral de Pelagianismo na Igreja, roubando-nos do nosso sentido de imerecimento e também roubando-nos, no próprio coração da Missa, do sentido da Trindade.»

Na presente situação, é normal que muitos católicos se sintam confusos como Cornwell, contudo é de censurar a atitude precipitada (presumo alguma boa fé nas suas intenções, não arriscando a tese de premeditação) do autor em escrever o grave erro histórico que é o seu livro Hitler's Pope.
Ao constatarmos que, de entre os vários nomes dos actuais críticos e detractores de Pio XII, encontramos católicos da chamada corrente "liberal", ficamos com a nítida impressão de que por detrás de uma aparente crítica académica à actuação deste Papa, está toda uma crítica macroscópica à Igreja e à forma como esta lida com a modernidade. Ao criticar o estatismo e a autoridade de Pio XII, Cornwell não está a procurar esclarecer, de modo académico, um episódio da recente história europeia mas sim a provocar um acentuar da contestação à Igreja Católica. Cornwell conseguiu com a sua obra, conscientemente ou não, motivar um grande número de católicos para a "revolução liberal". Pasmo-me ao vê-lo em 2004, apenas quatro anos volvidos da publicação da sua polémica obra, tão preocupado com questões de preservação litúrgica quando ele é o principal responsável pelo relançamento, na viragem do século XX para o século XXI, do mito do "papa de Hitler" na opinião pública.
Nas fileiras católicas "liberais" encontramos muitos dos detractores de Pio XII, e citando apenas alguns nomes referidos por David Dalin na sua recente obra The Myth of Hitler's Pope, temos: os ex-seminaristas Garry Wills (autor de Papal Sin) e John Cornwell, juntamente com o ex-sacerdote James Carroll, autor de Constantine's Sword - The Church and the Jews - a History. Une-os a vontade de promover uma agenda liberal: juntamente com a contestação à hierarquia surgem outras contestações, nomeadamente à moral sexual da Igreja e aos métodos contraceptivos, à questão da licitude do aborto, à questão da homossexualidade, da ordenação sacerdotal de mulheres, do divórcio católico, entre tantas outras questões "fracturantes".

Apesar de John Cornwell ter, em grande parte, acatado as contestações às suas premissas historicamente infundadas (3), a verdade é que toda esta campanha de "liberalismo" católico foi aproveitada, como não podia deixar de ser, pelos radicalizados sectores anti-clericais, que não perderam a oportunidade para louvar o "academicismo" do trabalho de Cornwell e a utilidade e validade do seu trabalho. Evidentemente, aos sectores anti-clericais interessará tudo o que possa dividir o universo católico. A afinidade verificada por muitos dos anti-clericais com os católicos ditos "liberais" é apenas aparente: os primeiros vêem os últimos como úteis e necessários para fazer soçobrar o que resta do edifício católico.

Como católico que seria rapidamente classificado como "fanático" por certos radicais ateus ou mesmo por católicos, escrevo estes textos como exortação aos católicos do nosso tempo, para que façam duas coisas antes de tomar uma posição considerada "liberal" ou "conservadora":

1. Em relação a cada questão fracturante, tentar estudar a fundo a questão, obter os documentos essenciais, procurar as fontes, tentar compreender ambos os lados da questão, tanto os defensores como os detractores

2. Regressar a um estudo sério do catolicismo; o "sensus catholicus" pode e deve ser nutrido com a leitura, com o aprofundamento da cultura cristã pessoal de cada católico.

Um católico consciente, nos dias de hoje, não pode tomar uma decisão pessoal contra o Papa ou contra a Igreja Católica apenas baseando-se nos "media", veículo comunicativo saturado de ruído em relação a estes temas, sem sequer dar a si mesmo a possibilidade de saber o que diz a Igreja sobre cada assunto.

O mito do "Papa de Hitler" nasceu pouco depois da morte de Pio XII. E é, embora sendo central, apenas mais uma das muitas peças de intenção anti-católica que, infelizmente, é também promovida por católicos e não só pelos anti-clericais.
É todo o viver tradicional religioso que está ameaçado pela actual "kulturkampf" anti-católica. É uma guerra silenciosa, ignorada pelos "media", considerada inexistente e exagerada pelos inimigos da Igreja. Mas é uma guerra evidente para todos aqueles que já se deram conta das ameaças de uma secularização excessivamente anti-clerical com ambições totalitárias e que visa a erradicação do viver religioso das sociedades modernas.
É por isso mesmo que o Rabi David Dalin, autor da obra The Myth of Hitler's Pope, consciente da sua responsabilidade na preservação do legado espiritual judaico, se sentiu obrigado a repor a verdade acerca do justo Eugenio Pacelli, Papa Pio XII. Também Dalin sente os efeitos desta secularização radical no seio do próprio judaísmo. Todo e qualquer homem ou mulher que sinta a profundeza espiritual da sua tradição, seja ela cristã, muçulmana, judaica, ou outra qualquer, sentir-se-á necessariamente solidário com esta urgência: deter ou tentar travar esta guerra cultural anti-católica.
Antes de a tentarmos travar, em primeiro lugar, temos que nos dar conta de que ela existe.
No decurso do estudo da História, ao procurarmos encontrar a verdade acerca de cada assunto, não devemos temer o que vamos encontrar: apenas a Verdade liberta. Para mim, esta é uma das mais importantes lições de qualquer fé: a Verdade liberta.

(1) Crisis Magazine, Interview with John Cornwell
(2) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, p. 108.
(3) "(...) I did not object to those who criticized the arguments and disputed the historical evidence. But I was dismayed by those who used ad hominem arguments, claiming that I was not a Catholic and disputing that I had started out intending to defend Pius XII.", na entrevista à Crisis Magazine atrás citada.

novembro 23, 2006

Bento XVI - Homilia aos Bispos da Suiça

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI DURANTE A SANTA MISSA COM OS BISPOS DA SUÍÇA

Terça-feira, 7 de Novembro de 2006


Queridos irmãos!

Os textos escutados a Leitura, o Salmo responsorial e o Evangelho têm um tema comum que poderia ser resumido na frase: Deus não falha. Ou mais exactamente: no início Deus falha sempre, deixa existir a liberdade do homem, e esta diz continuamente "não". Mas a fantasia de Deus, a força criadora do seu amor é maior do que o "não" humano. Com cada "não" humano é acrescentada uma nova dimensão do seu amor, e Ele encontra um caminho novo, maior, para realizar o seu sim ao homem, à sua história e à criação. No grande hino a Cristo da Carta aos Filipenses com o qual iniciámos, ouvimos antes de tudo uma alusão à história de Adão, o qual não estava satisfeito com a amizade de Deus; era demasiado pouco para ele, pretendendo ele mesmo ser um deus. Considerou a amizade uma dependência e considera-se um deus, como se ele pudesse existir por si só. Por isso, disse "não" para se tornar ele mesmo um deus, e precisamente desta forma se deixou cair da sua altura. Deus "falha" em Adão e assim aparentemente ao longo de toda a história. Mas Deus não falha, porque agora ele mesmo se torna homem e recomeça assim uma nova humanidade; enraíza o ser homem de modo irrevogável e desce aos abismos mais profundos do ser homem; abaixa-se até à cruz. Vence a soberba com a humildade e com a obediência da cruz.

E assim acontece agora o que Isaías, cap. 45, tinha profetizado. Na época em que Israel estava no exílio e tinha desaparecido do mapa, o profeta tinha dito que o mundo inteiro "todos os joelhos" se teriam dobrado diante deste Deus impotente. E a Carta aos Filipenses o confirma: agora isto aconteceu. Por meio da cruz de Cristo, Deus aproximou-se das nações, saiu de Israel e tornou-se o Deus do mundo. E agora o mundo dobra os joelhos diante de Jesus Cristo, o que também nós podemos experimentar hoje de maneira maravilhosa: em todos os continentes, até às cabanas mais humildes, o Crucificado está presente. O Deus que tinha "falhado", agora, através do seu amor, leva deveras o homem a dobrar os joelhos, e assim vence o mundo com o seu amor.

Como Salmo responsorial cantámos a segunda parte do Salmo da paixão 21/22. É o salmo do justo sofredor, antes de tudo de Israel sofredor e, diante de Deus mudo que o abandonou, grita: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Como pudeste esquecer-te de mim? Agora quase já não existo. Tu já não ages, já não falas... Por que me abandonaste?". Jesus identifica-se com Israel sofredor, com os justos sofredores de todos os tempos abandonados por Deus, e leva o grito do abandono de Deus, o sofrimento por ser esquecido leva-o até ao coração do próprio Deus, e assim transforma o mundo. A segunda parte do Salmo, a que recitámos, diz-nos o que disso deriva: os pobres comerão e serão saciados. É a eucaristia universal que provém da cruz.

Agora Deus sacia os homens em todo o mundo, os pobres que precisam dele. Dá-lhes a abundância de que precisam: doa Deus, doa-se a si mesmo. E depois o Salmo diz: "Hão-de lembrar-se do Senhor e voltar para Ele todos os confins da terra". Da cruz deriva a Igreja universal. Deus vai além do hebraísmo e abraça o mundo inteiro para o unir no banquete dos pobres.

E, por fim, a mensagem do Evangelho. De novo o falimento de Deus. Os primeiros a serem convidados recusam, não vêm. A sala de Deus permanece vazia, o banquete parece ter sido preparado em vão. É o que Jesus experimenta na fase final da sua actividade: os grupos oficiais, autorizados dizem "não" ao convite de Deus, que é Ele próprio. Não vêm. A sua mensagem, a sua chamada termina com o "não" dos homens. Mas aqui também: Deus não falha. A sala vazia torna-se uma oportunidade para chamar um número maior de pessoas. O amor de Deus, o convite de Deus alarga-se Lucas narra-nos isto em duas fases: primeiro, o convite é feito aos pobres, aos abandonados, aos que não estão convidados por ninguém na mesma cidade.

Desta forma Deus faz o que ouvimos no Evangelho de ontem (O Evangelho de hoje faz parte de um pequeno simpósio no âmbito de uma ceia em casa de um fariseu. Encontramos quatro textos: primeiro a cura do hidrópico, depois a palavra sobre os últimos lugares, a seguir o ensinamento de não convidar os amigos que retribuiriam tal gesto, mas os que verdadeiramente têm fome, mas que não podem retribuir o convite, e depois, precisamente, segue a nossa narração). Agora Deus faz o que disse ao fariseu: Ele convida os que nada possuem; que têm verdadeiramente fome, que não o podem convidar, que nada lhe podem dar. E depois acontece a segunda fase. Sai para fora da cidade, pelas estradas do campo; estão convidados os desabrigados. Pudemos supor que Lucas tenha compreendido estas duas fases no sentido de que os primeiros a entrar na sala foram os pobres de Israel e depois dado que não são suficientes, sendo o ambiente de Deus maior o convite alarga-se para fora da Cidade Santa, ao mundo dos gentios.

Os que não pertencem a Deus, que estão fora, agora são convidados para encher a sala. E Lucas que nos transmitiu este Evangelho, viu certamente nisto a representação antecipada rica de imagens dos acontecimentos que depois narra nos Actos dos Apóstolos, precisamente onde isto acontece: Paulo começa a sua missão sempre na sinagoga, pelos que foram convidados primeiro, e só quando estas pessoas recusaram e permaneceu apenas um pequeno grupo de pobres, ele vai em direcção aos pagãos. Assim o Evangelho, através deste percurso de crucifixão sempre novo, torna-se universal, abraça a totalidade, finalmente até Roma. Em Roma Paulo chama a si os chefes da sinagoga, anuncia-lhes o mistério de Jesus Cristo, o Reino de Deus na Sua pessoa. Mas estes se recusaram, e ele despede-se deles com estas palavras: Pois bem, visto que não ouvis, esta mensagem será anunciada aos pagãos e eles ouvi-la-ão. Com esta confiança conclui-se a mensagem de falimento: Eles ouvirão; a Igreja dos pagãos formar-se-á. Formou-se e continua a formar-se. Durante as visitas ad limina ouço falar de muitas coisas graves e difíceis, mas sempre precisamente do Terceiro Mundo ouço também isto: que os homens ouvem, que eles vêm, que também hoje a mensagem vai pelas estradas até aos confins da terra e que os homens afluem para a sala de Deus, para o seu banquete.

Portanto, deveríamos perguntar: Que significa tudo isto para nós? Antes de tudo significa uma certeza: Deus não falha. "Falha" continuamente, mas precisamente por isso não falha, porque disso surgem novas oportunidades de misericórdia maior, e a sua fantasia é inexaurível. Não falha porque encontra sempre novas formas para alcançar os homens e para abrir mais a sua grande casa, para que se encha totalmente. Não falha porque não se subtrai à perspectiva de solicitar os homens para que venham sentar-se à sua mesa, para receber o alimento dos pobres, no qual é oferecido o dom precioso, o próprio Deus. Deus não falha, nem sequer hoje. Mesmo se experimentamos tantos "não", disso podemos ter a certeza. De toda esta história de Deus, a partir de Adão, podemos concluir: Ele não falha. Também hoje encontrará novos caminhos para chamar os homens e quer-nos ter consigo como seus mensageiros e servos.

