março 30, 2012

Vagares

Viver a vida com vagar. Talvez este devesse ser o nosso lema. Pois neste mundo de correrias em que vivemos, o mais certo é atropelamo-nos a nós próprios e aos outros. E não é por tão desenfreadamente perseguirmos a vida que ela passa a ser o que não é. Ela continuará irremediavelmente imperfeita e finita. Não é por procurarmos não pensar para além da superfície dos dias, que deixaremos de nos inquietar e de ser assaltados por angústias e dilemas. Irremediavelmente a morte chegará um dia.

Do meu vagar

Já não há mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina

Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido

(...)

Carlos Tê

Publicado por Conceição Pereira às 12:32 PM | Comentários (1)

fevereiro 15, 2012

Um olhar sobre a cidade

... esse lugar onde coincide uma imensa amálgama de gente, que tudo comporta, tudo expõe ou tudo esconde. Depende sempre da perspectiva. E da disponibilidade do olhar. Entre outras coisas.

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

Publicado por Conceição Pereira às 01:46 PM | Comentários (2)

janeiro 06, 2012

Ilusões

É bem verdade que certas vezes confundimos as aparências com a realidade. Ou será antes ao contrário? E a maior ilusão de todas não residirá exactamente na crença de que caminhamos em frente, seguindo a linha ténue e fugidia do tempo, quando na realidade voltamos sempre ao mesmo ponto de partida? E se a linha do tempo, por onde caminha a nossa vida, é circular?

COMBOIO

Aqui (movente ou parada?)
Vou contra a vida que foge
Nos campos que à desfilada
Vão ao invés do que corre.

Que deus me ilude ou me mente?
Porquê na hora fugaz
Eu julgo que vou para a frente
Se tudo avança para trás?

Acaso egressa o tempo
Ao que era antes do mal
Nas árvores que recuam
À floresta inicial?

Natália Correia

Publicado por Conceição Pereira às 05:28 PM | Comentários (1)

dezembro 25, 2011

Ser inteiro

Pôr o que somos em tudo aquilo que fazemos, será a única forma de não nos trairmos a nós próprios:

PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Fernando Pessoa/Ricardo Reis

Publicado por Conceição Pereira às 06:33 PM | Comentários (1)

dezembro 20, 2011

Porque às vezes queremos voar...

... alto de mais e o choque com a realidade é tremendo:

PERDIGÃO PERDEU A PENA

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a ua alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões

Publicado por Conceição Pereira às 07:36 PM | Comentários (1)

novembro 14, 2011

Desassossegos 2

A AUTÊNTICA ESTAÇÃO

È verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os ossos
e me leva a sentir saudades do inverno
A luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação

Ruy Belo, Todos os Poemas I, Assírio e Alvim

Publicado por Conceição Pereira às 03:00 PM | Comentários (0)

novembro 09, 2011

Desassossegos

Porque o desassossego é próprio da alma humana, como tão bem soube expressar Álvaro de Campos:

«A volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho pela estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
(...)

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa,
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
(...)

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz só porque não é minha,
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima.
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa de príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
(...)»

Excertos de [Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra],
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Publicado por Conceição Pereira às 06:19 PM | Comentários (0)

novembro 08, 2011

Porque nos momentos decisivos...

... e difíceis nos sentimos invariavelmente sós e por nossa conta, lembrei-me deste poema de Ricardo Reis:

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingires
Nada ´speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é tudo.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é tua.

Fernando Pessoa/Ricardo Reis, Poemas Escolhidos, Portugália Editora

Publicado por Conceição Pereira às 08:54 AM | Comentários (0)

novembro 06, 2011

Para lembrar...

... Ruy Belo, porque é bem verdade que vivemos, também, através da nossa memória e enquanto perduramos na memória dos outros:

QUANTO MORRE UM HOMEM

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo, Todos os Poemas I, Assírio & Alvim

Publicado por Conceição Pereira às 02:26 PM | Comentários (0)

outubro 28, 2011

Um olhar...

... sobre o que nos rodeia:

A MISSÃO DAS FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento

Ruy Belo, Todos os Poemas I, Assírio & Alvim

Publicado por Conceição Pereira às 05:30 PM | Comentários (0)

setembro 27, 2011

Um olhar sobre o mar...

... que sempre nos procura insistentemente na praia, mesmo quando não vamos ao seu encontro:

A VAGA

Como toiro arremete
Mas sacode a crina
Como cavalgada

Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro VI

Publicado por Conceição Pereira às 12:10 PM | Comentários (0)

setembro 20, 2011

Um olhar...

... sobre o meu país:

AS AMORAS

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra

Publicado por Conceição Pereira às 06:57 PM | Comentários (0)

setembro 07, 2011

A propósito...

... de confiança, deixo aqui este poema de Miguel Torga:

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

"Confiança", Miguel Torga, in Versos de Segunda

Publicado por Conceição Pereira às 11:27 PM | Comentários (0)

julho 05, 2011

A propósito de amor

Sim, a propósito de amor. Sobretudo daquele amor que foge aos cânones mais comuns, que não encaixa nas definições normalizadas e prontas a consumir que andam por aí e que, por isso mesmo, é tantas vezes ridículo, incompreendido, rejeitado, adiado, sufocado. Sobretudo desse amor que fica à espera de ser colhido e que não se cumpre por uma razão tosca qualquer ou por todas as razões ridículas do mundo. Para celebrar sobretudo esse amor (de preferência sem muitos dramas e procurando sempre acreditar que outros amores virão), deixo aqui este poema de Florbela Espanca:

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

"Os versos que te fiz", Florbela Espanca, in Versos de Segunda

Publicado por Conceição Pereira às 10:55 AM | Comentários (0)

junho 28, 2011

A propósito...

... das palavras, deixo aqui este poema de Eugénio de Andrade:

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

"As palavras", Eugénio de Andrade, in "Versos de Segunda"

Publicado por Conceição Pereira às 10:15 AM | Comentários (0)

junho 23, 2011

Lembrando...

Lembrando Sophia de Mello Breyner Andresen:

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Porquê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, Dia do Mar

Publicado por Conceição Pereira às 08:53 AM | Comentários (0)

junho 19, 2011

Entre o sonho e a vida

Entre o sonho e a vida pode haver um abismo profundo, imenso. Há quem fique tolhido pelo medo e nem arrisque dar o salto. Mas há quem arrisque e não consiga vencer o obstáculo porque é trapalhão, desajeitado: salta e fica, invariavelmente, estatelado lá no fundo e em muito mau estado. Também há, é certo, quem simplesmente se limite a ficar na sua zona de conforto.

«(…)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais do que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre o que só tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantarmos da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(…)»

Excerto de “Tabacaria”, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Publicado por Conceição Pereira às 01:15 PM | Comentários (0)

dezembro 24, 2010

FELIZ NATAL

E porque o Natal não é igual para todos, deixo aqui este poema de Pessoa:

CHOVE. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in Poesias, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edições Ática.

Publicado por Conceição Pereira às 10:28 AM | Comentários (0)

julho 02, 2009

Para lembrar Sophia

Para lembrar Sophia de Mello Breyner Andresen, passados que são cincos anos da sua morte (2 de Julho de 2004), reproduzo aqui um poema seu que é uma celebração da continuidade da vida e da existência, para além dos limites da própria mortalidade.

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Poesia", 1944

Publicado por Conceição Pereira às 01:55 AM | Comentários (0)