junho 06, 2012

Uma questão de futuro

Deveria estar escrito em algum lugar que, em questões fundamentais para o país e para os portugueses, como as relacionadas com a nossa identidade e o nosso património comum - natural, cultural, histórico, empresarial público... -, os governos não poderiam decidir sem antes consultar os cidadãos, através de referendo e na sequência da promoção de debates alargados sobre as temáticas em causa.

Não sendo assim, apenas poderemos esperar que alguns meios de comunicação social e grupos de cidadãos mais esclarecidos e responsáveis possam, de alguma forma, contribuir decisivamente para envolver os cidadãos no debate sobre essas tematícas. Tendo em conta as diferentes perspectivas. No sentido de uma maior consciencialização e tomada de posição dos cidadãos. Porque, antes da decisão política, é preciso pensar estrategicamente Portugal - para além do imediato e dos interesses instalados.

A meu ver, deveríamos incluir nestes debates temas actuais e urgentes como o (Des)Acordo Ortográfico e a privatização de empresas públicas (TAP, ANA, Águas de Portugal, Correios e RTP). Antes que se transformem em mais algumas inevitabilidades.

Publicado por Conceição Pereira às 08:28 PM | Comentários (0)

maio 30, 2012

Onde vou?

Sei onde quero ir
Sei-o, vagamente
Para além de todas as minhas incertezas
Para além de todas as incoerências da vida
Essa certeza existe, profunda, dentro de mim
Com a consistência própria dos sonhos
Qual matéria fluida
Que se forma e transforma
Com a crua realidade da vida

Quero ir, por onde ir?
A vida empurra-me e eu vou
Ao sabor de ventos e marés deixo-me ir
Vou por aqui e por ali, desoriento-me
Por vezes retorno aos caminhos que trilhei
Apesar de todos os vislumbres
Apesar de todas as certezas
Por vezes já não sei por onde vou
Nem para onde vou

Conceição Pereira,
Lisboa, Junho de 2007

Publicado por Conceição Pereira às 06:32 PM | Comentários (0)

maio 24, 2012

Também somos gregos

Agora que a Europa parece agonizar às mãos dos mercados e de líderes incompetentes e sem visão de futuro e que muitos criticam a Grécia, antevendo a expulsão do discípulo mal comportado que legitimamente ousa questionar o programa de austeridade, parece-me que não é hora de nos demarcarmos dos gregos, procurando em vão evitar o seu efeito de contágio. Por uma questão de solidariedade e não só. Lá, como cá, a situação económica e financeira agrava-se a cada dia que passa. Lá, como cá, a destruição do tecido empresarial e o crecimento do desemprego afectam dramaticamente a vida de muitos milhares de famílias. Lá, como cá, o Estado abre mão de sectores estratégicos fundamentais em troca de liquidez imediata para assegurar pagamentos de taxas de juro usurárias e insustentáveis. Lá, como cá, todos os sinais parecem revelar que a austeridade por si só e a todo o custo só conduz a mais recessão.

O nosso estimado governo, com toda a aura de bom aluno, não se escusa de apontar o dedo à Grécia: nós temos o consenso social necessário e eles não, nós somos cumpridores e eles não. Pois: tão cumpridores que somos e estamos a afundar-nos nos mesmos problemas. Não estará na hora de irmos para a rua dizer que estamos solidários com os gregos? De mostrar aos nossos governantes que não andamos todos anestesiados pelo medo e que não concordamos com o rumo que o país está a tomar? De exigir uma maior responsabilização dos políticos pelas suas decisões? De exigir um debate sério sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para o país?

Devemos lutar pela definição de estratégias e metas claras de desenvolvimento sustentado que envolvam os cidadãos e comprometam as principais forças políticas a médio/longo prazo, de forma a não ficarmos reféns de promessas e programas políticos vagos e/ou de negócios pouco claros e de medidas avulsas de curto prazo que acabam por comprometer irremediavelmente a nossa vida e o futuro do país. Por um modelo equilibrado que não passe pelo abandono irremediável do interior, pela destruição ou desvalorização de importantes recursos, como os recursos humanos jovens e qualificados e o património histórico e natural, e pela progressiva alienação de sectores estratégicos nacionais a favor de interesses estatais estrangeiros (!), como os chineses e angolanos.

Publicado por Conceição Pereira às 11:37 PM | Comentários (0)

março 30, 2012

Vagares

Viver a vida com vagar. Talvez este devesse ser o nosso lema. Pois neste mundo de correrias em que vivemos, o mais certo é atropelamo-nos a nós próprios e aos outros. E não é por tão desenfreadamente perseguirmos a vida que ela passa a ser o que não é. Ela continuará irremediavelmente imperfeita e finita. Não é por procurarmos não pensar para além da superfície dos dias, que deixaremos de nos inquietar e de ser assaltados por angústias e dilemas. Irremediavelmente a morte chegará um dia.

Do meu vagar

Já não há mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina

Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido

(...)

Carlos Tê

Publicado por Conceição Pereira às 12:32 PM | Comentários (1)

março 01, 2012

Hoje acordei com um poema

Hoje acordei cedo com um poema
a delinear-se inteiro e nítido na minha cabeça
na urgência de ser escrito

Levantei-me e anotei-o numa folha branca

Depois, quando abri a janela da sala reparei
que o sol se escondia atrás de um céu de nuvens
e que, assim mesmo, os pássaros celebravam
com o seu canto compassado e vivo
a harmonia doce da manhã

E eu, sentindo-me (agora) em paz com o mundo
consegui apreciar
o espectáculo (sempre) surpreendente da vida

Conceição Pereira
Lisboa, Março 2011

Publicado por Conceição Pereira às 06:42 PM | Comentários (1)

fevereiro 15, 2012

Um olhar sobre a cidade

... esse lugar onde coincide uma imensa amálgama de gente, que tudo comporta, tudo expõe ou tudo esconde. Depende sempre da perspectiva. E da disponibilidade do olhar. Entre outras coisas.