Precisamente no nosso tempo conhecemos muito bem o "dizer não" de quantos foram convidados primeiro. De facto, a cristandade ocidental, isto é, os novos "primeiros convidados", agora em grande parte se recusam, não têm tempo para se encontrar com o Senhor. Conhecemos as igrejas que se tornam cada vez mais vazias; conhecemos todas as formas nas quais se apresenta este "não, tenho coisas mais importantes para fazer". E assusta-nos e perturba-nos ser testemunhas deste desculpar-se e recusar-se dos primeiros convidados, que na realidade deveriam conhecer a grandeza do convite e deveriam sentir-se atraídos por ele. Como nos devemos comportar?

Em primeiro lugar devemos fazer a pergunta: por que acontece precisamente assim? Na sua parábola o Senhor menciona dois motivos: a posse e as relações humanas, que envolvem totalmente as pessoas, a ponto de pensarem que já não precisam de mais nada para encher totalmente o seu tempo e, por conseguinte, a sua existência interior. São Gregório Magno na sua exposição deste texto procurou analisar mais profundamente e perguntou: mas como é possível que um homem diga "não" ao que há de maior; que não tenha tempo para o que é mais importante; que feche em si mesmo a própria existência? E responde: Na realidade, nunca fizeram a experiência de Deus; nunca tiveram "gosto" de Deus; nunca experimentaram como é bom ser "atingidos" por Deus! Falta-lhes este "contacto" e com ele o "gosto de Deus". E só se nós, por assim dizer, o experimentarmos, só então vamos ao banquete. São Gregório cita o Salmo, do qual é tirada a hodierna Antífona da Comunhão: saboreai, provai e vereis; provai e então vereis e sereis iluminados!

A nossa tarefa é contribuir para que as pessoas possam provar, para que possam sentir de novo o gosto de Deus. Noutra homilia São Gregório Magno aprofundou ulteriormente a mesma questão, e interrogou-se: Como é possível que o homem nem sequer queira "provar" Deus? E responde: Quando o homem está totalmente absorvido pelo seu mundo, pelas coisas materiais, com aquilo que pode fazer, com tudo o que é realizável e que lhe confere sucesso, com tudo o que pode produzir ou compreender por si, a sua capacidade de percepção em relação a Deus enfraquece-se, os sentidos dirigidos a Deus debilitam-se, tornam-se incapazes de compreender e sentir. Ele já não percebe o Divino, porque os sentidos correspondentes nele tornaram-se áridos, não se desenvolveram mais. Quando usa demasiado as demais percepções, as empíricas, então pode acontecer que precisamente o sentido de Deus se esvaneça; que este sentido morra; e que o homem, como diz São Gregório, deixe de compreender o olhar de Deus, o ser olhado por Ele esta preciosidade que é o facto de que o seu olhar me alcance! Penso que São Gregório Magno tenha descrito exactamente a situação do nosso tempo de facto, era uma época muito semelhante à nossa.

E ainda surge a pergunta: como nos devemos comportar? Penso que a primeira coisa seja fazer o que o Senhor nos diz hoje na Primeira Leitura e que São Paulo nos grita em nome de Deus: "Tende os mesmos sentimentos de Jesus Cristo! Touto phroneite en hymin ho kai en Christo Iesou". Aprendei a pensar como Cristo pensou, aprendei a pensar com Ele! E este pensar não é só o do intelecto, mas também um pensar do coração. Nós aprendemos os sentimentos de Jesus Cristo quando aprendemos a pensar com Ele e portanto, quando aprendemos a pensar também no seu falimento e no seu superar o falimento, ao aumentar-se do seu amor no falimento.

Se considerarmos estes seus sentimentos, se começarmos a exercitar-nos a pensar como Ele e com Ele, então desperta em nós a alegria para com Deus, a confiança em que Ele é sempre o mais forte; sim, podemos dizer, desperta em nós o amor por Ele. Sentimos como é bom que Ele exista e que podemos conhecê-lo que o conhecemos no rosto de Jesus Cristo, que sofreu por nós. Penso que esta seja a primeira coisa: que nós próprios entremos num contacto vivo com Deus com o Senhor Jesus, o Deus vivo; que em nós se fortaleçam os sentidos dirigidos a Deus; que tenhamos em nós próprios a percepção da sua excelência. Isto anima também o nosso agir; porque também nós corremos um perigo: podemos fazer muito, quer no campo eclesiástico, tudo para Deus..., quer no que permanece totalmente junto de nós próprios, sem encontrar Deus. O compromisso substitui a fé, mas depois esvazia-se interiormente.

Considero, portanto, que deveríamos comprometer-nos sobretudo: na escuta do Senhor, na oração, na participação íntima dos sacramentos, em aprender os sentimentos de Deus no rosto e nos sofrimentos dos homens, para desta forma sermos contagiados pela sua alegria, pelo seu zelo, pelo seu amor e para ver com Ele, e partindo d'Ele, ver o mundo. Se conseguirmos fazer isto, então até entre os muitos "não" encontramos de novo os homens que O esperam e que com frequência talvez sejam excêntricos a parábola di-lo claramente mas que contudo são chamados a entrar na sua sala.

Mais uma vez, com outras palavras: trata-se da centralidade de Deus, e precisamente não de um deus qualquer, mas do Deus que tem o rosto de Jesus Cristo. Isto é importante hoje. Há tantos problemas que podem ser elencados, que devem ser resolvidos, mas que todos nunca são resolvidos se Deus não for colocado no centro, se Deus não se torna de novo visível no mundo, se não se torna determinante na nossa vida e se não entra também através de nós de maneira determinante no mundo. Neste aspecto, penso, hoje decide-se o destino do mundo nesta situação dramática: se Deus o Deus de Jesus Cristo existe e é reconhecido como tal, ou se desaparece. Nós preocupamo-nos por que esteja presente.

Que devemos fazer? Em última análise? Dirigimo-nos a Ele! Nós celebramos esta Missa votiva do Espírito Santo, invocando-O: "Lava quod est sordidum, riga quod est aridum, sana quod est saucium. Flecte quod est rigidum, fove quod est frigidum, rege quod est devium". Invoquemo-l'O para que irrigue, aqueça, endireite, para que nos preencha com a força da sua sagrada chama e renove a terra. Por isto o imploramos de coração neste momento, nestes dias.

Amém.

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novembro 22, 2006

Agência Ecclesia: Europa sem Cristianismo coloca em risco o seu futuro

Europa sem Cristianismo coloca em risco o seu futuro

George Weigel, autor de «O Cubo e a Catedral»

A Europa colocará em risco o seu futuro se recusar as suas raízes cristãs. A convicção é de George Weigel, intelectual católico e autor da obra “O Cubo e a Catedral: Europa, América e a Política sem Deus” (Aletheia, 2006).
De passagem por Portugal, Weigel conversou com a Agência ECCLESIA sobre o que pensa das relações entre a Europa e a América, o futuro do Ocidente, as convicções religiosas e o exercício da actividade política.

Para este autor, uma sociedade apenas terá a dimensão que tiverem as suas “aspirações espirituais”. Por isso mesmo, alerta para o facto de, em finais do século XIX, os líderes culturais europeus terem considerado consideravam que era necessário abandonar o Deus da Bíblia para que a libertação humana fosse possível, tendo como resultado “duas guerras mundiais e sistemas totalitários”.

Hoje, no entanto, o cenário não se modificou e muitos continuam a não querer assumir a herança do Cristianismo, como se viu na discussão em volta da nova Constituição Europeia. “Um problema do futuro, não de reconhecimento do passado”, assegura Weigel.

O autor norte-americano trouxe até Portugal uma profunda preocupação em relação ao “problema europeu”, cujo ponto mais visível é a crise demográfica que atravessa o Velho Continente, cada vez mais velho, de facto. “A Europa está a morrer, os números dizem isso de forma muito clara”, assinala George Weigel, pasmado com a “insistência” na legalização do aborto num Continente com taxas de natalidade em quebra constante.

O teólogo católico lamenta a preponderância que ganhou o modelo francês de laicidade, na Europa, mas admite que a América não passou pela experiência do combate à religião. Nesse sentido, deixou como exemplo o “caso Buttiglione” para frisar que alguém ser impedido de exercer cargos de governo por motivo das suas convicções pessoais seria impensável na América.

George Weigel lamenta que as “convicções católicas tradicionais” sejam vistas, cada vez mais, como formas de “discriminação” e condena o facto de as pessoas serem convidadas a deixar de lado as suas “convicções mais profundas” para assumirem cargos políticos.

Biógrafo de João Paulo II, Weigel tem uma opinião muito positiva sobre o actual Papa, Bento XVI, e saúda os seus esforços para que os cristãos aprendam a ser “uma minoria criativa”.

Nacional | Octávio Carmo| 21/11/2006 | 15:55 | 2305 Caracteres | 196| Europa

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novembro 21, 2006

Papa Bento XVI - Angelus - 12 de Novembro de 2006

PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Domingo, 12 de Novembro de 2006


Queridos irmãos e irmãs!

Hoje celebra-se na Itália o anual Dia do Agradecimento, que tem por tema: "A terra: um dom para toda a família humana". Nas nossas famílias cristãs ensina-se às crianças a agradecer sempre ao Senhor, antes de tomar o alimento, com uma breve oração e com o sinal da cruz. Este costume deve ser conservado e redescoberto, porque educa a não dar por certo o "pão quotidiano", mas a reconhecer nele um dom da Providência. Deveríamos habituar-nos a bendizer ao Criador por todas as coisas: pelo ar e pela água, elementos preciosos que são o fundamento da vida no nosso planeta; assim como pelos alimentos que através da fecundidade da terra Deus nos oferece para o nosso sustento. Aos seus Discípulos Jesus ensinou a rezar pedindo ao Pai celeste não o "meu", mas o "nosso" pão quotidiano. Desta forma, ele quis que todos os homens se sintam co-responsáveis pelos seus irmãos, para que a ninguém falte o necessário para viver. Os produtos da terra são um dom destinado por Deus "a toda a família humana".

E aqui tocamos um aspecto muito dolente: o drama da fome que, não obstante também recentemente tenha sido enfrentado nos mais altos Organismos institucionais, como as Nações Unidas e, em particular, a FAO, permanece sempre muito grave. O último relatório anual da FAO confirmou o que a Igreja sabe muito bem pela experiência directa das comunidades e dos missionários: ou seja, que mais de 800 milhões de pessoas vivem em estado de subalimentação e demasiadas pessoas, especialmente crianças, morrem de fome. Como encarar esta situação que, mesmo tendo sido denunciada várias vezes, não se vê indícios de resolução, aliás, em certos aspectos está a agravar-se? Sem dúvida, é necessário eliminar as causas estruturais relacionadas com o sistema de governo da economia mundial, que destina a maior parte dos recursos do planeta a uma minoria da população.

Esta injustiça foi estigmatizada em diversas ocasiões pelos meus venerados Predecessores, os Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II. Para incidir em vasta escala é necessário "converter" o modelo de desenvolvimento global; isto é exigido não só pelo escândalo da fome, mas também pelas emergências ambientais e energéticas. Contudo, cada pessoa e família pode e deve fazer algo para aliviar a fome no mundo adoptando um estilo de vida e de consumo compatível com a salvaguarda da criação e com critérios de justiça em relação a quem cultiva a terra em cada País.

Queridos irmãos e irmãs, o hodierno Dia do Agradecimento convida-nos, por um lado, a dar graças a Deus pelos frutos do trabalho agrícola; por outro, encoraja-nos a comprometer-nos concretamente para vencer o flagelo da fome. Ajude-nos a Virgem Maria a ser gratos pelos benefícios da Providência e a promover em toda a parte do globo a justiça e a solidariedade.


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novembro 20, 2006

Agência Ecclesia: Bento XVI diz que a Igreja não é «agente político»

Bento XVI diz que a Igreja não é «agente político»
Papa recebeu presidente da Itália e apelou à colaboração recíproca

Bento XVI destacou hoje a importância da colaboração entre a Igreja e o Estado, em todas as partes do mundo, mas negou que a mesma queira ser um “agente político”. O “interesse profundo pelo bem da comunidade política” leva, isso sim, os leigos católicos a procurar construir uma ordem justa na sociedade.
O Papa falava ao receber, no Vaticano, o presidente italiano Giorgio Napolitano, eleito em Maio passado, acompanhado por uma ampla delegação, da qual fez parte o ministro dos Negócios Estrangeiros, Massimo D'Alema. Esta foi a 14ª visita oficial de um chefe de Estado italiano ao Papa e a primeira de Napolitano.

Bento XVI apelou aos valores e princípios antropológicos, enraizados “na natureza do ser humano” para fazer face aos grandes desafios da actualidade: “a guerra e o terrorismo, a fome e a sede, a extrema pobreza de tantos seres humanos, algumas terríveis epidemias”, mas, sobretudo, “a tutela da vida humana em todas as suas fases, da concepção até à morte natural, e a promoção da família, fundada sobre o matrimónio”.

Após as polémicas surgidas na Itália por causa das tomadas de posição públicas dos Bispos sobre temas ligados às questões da vida, o Papa lembrou que o ponto de vista eclesial entra na liberdade democrática, como uma posição aberta que pode ser partilhada por muita gente.

