dezembro 13, 2004

A Palhaçada

A justificação de Sampaio foi mais ou menos a seguinte:

"Este Governo falhou, não deve continuar."

Logo deveria ter demitido o GOverno. ponto final. Mas não. Sampaio quis ir mais além e dissolver a AR, sem nenhum motivo. Em nenhum caso ele apontou a mais leve crítica à AR.

Santana Lopes fez o que tinha a fazer: demitiu-se... Seria absolutamente ridículo continuar em funções sem confiança presidencial. Só Sampaio não viu isso. Quanto ao Presidente vê assim ridicularizada a sua acção.

Entristece-me viver num país com a democracia mais idiota da Europa. Tenho confiança que um dia conseguiremos mudar. Até lá teremos de aturar isto. A situação que se passa é tão surreal que não consigo encontrar nenhuma, repito nenhuma, democracia dos 25 onde haja comparativo. Os nossos intelectuais de Esquerda acham que não. Felizmente estão a morrer. Soares já fez 80 anos.

Publicado por cparis em dezembro 13, 2004 01:01 PM
Comentários

Sem querer fazer juízos de valor posso esclarecer uma coisinha: Sampaio não demitiu o governo porque isso só pode ser feito em caso de crise institucional. Já o poder de demitir a assembleia da república é descricionário e terá sido a forma que Sampaio encontrou para convocar eleições.

Como não ouvi (nem li) o discurso de Sampaio, não vou pronunciar-me especificamente sobre o mesmo. Mas posso comentar que a decisão do Santana é de criancice. Sei que és de direita e que preferias que o Santana ficasse como PM, mas terá que concordar, com toda a honestidade, que ele foi incompetente ao longo deste tempo e que agora está apenas a tentar fazer passar a estratégia de vítima (que é a única que lhe serve neste momento, valha a verdade), não a ter uma postura de estado.

Só mais uma nota: dizer "Felizmente estão a morrer" sobre quem quer que seja denota um bocado de falta de humanidade. Dizê-lo sobre os intelectuais do outro lado da barricada denota pobreza de espírito. Este não é o César que eu conheço.

Afixado por: João André em dezembro 13, 2004 03:20 PM

Caro João André,

1. Os motivos para demitir o Governo "crise institucional" não são efectivamente controlados por ninguém, por isso Sampaio podia, como fez em relação à AR dissolvê-la.

2. A decisão de Santana (de se demitir) não é nenhuma criancice. Aliás é das poucas decisões que foi bem ponderada em todo este processo.

Casonão se demitisse, Santana corria o risco de "ser demitido" em plena campanha eleitoral...

3. Perdoa a minha falta de humanidade para com pessoas que foram responsáveis pela pior fase da minha vida... Acho absolutamente fantástico a "humanidade" da esquerda... pena que só funciona quando estão em causa homens de esquerda....

Eu gostava de ter sentido mais "humanidade" quando me tiraram de casa, me puseram a passar fome, etc... etc...

Por isso tudo, perdoa-me não verter uma lágrima quando vejo desaparecer certas pessoas que continuam a impedir o país de se desenvolver, de se afirmar....

PS. Onde estavas tu quando proibiram a celebração de uma missa a Salazar?... Haverá maior tacanhez de espírito do que isso?

Afixado por: cparis em dezembro 14, 2004 05:06 PM

A criancice de Santan foi ter-se demitido quando o fez e não imediatamente, quando soube da decisão, ou mesmo no momento em que Sampaio a comunicou ao país. A sua decisão foi tomada por motivos de estratéiga política e não de postura de estado.

Quanto àquilo que tu te queixas, convém saberes que a minha mãe foi frequentemente preterida em promoções na sua carreira simplesmente porque, à custa de "entrevistas" na fase de candidatura, outras/os candidatas/os que tinham muito piores resultados e currículos, tinham o cartãozinho certo. O da direita.

Ainda assim, mesmo pelo lado da esquerda, tenho razões de queixa, nomeadamente quando os meus pais chegaram a passar fome para que eu não o fizesse, porque a famigerada solidariedade do PCP parecia ter falhado. Mesmo assim não tomo posições por rancores pessoais, tomo-as por convicções. Não é uma pessoa que faz uma corrente política, uma pessoa apenas a pode aplicar, mal ou bem.

Quanto à missa do Salazar, sabes bem que sou ateu e que por Salazar tenho, quase de certeza, ainda menos estima que tu tens por Soares. Mesmo assim, quando aconteceu o episódio a que te referes, fui ter com algumas das pessoas envolvidas na história para lhes demonstrar o meu agrado. E continuei a fazê-lo apesar das afirmações deles que teria havido a saudação salazarista (ilegal, relembro) dentro da Sé. Isso não me impediu de os condenar.

Seja como for é engraçado que compares, pelo menos é o que resulta, o Soares com o Salazar. Tenho a certeza que o Salazar provocou mais sofrimentos que o Soares. Seja por que prisma for que se veja a história. Cada um escolhe o lado que quer.

Em todo o caso, e é uma discussão hoje inútil, será que outros políticos teriam resolvido a situação da época de outra maneira? Será que Soares não terá contribuído para impedir que os sofrimentos de muitas famílias, nomeadamente a tua, fosse maior? Eu não o defendo nem o ataco, mas olho para o que ele é e o que ele fez. E no todo, penso que terá deixado, apesar de tudo, mais coisas boas que más.

Afixado por: João André em dezembro 15, 2004 09:50 AM

Caro João André,

1. Se tivesse feito o que dizes teriam aparecido frases como "acto irrefletido" e uma meia duzia de possiveis questiunculas com o PP

2. Não comparei Sampaio a Salazar. De Salazar conheço pouco ou nada e não partilho (sem excepções) da opção por regimes de ditadura. Apenas comparei a reacção tida à minha frase com outras reacções tidas por alguma esquerda.

3. Soares, na minha opinião, "vendeu" Angola a interesses qe não eram os de Portugal. Aliás é curioso contatar que o país que mais ganhou em Angola (além dos US e da URSS), é a França. A França socialista, a França de Soares.

Claro que em Portugal, nunca se percebeu a riqueza que era Angola, por isso nunca se percebeu o que se perdeu, e rejeita-se o que se ganhou: um conjunto de emigrantes sem formação, que apenas queria fugir da guerra.

4. Quanto à personificação, acho brilhante o que dizes... Obviamente que Soares foi apenas um homem... Mas, perdoa-me pensar nisto deste modo... mas se ele foi apenas um homem, como é que ele é o pai da revolução? Ou só pode ser responsabilizado pelo que houve de bom, e nunca pelo que houve de mau?

Quanto ao resto caro João... cá andamos na luta pelo que cada um acredita... falta de humanidade? talvez, mas ao menos nenhuma hipocrisia... estou em crer que estes intelectuais de esquerda que me refiro também ficaram felizes ao ver desaparecer Salazar. E alguns até (ao contrário de mim) tudo fizeram para que isso acontecesse mais cedo.... Mas claro... esses sendo de esquerda são HUMANOS...

Afixado por: cparis em dezembro 15, 2004 03:49 PM