julho 20, 2007

umas palavritas...

Mando-te um beijo doce de ternura e umas palavritas para tu leres,um conto
do José Luis Peixoto.


O SORRISO DOS AFOGADOS

Os pássaros voavam no céu, como se voassem num mundo mais justo. Corriam
nesse mundo só de claridade, nesse céu. Voavam felizes. As nuvens ainda mais
acima, mais longe de tudo, mais perfeitas, eram pequenas manchas brancas a
mostrar que a lonjura do céu é tão infinita. Cá em baixo, dezenas de pessoas
talvez falassem. Cá em baixo, a terra, este mundo e dezenas de pessoas
talvez preocupadas, a mexerem-se sem saírem do lugar. Passava uma aragem
pelos campos, pelas pedras, pelas moitas, pelas ervas miúdas, deslizava pela
superfície da barragem. Lá muito ao fundo, o sol quase tocava no cabeço do
outro lado da barragem. A luz estendia-se pelas águas, pela terra, e batia
naquela multidão inquieta, e estendia-lhes as sombras sobre a terra.
Estendia-lhes o desassossego.
Parei o carro. Todos me olharam. Despi a camisola, descalcei-me e vesti o
fato de mergulho. Entrei pelo meio da multidão. À minha passagem as pessoas
afastavam-se, sempre sem pararem de me olhar. Ao fundo do corredor de homens
ainda em tronco nu, de mulheres com roupas garridas de praia e de rapazes
muito vermelhos do sol com cabelos empastados, estava uma mulher magra e
pálida, de olhos muito grandes, com duas meninas pequenas que não entendiam
e que me olhavam também. O silêncio absoluto dos meus passos. Aproximei-me
até ver dentro dos olhos da mulher. O seu rosto, na claridade, era a
claridade triste. A sua pele branca, os seus cabelos muito limpos.
Estendeu-me uma fotografia antiga com um casal de noivos a sorrirem
envergonhados. Quando falou, com uma voz muito branda, todas as pessoas se
calaram para ouvir.
O meu pai. Esta fotografia é um pouco velha. Não tinha outra. O meu pai tem
mais de setenta anos. Traga-me o meu pai, por favor. Desde que a minha mãe
morreu, vinha sempre para aqui. Passava horas a olhar para a barragem. Todos
os dias. De Verão e de Inverno. Traga-me o meu pai, por favor. As pessoas
que aqui estavam dizem que ele se quis matar, que entrou muito direito na
água e que caminhou até desaparecer. O meu pai não sabia nadar. Vinha sempre
para aqui. Todos os dias. Passava horas a olhar para a barragem. Caminhou
até desaparecer. Traga-me o meu pai, por favor.
Os olhos da mulher enchiam-se e esvaziavam-se de capas límpidas de lágrimas.
Ela e as meninas estavam vestidas como se tivessem sido roubadas de uma rua
e as tivessem deixado ali, junto da barragem. Além delas, só os bombeiros de
farda azul e de olhar a fingir segurança; só as pessoas de toalha à volta do
pescoço, de bóia à volta da cintura. No chão, num monte arrumado, estavam
uma camisa preta e umas calças pretas dobradas. À frente, estavam uns
sapatos de velho muito aprumados. Como um altar intocado, tinham ficado ali
talvez à espera que o afogado voltasse e se quisesse vestir e calçar. Baixei
o meu rosto ao nível do rosto das meninas. Uma era ligeiramente mais velha
do que a outra. No seus rostos pequenos, quase iguais, uma seriedade de
criança. Muito baixinho, quase só para eu ouvir, a mais nova disse: avô.
Levantei-me, fiz-lhes uma festa na cabeça e avancei.
Quando cheguei à berma da água, calcei as barbatanas. O som das pequenas
ondas da barragem, a brisa a passar-me pelas pernas. Entrei na água. Havia
apenas mais uma hora de luz naquele dia. Entrei na água. Entrei num novo
mundo, diferente da terra das pessoas, diferente do céu dos pássaros. Uma
hora seria suficiente. Conheço todos os cantos da barragem. Já tirei de l
muitos afogados: mulheres, velhos, crianças. Com os óculos a moldar-me a
visão, movia a cabeça para um lado e para outro. Conheço cada pedra e cada
degrau da profundidade da barragem. Às vezes, a dormir, sonho que estou
dentro da barragem.
Há dois anos, em Julho, fui buscar um rapaz de dez anos. Era um colega de
escola do meu filho. Estava desaparecido havia cinco horas. Quando o
encontrei tinha a barriga inchada e estava a dormir debaixo de água, com a
cabeça encostada numa pedra. As carpas passavam por ele sem o acordarem.
Recordo a pele embranquecida e os raios de luz que entravam desenhados pela
água. Quando o vi, olhei para o céu. O céu da barragem não é infinito. Acaba
numa superfície de vidro que não se consegue tocar. Depois, segurei-o no
colo e levei-o. Sinto ainda nas mãos a sua pele macia. A pele macia dos
afogados.
Quando é uma criança custa mais. Isto era o que eu pensava. As pessoas
choram menos com os velhos. As pessoas pensam: são velhos. Isto era o que eu
pensava, com o corpo envolvido por uma pele de água, por um mundo de água em
tudo, com movimentos mais pesados, a atravessarem a água, mas sem conseguir
parar de ver aqueles rostos quase felizes naquela fotografia antiga de um
casamento antigo. O braço da noiva dentro do braço do noivo, o fato novo e
passado a ferro, a gravata, os rostos de duas pessoas tornadas crianças
naquele momento.
As barbatanas levavam-me. Com os braços ao longo do corpo, entrava mais pela
barragem, como se o meu corpo rasgasse a água. Comecei a distingui-lo na
nitidez. Vi as suas costas brancas e aproximei-me. Flutuava alguns palmos
acima do chão, direito, com o corpo desarticulado e indiferente. Quando lhe
pousei a mão no ombro para o virar para mim, ele virou-se sozinho. Parou-se
a olhar-me. Assustados, admirados um com o outro, olhamo-nos. Os seus lábios
finos. Ele sorriu. Eu, com gestos e bolhas, tentei explicar-lhe que tinha a
filha e as netas à espera. Ele sorriu. Fez-me sinal para segui-lo. Não sei o
que pensei enquanto nadava atrás de um velho de calções pretos, com os
cabelos a ondularem, com o corpo gordo e magro de velho. Parámos num sítio
da barragem onde nunca tinha ido, um sítio novo, um sítio que tinha nascido
ali naquele momento. Ele sorriu. A nadar também, apareceu uma mulher que
sorria. Era a mulher da fotografia, mas um pouco mais velha. Tinha o cabelo
branco e estava vestida com uma saia modesta e uma camisa com um alfinete de
ouro. Sorria. Olhavam para mim e deram as mãos. O céu da barragem e a água
anoiteciam. Comecei a nadar para a superfície. Ao subir, virei-me ainda para
vê-los de mão dada. Acenaram-me a sorrir. Depois, o mundo. Tirei o tubo do
oxigénio, levantei os óculos e nadei. Ao fundo, a multidão inquieta.
Quando cheguei a terra, as pessoas olharam-me todas. Não falei com ninguém e
comecei a tirar o equipamento e a despir-me. As pessoas falavam talvez
preocupadas. A mulher chorava muito. As meninas aproximaram-se de mim. Muito
baixinho, quase só para eu ouvir, a mais nova disse: avô. Olhei muito para
aquelas duas meninas e vi um sorriso nascer-lhes nos lábios.

Publicado por checoturco em julho 20, 2007 11:40 PM | TrackBack
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