“A liberdade, que a Igreja e os cristãos reivindicam, não prejudica os interesses do Estado e dos outros grupos sociais, não pretendendo uma supremacia autoritária, mas sim ser uma condição para que se possa compreender o precioso serviço que a Igreja oferece à Itália e a qualquer país onde está presente”, disse.

Bento XVI frisou que Igreja e Estado, apesar de serem “totalmente distintos”, são chamados, segundo a sua respectiva missão “a servir o ser humano, que é ao mesmo tempo destinatário e participante da missão salvífica da Igreja e cidadão do Estado”.

O Papa sublinhou a importância da Liberdade Religiosa e agradeceu o “vínculo particular de fé e história” que ligam o Bispo de Roma à Itália.

Internacional | Octávio Carmo| 20/11/2006 | 15:27 | 2021 Caracteres | 111| Bento XVI

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Reprodução autorizada pela Agência Ecclesia

Agência de Informação Zenit: A ciência serve o homem quando está unida à consciência

Notícia da agência de informação Zenit publicada em 19 de Novembro de 2006.
Republicação autorizada pelo editor

Código: ZP06111917

Data de publicação: 2006-11-19

Núncio na Espanha: ciência serve o homem quando está unida à consciência

Dom Monteiro de Castro na inauguração do VIII Congresso Católicos e Vida Pública

MADRI, domingo, 19 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Conservar o sentido de transcendência permite ao homem de ciência ajudar verdadeiramente a humanidade, adverte o representante papal na Espanha.

Na inauguração, nessa sexta-feira em Madri, do VIII Congresso Católicos e Via Pública, o arcebispo Manuel Monteiro de Castro enfatizou a necessidade de uma ciência com consciência.

«Encontros desta índole são de grande importância para estudar e avaliar os diferentes elementos éticos, científicos e também de caráter político relacionados com o ser humano», reconheceu.

É porque «existem valores irrenunciáveis, como a dignidade intrínseca de cada homem, como a vida humana como valor fundamental, o valor da identidade singular de todo ser humano. A ciência e a tecnologia atual às vezes se esquecem desses pontos fundamentais», lamentou.

O representante papal recordou ante cerca de mil congressistas que «a Igreja tem uma atitude positiva, aberta, esperançosa frente à pesquisa científica e suas aplicações tecnológicas».

De fato -- recordou -- «foi através dos tempos uma protagonista ativa na conservação e expansão do servir, ensinou os homens a amá-la, a amá-la sem medo, pois não pode haver contradição entre fé e razão».

Da mesma forma, «proclama a liberdade de pesquisa», mas também de «continuar com igual força o chamado à responsabilidade na política científica», indicou Dom Monteiro de Castro.

Consciente de que «as ciências e suas aplicações nas tecnologias têm como nunca um lugar predominante na vida e na cultura do homem contemporâneo», e de que nós nos encontramos atualmente em uma realidade «incomparavelmente mais dinâmica e evolutiva que a de antes», alertou, no entanto, que «a causa do homem será servida se a ciência se une à consciência».

«O homem de ciência ajuda verdadeiramente a humanidade se conserva o sentido de transcendência do homem sobre o mundo, e de Deus sobre o homem», recalcou.

Com relação a isso, ele fez alusão às palavras pronunciadas há alguns meses por Bento XVI, que sintetizou que «a questão fundamental hoje, como ontem, continua sendo antropológica: o que é o homem? De onde ele vem? Para onde vai? Como deve ir?».

«Quer dizer -- prosseguiu o prelado --, trata-se de esclarecer qual é o conceito de homem que está na base dos novos projetos»: «de uma pessoa firme na defesa dos seus interesses? Só na perspectiva de interesses? Uma perspectiva materialista? Ou de uma pessoa aberta à solidariedade com os outros, em busca do verdadeiro sentido da existência, que deve ser um sentido comum que transcende a pessoa?».

«É necessário dizer com força que o ser humano não pode, não deve ser sacrificado jamais aos êxitos da ciência ou da tecnologia», manifestou o núncio apostólico.

«Precisamente por isso, ganha grande importância a assim chamada questão antropológica que nós, herdeiros de uma tradição humanística fundada nos valores cristãos, devemos enfrentar à luz dos princípios inspiradores de nossa civilização -- indicou --, que encontraram nas universidades européias autênticos laboratórios de pesquisa e de aprofundamento.»

«O desafio de ser homem» -- lema do congresso -- «e de atuar na vida privada e na vida pública como criatura criada à imagem e semelhança de Deus exige coragem, e sobretudo uma grande confiança no Senhor», reconheceu.

E se trata de um tema de grande atualidade no congresso, cujas conferências sobre a dignidade humana, a ciência ao serviço do homem, a caridade, as condições dignas da família humana e a política como serviço «manifestam imediatamente o ser humano dotado de uma dignidade intrínseca que não depende do voto de uma maioria», observou.

O VIII Congresso Católicos e Vida Pública tem seu enlace on-line em http://www.ceu.es/congreso.

Celebrou-se em Madri (Espanha), de 17 a 19 de novembro, por iniciativa da Associação Católica de Propagandistas (ACdP, http://www.acdp.es/) e da Fundação Universitária São Paulo-CEU (http://www.ceu.es/).

Na inauguração dos trabalhos, Alfredo Dagnino, presidente de ambas realidades, recordou as palavras de Bento XVI em sua recente visita à Espanha, pelo V Encontro Mundial das Famílias: «Segui proclamando sem desânimo que prescindir de Deus, atuar como se Ele não existisse ou relegar a fé ao âmbito meramente privado socava a verdade, hipoteca o futuro da cultura e da sociedade».

«Pois bem -- sintetizou Dagnino --, esta é a mensagem que há oito anos o Congresso Católicos e Vida Pública vem difundindo.»

© Innovative Media, Inc.

A reprodução dos serviços de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

novembro 18, 2006

Leitura para o fim-de-semana - The New York Review of Books


Three Questions for America by Ronald Dworkin

Darwin and Spirituality: An Exchange by Danis Rose, Reply by Ronald Dworkin


Cientismo não é ciência - Francisco Sarsfield Cabral no DN


Um artigo de Francisco Sarsfield Cabral no Diário de Notícias.

novembro 17, 2006

Associação O Ponto de Apoio à Vítima

Notícia reproduzida da Agência Ecclesia

Um ponto a favor da mulher

Criada em 1998, a Associação O Ponto de Apoio à Vítima, acolhe, acompanha e encaminha mulheres grávidas em dificuldades e que necessitam de ajuda social, jurídica ou psicológica.

“Desde o início da associação já prestámos ajuda a cerca de 900 mulheres. Ontem ajudámos a 100ª este ano” dá conta o Padre Duarte da Cunha , Presidente da direcção.

Dispõem neste momento de dois centros de atendimento em Lisboa e Cascais e assim como de uma residência que acolhe oito mulheres, “havendo uma grande lista de espera” elucida, dando conta da procura que têm, consequência do drama existente.

Chegam porque tomaram conhecimento da associação através dos centros de saúde, das misericórdias ou até mesmo através das paróquias, onde existem cartazes elucidativos do trabalho que realizam, onde uma assistente social as recebe para “fazer o encaminhamento devido” estando também uma psicóloga de serviço, esclarece o Pe Duarte da Cunha.

O passo que leva as mulheres ao Ponto de Apoio à Vítima ou o telefonema que dirigem à associação encerra em si muitos dramas. De abandono por parte da família, de pressão para abortar, de desorientação, muitas delas adolescentes.

A directora técnica da associação, Mara Mota afirma que “a gravidez em si não é um problema, agrava sim os problemas que estas mulheres já têm” e dá exemplos: separação dos pais dos bebés, desemprego, situação ilegal no país, situação habitacional precária. Nesse sentido “prestamos apoio concreto ao nível social, psicológico e de inserção laboral” afirma Mara Mota.

“Houve casos em que nos procuraram pensando que ajudávamos a abortar e nós ajudámos a nascer e hoje nos agradecem” afirma o Presidente da direcção.

O apoio não termina com o nascimento de uma criança. “Prestamos formação e temos também uma valência de inserção no mundo laboral durante os primeiros tempos”. Na residência as mulheres têm oportunidade de após o nascimento do bebé, permanecerem por mais “um ou dois anos para estabilizarem a sua vida e conseguir autonomia”. Mas apenas para oito mulheres. “O que possibilita a eficácia deste trabalho é a rede de parcerias que estabelecemos”, esclarece o Pe Duarte da Cunha, acrescentando que “é preciso criatividade e imaginação para ajudar quem nos procura”.

Para mais informações contactar O Ponto de Apoio à Vítima através do nº 800 20 80 90

Nacional | Lígia Silveira| 17/11/2006 | 15:05 | 2339 Caracteres | 192| Aborto

Copyright© Agência Ecclesia

novembro 16, 2006

a Lei da Procriação Medicamente Assistida

Nota Pastoral sobre a Lei da Procriação Medicamente Assistida
Conferência Episcopal Portuguesa

Reunidos em Assembleia Plenária pela primeira vez depois da publicação da Lei 32/2006, de 26 de Julho, que regula a Procriação Medicamente Assistida (PMA), os Bispos decidiram publicar a seguinte Nota Pastoral para esclarecimento da consciência dos fiéis católicos. De facto, estamos perante mais uma Lei em que o que passa a ser legal não é totalmente conforme com as exigências morais do cristianismo e mesmo da ética natural. Assim, declaramos quanto segue:

1. Como já referiu o Conselho Permanente, em Nota de 20 de Janeiro de 2006, compreendemos a necessidade de legislar sobre esta matéria que, devido à vulgarização de práticas de PMA, a não serem reguladas, se correria o risco de cair em abusos intoleráveis. Como então se afirmou, julgamos que a função de uma tal lei seria “estabelecer os limites entre o que é tecnicamente possível e o que é eticamente aceitável”. Ora é exactamente no estabelecimento desses limites que se evidencia a distância entre a perspectiva da Lei e a Doutrina da Igreja.

2. A moralidade das técnicas de PMA situa-se no quadro de apoio dado aos casais heterossexuais para vencerem as dificuldades sentidas na sua infertilidade. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica (CIC), “as pesquisas que se destinam a reduzir a esterilidade humana devem ser encorajadas, com a condição de estarem colocadas ao serviço da pessoa humana, dos seus direitos inalienáveis e do seu bem verdadeiro e integral, em conformidade com o projecto e a vontade de Deus” (CIC, n.º 2375).

Isto restringe o âmbito da legitimidade moral da PMA à fecundação homóloga, ou seja, a que é fruto da junção de gâmetas do próprio casal. Para que essa ajuda médica à fecundidade do casal seja moralmente legítima, ela deve limitar-se a auxiliar a união sexual dos esposos a ser fecunda. A comunicação da vida brota da união amorosa dos esposos. Gerar um filho, por maior que seja o desejo de paternidade e maternidade, é sempre uma dádiva e não a reivindicação de um direito absoluto (cf. CIC, n.ºs 2377-2378).

3. São moralmente ilegítimas todas as práticas de fecundação heteróloga, permitidas pela presente Lei, como a fecundação com espermatozóides ou ovócitos de outra pessoa diferente dos membros do casal e a doação de embriões (cf. Art.º 10º). Estes métodos não resolvem, realmente, a infertilidade do casal e separam a paternidade-maternidade física da afectiva e relacional, além de constituírem uma infidelidade do casal, ainda que consentida.

4. É conhecida uma das consequências da fecundação, homóloga ou heteróloga, desligada da união sexual do casal: os embriões excedentários. Não é moralmente legítima a sua utilização para investigação científica, devido à dignidade do ser humano já presente no embrião (cf. Art.º 9º, n.º 2).

5. A moral católica baseia-se na verdade da criação, na dignidade do amor conjugal e na valorização da união conjugal como fundamento da família. Ela não é um conjunto de proibições. Constitui incentivo à investigação científica para tornar mais possível uma ajuda aos casais infecundos, no âmago mesmo da sua intimidade; e é um apelo aos casais a que, não conseguindo gerar um filho, exerçam as suas capacidades paternais de outra maneira, por exemplo através da adopção ou da dedicação ao serviço dos outros, sobretudo das crianças que mais precisam. Voltamos a citar o CIC: “O Evangelho mostra que a esterilidade física não é um mal absoluto. Os esposos que, depois de esgotados os recursos médicos legítimos, sofrem de esterilidade, associar-se-ão à Cruz do Senhor, fonte de toda a fecundidade espiritual. Podem, porém, vincar a sua generosidade, adoptando crianças abandonadas ou cumprindo serviços exigentes para com outrem” (n.º 2379).


