« janeiro 2010 | Entrada | março 2010 »

fevereiro 19, 2010

O amola-tesoiras

Numa manhã de sábado de há alguns anos atrás, pouco tempo depois de me ter mudado para o apartamento onde vivo agora, estava eu com as janelas da sala escancaradas, para deixar entrar o ar e o sol daquele começo de primavera, quando fui surpreendida por um som que me pareceu estranhamente familiar, aparentemente deslocado no espaço e no tempo e que eu não soube de imediato decifrar. Apurei o ouvido (sou um bocado surda) e procurei concentrar-me naquele toque prolongado e característico que se ia repetindo uma e outra vez e me ia chegando cada vez mais nítido. Não é que parecia mesmo o som da gaita a anunciar a chegada do amola-tesoiras? Mas num bairro novo de Lisboa?! Podia lá ser!

Curiosa, espreitei a praceta do alto do sexto andar, mas a suposta gaita emudecera subitamente e não se avistava nada nem ninguém nas imediações. Estava prestes a desistir, quando, de repente, aquele som se fez ouvir de novo, agora mais perto, e eu vi o homem a subir o largo, de gaita nos beiços e trazendo a bicicleta devidamente equipada pela mão. Que é como quem diz, minhas senhoras e meus senhores, arranjam-se facas, tesouras e chapéus. Então, estão à espera de quê? E era então que a avó descia a escadaria com tudo o que fosse preciso amolar. Sim, lá na aldeia, há tantos anos atrás, porque naquela manhã de sábado, em Telheiras, o homem nem sequer precisou de parar.

Pois eu fiquei a pensar. Coitado do amola-tesoiras. Hoje em dia ninguém arranja nada, é usar e deitar fora, no caso dos chapéus claro, porque quanto às tesouras e às facas haverá formas bem mais práticas e inovadoras de as aguçar em casa. Sem a chatice de ter de descer as escadas ou apanhar o elevador, para confiar a afinação de um ou outro utensílio doméstico a alguém de mãos calejadas e sujas que mais se parece com um espécime raro, prestes a extinguir-se de vez. Ou talvez não, porque este amola-tesoiras parecia ter brio profissional e, de vez em quando, sempre ao sábado, ia passando outra vez. Ainda que sem resultados à vista. O que me fazia acreditar que o homem não podia viver daquilo, seria já velhote e reformado e fazia certamente a volta por hábito.

Até que um dia o encontrei na rua e as minhas conjecturas caíram por terra: afinal, o homem era ainda jovem – aí na casa dos quarenta - e de aspecto razoavelmente cuidado, apesar do seu ar humilde. Sorriu e disse-me bom dia, talvez na expectativa de arranjar freguesa. E eu fiquei rendida ao encanto dos seus olhos verdes. E confundida. Como podia uma pessoa tão jovem fazer disto profissão, se nem clientela tinha? Seria uma espécie de lazer de sábado, para animar uma tradição dos tempos em que esta era terra de quintas a perder de vista e com aldeia habitada por gente vergada ao trabalho agrícola assalariado e aos ofícios artesanais? Estilo, vou dar uma volta de bicicleta e aproveito para dar uso ao equipamento que serviu de ganha-pão à família ao longo de não sei quantas gerações?

Há algum tempo atrás, escutei mais uma vez o toque da gaita e espreitei à janela. Lá vinha o amola-tesoiras a caminhar praceta acima, com passo indolente e trazendo a bicicleta pela mão. Só que, desta vez, parou e esperou. Curiosa, aguardei também. Pouco depois, uma velhota do prédio ao lado chegava junto dele com um chapéu-de-chuva nas mãos e dois dedos de conversa. Ele abriu o chapéu, mirou-o, deu-lhe as voltas devidas e devolveu-o à mulher, que pareceu satisfeita com o resultado final e prontamente fez o pagamento. Depois, acenou, montou a bicicleta e seguiu em frente, deixando a ecoar no ar sons e memórias de outros tempos.

Publicado por Conceição Pereira às 07:12 PM | Comentários (0)