novembro 23, 2004

O(s) erro(s) do PCP

Habituado a discordar com o Barnabé vi-me confrontado com um artigo onde tenho de Lhe dar toda a razão: a proposta de suspensão da lei do aborto do PCP é um erro crasso e típica portuguesa: não se faz nem se deixa fazer.

Suspender uma lei é uma estupidez.... Ou se acha que a lei está certa, ou que está errada. ponto final.

Suspender a lei significa por um lado que vão continuar a ser mortos seres vivos (que para o PCP sabemos que valem menos do que qualquer animal) e por outro lado, como a lei não é revogada o único aborto possível será o clandestino e sem segurança. Ou seja, o pior dos dois mundos.

O segundo erro do PCP é o modo como quer fazer isso. Decidindo contra aquilo que o povo votou. Num partido que se diz do povo, estamos mal.

A lei do aborto, quer se goste dela ou não, é a lei que temos mais democrática uma vez que foi escolhida pela maioria. Aliás é a única que me lembre. Vivemos numa república imposta pelas armas, num regime imposto pelas espingardas e esta lei é a única que resulta directamente da vontade do povo. O PCP mostra que se está a borrifar para o povo.

Aos que vão a correr para a caixa de comentários, recomendo também que a leiam que a comparem com a espanhola e verifiquem se há alguma diferença. Depois digam-me o resultado.

Publicado por cparis em novembro 23, 2004 12:32 PM
Comentários

A minha memória pode estar a falhar-me, mas creio que a votação no referendo ficou abaixo dos 50%. Se assim foi (e creio que sim) temos o caso de o referendo não ter sido vinculativo, pelo que a proposta de lei que o sustentava caiu e manteve-se a lei que tinha sido aprovada no parlamento anteriormente.

Como tal, a lei não é exactamente democrática. É a lei que foi aprovada no parlamento. Aliás, mesmo que o referendo tenha sido vinculativo, isso não torna a lei a "mais democrática uma vez que foi escolhida pela maioria". A situação é a oposta. O "não" garante apenas que a rejeição à lei proposta seja o mais democrática possível. Se se tivesse votado a actual lei em referendo e essa lei tivesse sido aprovada, aí sim, seria a mais democrática (pela lógica dos referendos, a qual não defendo minimamente).

Seja como for, a lei que temos foi aprovada pelo parlamento, não pelo povo. Quanto ao resto que dizes, salvo um ou outro pormenor, estou de acordo. A suspensão de uma lei é das piores soluções que podem surgir. A meu ver nada mais é que uma tentativa de desviar as atenções da eleição (entronização seria um termo mais correcto) de Jerónimo de Sousa.

Afixado por: João André em novembro 23, 2004 02:35 PM

A proposta do PCP é um insulto à nossa inteligência, mas as ideias defendidas pelos Barnabés em relação à liberalização do aborto também não são de elogiar... É caso para dizer: é pior a emenda que o soneto...

Afixado por: Peixoto em novembro 24, 2004 06:23 PM

Nem mais. A Lei é para se aplicar, ou caímos no risco de, como em Sevilla, se publicitarem clínicas de interrupção da gravidez até às 25(!) semanas.... A que se deveria chamar assassinato e não interrupção.
CC

Afixado por: Maxou em novembro 29, 2004 01:41 PM

oh meu caro. a democracia não está no facto de não se ter exercido o direito, mas sim na possibilidade desse direito. o referendo não ter sido vinculativo, não quer dizer que não tenha sido democrático, ou que o seu resultado não seja democrático.

eu não posso votar no nosso sistema representativo, nem a favor ou contra: foi-me imposto pelas armas por um punhado de homens, e nada foi perguntado a ninguém.... esta lei não.... quem quiz votar fe-lo, e se fossem em número suficiente a votar contra nem estariamos aqui a ter esta conversa.... ou seja, é sem duvida o unico assunto que foi democraticamente estabelecido na sociedade portuguesa....

voltar a discuti-lo é não só uma estupidez do ponto de vista teórico, como revela o conceito de democracia vigente: o povo só interessa quando vota como nós queremos.... bahhh...

Afixado por: cparis em novembro 29, 2004 04:40 PM