Fátima, 16 de Novembro de 2006

Copyright© Agência Ecclesia

Fonte: Agência Ecclesia

novembro 15, 2006

Discurso de Bento XVI ao Congresso Nacional da Igreja Italiana

O Papa Bento XVI pronunciou um discurso rico de ensinamentos em Verona, no dia 19 de Outubro de 2006, por ocasião do IV Congresso Nacional da Igreja Italiana. O link para o discurso é:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2006/october/documents/hf_ben-xvi_spe_20061019_convegno-verona_po.html

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO

Verona, Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs

Estou feliz por me encontrar convosco hoje, nesta bonita e histórica cidade de Verona, para participar activamente no IV Congresso nacional da Igreja na Itália. Transmito a todos vós e a cada um a mais cordial saudação no Senhor. Agradeço ao Cardeal Camillo Ruini, Presidente da Conferência Episcopal, e à Doutora Giovanna Ghirlanda, representante da Diocese de Verona, as amáveis palavras de boas-vindas que me dirigiram em nome de todos vós e as notícias que me deram acerca do desenvolvimento do Congresso. Agradeço ao Cardeal Dionigi Tettamanzi, Presidente da Comissão preparatória, e a quantos trabalharam pela sua realização. Agradeço de coração a cada um de vós, que aqui representais, em feliz harmonia, os vários componentes da Igreja na Itália: o Bispo de Verona, D. Flávio Roberto Carraro, que nos hospeda, os Bispos aqui reunidos, os sacerdotes e os diáconos, os religiosos e as religiosas, e vós fiéis leigos, homens e mulheres, que dais voz às múltiplas realidades do laicado católico na Itália.

Este IV Congresso nacional é uma nova etapa do caminho de actuação do Vaticano II, que a Igreja italiana empreendeu desde os anos imediatamente seguintes ao grande Concílio: um caminho de comunhão, antes de tudo com Deus Pai e com o seu Filho Jesus Cristo no Espírito Santo, e portanto em comunhão entre nós, na unidade do único Corpo de Cristo (cf. 1 Jo 1, 3; 1 Cor 12, 12-13); um caminho orientado para a evangelização, para conservar viva e sólida a fé no povo italiano; portanto, um testemunho tenaz de amor pela Itália e de solicitude diligente pelo bem dos seus filhos. A Igreja na Itália percorreu este caminho em estreita e constante união com o Sucessor de Pedro: é-me grato recordar convosco os Servos de Deus Paulo VI, que quis o I Congresso no já longínquo ano de 1976, e João Paulo II, com as suas intervenções fundamentais recordamo-nos de todas elas nos Congressos de Loreto e de Palermo, que fortaleceram na Igreja italiana a confiança de poder trabalhar a fim de que a fé em Jesus Cristo continue a oferecer, também aos homens e às mulheres do nosso tempo, o sentido e a orientação da existência, e assim tenha "um papel-guia e uma eficácia que atraia" no caminho da Nação rumo ao futuro (cf. Discurso no Congresso de Loreto, 11 de abril de 1985, n. 7).

Foi no mesmo espírito que hoje vim a Verona, para rezar ao Senhor juntamente convosco, compartilhar mesmo brevemente o vosso trabalho destes dias e propor-vos uma minha reflexão sobre aquilo que parece verdadeiramente importante para a presença cristã na Itália. Fizestes uma escolha muito feliz, pondo Cristo ressuscitado no centro da atenção do Congresso e de toda a vida e do testemunho da Igreja na Itália. A ressurreição de Cristo é um facto que se verificou na história, de que os Apóstolos foram testemunhas e certamente não criadores. Ao mesmo tempo, ela não é de modo algum um simples retorno à nossa vida terrena; é, a contrário, a maior "mudança" jamais ocorrida, o "salto" decisivo rumo a uma dimensão de vida profundamente nova, o ingresso numa ordem decididamente diferente, que diz respeito sobretudo a Jesus de Nazaré, mas com Ele também a nós, a toda a família humana, à história e a todo o universo: por isso, a ressurreição de Cristo é o centro da pregação e do testemunho cristão, desde o início e até ao fim dos tempos.

Sem dúvida, trata-se de um grande mistério, do mistério da nossa salvação, que na ressurreição do Verbo encarnado encontra o seu cumprimento e, ao mesmo tempo, a antecipação e o penhor da nossa esperança. Mas a chave de leitura deste mistério é o amor e somente na lógica do amor ele pode ser aproximado e de certo modo compreendido: Jesus Cristo ressuscita dos mortos porque todo o seu ser é perfeita e íntima união com Deus, que é amor verdadeiramente mais forte do que a morte. Ele era um só com a Vida indestrutível e portanto podia dar a própria vida deixando-se matar, mas não podia sucumbir definitivamente à morte: de modo concreto, na última Ceia Ele antecipou e aceitou por amor a própria morte na cruz, transformando-a assim no dom de si, aquele dom que nos dá a vida, nos liberta e salva. Por conseguinte, a sua ressurreição foi como que uma explosão de luz, uma explosão do amor que desata as cadeias do pecado e da morte. Ela inaugurou uma nova dimensão da vida e da realidade, da qual sobressai um mundo novo, que penetra continuamente no nosso mundo, o transforma e o atrai a si.

Tudo isto acontece concretamente através da vida e do testemunho da Igreja; aliás, a própria Igreja constitui a primícia desta transformação, que é obra de Deus e não nossa. Ela chega até nós mediante a fé e o sacramento do Baptismo, que é realmente morte e ressurreição, renascimento, transformação numa vida nova. É aquilo que releva São Paulo na Carta aos Gálatas: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (2, 20). Assim mudou a minha identidade essencial, através do Baptismo, e eu continuo a existir somente nesta mudança. Sou privado do meu próprio eu, que é inserido num novo sujeito maior, em que o meu eu existe novamente, mas transformado, purificado, "aberto" mediante a inserção no outro, em quem adquire o seu novo espaço de existência. Assim, tornamo-nos "um só em Cristo" (Gl 3, 28), um único sujeito novo, e o nosso eu é libertado do seu isolamento. "Eu, mas já não eu": esta é a fórmula da existência cristã fundada no Baptismo, a fórmula da ressurreição dentro do tempo, a fórmula da "novidade" cristã chamada a transformar o mundo. Aqui está a nossa alegria pascal. A nossa vocação e a nossa tarefa de cristãos consistem em cooperar para que chegue ao cumprimento efectivo, na realidade quotidiana da nossa vida, aquilo que o Espírito Santo empreendeu em nós com o Baptismo: com efeito, somos chamados a tornar-nos homens e mulheres novos, para podermos ser verdadeiras testemunhas do Ressuscitado e, deste modo, portadores da glória e da esperança cristã no mundo, concretamente naquela comunidade de homens e de mulheres em cujo contexto vivemos. E assim, desta mensagem fundamental da Ressurreição, presente em nós e nas acções quotidianas, chego ao tema do serviço da Igreja na Itália à Nação, à Europa e ao mundo.

A Itália de hoje apresenta-se-nos como um terreno profundamente necessitado e, ao mesmo tempo, favorável para tal testemunho. Profundamente necessitado, porque participa daquela cultura que predomina no Ocidente e que gostaria de apresentar-se como universal e auto-suficiente, gerando um novo estilo de vida. Daqui deriva uma nova onda de iluminismo e de laicismo, para a qual só seria racionalmente válido aquilo que é experimentável e calculável, enquanto no plano da prática a liberdade individual é erigida em valor fundamental ao qual todos os outros deveriam sujeitar-se. Assim Deus permanece excluído da cultura e da vida pública, e a fé nele torna-se mais difícil, também porque vivemos num mundo que se apresenta quase sempre como nossa obra, onde, por assim dizer, Deus já não aparece directamente e parece ter-se tornado supérfluo, aliás alheio. Em estreita relação com tudo isto, tem lugar uma redução radical do homem, considerado um simples produto da natureza, como tal não realmente livre e por si só susceptível de ser tratado como qualquer outro animal. Verifica-se assim uma autêntica inversão do ponto de partida desta cultura, que era uma reivindicação da centralidade do homem e da sua liberdade. Nesta mesma linha, a ética é reconduzida até aos confins do relativismo e do utilitarismo, com a exclusão de todo o princípio moral que seja válido e vinculante por si mesmo. Não é difícil ver como este tipo de cultura representa uma ruptura radical e profunda não só com o cristianismo, mas de modo mais geral com as tradições religiosas e morais da humanidade: portanto, não é capaz de instaurar um verdadeiro diálogo com as demais culturas, nas quais a dimensão religiosa está fortemente presente, além de não poder responder às interrogações fundamentais sobre o sentido e a direcção da nossa vida. Por isso, esta cultura caracteriza-se por uma profunda carência, mas também por uma grande e inutilmente escondida necessidade de esperança.

Porém, como eu dizia, a Itália constitui ao mesmo tempo um terreno muito favorável para o testemunho cristão. Com efeito, aqui a Igreja é uma realidade muito viva e vêmo-lo! que conserva uma presença profunda no meio das pessoas de todas as idades e condições. As tradições cristãs ainda estão com frequência arraigadas e continuam a dar fruto, enquanto está em acto um grande esforço de evangelização e catequese, dirigido em particular às novas gerações, mas hoje cada vez mais às famílias. Além disso, sente-se com crescente clareza a insuficiência de uma racionalidade fechada em si mesma e de uma ética demasiado individualista: de forma concreta, sente-se a gravidade do risco de se desapegar das raízes cristãs da nossa civilização. Esta sensação, que está difundida no povo italiano, é formulada expressamente e com vigor por parte de muitos e importantes homens de cultura, também entre aqueles que não compartilham ou pelo menos não praticam a nossa fé. Por conseguinte, a Igreja e os católicos italianos são chamados a aproveitar esta grande oportunidade e em primeiro lugar a estar conscientes da mesma. Portanto, a nossa atitude nunca deverá ser a de um fechamento renunciatário em nós mesmos: pelo contrário, é necessário manter vivo e, se possível, incrementar o nosso dinamismo; é preciso abrir-se com confiança a novas relações, sem descuidar qualquer das energias que podem contribuir para o crescimento cultural e moral da Itália. Efectivamente, cabe-nos a nós não com os nossos pobres recursos, mas com a força que vem do Espírito Santo dar respostas positivas e convincentes às expectativas e às interrogações do nosso povo: se soubermos fazê-lo, a Igreja na Itália prestará um grande serviço não somente a esta Nação, mas também à Europa e ao mundo, porque a insídia do secularismo está presente em toda a parte e é igualmente universal a necessidade de uma fé vivida em relação aos desafios do nosso tempo.

Amados irmãos e irmãs, agora devemos perguntar-nos como, e com que base, cumprir esta tarefa. Neste Congresso julgastes, justamente, que é indispensável dar ao testemunho cristão conteúdos concretos e praticáveis, examinando como ela pode actuar-se e desenvolver-se em cada um destes grandes âmbitos em que se desenrola a experiência humana. Assim, seremos ajudados a não perder de vista na nossa acção pastoral a ligação entre a fé e a vida quotidiana, entre a proposta do Evangelho e aquelas preocupações e aspirações que estão mais a peito das pessoas. Por isso, nestes dias reflectistes sobre a vida afectiva e a família, sobre o trabalho e a festa, sobre a educação e a cultura, sobre as condições de pobreza e de enfermidade, sobre os deveres e as responsabilidades da vida social e política.

Quanto a mim, gostaria de sublinhar como, através deste testemunho multiforme, deve emergir sobretudo aquele grande "sim" que em Jesus Cristo Deus deu ao homem e à sua vida, ao amor humano, à nossa liberdade e à nossa inteligência; como, portanto, a fé em Deus com rosto humano traga alegria ao mundo. De facto, o cristianismo está aberto a tudo aquilo que de justo, verdadeiro e puro existe nas culturas e nas civilizações, àquilo que alegra, consola e fortalece a nossa existência. Na Carta aos Filipenses, São Paulo escreveu: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende tudo isto em mente" (4, 8). Portanto, os discípulos de Cristo reconhecem e acolhem de bom grado os autênticos valores da cultura do nosso tempo, como o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico, os direitos do homem, a liberdade religiosa e a democracia. Porém, não ignoram nem subestimam a perigosa fragilidade da natureza humana, que é uma ameaça para o caminho do homem em todos os contextos históricos; em particular, não descuidam as tensões interiores nem as contradições da nossa época. Por isso, a obra de evangelização nunca é uma simples adaptação às culturas, mas constitui sempre também uma purificação, uma ruptura corajosa que se torna amadurecimento e purificação, uma abertura que permite o nascimento daquela "nova criação" (2 Cor 5, 17; Gl 6, 15), que é o fruto do Espírito Santo.

Como escrevi na Encíclica Deus caritas est, no início do ser cristão e portanto na origem do nosso testemunho de crentes não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com a Pessoa de Jesus Cristo, "que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" (n. 1).

