junho 29, 2009

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu...como seriam felizes as mulheres
á beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos...sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada á porta...dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci...acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala á minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

"Al Berto"

Publicado por checoturco em 12:28 AM | Comentários (2256) | TrackBack

junho 23, 2009

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompahar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

"Al Berto"

Publicado por checoturco em 12:16 AM | Comentários (887) | TrackBack