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

Publicado por Conceição Pereira às 01:46 PM | Comentários (2)

fevereiro 08, 2012

Comer e calar?

Ainda bem que Graça Moura tem tribuna para se fazer ouvir sobre esse acordo ortográfico que alguém se lembrou de nos impor sem sequer nos explicar porquê e quanto nos vai custar, em termos culturais e financeiros (já que estamos em maré de aperto financeiro, por acaso alguém saberá quanto vai custar a substituição dos livros das nossas bibliotecas?). Ainda bem que ele teve coragem para agir de acordo com as suas convicções e mandou suspender a sua utilização no CCB. Quem nos dera a nós - a mim e a tantos outros cidadãos anónimos deste país - podermos ser ouvidos em questões como esta, em vez de sermos sistematicamente colocados perante factos consumados e que nos são vendidos como uma inevitabilidade. E era bom que alguém nos explicasse o porquê de tantas e tantas inevitabilidades em que caiu este País. E, já agora, que os seus responsáveis se assumissem.

Como seria de esperar, houve quem de imediato condenasse Graça Moura pela sua tomada de posição: que ele devia era respeitar o Estado de Direito que tantas vezes o nomeava para gerir a coisa pública (o que significa amochar e nao agir de acordo com as próprias convicções, as quais aliás eram bem do domínio público), que não devia ter imposto a sua convicção pessoal aos funcionários da instituição sem primeiro os consultar (até parece que nós, portugueses, fomos todos consultados sobre o malfadado acordo), que pôs em causa a autoridade da tutela que o indicou para o cargo (coitado do Secretário de Estado que foi ultrapassado na questão da nomeação e ainda por cima é um defensor acérrimo do Acordo), etc, etc, etc...

Eu ouço isto tudo e fico baralhada. É que, para mim, uma coisa é o Estado de Direito, outra muito diferente são os sucessivos governos que se vão formando, na sequência de campanhas eleitorais demagógicas e pobres em conteúdo, e que vão progressivamente delapidando o património e o potencial do país, sem sequer se dignarem a explicar-nos os porquês e a responsabilizar-se pelos seus actos. A estes, confesso, eu tenho muita dificuldade em respeitar. Por outro lado, a mim parece-me que votar não significa mandatar um governo para tudo e mais alguma coisa. Há dossiers, como o do acordo ortográfico, que infelizmente parecem sempre feitos como fatos à medida de certos interesses (este parece mesmo feito por encomenda para servir certos interesses editoriais) e que não deviam ser decididos sem consultar os portugueses. Não sendo assim, temos o nosso direito à indignação e à revolta.

Publicado por Conceição Pereira às 11:25 AM | Comentários (1)

fevereiro 07, 2012

Tempo de incerteza

Chegou o vento. E eu
vejo o homem e o seu sofrimento
O medo da morte e a angústia da vida
A incerteza do quotidiano
e os sonhos vividos de fugida
A estranheza do tempo que passa, passou
E do vento que vem, já voltou
soprando desdenhosamente
sempre inquieto e irreverente

Olha lá…
porque não esperas um pouco?
Quem sabe, amanhã
talvez mude a direcção do vento
e tudo pareça então mais acertado
Capaz de apaziguar um coração
tão inquieto e aturdido
pelas andanças de um tempo marcado
pela incerteza e pelo medo

Conceição Pereira
Lisboa, Setembro 2010

Publicado por Conceição Pereira às 03:00 PM | Comentários (1)

fevereiro 01, 2012

Aos espíritos do tempo

Agora, que morreste
Velho, débil e sozinho
Na mais profunda solidão
Que é a solidão de não ter quem por nós olhe
Mais a solidão da própria morte

Agora, que viveste
Sempre agarrado à superfície dos dias
Em rotinas infindáveis e vãs
Perdido entre a vontade de abraçar a vida
E o medo de tudo perder, de tudo sofrer

Agora, que nada mais te resta
A não ser a liberdade imensa
De a tudo quanto existe poderes pertencer
Enquanto matéria que se transforma e dispersa
De encontro aos elementos que formam o ser

Peço aos espíritos do tempo
Que sei que por aí andam vagueando ao sol
Que te libertem dos grilhões da vida e do sofrimento
Para enfim poderes abraçar
A imensidão do espaço e do tempo

Conceição Pereira
Fevereiro 2009

Publicado por Conceição Pereira às 11:17 AM | Comentários (2)

janeiro 30, 2012

Tu

Mesmo quando o ânimo fraqueja
E o brilho dos sonhos se esbate
Tu és o elo bom que há entre mim e a vida
Porque me fazes desejar ser uma pessoa melhor
Porque me levas a alargar a linha do horizonte
E a procurar sempre um pouco mais além

Certamente nunca o saberás
Mas sem ti eu seria mais triste
O meu mundo estaria mais pobre
E o meu coração infinitamente mais só

Conceição Pereira
Julho 2008

Publicado por Conceição Pereira às 11:25 AM | Comentários (1)