março 10, 2005

Freitas *stinks*

Tenho retido a edição de um post sobre este assunto, de modo a poder falar do que é realmente importante e não do acessório.

Freitas do Amaral como Ministro dos Negócios Estrangeiros é sem sombra de dúvida uma péssima escolha para Portugal. E espanta-me não ouvir esta opinião de sectores do Centro e da Esquerda. Vou tentar sistematizar porquê.

1. O Ministro dos Negócios Estrangeiros é o rosto do País, logo depois do Primeiro Ministro. Dado o pouco relevo internacional que ainda possui José Sócrates, seria de todo fundamental escolher alguém com relevo para assumir esse papel do modo mais conciliador possível e com a estratégia que mais interessa Portual. Freitas tem o peso político para o cargo, mas não o carácter, nem a estratégia.

2. Relação com a Europa

As posições de Freitas com a Europa são mais à esquerda que as do Bloco. Pensar em Vitorino ou Durão Barroso e depois olhar para Freitas do Amaral é no mínimo angustiante. Tudo o que de bom Portugal conseguiu projectar na Europa, vai ser destruído de uma penada por um elefante velho que não sabe ver onde pisa

3. Relação com a América
A Europa e a América estão em aproximação. França, Alemanha e Estados Unidos sabem que não podem viver de costas voltadas muito mais tempo.

Portugal tomou uma atitude para um lado da disputa no passado. Agora que os dois lados estão a reencontrar-se não vale a pena antagonizar nenhum deles. Portugal poderia inclusivé aproveitar esta mudança para ser o motor dessa reaproximação.

Ora Freitas foi pouquíssimo diplomata neste entretanto, tendo sido muito mais acutilante que Zapatero. Este último, já tinha afundado toda a estratégia de Espanha de entrar no G8, com a atitude anti-americana que tomou. Portugal em vez de aproveitar esse facto, vai contribuir com o seu radicalismo para voltar a aproximar Espanha dos EUA em detrimento das nossas pretensões. Aliás, Portugal será o único país da Europa a ter posições tão anti-americanas.

Para que melhor se perceba o que pensa Freitas da actual administração, é importante recordar o que ele disse, pois não foi só uma frase de comparação de Bush com Hitler. Freitas também zurziu forte e feio em toda a administração americana incluindo a agora todo poderosa Condoleeza Rice. Diz o senhor ministro

[...] é que, quando vivi durante um ano em Nova Iorque, como Presidente da Assembleia Geral da ONU, apercebi-me (sem margem para dúvidas) de que havia uma extrema-direita legal na América, a qual correspondia, essencialmente, à ala mais radical do Partido Republicano. Agora, essa facção ganhou a Presidência dos EUA, no ano 2000, e domina maioritariamente o governo americano: são seus principais representantes, além do próprio Bush-filho, o Vice-Presidente Dick Cheney, o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld e a Secretária Nacional de Segurança Condoleeza Rice. Do outro lado, quase sozinho como moderado, está apenas Colin Powell.

(o destaque é meu, podem seguir o link para ler o artigo todo, bastante interessante)...


Posto isto, se após lerem o artigo ainda alguém achar que este senhor deve ser o nosso porta voz e que com ele estaremos bem no Mundo, não vale a pena argumentar mais.... ou então se alguém acredita como José Magalhães que Freitas vai "seguir o programa do PS" nessa matéria, é ou dizer que Freitas não tem coluna vertebral, ou desconhecer Freitas.

Eu pessoalmente, acho um desperdício. Mas Portugal gosta de desperdiçar, por isso, não há novidade.... só os lamentos do costume.

Publicado por cparis em março 10, 2005 12:40 PM
Comentários

Caro César
Há uma diferença significativa que, espero, Freitas do Amaral seja capaz de reconhecer facilmente. O cargo de MNE não lhe permite falar com tanta liberdade como tem acontecido até agora. Confesso que não sou um "conhecedor" da personalidade do novo MNE, mas quero acreditar que saberá operacionalizar o pragmatismo que a função requer.
Além disso, Portugal não é assim tão relevante que a administração americana se preocupe com o MNE. Devem ter outros problemas bem mais complicados para resolver.
Dito isto, concordo absolutamente com a afirmação de Freitas do Amaral que cita no post. A administração Bush alberga elementos, em cargos muito relevantes, que se podem definir como extremistas de direita e fundamentalistas religiosos.

Afixado por: Miguel Silva em março 11, 2005 10:01 AM

caro miguel,

1. sobre a futura "contenção verbal" de freitas, só mesmo o futuro. no presente com afirmações como "só aceitei depois de saber todo o Governo" não parece ir no bom caminho

2. tenho sempre reservas de chamar "extrema-direita" a um governo democraticamente eleito... mas confesso, isso é apenas um prurido meu por achar que um negro por definição não é extrema direita ...
em Portugal, só temos esquerda, centro e extrema-direita. tudo o que existe à direita do PSD já foi chamdo extrema-direita... o PP, PND, até à Frente Nacional....enfim...