A fecundidade deste encontro manifesta-se, de maneira peculiar e criativa, em primeiro lugar em relação à razão que deu vida às ciências modernas e às relativas tecnologias. Com efeito, uma característica fundamental destas últimas é o recurso sistemático aos instrumentos da matemática para poder actuar com a natureza e pôr ao nosso serviço as suas imensas energias. A matemática como tal é uma criação da nossa inteligência: a correspondência entre as suas estruturas e as estruturas reais do universo que é o pressuposto de todos os modernos desenvolvimentos científicos tecnológicos, já expressamente formulados por Galileu Galilei com a célebre afirmação que o livro da natureza está escrito em linguagem matemática suscita a nossa admiração e levanta uma grande interrogação. De facto, implica que o próprio universo seja estruturado de maneira inteligente, de modo que exista uma profunda correspondência entre a nossa razão subjectiva e a razão objectivada na natureza. Então, torna-se inevitável perguntar se não deve existir uma única inteligência originária, que é a fonte comum de uma e da outra. Assim, precisamente a reflexão sobre o desenvolvimento das ciências conduz-nos rumo ao Logos criador. Inverte-se a tendência a dar o primado ao irracional, ao acaso e à necessidade, a orientar para ele também a nossa inteligência e a nossa liberdade. Com estas bases torna-se também de novo possível ampliar os espaços da nossa racionalidade, reabri-la às grandes questões da verdade e do bem, unir entre si a teologia, a filosofia e as ciências, no pleno respeito pelos seus próprios métodos e pela sua autonomia recíproca, mas também na consciência da unidade intrínseca que as conserva unidas.

Trata-se de uma tarefa que está à nossa frente, de uma aventura fascinante em que vale a pena comprometer-se, para dar um novo impulso à cultura do nosso tempo e para restituir nela a plena cidadania à fé cristã. Em vista desta finalidade, o "projecto cultural" da Igreja na Itália, é sem dúvida, uma feliz intuição e uma contribuição muito importante.

A pessoa humana não é, por outro lado, somente razão e inteligência, que todavia são os seus elementos constitutivos. Ela traz dentro de si, inscrita no mais profundo do seu ser, a necessidade de amor, de ser amada e, por sua vez, de amar. Por isso, interroga-se e muitas vezes confunde-se diante das tribulações da vida, do mal que existe no mundo e que parece tão forte e, ao mesmo tempo, radicalmente sem sentido. Em particular na nossa época, apesar de todos os progressos alcançados, o mal não está de modo algum derrotado; ao contrário, o seu poder parece revigorar-se, e todas as tentativas de o esconder são depressa desmascaradas, como demonstram tanto a experiência quotidiana como as grandes vicissitudes históricas. Portanto, volta com insistência a pergunta se na nossa vida pode existir um espaço seguro para o amor autêntico e, em última análise, se o mundo é verdadeiramente a obra da sabedoria de Deus. Aqui, muito mais do que qualquer raciocínio humano, somos socorridos pela extraordinária novidade da revelação bíblica: o Criador do céu e da terra, o único Deus que é a fonte de todo o ser, este único "Logos" criador, esta razão criadora sabe amar pessoalmente o homem; aliás, ama-o de maneira apaixonada e, por sua vez, quer ser amado. Por isso esta razão criadora, que é ao mesmo tempo amor, dá vida a uma história de amor com Israel, o seu povo, e nesta vicissitude, diante das traições do povo, o seu amor mostra-se rico de fidelidade e misericórdia inesgotáveis, é o amor que perdoa para além de todo o limite. Em Jesus Cristo, tal atitude alcança a sua forma extrema, inaudita e dramática: com efeito, nele Deus faz-se um de nós, nosso irmão em humanidade, e chega mesmo a sacrificar a sua vida por nós. Portanto, na morte na cruz aparentemente, o maior mal da história cumpre-se "aquele virar-se de Deus contra si próprio, com o qual Ele se entrega para levantar o homem e salvá-lo o amor na sua forma mais radical", em que se manifesta o que significa que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8) e compreende-se também como deve definir-se o amor autêntico (cf. Deus caritas est, nn. 9-10 e 12).

Precisamente porque nos ama de verdade, Deus respeita e salva a nossa liberdade. Ao poder do mal e do pecado não opõe um poder maior mas como nos disse o nosso amado Papa João Paulo II, na Encíclica Dives in misericordia e, por último, no livro Memória e Identidade, o seu testamento espiritual prefere pôr o limite da sua paciência e da sua misericórdia, aquele limite que é, de modo concreto, o sofrimento do Filho de Deus. Assim, também o nosso sofrimento é transformado a partir de dentro, é introduzido na dimensão do amor e encerra uma promessa de salvação.

Estimados irmãos e irmãs, em tudo isto João Paulo II não só pensou e nem sequer só acreditou com uma fé abstracta: ele compreendeu-o e viveu-o com uma fé amadurecida no sofrimento. Ao longo deste caminho, como Igreja, somos chamados a segui-lo no mundo e na medida que Deus dispõe para cada um de nós. Justamente, a cruz assusta-nos, como causou medo e angústia a Jesus Cristo (cf. Mc 14, 33-36): porém, ela não é negação da vida, da qual para ser fiel é necessário libertar-se. Ao contrário, é o "sim" extremo de Deus ao homem, a expressão suprema do seu amor e a nascente da vida plena e perfeita: por conseguinte, contém o convite mais convincente a seguir Cristo pelo caminho do dom de si. Aqui, é-me grato dirigir um pensamento de especial afecto aos membros sofredores do corpo do Senhor: tanto na Itália como em toda a parte no mundo, eles completam na sua carne aquilo que falta aos padecimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) e assim contribuem da maneira mais eficaz para a salvação de todos. Eles são as testemunhas mais convincentes daquela alegria que provém de Deus e que incute a força de aceitar a cruz no amor e na perseverança.

Sabemos bem que esta opção da fé e do seguimento de Cristo nunca é fácil: ao contrário, é sempre contrastada e controversa. Portanto, a Igreja permanece como "sinal de contradição", no sulco do seu Mestre (cf. Lc 2, 34), também no nosso tempo. Mas nem por isso nos desencorajamos. Pelo contrário, devemos estar sempre prontos a responder (apo-logia) a quem quer que nos pergunte a razão (logos) da nossa esperança, como nos convida a fazer a primeira Carta de São Pedro (cf. 3, 15), que muito oportunamente escolhestes como guia bíblica para o caminho deste Congresso. Devemos responder "com mansidão e respeito, mantendo limpa a consciência" (3, 16), com aquela força dócil que provém da união com Cristo. Devemos fazê-lo plenamente, nos planos do pensamento e da acção, dos comportamentos pessoais e do testemunho público. A forte unidade que se realizou na Igreja dos primeiros séculos, entre uma fé amiga da inteligência e uma prática de vida caracterizada pelo amor recíproco e pela atenção cuidadosa aos pobres e aos sofredores, tornou possível a primeira grande expansão missionária do cristianismo no mundo helenista-romano. Assim tornou-se também sucessivamente, em vários contextos culturais e situações históricas. Este permanece o caminho principal para a evangelização: o Senhor nos oriente para vivermos esta unidade entre a verdade e o amor nas condições próprias do nosso tempo, para a evangelização da Itália e do mundo de hoje. Assim, chego a um ponto importante e fundamental, ou seja, a educação.

Concretamente, para que a experiência da fé e do amor cristão seja acolhida e vivida, e se transmita de uma geração a outra, uma questão fundamental e decisiva é a da educação da pessoa.

É preciso preocupar-se com a formação da sua inteligência, sem descuidar as da sua liberdade e capacidade de amar. E por isso é necessário o recurso também à ajuda da Graça. Só deste modo poderá contrastar-se eficazmente o risco para a sorte da família humana, que é constituído pelo desequilíbrio entre o crescimento tão rápido do nosso poder técnico e o crescimento muito mais cansativo dos nossos recursos morais. Uma educação verdadeira tem necessidade de despertar a coragem das decisões definitivas, que hoje são consideradas um vínculo que mortifica a nossa liberdade, mas na realidade são indispensáveis para crescer e alcançar algo de grande na vida, em particular para fazer amadurecer o amor em toda a sua beleza: portanto, para dar consistência e significado à própria liberdade. Desta solicitude pela pessoa humana e pela sua formação chegam os nossos "não" a formas frágeis e deturpadas de amor e às falsificações da liberdade, como também a redução da razão somente àquilo que é calculável e manipulável. Na verdade, estes "não" são sobretudo "sim" ao amor autêntico, à realidade do homem como foi criado por Deus.

Quero expressar aqui todo o meu apreço pelo grande trabalho formativo e educativo que as Igrejas individualmente não se cansam de realizar na Itália, pela sua atenção pastoral às novas gerações e às famílias: obrigado por esta atenção! Entre as múltiplas formas deste compromisso não posso deixar de recordar de maneira particular a escola católica, porque no que se lhe refere ainda subsistem, de certo modo, antigos preconceitos que geram atrasos prejudiciais, e não já justificáveis, ao reconhecer a sua função e permitir concretamente a sua actividade.

Jesus disse-nos que tudo o que fizéssemos aos seus irmãos mais pequeninos, teríamos feito a Ele (cf. Mt 25, 40). Por conseguinte, a autenticidade da nossa adesão a Cristo verifica-se especialmente no amor e na solicitude concreta pelos mais fracos e pobres, por aqueles que se encontram em maior perigo e em dificuldades mais graves. A Igreja na Itália tem uma grande tradição de proximidade, de ajuda e de solidariedade para com os necessitados, os enfermos e os marginalizados, que encontra a sua expressão mais alta numa maravilhosa série de "Santos da caridade". Esta tradição continua também hoje e responde às muitas formas de pobreza, morais e materiais, através da Cáritas, do voluntariado social, da obra frequentemente escondida de muitas paróquias, comunidades religiosas, associações e grupos, pessoas individualmente impelidas pelo amor a Cristo e aos irmãos. Além disso, a Igreja na Itália dá prova de uma extraordinária solidariedade para com as inúmeras multidões de pobres da terra. Portanto, é mais importante do que nunca que todos estes testemunhos de caridade conservem sempre alto e luminoso o seu perfil específico, alimentando-se de humildade e de confiança no Senhor, mantendo-se livres de sugestões ideológicas e de simpatias de partido, e sobretudo medindo o próprio olhar segundo o olhar de Cristo: então, a acção prática é importante, mas conta ainda mais a nossa participação pessoal nas necessidades e nos sofrimentos do próximo. Assim, queridos irmãos e irmãs, a caridade da Igreja torna visível o amor de Deus no mundo e assim torna convincente a nossa fé no Deus encarnado, crucificado e ressuscitado.

O vosso Congresso enfrentou justamente também o tema da cidadania, ou seja, as questões das responsabilidades civis e políticas dos católicos. Efectivamente, Cristo veio para salvar o homem real e concreto, que vive na história e na comunidade, e portanto o cristianismo e a Igreja tiveram desde o início uma dimensão e um valor também públicos. Como escrevi na Encíclica Deus caritas est (cf. nn. 28-29), aos relacionamentos entre religião e política Jesus Cristo ofereceu uma novidade substancial, que abriu o caminho para um mundo mais humano e mais livre, através da distinção e da autonomia recíproca entre o Estado e a Igreja, entre o que é de César e o que é de Deus (cf. Mt 22, 21). A própria liberdade religiosa, que sentimos como um valor universal, particularmente necessário no mundo de hoje, encontra aqui a sua raiz histórica. Portanto, a Igreja não é e não tenciona ser um agente político. Ao mesmo tempo, tem um profundo interesse pelo bem da comunidade política, cuja alma é a justiça, e oferece-lhe a um nível duplo a sua contribuição específica. De facto, a fé cristã purifica a razão e ajuda-a a ser melhor ela mesma: portanto, com a sua doutrina social, argumentada a partir daquilo que é conforme a natureza de cada ser humano, a Igreja contribui para fazer com que aquilo que é justo possa ser eficazmente reconhecido e em seguida também realizado. Com esta finalidade, são claramente indispensáveis as energias morais e espirituais, que permitem antepor as exigências da justiça aos interesses pessoais, ou de uma categoria social, ou até de um Estado: aqui apresenta-se de novo para a Igreja um espaço muito amplo, para arraigar estas energias nas consciências, alimentá-las e fortalecê-las. A tarefa imediata de agir no âmbito político, para construir uma ordem justa na sociedade, não pertence portanto à Igreja como tal, mas aos fiéis leigos, que agem como cidadãos sob a sua própria responsabilidade: trata-se de uma tarefa da maior importância, à qual os cristãos leigos italianos são chamados a dedicar-se com generosidade e coragem, iluminados pela fé e pelo magistério da Igreja e animados pela caridade de Cristo.

Hoje uma atenção especial e um compromisso extraordinário são exigidos daqueles grandes desafios em que vastas porções da família humana estão em maior perigo: as guerras e o terrorismo, a fome e a sede, e algumas epidemias terríveis. Mas é necessário também enfrentar, com iguais determinação e clareza de intenções, o risco de opções políticas e legislativas que contradizem valores fundamentais e princípios antropológicos e éticos radicados na natureza do ser humano, de modo particular no que se refere à tutela da vida humana em todas as suas fases, desde a concepção até à morte natural, e à promoção da família fundada no matrimónio, evitando introduzir no ordenamento público outras formas de união que contribuiriam para a desestabilizar, obscurecendo o seu carácter peculiar e o seu papel social insubstituível. O testemunho aberto e corajoso que a Igreja e os católicos italianos deram e estão a dar a este respeito constituem um serviço precioso à Itália, útil e estimulante também para muitas outras nações. Sem dúvida, este compromisso e este testemunho fazem parte daquele grande "sim" que, como crentes em Cristo, dizemos ao homem amado por Deus.

