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fevereiro 15, 2012

Um olhar sobre a cidade

... esse lugar onde coincide uma imensa amálgama de gente, que tudo comporta, tudo expõe ou tudo esconde. Depende sempre da perspectiva. E da disponibilidade do olhar. Entre outras coisas.

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

Publicado por Conceição Pereira às 01:46 PM | Comentários (2)

fevereiro 08, 2012

Comer e calar?

Ainda bem que Graça Moura tem tribuna para se fazer ouvir sobre esse acordo ortográfico que alguém se lembrou de nos impor sem sequer nos explicar porquê e quanto nos vai custar, em termos culturais e financeiros (já que estamos em maré de aperto financeiro, por acaso alguém saberá quanto vai custar a substituição dos livros das nossas bibliotecas?). Ainda bem que ele teve coragem para agir de acordo com as suas convicções e mandou suspender a sua utilização no CCB. Quem nos dera a nós - a mim e a tantos outros cidadãos anónimos deste país - podermos ser ouvidos em questões como esta, em vez de sermos sistematicamente colocados perante factos consumados e que nos são vendidos como uma inevitabilidade. E era bom que alguém nos explicasse o porquê de tantas e tantas inevitabilidades em que caiu este País. E, já agora, que os seus responsáveis se assumissem.

Como seria de esperar, houve quem de imediato condenasse Graça Moura pela sua tomada de posição: que ele devia era respeitar o Estado de Direito que tantas vezes o nomeava para gerir a coisa pública (o que significa amochar e nao agir de acordo com as próprias convicções, as quais aliás eram bem do domínio público), que não devia ter imposto a sua convicção pessoal aos funcionários da instituição sem primeiro os consultar (até parece que nós, portugueses, fomos todos consultados sobre o malfadado acordo), que pôs em causa a autoridade da tutela que o indicou para o cargo (coitado do Secretário de Estado que foi ultrapassado na questão da nomeação e ainda por cima é um defensor acérrimo do Acordo), etc, etc, etc...

Eu ouço isto tudo e fico baralhada. É que, para mim, uma coisa é o Estado de Direito, outra muito diferente são os sucessivos governos que se vão formando, na sequência de campanhas eleitorais demagógicas e pobres em conteúdo, e que vão progressivamente delapidando o património e o potencial do país, sem sequer se dignarem a explicar-nos os porquês e a responsabilizar-se pelos seus actos. A estes, confesso, eu tenho muita dificuldade em respeitar. Por outro lado, a mim parece-me que votar não significa mandatar um governo para tudo e mais alguma coisa. Há dossiers, como o do acordo ortográfico, que infelizmente parecem sempre feitos como fatos à medida de certos interesses (este parece mesmo feito por encomenda para servir certos interesses editoriais) e que não deviam ser decididos sem consultar os portugueses. Não sendo assim, temos o nosso direito à indignação e à revolta.

Publicado por Conceição Pereira às 11:25 AM | Comentários (1)

fevereiro 07, 2012

Tempo de incerteza

Chegou o vento. E eu
vejo o homem e o seu sofrimento
O medo da morte e a angústia da vida
A incerteza do quotidiano
e os sonhos vividos de fugida
A estranheza do tempo que passa, passou
E do vento que vem, já voltou
soprando desdenhosamente
sempre inquieto e irreverente

Olha lá…
porque não esperas um pouco?
Quem sabe, amanhã
talvez mude a direcção do vento
e tudo pareça então mais acertado
Capaz de apaziguar um coração
tão inquieto e aturdido
pelas andanças de um tempo marcado
pela incerteza e pelo medo

Conceição Pereira
Lisboa, Setembro 2010

Publicado por Conceição Pereira às 03:00 PM | Comentários (1)

fevereiro 01, 2012

Aos espíritos do tempo

Agora, que morreste
Velho, débil e sozinho
Na mais profunda solidão
Que é a solidão de não ter quem por nós olhe
Mais a solidão da própria morte

Agora, que viveste
Sempre agarrado à superfície dos dias
Em rotinas infindáveis e vãs
Perdido entre a vontade de abraçar a vida
E o medo de tudo perder, de tudo sofrer

Agora, que nada mais te resta
A não ser a liberdade imensa
De a tudo quanto existe poderes pertencer
Enquanto matéria que se transforma e dispersa
De encontro aos elementos que formam o ser

Peço aos espíritos do tempo
Que sei que por aí andam vagueando ao sol
Que te libertem dos grilhões da vida e do sofrimento
Para enfim poderes abraçar
A imensidão do espaço e do tempo

Conceição Pereira
Fevereiro 2009

Publicado por Conceição Pereira às 11:17 AM | Comentários (2)