Afixado por: cparis em março 11, 2005 01:24 PM

Ponto um: partilho das mesmas reservas quanto a Freitas do Amaral. Vamos ver que vai ele fazer.

Ponto dois: Portugal nunca serviria para fazer ponte nenhuma entre os EUA e a Europa. Os americanos só ligam a Portugal porque a Base das Lajes é óptima para colocar aviões de reabastecimento de combustível.

Ponto três: em Portugal existe tanto extrema direita como extrema esquerda. O problema está, muitas vezes, no facto de haver uma multiplicação de partidos de extrema esquerda enquanto que haverá apenas um ou dois que se possam enquadrar na extrema direita. Se formos aos que são relevantes (ie, têm assento parlamentar), temos na mesma problemas para a definição à esquerda (partes do BE são de extrema esquerda enquanto que outros são autênticos sociais democratas e o PCP começa a tornar-se cada vez mais a extrema esquerda no espectro político português) e à direita (apenas há um que possa cair na definição de extrema direita, mas tem dado tantas cambalhotas ideológicas que é difícil defini-lo de alguma forma).

Seja como for, Freitas falou da extrema direita legal. Essa, em Portugal, é vista no CDS-PP, enquanto que a extrema esquerda é o BE. É simplista, mas é assimq ue podemos colocar os partidos no espectro político do país.

Afixado por: João André em março 11, 2005 03:59 PM

Parabéns pela lucidez do raciocínio e pela capacidade de síntese. Na verdade, haveria ainda muito para dizer sobre Freitas do Amaral e sobre a sua história. Desde o dia em que se ajoelhava a pedir por favor a Marcelo para entrar na faculdade de direito pela porta das traseiras.

Afixado por: mendonça em março 11, 2005 04:56 PM

César, a extrema-direita, como a extrema-esquerda, tem que ser definida pelas abordagens políticas, sociais e económicas. A administração Bush reúne ultra-liberais, neo-conservadores, fundamentalismo religioso e extremismo de direita, este último caracterizado por apologias moralistas, preconceitos sociais e subalternização do direito.
A extrema-direita pode chegar ao poder através de eleições. Não preciso de lhe recordar que o nazismo de Hitler foi eleito, por exemplo.
Se o descansa mais, reconheço que essa frase de Freitas do Amaral é um mau início. Mas, se reparar bem, eu também não estou realmente empenhado na defesa do MNE. Limitei-me a concordar com uma perspectiva que ele avançou.
Por último, nem sei bem o que dizer dessa ideia do João André de que existe social-democracia no BE. Que exista gente a votar BE convencidos que votam uma forma de social-democracia, ainda admito. Agora, que quem está dentro do BE não saiba que milita numa organização de correntes de extrema-esquerda, já me parece muita ingenuidade. O grande truque do BE foi conseguir retirar o trotskismo e o maoismo das referências que lhe fazem. E continua a viver disso.

Afixado por: Miguel Silva em março 11, 2005 06:02 PM

O Freitas foi esperto e vai poder agora andar a passear à custa de nós. Tudo porque Sócrates se "vendeu" ao homem em troca de uns quantos elogios...

Afixado por: Peixoto em março 13, 2005 11:49 AM

Miguel Silva: por muito que discorde ou que não goste, existe de facto uma corrente social democrata no Bloco de Esquerda que coabita com o pós-maoísmo e pós-trotskismo que são as faces mais visíveis do partido (sou o primeiro a dizer que não gosto dos "pós-ismos", mas à falta de melhor uso esta expressão).

Quanto a ser de extrema esquerda, acredito que também haja muita gente que, se calhar, até estaria mais próxima do centro que da direita e, no entanto, está ligada ao CDS/PP. É redutor pensar que, por se enquadrar um partido numa determinada posição do espectro político, não haverá membros seus que se enquadrarão noutra.

PS - note que eu não desmenti que o BE é de extrema-esquerda...

Afixado por: João André em março 14, 2005 10:48 AM

Caro João André, concordo consigo quando diz que "É redutor pensar que, por se enquadrar um partido numa determinada posição do espectro político, não haverá membros seus que se enquadrarão noutra". Mas continuo a pensar que a social-democracia que possa existir no BE (continuo a ter as minhas dúvidas, o que é que se há-de fazer) se reveste de tons muito diferentes do que estamos habituados a designar por esse nome.
Por outro lado, julgo que os pós-ismos que refere não passam de uma estratégia que aposta na ocultação das correntes que dão maior substância política ao BE.
E, já agora, pergunto eu, como é que essas correntes sociais-democratas se podem conciliar com os projectos revolucionários que radicam na ideologia do BE?

Afixado por: Miguel Silva em março 15, 2005 01:01 PM

Freitas do Amaral já veio dizer que as opiníôes que tinha sobre o Bush tinham mudado. è um vira casacas. Traiu Marcelo Caetano,O CDS,e a si mesmo.

Afixado por: José Viriato em março 16, 2005 01:16 AM