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maio 24, 2012

Também somos gregos

Agora que a Europa parece agonizar às mãos dos mercados e de líderes incompetentes e sem visão de futuro e que muitos criticam a Grécia, antevendo a expulsão do discípulo mal comportado que legitimamente ousa questionar o programa de austeridade, parece-me que não é hora de nos demarcarmos dos gregos, procurando em vão evitar o seu efeito de contágio. Por uma questão de solidariedade e não só. Lá, como cá, a situação económica e financeira agrava-se a cada dia que passa. Lá, como cá, a destruição do tecido empresarial e o crecimento do desemprego afectam dramaticamente a vida de muitos milhares de famílias. Lá, como cá, o Estado abre mão de sectores estratégicos fundamentais em troca de liquidez imediata para assegurar pagamentos de taxas de juro usurárias e insustentáveis. Lá, como cá, todos os sinais parecem revelar que a austeridade por si só e a todo o custo só conduz a mais recessão.

O nosso estimado governo, com toda a aura de bom aluno, não se escusa de apontar o dedo à Grécia: nós temos o consenso social necessário e eles não, nós somos cumpridores e eles não. Pois: tão cumpridores que somos e estamos a afundar-nos nos mesmos problemas. Não estará na hora de irmos para a rua dizer que estamos solidários com os gregos? De mostrar aos nossos governantes que não andamos todos anestesiados pelo medo e que não concordamos com o rumo que o país está a tomar? De exigir uma maior responsabilização dos políticos pelas suas decisões? De exigir um debate sério sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para o país?

Devemos lutar pela definição de estratégias e metas claras de desenvolvimento sustentado que envolvam os cidadãos e comprometam as principais forças políticas a médio/longo prazo, de forma a não ficarmos reféns de promessas e programas políticos vagos e/ou de negócios pouco claros e de medidas avulsas de curto prazo que acabam por comprometer irremediavelmente a nossa vida e o futuro do país. Por um modelo equilibrado que não passe pelo abandono irremediável do interior, pela destruição ou desvalorização de importantes recursos, como os recursos humanos jovens e qualificados e o património histórico e natural, e pela progressiva alienação de sectores estratégicos nacionais a favor de interesses estatais estrangeiros (!), como os chineses e angolanos.

Publicado por Conceição Pereira às maio 24, 2012 11:37 PM

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