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julho 11, 2011

Mesmo assim

Depois de tudo
(De todos os impasses
Ou de todos os equívocos)
É difícil acreditar
Que o encontro seja possível
A não ser numa extensão do sonho
Ou num nicho guardado da esperança
Imune à passagem do tempo
Ao sentido das palavras
E ao vício dos lugares

(Mesmo assim
Poderá ser quando tu quiseres
Amanhã ou qualquer outro dia
Nessa tarde, nessa hora
Mas num outro lugar qualquer)

Conceição Pereira

Publicado por Conceição Pereira às 08:01 AM | Comentários (0)

julho 07, 2011

Lá fora

Enquanto dormes
Enquanto pensas
Lá fora, a vida acontece
O sol nasce, cresce
Espraiando-se sobre os telhados
E a cidade fica em festa
Inundada de luz

Conceição Pereira,
Lisboa, Setembro de 2007

Publicado por Conceição Pereira às 09:19 AM | Comentários (0)

julho 05, 2011

A propósito de amor

Sim, a propósito de amor. Sobretudo daquele amor que foge aos cânones mais comuns, que não encaixa nas definições normalizadas e prontas a consumir que andam por aí e que, por isso mesmo, é tantas vezes ridículo, incompreendido, rejeitado, adiado, sufocado. Sobretudo desse amor que fica à espera de ser colhido e que não se cumpre por uma razão tosca qualquer ou por todas as razões ridículas do mundo. Para celebrar sobretudo esse amor (de preferência sem muitos dramas e procurando sempre acreditar que outros amores virão), deixo aqui este poema de Florbela Espanca:

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

"Os versos que te fiz", Florbela Espanca, in Versos de Segunda

Publicado por Conceição Pereira às 10:55 AM | Comentários (0)

julho 01, 2011

Uma janela para o mundo

- A vida traz-nos mais dores do que alegrias – disse a mulher, acenando com a cabeça, do alto da cátedra dos seus 90 anos. – Por isso, minha querida, temos de saber aproveitar as coisas boas que ela nos traz, de saber dar valor à alegria.

Ela acabara de me contar que a filha mais nova, recentemente falecida, vivera os últimos 30 anos em estado comatoso, depois de sofrer um grave acidente de viação na juventude. Tínhamos começado a conversa a falar dos portugueses, da sua mania de valorizar as aparências, do conformismo que ela lhes achava e do pessimismo que na sua óptica tanto os levava a lamentarem-se da vida, por qualquer coisa. E, inadvertidamente, o assunto tinha desembocado no drama da sua própria vida. A filha que ela tivera de cuidar durante tantos anos.

- Ainda bem que Deus a levou antes de mim. Tanto que eu lhe pedi e ele fez-me a vontade. Não queria deixar tamanho encargo e responsabilidade aos irmãos. Mas sinto tanta falta dela, tanta saudade – disse com voz trémula. – Sabe, apesar de estar naquele estado, eu conversava com ela e às vezes ela sorria-me. Parecia mesmo que sorria para mim.

Há tanta dor no mundo. Dentro de nós, à nossa volta. Podemos tentar ignorá-la, fingir que nem existe, mas ela insiste em acompanhar-nos mais ou menos pela vida fora: na frustração, no medo, na doença, na sobrevivência, na perda, na solidão. E nem sempre sabemos lidar com ela da melhor forma.

- É uma história muito triste – ela procurou os meus olhos – por favor, desculpe-me. Desculpe-me por falar de coisas tão tristes.

- As coisas tristes também fazem parte da vida, não é?

Ela acenou que sim e depois remeteu-se um pouco ao silêncio, olhando em frente, da sua mesinha redonda da esplanada, as pessoas que passavam ligeiras e metidas consigo, os carros que circulavam continuamente, cumprindo toda a azáfama daquele fim de manhã de sábado.

- A vida passa e nós nem damos por ela. Parece que ainda ontem me casei e tive os meus filhos e já estou com quase 90 anos feitos. É verdade, há tantos anos viúva, com netos e bisnetos. Às vezes penso que é como se me tivesse deitado, adormecido e acordado agora, com estes anos todos.

A vida passa e nem nos damos conta, andando nós quase sempre tão ocupados com alguma coisa, quase sempre apressados para algum lugar. Tantas vezes fechados nas nossas amarguras e nas nossas pequenas coisas, tantas vezes deixando de lado aquilo que verdadeiramente importa. Ficando com pouco tempo para pensar ou procurando não pensar sequer. Tanto alheamento, tanto desperdício de tempo. Esse tempo precioso que tanta falta nos faz, que deitamos ao vento e que o vento nunca mais nos traz. Será que é porque, sendo jovens, acreditamos que somos eternos? Ou porque, sendo já menos jovens, ficamos agarrados às nossas inabaláveis certezas?

- Sabe, durante todos estes anos nunca me fechei em casa – continuou ela com a sua voz doce e cristalina - sempre procurei sair todos os dias. Aproveito para andar um pouco e sento-me aqui um bocado. Agora as pernas já não ajudam muito, mas eu apoio-me na bengala. Converso com as pessoas amigas ou fico a olhar quem passa. Gosto de ver sobretudo os jovens: de os ouvir rir e conversar, de ver como são alegres e bonitos, de apreciar a forma como se vestem...

Publicado por Conceição Pereira às 02:43 PM | Comentários (0)