junho 17, 2012

o dia sem juízo




Ainda não é hoje que Quetzalcóatl perde a bela plumagem e nos gela a alma.
Mas de hoje não passará a vidinha que levámos e levamos.

Hoje , a «primavera egípcia» escolhe entre o primeiro ministro de Mubarak e o representante dos irmãos muçulmanos;

a França escolhe entre reforçar Hollande ou minar-lhe o pedestal;

a minha muito amada Grécia escolhe entre a tragédia e o drama. Segreda-me a pitonisa que a tragédia sempre é grega.

E nós, navegantes de bóias e colchões de plástico, que diremos de nós?

Nós temo-nos (à puridade) em Versalles na Joana Vasconcelos;
e temo-nos na Ucrânia no bate-bola com a laranja mecânica.

Se a Joana já ganhou, no bate-bola a ver vamos.

Com tanto sarilho até eu acabei atingida: tiraram-me a plataforma,
vou entrar em viagem sideral.

Talvez voltemos a encontrarmo-nos por aí, num abracadabra qualquer, ou – quem vai saber? - num pão de papoilas bem mais útil aos tempos que vão correndo.





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junho 14, 2012

sem melancolia mas nikon



Ria Formosa (sotavento algarvio)

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junho 13, 2012

O ministro espantado




O ministro das finanças declara-se surpreendido com o aumento veloz do desemprego – coisa que só a quem desconhece o País e o patronato português pode surpreender .

Para além de ser inadmissível que um cidadão que não conhece o País seja ministro do que quer que seja, a situação passa a loucura brava se o cidadão é, vejam lá, ministro das finanças de um país atacado por crise financeira interna e externa.

Mas o espanto não ficaria por aqui: na continuação da arengada parlamentar, conclui o incrédulo e incrível ministro que é necessário reduzir ainda mais os custos do trabalho para obviar… ao desemprego.

A manter-se o inaudito, suspeito que o ministro ainda morre de espantadice aguda sem que haja maca movel de bombeiros que lhe acuda.




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junho 12, 2012

Guajira


Mayte Martín & Juan Ramón Caro





Publicado por samartaime às 11:31 AM | Comentários (0)

A minha gabardina


Tal como outros têm por secretária a noite
eu tenho a minha gabardina
de botões desusados e conversas redondas
que vai com os dias de chumbo
e traz filhos ilegítimos como pardais.

Eu e a minha gabardina
formamos uma só e vejam lá que
com dias de chuva eu molho-me
ela fica enxuta.

A minha gabardina é o meu cão
fiel quando se rasga e mostra um segredo
mapa de meses outros em que nos escondíamos
das luzes excessivamente denunciadoras
na rua patriarcal.

A minha gabardina é o meu gato
Sobranceira aos epítetos de arcaica e
inactual.

«A culpa foi da gabardina»
acusou o amor quando abandonou a casa
doente da minha pele impermeável
às imagens negociadas do desejo.

Hei- de morrer com a minha gabardina.
Expô-la como o fato de feltro de Joseph Beuys.


ANA PAULA INÁCIO

2010 - 2011 // AVERNO, 2011.



Joseph Beuys, Felt Suit

(antes a gabardina)




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Sergei Prokofiev - "Obsession(suggestion) diabolique" op.4,No 4


Valentin Bogolubov playing "Obsession(suggestion) diabolique"op.4,No4 by Sergei Prokofiev,
featuring by Salvador Dali's paintings.
Recorded february 14,2004 in Montreal."Music-Light-Image" project.







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junho 11, 2012

Mahler Symphony No 5 Adagietto - Sir Simon Rattle







Publicado por samartaime às 06:41 PM | Comentários (0)

melancolias nikon







Ria Formosa (sotavento algarvio)



Publicado por samartaime às 10:09 AM | Comentários (0)