Amados irmãos e irmãs, as tarefas e as responsabilidades que este Congresso eclesial põe em evidência são, certamente, grandes e múltiplas. Por isso, somos estimulados a ter sempre presente o facto de que não carregamos o seu peso sozinhos: com efeito, sustentamo-nos uns aos outros e sobretudo é o próprio Senhor que nos orienta e sustém a frágil barca da Igreja. Assim, voltamos ao ponto de onde partimos: decisivo é o nosso estar unidos a Ele, e portanto entre nós, o estar com Ele para poder partir no seu nome (cf. Mc 3, 13-15). Por conseguinte, a nossa verdadeira força é alimentar-nos da sua palavra e do seu corpo, unir-nos à sua oferta por nós, como faremos na Celebração desta tarde, adorá-lo presente na Eucaristia: efectivamente, antes de qualquer actividade e de cada um dos nossos programas deve haver a adoração, que nos torna verdadeiramente livres e nos oferece os critérios para o nosso agir. Na união a Cristo precede-nos e guia-nos a Virgem Maria, tão amada e venerada em todas as regiões da Itália. Nela encontramos, pura e não deformada, a verdadeira essência da Igreja e assim, através dela, aprendemos a conhecer e a amar o mistério da Igreja que vive na história, sentimo-nos até ao fundo como uma parte dela, tornamo-nos por nossa vez "almas eclesiais", aprendemos a resistir àquela"secularização interna" que ameaça a Igreja do nosso tempo, como consequência dos processos de secularização que assinalaram profundamente a civilização europeia.

Dilectos irmãos e irmãs, elevemos juntos ao Senhor a nossa oração, humilde mas repleta de confiança, a fim de que a comunidade católica italiana, inserida na comunhão viva da Igreja de todos os lugares e de todos os tempos, e estreitamente unida em redor dos seus Bispos, traga com renovado impulso a esta amada Nação, e a todos os recantos da terra, o alegre testemunho de Jesus Cristo, esperança da Itália e do mundo.

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novembro 12, 2006

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (VI)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, foi publicado em várias partes, ao longo da última semana. Esta é a última parte. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

(...)

Direitos e deveres das pessoas e dos grupos

14. O Compêndio vincula os direitos aos correspondentes deveres. Existe reciprocidade entre direitos e deveres na mesma pessoa e na relação com as outras pessoas. Da profunda correlação entre direitos e deveres emerge uma dupla linha de acção.

a) A primeira diz respeito à pessoa individual em si mesma e evidencia os deveres para consigo mesma. Quando o sujeito dos direitos, observando a natureza do seu próprio ser, toma consciência da sua exigibilidade descobre também a exigência moral de primeiro comprometer-se com o fim de conseguir o bem tutelado pelos direitos. É assim que o o direito de todo o ser humano à existência se vê vinculado com o dever de conservar a vida; o direito a ter uma vida digna, com o dever de viver dignamente; o direito da liberdade em busca da verdade, com o dever de procurar a verdade.

b) A segunda linha de acção, pelo contrário, diz respeito mais directamente às relações sociais e põe em evidência o dever de respeitar os direitos dos demais. Todo o direito natural numa pessoa comporta o respectivo dever em todas as demais: o dever de reconhecer e respeitar esse direito.Na base do reconhecimento do outro como igual a mim, isto é, dotado da mesma dignidade, devo reconhecer também que os direitos que me pertencem também são direitos do outro.

15. A reflexão sobre a estrutura relacional das pessoas leva necessariamente ao reconhecimento dos direitos e deveres inerentes à família, aos grupos humanos intermédios, às comunidades religiosas, às Nações, às comunidades políticas, aos povos, à humanidade pensada como família. A concepção do homem enquanto pessoa conduz também ao reconhecimento de direitos e deveres inerentes a bens relacionais, isto é, a bens que pertencem a uma comunidade humana inteira e que se podem conseguir com a colaboração de todos, como a paz, o ambiente natural e a ecologia humana. Existe uma dimensão colectiva de direitos e de deveres que deve encontrar tradução adequada nos ordenamentos jurídicos nacionais e internacionais.

A Igreja defende em particular os direitos da família como sujeito colectivo. Expressão emblemática deste compromisso em favor da família, fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, é a Carta dos Direitos da Família promulgada pela Santa Sé. Este documento constitui um ponto de referência válido para salvaguardar e promover a família como sociedade natural e universal, sujeito de direitos e deveres anterior ao Estado; sujeito social e político, que deve crescer na consciência de ser cada vez mais protagonista das chamadas "políticas familiares", assumindo a sua responsabilidade de transformar a sociedade.

O Compromisso da Igreja

16. A Igreja, consciente de como a sua missão essencialmente religiosa inclui a defesa e promoção dos direitos fundamentais do homem, aprecia muito o dinamismo com o qual nos nossos dias os direitos humanos são promovidos em todas as partes. Enquanto realiza a sua acção educativa das consciências, a Igreja torna mais eficaz o seu compromisso pastoral mediante o testemunho ecuménico, a colaboração sincera com os organismos governamentais e não governamentais que, a nível nacional e internacional, ajudam a defender e promover os direitos do homem. Ela confia sobretudo na ajuda do Senhor e do seu Espírito que, derramado nos corações, é a garantia mais segura para a realização da justiça e dos direitos, e portanto da paz: sómente o amor e a misericórdia dão em plenitude ao homem o que lhes é devido conforme a sua dignidade.

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (V)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, será publicado em várias partes, ao longo dos próximos dias. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

(...)

A igualdade dos direitos e a opção pelos pobres

12. O Compêndio afirma que a dignidade igual das pessoas impõe a igualdade no exercício dos direitos. Na sua potencialidade, estes são idênticos para todos os homens; todos são titulares dos mesmos direitos, pelo que nenhuma pessoa pode reivindicar uma superioridade sobre as demais, por causa dos direitos. Como todos os seres humanos são fundamentalmente iguais, assim também o património dos direitos é igual em toda a pessoa e em todas as pessoas. Os direitos, portanto, são universais, estão presentes em todos os seres humanos, sem excepção alguma de pessoa, lugar e tempo.

Efectivamente, os direitos fundamentais pertencem ao ser humano enquanto pessoa, a toda a pessoa e a todas as pessoas, homens ou mulheres, ricos ou pobres, sãos ou enfermos.

A igualdade do seres humanos e a sua dignidade transcendente, exige também a inviolabilidade dos direitos; o que pretendo para mim, não posso deixar de reconhecê-lo para qualquer outro na mesma situação. O que posso exigir ao outro em nome dos meus direitos, também o posso exigir para a outra pessoa em nome dos seus direitos, ainda mais quando essa pessoa não está em condições de articular tal exigência, como por exemplo um doente mental grave ou um bébé ainda não nascido.

13. Impulsionado pela consideração da dignidade comum, que supera toda a diferença e une todos os seres humanos unificando-os numa só família, o Compêndio estigmatiza toda a forma de discriminação perpetrada em nome da raça, da etnia, do sexo, da condição social ou da religião. A dignididade igual das pessoas requere que não existam discriminações injustas nos direitos fundamentais, em qualquer âmbito, tanto social como cultural; pede que se chegue a uma condição mais humana e justa da vida, eliminando de entre os membros e povos da única família humana as muitas desigualdades e injustiças.

Considerando a dignidade de todo o homem e a igualdade dos seus direitos, pode-se compreender melhor o conjunto de razões que sustentam a opção preferencial da Igreja pelos pobres. O Filho de Deus encarnou e ofereceu a sua vida pela nossa redenção; uniu-se de certo modo com cada homem para que este amadureça em plenitude como pessoa. Por causa da Encarnação, a Igreja dedica-se à causa do homem e proclama os direitos humanos, especialmente os dos mais pobres.

Deste modo a Igreja dá testemunho da dignidade do homem. Esta afirma claramente que o homem vale pelo que é, não pelo que tem. Testemunha que a dignidade humana não pode ser destruída, qualquer que seja a condição de miséria, desprezo, margnalidade, doença, a que um homem pode encontrar-se reduzido. A opção preferencial pelos pobres, longe de ser um sinal de particularismo ou sectarismo, postula e reivindica a dignidade igual de todos os homens e contribui para reintegrar o pobre na fraternidade humana e na comunidade dos filhos de Deus.

(...)

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Próxima parte do discurso do Cardeal Martino - Direitos e deveres das pessoas e dos grupos

novembro 11, 2006

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (IV)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, será publicado em várias partes, ao longo dos próximos dias. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

(...)

Indivisibilidade e Diversibilidade dos Direitos [Humanos]

9. Na perspectiva própria do Compêndio, os diversos direitos devem reflectir a unidade estrutural da pessoa, pela qual os direitos do espírito, "os direitos objectivos do espírito", assumem uma relevância particular. Com efeito, à luz dos valores espirituais e da relação com Deus, são definidos plenamente o significado da existência, tanto no âmbito pessoal como no social, assim como o modo de servir-se dos bens terrenos e materiais. Esta é a razão fundamental pela qual é necessário tutelar o direito à liberdade religiosa, que representa a fonte e síntese dos direitos humanos, o seu verdadeiro "coração".

Por um lado, este direito pode considerar-se fonte dos demais direitos porque a pessoa humana, na sua abertura a Deus e em comunicação com Ele, realiza e acrescenta - da forma mais elevada - a sua liberdade e a sua responsabilidade, isto é, a dignidade que é o fundamento mesmo dos direitos. Por outro lado, a liberdade religiosa expressa uma síntese dos demais direitos humanos, enquanto possibilita ao homem dar o sentido integral e último a toda a sua vida e orientá-la.

10. O Compêndio compreende outra distinção entre os direitos, que individualiza na base a sua importância com relação à existência e ao crescimento da pessoa. Nesta distinção está, sobretudo, o direito à vida, desde a sua concepção até ao seu final, um direito primordial com respeito aos outros, porque é uma condição para o seu exercício.

Vinculados com este direito originário estão o direito à integridade física, o direito aos meios indispensáveis e suficientes para ter uma vida digna, o direito à segurança, o direito à liberdade de pensamento, e consciência e de religião.

O direito ao desenvolvimento integral e o direito ao uso dos bens que especificam o direito à vida,são prioritários com respeito a todos os outros direitos, incluindo o direito à propriedade. O que quer dizer que a actuação prática destes últimos não deve contradizer a realização do destino universal dos bens e deve ser uma concretização particular do direito ao uso dos bens.

11. As culturas marcadas pelo eficientismo, o materialismo prático, o individualismo utilitarista e hedonista, derivadas em última análise do cepticismo nos fundamentos do saber e da ética, põem em perigo o corpus inteiro dos direitos. Na base de culturas semelhantes - que não têm mais uma visão integral do homem como ponto de referência - a mesma tutela jurídica dos direitos se põe radicalmente em discussão e esvazia-se de conteúdo.

Devemos estar muito conscientes de que o reconhecimento parcial dos direitos, para o qual induzem antropologias desadequadas, compromete o destino das democracias contemporâneas. Por isso, o respeito da verdade integral do homem torna-se um imperativo moral para a cultura democrática do nosso tempo, na qual se difundiu a opinião de que o ordenamento jurídico da uma sociedade deveria limitar-se a registar e receber as convicções da maioria. O reconhecimento do fundamento objectivo dos direitos da pessoa pode evitar às comunidades políticas o perigo de cairem numa praxis de poder ou numa contigência de uma consciência puramente histórica, com pactos sociais dependentes unicamente do critério da unanimidade, da neutralidade e da máxima utilidade colectiva.

(...)

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Próxima parte do discurso do Cardeal Martino - A igualdade dos direitos e a opção pelos pobres

novembro 10, 2006

Destaques do serviço diário da agência de informação Zenit - 10 de Novembro de 2006

As notícias do serviço diário da agência de informações Zenit podem ser consultadas em zenit.org.

--- Santa Sé ---
Secularização é um «desafio providencial» para a Igreja na Alemanha, diz Papa
Presidente do Chipre mostra ao Papa fotos de igrejas destruídas por turcos
O Papa fala com bispos suíços sobre «problemas doutrinais e pastorais»
Causa de beatificação do «Papa do sorriso», João Paulo I, já segue para Roma
A luta contra a fome exige fazer do necessitado protagonista

--- Mundo ---
Portugueses despedem-se de missionária assassinada em Moçambique
Ano jubilar pelo 25º aniversário das aparições marianas em Ruanda
Judeus e católicos pedem maior atenção para os enfermos de aids

--- Espiritualidade ---
A vida não termina, «transforma-se»: pregador do Papa fala da existência no céu

--- Documentação ---
Bento XVI: Os santos, «amigos e modelos de vida»

A reprodução dos serviço de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

Bernardo Motta e Pio XII

Recomendo aos interessados na história de Pio XII os excelentes posts que estão a ser publicados por Bernardo Motta no blogue http://espectadores.blogspot.com.

novembro 07, 2006

Possibilidades e limites da ciência, segundo Bento XVI - Discurso aos membros da Academia Pontifícia das Ciências

Notícia da agência de informação Zenit publicada em 6 de Novembro de 2006. Republicação autorizada pelo editor.

