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outubro 29, 2010

Sonhos loucos

Mundos loucos, sonhos soltos
Esperanças vãs
Num espaço onde não estou
De um tempo que não sei
De momentos imensos
Que voaram com os ventos
De um Outono qualquer

Conceição Pereira
Lisboa, Outubro 2009

Publicado por Conceição Pereira às 03:02 PM | Comentários (0)

outubro 07, 2010

Uma vida à procura de um palco

No princípio de Setembro voltei àquele café da Baixa onde já não ia há largos meses. Sentei-me na mesinha do canto, à entrada, e olhei em redor, mas não vi nenhum dos velhotes que costumavam juntar-se ali a seguir ao almoço, a beber café e a empatar o tempo, sempre desejosos de uma boa conversa. Espiei o grande relógio de madeira escurecido pelo tempo, pendurado na parede por detrás do balcão: passava da uma e meia.

O empregado anotava o meu pedido quando a mulher passou à minha frente e se sentou na mesa do lado, falando para ele em voz alta e com alguma familiaridade. Mesmo sem aquela conversa despropositada teria sido difícil não reparar nela, na sua figurinha frágil e espalhafatosa, vestida de cores vivas e com brilhos de cetim, com a sua maquilhagem carregada e as suas jóias exuberantes. Ela sorriu e eu detive-me, fascinada, no casaco de manga curta verde alface às bolas brancas sobre um vestido cintado branco pérola – tudo com ar de anos sessenta ou setenta -, nos verdes e rubis dos seus anéis e pulseiras de ouro e nas pérolas gigantes do colar e dos brincos que emolduravam um colo e um rosto sulcado pelas rugas, no traço negro e fino que substituía as sobrancelhas, no batom carmesim um pouco esborratado, nos cabelos ralos e pintados de escuro. Teria oitenta e muitos anos e mais parecia uma árvore de natal ricamente ornamentada. Ocorreu-me que era muito imprudente andar assim na rua.

Porventura incitada pela minha atenção, ela foi desatando a língua, à medida que ia bebericando o seu café. E falou sem parar: das maleitas da idade, do atropelamento que sofrera alguns anos antes, do marido advogado morto há mais de vinte anos (não cheguei a perceber se de acidente, de desgosto ou de doença), do filho mais velho cedo separado e que nunca via, do outro filho casado e chefe de família que vivia acima das próprias posses e que andava de olho na sua conta bancária, da filha nascida já fora de tempo, sempre mimada e protegida e que cedo frustrara as expectativas familiares com um mau casamento… Remoía o passado, as perdas, as feridas e a solidão.

- Era a menina dos olhos do pai e depois casar assim com aquele homem… Olhe que ele até porrada lhe dava. O pai ficava revoltado a ver aquilo. A menina sabe que… - encarou-me frente, num raro momento de interesse por mim - é menina ou senhora?

Eu sorri e encolhi os ombros: - Tanto faz. – E como ela continuasse a olhar-me fixamente, exibi a mão direita. - Olhe, não sou casada, mas pela idade…

- Compreendo – volveu ela com brandura, voltando logo depois ao seu obsessivo monólogo, ora detendo-se no presente, ora revisitando o passando, numa sucessão de relatos e lamentações que revelavam já algum delírio e confusão mental, tão comuns nestas idades. Ter-se-ia ela escapulido de casa ou do lar onde residia, iludindo a vigilância? Ou viveria sozinha e solitária e, num acesso de devaneio, decidira sair à rua cobrindo-se com todas as suas jóias e enfeites, para chamar sobre si as atenções que sentia que lhe eram devidas?

Um homem aproximou-se e cumprimentou-a com cerimónia, fazendo-lhe uma ligeira vénia e beijando-lhe a mão respeitosamente: - Como vai, minha querida senhora? - Lembrei-me dele, sério e reservado, de outras conversas e de outros dias, entre o grupo de velhos conhecidos e frequentadores do café. Mas ele não me reconheceu, possivelmente nem me viu, centrou por alguns momentos a sua atenção na mulher e depois foi à vida dele.

- Conheço este muito bem, sei muito bem o que ele queria. Mas daqui não leva nada, nunca levou… – Falava dele em tom depreciativo, talvez até com uma certa ferocidade. – Depois que fiquei viúva, já lá vão tantos anos, tive muitas ofertas, mas não aceitei nenhuma. Nunca quis voltar a casar, por respeito ao meu marido, compreende? Marido, só aquele. Agora, os tempos são outros, já não há respeito nenhum…

E, saudosista do passado e da velha ordem estabelecida, criticou os novos tempos, a falta de valores e de maneiras, a insegurança das ruas, o excesso de liberdade. E, quiçá de forma fantasiosa, recordou a vida faustosa do passado, as festas que tinha frequentado, as jóias caras que o marido lhe dera, as circunstâncias suspeitas que rodearam a sua morte. Sim, o tempo passara, o mundo mudara e ali estava ela, velha, confusa e solitária, a exibir com todo o aparato aquilo que lhe restava da sua gloriosa vida passada: o traje festivo e os adornos de outros tempos, as histórias, as lembranças, o apego a uma certa forma de vida. Era como se, num ímpeto de rebeldia, tivesse decidido abrir uma vez mais o baú das relíquias e das memórias, para se preparar com esmero e sair à procura do palco onde pudesse representar o derradeiro acto da sua vida.

Publicado por Conceição Pereira às 04:23 PM | Comentários (0)