Código: ZP06110621

Data de publicação: 2006-11-06

Possibilidades e limites da ciência, segundo Bento XVI

Discurso aos membros da Academia Pontifícia das Ciências

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 6 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI pronunciou nesta segunda-feira aos membros da Academia Pontifícia das Ciências, reunidos em Roma por ocasião de sua assembléia plenária celebrada sobre o tema: «A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações».

* * *

Excelências, senhores e senhoras:

Saúdo com muito prazer os membros da Academia Pontifícia das Ciências por ocasião desta assembléia plenária e agradeço ao professor Nicola Cabibbo pelas gentis palavras que me dirigiu em vosso nome. O tema de vosso encontro, «A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações», constitui uma característica distintiva da ciência moderna. A possibilidade de predição, de fato, é uma das razões principais do prestígio de que goza a ciência na sociedade contemporânea. A instituição do método científico deu às ciências a capacidade de prever os fenômenos, de estudar seu desenvolvimento e, portanto, de controlar o ambiente no qual o ser humano vive.

O crescente «avanço» da ciência, e especialmente sua capacidade para controlar a natureza através da tecnologia, em certas ocasiões foi associado a uma correspondente «retirada» da filosofia, da religião e inclusive da fé cristã. De fato, alguns viram no progresso da ciência e da tecnologia modernas uma das principais causas de secularização e materialismo: por que invocar o domínio de Deus sobre esses fenômenos, quando a ciência mostrou sua própria capacidade de fazer o mesmo?

Certamente a Igreja reconhece que o homem, «graças à ciência e à tecnologia, conseguiu dilatar e continua dilatando o campo de seu domínio sobre quase toda a natureza», de maneira que «um grande número de bens que antes o homem esperava alcançar sobretudo das forças superiores, hoje obtém por si mesmo» (Gaudium et spes, n. 33). Ao mesmo tempo, o cristianismo não propõe um conflito inevitável entre a fé sobrenatural e o progresso científico. O ponto de partida da revelação bíblica é a afirmação de que Deus criou os seres humanos dotados de razão, e os pôs acima de todas as criaturas da terra. Deste modo, o homem se converteu em quem administra a criação e no «ajudante» de Deus. Se pensarmos, por exemplo, na maneira em que a ciência moderna contribuiu para a proteção do ambiente, prevendo os fenômenos naturais, o progresso dos países em vias de desenvolvimento, a luta contra as epidemias e o aumento da expectativa de vida, fica claro que não há conflito entre a Providência de Deus e a ação do homem. De fato, poderíamos dizer que o trabalho de prever, controlar e governar a natureza, que a ciência faz hoje mais factível que no passado, faz parte em si mesmo do plano do Criador.

Contudo, a ciência, ainda que generosa, só dá o que tem de dar. O ser humano não pode depositar na ciência e na tecnologia uma confiança tão radical e incondicional, como para crer que o progresso da ciência e da tecnologia pode explicar tudo e satisfazer plenamente suas necessidades existenciais e espirituais. A ciência não pode substituir a filosofia e a revelação, dando uma resposta exaustiva às questões fundamentais do homem, como as que concernem ao sentido da vida e da morte, aos valores últimos e à natureza do progresso.

Por este motivo, o Concílio Vaticano II, após ter reconhecido os benefícios alcançados pelos progressos científicos, sublinhou que «o método de investigação [...] se considera sem razão como a regra suprema para encontrar toda a verdade», acrescentando que se dá «o perigo de que o homem, confiado com excesso nos inventos atuais, creia que basta a si mesmo e deixe de buscar já coisas mais altas» (Ibidem, n. 57).

A possibilidade de predição científica suscita também a questão das responsabilidades éticas do cientista. Suas conclusões têm de estar guiadas pelo respeito da verdade e pelo reconhecimento honesto, tanto da precisão como das inevitáveis limitações do método científico. Certamente, isso significa evitar desnecessariamente predições alarmantes quando não estão sustentadas por dados suficientes ou ultrapassam a capacidade atual da ciência para fazer previsões. Ao mesmo tempo, deve-se evitar o contrário, ou seja, calar, por temor, frente aos autênticos problemas. A influência dos cientistas na formação da opinião pública em virtude e seu conhecimento é muito importante como para ser socavada por uma indevida precipitação ou por uma publicidade superficial.

Como meu predecessor, o Papa João Paulo II, observou em uma ocasião: «Por isso os cientistas, precisamente porque “sabem mais”, estão chamados a “servir mais”. Dado que a liberdade de que gozam na pesquisa lhes permite o acesso ao conhecimento especializado, eles têm a responsabilidade de usá-lo sabiamente em benefício de toda a família humana» (Discurso à Academia Pontifícia das Ciências, 11 de novembro de 2002).

Queridos acadêmicos, nosso mundo olha para vós e para vossos colegas para compreender claramente algumas das possíveis conseqüências de muitos fenômenos naturais. Penso, por exemplo, nas constantes ameaças ao meio ambiente que afetam populações inteiras e na necessidade urgente de descobrir fontes alternativas de energia, seguras e disponíveis para todos. Os cientistas encontrarão ajuda na Igreja na hora de enfrentar estes temas, porque ela recebeu de seu divino Fundador a tarefa de encaminhar as consciências para o bem, para a solidariedade e para a paz. Precisamente por este motivo considera que tem o dever de insistir em que a capacidade científica de controle e previsão não se deve empregar jamais contra a vida e a dignidade do ser humano, mas que deve pôr-se sempre a seu serviço e ao das gerações futuras.

Há, por último, uma reflexão que o tema de vossa assembléia pode nos sugerir hoje. Como sublinharam algumas das relações apresentadas nos últimos dias, o próprio método científico, em sua capacidade de reunir os dados, elaborá-los e utilizá-los em suas projeções, tem limites próprios que restringem necessariamente a possibilidade de predição científica em determinados contextos e aspectos. A ciência, portanto, não pode querer proporcionar uma representação completa e determinista de nosso futuro e do desenvolvimento de cada fenômeno que estuda.

A Filosofia e a teologia poderiam oferecer, neste sentido, uma contribuição importante a esta questão fundamentalmente epistemológica, ajudando, por exemplo, as ciências empíricas a reconhecer a diferença entre a incapacidade matemática para predizer certos acontecimentos e a validade do princípio de causalidade, ou entre o determinismo ou a contingência (casualidade) científicos e a causalidade no âmbito filosófico, ou mais radicalmente, entre a evolução como a origem de uma sucessão no espaço e no tempo, e a criação como a origem última do ser participado no Ser essencial.

Ao mesmo tempo, há um nível mais elevado que necessariamente supera todas as predições científicas, ou seja, o mundo humano da liberdade e da história. Enquanto o cosmos físico pode ter seu próprio desenvolvimento espaço-temporal, só a humanidade, em sentido próprio, tem uma história, a história de sua liberdade. A liberdade, como a razão, é uma parte preciosa da imagem de Deus dentro de nós, e nunca poderá ficar reduzida a uma análise determinista. Sua transcendência com relação ao mundo material tem de ser reconhecida e respeitada, pois é um sinal de nossa identidade humana. Negar esta transcendência em nome de uma suposta capacidade absoluta do método científico de prever e condicionar o mundo humano implicará a perda do que é humano no homem e, ao não reconhecer sua unicidade e sua transcendência, poderia abrir perigosamente as portas a seu abuso.

Queridos amigos, ao concluir estas reflexões, asseguro-vos uma vez mais meu profundo interesse pela atividade desta Academia Pontifícia e minhas orações por vós e por vossas famílias. Invoco sobre todos vós as bênçãos da sabedoria, a alegria e a paz de Deus onipotente.

[Traduzido por Zenit.
© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana]

A reprodução dos serviços de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

Destaques do serviço diário da agência de informação Zenit

As notícias do serviço diário de 7 de Novembro da agência de informações Zenit podem ser consultadas em zenit.org

--- Santa Sé ---

1. Papa compra primeira obrigação do Fundo Financeiro Internacional para a Vacina
2. Ante secularização, Papa exorta pastores a serem fiéis aos ensinamentos da Igreja
3. Bento XVI pede aos sacerdotes não abusar da absolvição coletiva
4. Papa felicita diocese queniana de Kitui em suas «bodas de ouro»

--- Mundo ---

1. Jesuítas lamentam «perda irreparável» de missionários em Moçambique
2. Conferência episcopal brasileira altera data da 45ª Assembléia Geral
3. Cardeal Cipriani inaugura Primeiro Congresso Teológico Internacional em Callao
4. Madri anuncia início da Semana da Juventude com mensagens SMS
5. Jornada Mundial da Juventude: Igreja busca os jovens na Austrália
6. Episcopado equatoriano: chamado para impedir a entrada em vigor de lei pró-aborto
7. Aberto processo diocesano para beatificação de Magdalena Aulina
8. Dioceses de Callao e Gagnoa choram pelo assassinato de um sacerdote na Costa do Marfim

--- Documentação ---

1. Bento XVI: Reconstruir a confiança após escândalos de sacerdotes

A reprodução dos serviço de ZENIT necessitam da permissão expressa do editor.

novembro 06, 2006

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (III)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, será publicado em várias partes, ao longo dos próximos dias. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

(...)

O fundamento dos Direitos

6. A primeira grande questão que o Compêndio aborda na matéria dos direitos humanos está relacionada com o seu fundamento teológico e ético, questão que é tratada especificamente no n. 153 onde se afirma que "a raíz dos direitos humanos do homem deve-se procurar na dignidade que pertence a todo o ser humano. Esta dignidade, co-natural à vida humanal e igual em todas as pessoas, descobre-se e compreende-se, antes de tudo, com a razão. O fundamento natural dos direitos aparece ainda mais sólido assim, à luz da fé, se considera que a dignidade humana, depois de ter sido outorgada por Deus e ferida profundamente pelo pecado, foi assumida e redimida por Jesus Cristo mediante a sua encarnação, morte e ressurreição."

O homem fez-se filho de Deus no Filho Unigénito. A sua capacidade de procurar e encontrar a verdade e o bem está enriquecida e sustentada pela abertura à Verdade e ao Bem absolutos de Jesus Cristo, ao seu Espírito de amor, à sua comunicação com Deus. A dignidade humana que é igual em todas as pessoas é, por isso, a razão última pela qual os direitos podem ser reivindicados com maior força para si mesmo e para os outros. Todos os seres humanos podem legitimamente reivindicá-los, antes de tudo porque são filhos e um mesmo e único Pai, seja qual for a sua etnia, racial ou cultural.

7. Na visão católica, por isso, uma correcta interpretação e uma tutela eficaz dos direitos, dependem de uma antropologia que abarca todas as dimensões constituitivas da pessoa humana. Nesta óptica, a tendência - favorecida hoje com vários pretextos - de se entender os direitos unicamente como instrumentos que tutelam a esfera de autonomia do indivíduo em relação ao Estado, tem de se entender como um desvio. Pelo contrário, o conjunto dos direitos do homem deve corresponder à substância da dignidade da pessoa. Estes devem referir-se à satisfação das suas necessidades essenciais, ao exercício das suas liberdades, às suas relações com as demais pessoas e com Deus.

A referência à pessoa humana, ao seu ser integral, obriga a individualizar a fonte última dos direitos humanos - mais para além da mera vontade dos seres humanos, da realidade estatal e dos poderes públicos mundiais - no homem e em Deus seu Criador. Os direitos, pertencendo originaria e intrinsecamente às pessoas, são por isso naturais e inalianáveis. Isto exclui que possam ser adquiridos por iniciativa própria ou de outros, ou que possam ser conferidos ou colocados de um modo externo.

8. Isto não significa, de modo algum, considerar o sujeito dos direitos fora da dimensão política ou dimimuir o papel dos Estados no que respeita aos direitos humanos. Estes direitos pressupõem, com efeito, uma ordem política - nacional e internacional - que tem o dever de reconhecê-los, respeitá-los, tutelá-los e promovê-los. É neste contexto que os direitos são juridicamente reivindicáveis: o seu enquadramento no direito constitucional é a via normal para que sejam definidos os seus conteúdos reais e se tornem exigíveis de forma concreta.

Este processo põe em evidência a importância da consciência social para a afirmação, defesa e promoção dos direitos humanos. Dado que estes direitos representam valores morais fundamentais e universais, a consciência social não pode deixar de reconhecê-los e acolhê-los. Não se pode esquecer, porém, que esta consciência, como a razão, não tem capacidade de penetrar toda a verdade nem de formular um juízo sempre exacto, isento de erro. A tradução e especificação dos direitos nos diversos ordenamentos jurídicos, com efeito, não é sempre perfeita. A distância efectiva entre a sua institucionalização e a sua existência originária na pessoa só poderá ser reduzida através de novas compreensões e mediações históricas. Estas encontram o seu vigor moral na referência à verdade integral da pessoa, à luz da qual se podem discernir os direitos verdadeiros dos fictícios e julgar as suas diversas formulações e actuações como conformes, ou não, à dignidade humana. É necessário por isso ajustar e educar a consciência para perceber os valores fundamentais, reforçá-la assim para torná-la livre de influências e condicionamentos negativos e de qualquer forma de distorsão da verdade.

(...)

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Próxima parte do discurso do Cardeal Martino - Indivisibilidade e diversidade dos direitos

novembro 05, 2006

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (II)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, será publicado em várias partes, ao longo dos próximos dias. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

(...)

Direitos Humanos: Uma perspectiva histórica

5. Em matéria de direitos humanos, o Magistério social tem oferecido contribuições bastante importantes, contribuições utilissimas para orientar o itinerário dos católicos numa direcção que seja plenamente respeitadora da dignidade e da verdade plena da pessoa humana. Da consideração atenta destas contribuições magisteriais, orgânicamente expostas no Compêndio, pode-se facilmente insistir na consciência de que, através da história da Igreja, existe uma larga tradição cristã dos direitos da pessoa. A esse respeito, como não recordar Frei Bartolomé de Las Casas e ainda Francisco de Vitoria, que elaboraram "uma doutrina actualizada sobre a pessoa e os seus direitos fundamentais".

O itinerário histórico da tradição cristã dos direitos humanos não tem sido um itinerário pacífico. Com efeito, por parte do Magistério têm existido também muitas reservas e condenações frontais da afirmação dos direitos humanos na linha da revolução francesa; mas estas reservas, manifestadas repetidamente pelos Papas, especialmente no século XIX, deviam-se ao facto destes direitos se propôrem e afirmarem contra a liberdade da Igreja, numa perspectiva inspirada pelo liberalismo e pelo laicismo. O individualismo dominante fazia com que a reivindicação dos direitos do homem se transformasse em afirmação dos direitos do indíviduo mais do que da pessoa, isto é, do ser humano subtraído da sua dimensão social e privado da transcêndencia. Tal é a imagem do homem considerado como a medida de todas as coisas, criador absoluto da lei moral, consignado a um destino de pura imanência. Todavia, o Magistério apreciou de um modo substancialmente positivo a Declaração Universal dos Direitos do Homem adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948.

(...)

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Próxima parte do discurso do Cardeal Martino - O fundamento dos Direitos Humanos

novembro 04, 2006

Cardeal Martino: os direitos humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal (I)

No dia 2 de Novembro, durante a XL Semana Social, realizada em Toledo, entre 2 e 5 de Novembro, o Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio "Justiça e Paz", abordou o tema dos direitos humanos. Dado o objectivo central deste blogue, divulgar a doutrina da Igreja Católica, publicamos, traduzido para português, o discurso do Cardeal Martino. Devido à sua extensão, será publicado em várias partes, ao longo dos próximos dias. O link para o discurso é: http://www.semanassociales.es/100/renato.htm.

Os Direitos Humanos, fundamento para a construção de uma cultura universal

Cardeal Rafael Martino, Presidente do Conselho Pontíficio para a Justiça e Paz

Toledo, 2 de Novembro de 2006

Premissa

(...)

3. Antes de abordar o tema dos direitos humanos, parece-me importante e necessário ter plena consciência que estes, no momento presente, se inscrevem dentro de uma problemática mais ampla: considero que o centro desta problemática se deve colocar na difícil relação entre técnica e ética. A humanidade moderna vai dividindo-se cada vez mais sobre a relação entre técnica e ética: serão estes os dois novos blocos do futuro.

Exemplificando, esta grande divisão pode exprimir-se também do seguinte modo: existe quem considere que a liberdade de criar se deve fundamentar sobre algo diverso de si mesmo, em definitivo sobre a dignidade da pessoa humana. Este é o seu fundamento e, portanto, também o seu limite; existe, pelo contrário, quem considere que a liberdade de criar tem uma dignidade em sim mesma que fundamenta a dignidade da pessoa humana.

Uma visão da técnica desligada da ética, com efeito, faz do homem um produto histórico, cultural e artificial, truncando a ligação com a natureza, a tradição e a criação. Nesta perspectiva, o homem deixa de ser um projecto e converte-se em algo projectado. O homem não tem já deveres, mas somente direitos. Nasce o absolutismo do proibido proibir. O terrorismo, uma concepção técnica da política, a laicidade entendida como lugar neutro de valores e de absolutos, a democracia como procedimento, a globalização da economia, o relativismo das culturas, a aplicação da técnica ao direito e aos direitos humanos, são novos absolutos negativos na medida em que absolutizam a técnica. Tais absolutos afirmam-se conjuntamente com a vontade de deixar Deus de fora do coração dos homens. Tudo isto tem uma grande relevância, e é por isto que cada vez mais a questão antropológica – e nela as questões inerentes aos direitos humanos – é hoje a questão social por excelência.

4. Falando agora das premissas, é necessário abordar a questão – surgida hoje de várias partes –, sobre a legitimidade de uma intervenção da Igreja nas questões sociais. Diante de uma laicidade mal entendida, segundo a qual a fé não deveria entrar na vida pública porque esta é de todos, o Compêndio reafirma que a Igreja se ocupa e preocupa não tanto com as técnicas mediante as quais se resolvem os problemas vinculados com a questão social, quanto com a pessoa humana em todas as suas dimensões e que a Igreja conhece na sua estrutura definitiva, a que foi estabelecida por Deus. O “mais” que a Igreja conhece graças à Revelação de Deus e ao paradigma do humano constituído por Jesus Cristo, torna-se critério de valorização das práticas sociais e políticas, e também se torna critério de orientação das mesmas práticas. Em última análise, procede-se com a convicção – sobre a qual se sustenta todo o Compêndio – de que, em virtude da Revelação de Deus, ninguém conhece a verdade sobre a pessoa humana como a Igreja, e por isso, ninguém está no mesmo grau da Igreja para defendê-la: a doutrina social tem este objectivo fundamental (cf. n. 75).

(...)

© Copyright, Conferencia Episcopal Española / C.E. de Pastoral Social

[Tradução da responsabilidade de Razão Crítica]

Nota: Todas as referências a Compêndio dizem respeito ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica

Próxima parte do discurso do Cardeal Martino - Direitos Humanos: uma perspectiva histórica

novembro 03, 2006

Bento XVI - Angelus, 1 de Novembro de 2006

Reproduzimos as palavras do Papa proferidas no dia 1 de Novembro de 2006, dia de Todos os Santos.

Hoje celebramos a solenidade de Todos os Santos e amanhã comemoraremos a dos fiéis defuntos. Estas duas festas litúrgicas, muito enraizadas, dão-nos uma oportunidade única de meditar na vida eterna. O homem moderno espera ainda esta vida eterna ou considera que pertence a uma mitologia já superada? No nosso tempo, mais do que no passado, as pessoas estão tão absorvidas pelas coisas terrenas que às vezes é-lhes difícil pensar em Deus como protagonista da história e da nossa própria vida. Mas a existência humana, pela sua natureza, tende a algo maior, que a transcende; é irreprimível no ser humano a ânsia de justiça, de verdade, de felicidade plena. Diante do enigma da morte muitos sentem um desejo ardente e a esperança de voltarem a encontrar-se no além com os seus entes queridos. Também é forte a convicção de um juízo final que restabeleça a justiça, a espera por uma confrontação definitiva em que a cada um se dê o que lhe é devido.

Mas para nós, cristãos, “vida eterna” não indica apenas uma vida que dura para sempre, mas também uma nova qualidade de existência, plenamente imersa no amor de Deus, que liberta do mal e da morte, e nos coloca em comunicação sem fim com todos os irmãos e irmãs que participam do mesmo Amor. Para tanto, a eternidade já pode estar presente no centro da vida terrena e temporal, quando a alma, mediante a graça, está unida a Deus, seu fundamento último.

Tudo passa, só Deus permanece. Diz um salmo: “A minha carne e o meu coração se consomem: Rocha do meu coração, meu alimento, Deus para sempre!” (Sal 73, 26) (1). Todos os cristãos, chamados à santidade, são homens e mulheres que vivem firmemente apoiados nesta “Rocha”; têm os pés na terra, mas o coração já está no céu, morada definitiva dos amigos de Deus.

Estimados irmãos e irmãs, meditemos nestas realidades com o coração orientado para o nosso último e definitivo destino, que dá sentido às situações diárias. Reavivemos o sentimento gostoso da comunhão dos santos e deixemo-nos atrair por eles para a meta da nossa existência: o encontro cara a cara com Deus. Peçamos que esta seja a herança de todos os fiéis defuntos, não só dos nossos entes queridos, mas também de todas as almas, especialmente as mais esquecidas e necessitadas da misericórdia divina.

Que a Virgem Maria, Rainha de Todos os Santos, nos guie para escolhermos em todos os momentos a vida eterna, “a vida do mundo futuro”, como dizemos no Credo; um mundo já inaugurado pela ressurreição de Cristo, e cuja vinda podemos apressar com a nossa conversão sincera e com as obras de caridade.

(1) Na Bíblia dos Capuchinhos o Salmo 73,26 diz. “Ainda que o meu corpo e o meu coração desfaleçam, Deus será sempre o meu refúgio e a minha herança”

[Traduzido do espanhol para português por Razão Crítica]

Fonte: Vaticano

novembro 01, 2006

Bento XVI assinala caminho para erradicar abuso de menores entre sacerdotes

Notícia da agência de informação Zenit publicada em 31 de Outubro de 2006. Republicação autorizada pelo editor.

Código: ZP06103118

Data de publicação: 2006-10-31

Bento XVI assinala caminho para erradicar abuso de menores entre sacerdotes

E pede atenção para as vítimas

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 30 de outubro de 2006 (ZENIT.org).- Bento XVI exigiu a reação firme da Igreja ante os casos de abusos de menores cometidos por sacerdotes, e pediu a atenção que as vítimas requerem, como caminhos para a recuperação da confiança perdida.

Esta foi a mensagem que deixou em 28 de outubro, ao receber em visita «ad limina Apostolorum» os bispos católicos da Irlanda.

Em seu discurso pronunciado em inglês, o Santo Padre reconheceu que os bispos irlandeses, tanto os do norte como os do sul -- conformam uma só Conferência Episcopal --, tiveram que responder nos últimos anos «a muitos casos dolorosos de abusos sexuais de menores».

«São ainda mais trágicos quando quem os comete é um eclesiástico», denunciou o bispo de Roma.

Em sua saudação ao Papa em nome dos prelados, Dom Sean Brady, arcebispo de Armagh e primaz de toda Irlanda, reconheceu que «não há argumento que tenha recebido mais tempo ou atenção por parte da Conferência Episcopal que o angustioso problema da resposta a quem sua confiança foi traída, sua vida devastada e em certas ocasiões sua fé destruída por causa dos abusos sexuais perpetrados por alguns sacerdotes e religiosos».

«Estes abusos foram motivo de grande escândalo e desalento para toda a comunidade católica, inclusive uma grande maioria de sacerdotes e religiosos que continuam lutando por viver a santidade e o serviço desinteressado em nome do Senhor.»

O arcebispo agradeceu ao Papa pela «preocupação que expressou por aqueles que foram afetados tão gravemente» e pelo apoio que ofereceu aos bispos da ilha de São Patrício para enfrentar este desafio, com a ajuda dos organismos da Santa Sé.

Dando razão ao prelado irlandês, Bento XVI reconheceu que «as feridas causadas por estes atos são profundas, e é urgente a tarefa de restabelecer a esperança e a confiança quando estas ficaram feridas».

«Em vossos contínuos esforços por enfrentar de maneira eficaz este problema, é importante estabelecer a verdade do que sucedeu no passado, tomar todas as medidas adequadas para evitar que se repita no futuro, assegurar que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados , e sobretudo, proporcionar uma cura às vítimas e a todos os que foram afetados por estes crimes atrozes», afirmou como critérios de fundo.

Deste modo, assegurou, «a Igreja na Irlanda se reforçará e será cada vez mais capaz de dar testemunho da força redentora da Cruz de Cristo. Rezo para que, com a graça do Espírito Santo, este tempo de purificação permita a todo o povo de Deus na Irlanda manter e aperfeiçoar com sua vida a santidade que recebeu».

Ao mesmo tempo, o sucessor de Pedro explicou que «o ótimo trabalho e o compromisso generoso da grande maioria dos sacerdotes e religiosos na Irlanda não têm que ficar escurecidos pelas transgressões de alguns irmãos».

«Estou certo de que as pessoas compreendem e de que continuam vendo a seu clero com afeto e estima», indicou.

Por isso, pediu aos bispos que alentem a seus sacerdotes «a buscar sempre a renovação espiritual e a descobrir de novo a alegria de cuidar de seu rebanho no seio da grande família da Igreja».

«Em uma época --, a Irlanda estava abençoada por uma abundância tal de vocações sacerdotais e religiosas, que boa parte do mundo pôde beneficiar-se de seu trabalho apostólico.»

«Em anos recentes, contudo, o número de vocações diminuiu drasticamente. Que urgente é, portanto, escutar a palavra de Deus: “A messe é grande e os operários são poucos. Rogai, pois, ao Dono da messe, que envie operários para sua messe”», exortou o pontífice.

Por este motivo, o Papa mostrou sua satisfação ao constatar que muitas dioceses irlandesas adotaram «a oração silenciosa pelas vocações ante o Santíssimo Sacramento».

«Mas corresponde sobretudo a vós, bispos, e a vosso clero, oferecer aos jovens uma imagem inspiradora e atraente do sacerdócio ordenado», concluiu.

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