junho 10, 2012

Carta Aberta ao venerando chefe
do estado a que isto chegou




Senhor Presidente,

Há muito, muito tempo, nos dias depois que Abril floriu e a Europa se abriu de par em par, foi V.Exa por mandato popular encarregue de nos fazer fruir dessa Europa do Mercado Comum, clube dos ricos a que iludidos aderimos, fiados no dinheiro fácil do FEDER, do FEOGA, das ajudas de coesão (FUNDO DE COESÃO) e demais liberalidades que, pouco acostumados, aceitámos de olhar reluzente, estranhando como fácil e rápido era passar de rincão estagnado e órfão do Império para a mesa dos poderosos que, qual varinha mágica, nos multiplicariam as estradas, aumentariam os direitos, facilitariam o crédito e conduziriam ao Olimpo até aí inatingível do mundo desenvolvido.
Havia pequenos senãos, arrancar vinhas, abater barcos, não empatar quem produzisse tomate em Itália ou conservas em Marrocos, coisa pouca e necessária por via da previdente PAC, mas, estando o cheque passado e com cobertura, de inauguração em inauguração, o país antes incrédulo, crescia, dava formação a jovens, animava a construção civil , os resorts de Punta Cana e os veículos topo de gama do momento.
Do alto do púlpito que fora do velho Botas, V.Exa passaria à História como o Modernizador, campeão do empreendedorismo, símbolo da devoção à causa pública, estóico servidor do povo a partir da marquise esconsa da casa da Rua do Possôlo. Era o aplicado aluno de Bruxelas, o exemplo a seguir no Mediterrâneo, o desbravador do progresso, com o mapa de estradas do ACP permanentemente desatualizado.
O tecido empresarial crescia, com pés de barro e frágeis sapatas, mas que interessava, havia pão e circo, CCB e Expo, pontes e viadutos, Fundo Social Europeu e tudo o que mais se quisesse imaginar, à sombra de bafejados oásis de leite e mel, Continentes e Amoreiras, e mais catedrais escancaradas com um simples cartão Visa.
Ao fim de dez anos, um pouco mais que o Criador ao fim de sete, vendo a Obra pronta, V.Exa descansou, e retirou-se. Tentou Belém, mas ingrato, o povo condenou-o a anos no deserto, enquanto aprendizes prosseguiam a sanha fontista e inebriante erguida atrás dos cantos de sereia, apelando ao esbanjamento e luxúria.
No início do novo século, preocupantes sinais do Purgatório indicaram fragilidades na Obra, mas jorrando fundos e verbas, coisa de temerários do Restelo se lhe chamou. À porta estava o novo bezerro de ouro, o euro, a moeda dos fortes, e fortes agora com ela seguiríamos, poderosos, iguais.
Do retiro tranquilo, à sombra da modesta reforma de servidor do Estado, livros e loas emulando as virtudes do novo filão foram por V.Exa endossados , qual pitonisa dos futuros que cantam, sob o euro sem nódoa, moeda de fortes e milagreiro caminho para o glorioso domínio da Europa.
Migalha a migalha, bitaite a bitaite, foi V.Exa pacientemente cozendo o seu novelo, até que, uma bela manhã de nevoeiro, do púlpito do CCB, filho da dileta obra, anunciou aos atarantados povos estar de volta, pronto a servir.
Não que as gentes o merecessem, mas o país reclamava seriedade, contenção, morgados do Algarve em vez de ostras socialistas.
Seria o supremo trono agora, com os guisados da Maria e o apoio de esforçados amigos que, fruto de muito suor e trabalho, haviam vingado no exigente mundo dos negócios, em prol do progresso e do desenvolvimento do país.
Salivando o povo à passagem do Mestre, regressado dos mortos, sem escolhos o conduziram a Belém, onde petiscando umas pataniscas e bolo rei sem fava, presidiria, qual reitor, às traquinices dos pupilos, por veladas e paternais palavras ameaçando reguadas ou castigos contra a parede.
E não contentes, o repetiram segunda vez, e V. Exa, com pungente sacrifício lá continuou aquilíneo cônsul da república, perorando homilias nos dias da pátria e avisando ameaçador contra os perigos e tormentas que os irrequietos alunos não logravam conter.
Que preciso era voltar à terra e ao arado, à faina e à vindima, vaticinou V.Exa, coveiro das hortas e traineiras; que chegava de obras faraónicas, alertou, qual faraó de Boliqueime e campeão do betão; que chegava de sacrifícios, estando uns ao leme, para logo aconselhar conformismo e paciência mal mudou o piloto.
Eremita das fragas, paroquial chefe de família, personagem de Camilo e Agustina, desprezando os políticos profissionais mas esquecendo que por junto é o profissional da política há mais anos no poder, preside hoje V.Exa ao país ingrato que, em vinte anos, qual bruxedo ou mau olhado, lhe destruiu a obra feita, como vil criatura que desperta do covil se virou contra o criador, hoje apenas pálida esfinge, arrastando-se entre a solidão de Belém e prosaicas cerimónias com bombeiros e ranchos.
Trinta anos, leva em cena a peça de V.Exa no palco da política, com grandes enchentes no início e grupos arregimentados e idosos na atualidade.
Mas, chegando ao fim o terceiro ato, longe da epopeia em que o Bem vence o Mal e todos ficam felizes para sempre, tema V.Exa pelo juízo da História, que, caridosa, talvez em duas linhas de rodapé recorde um fugaz Aníbal, amante de bolo rei e desconhecedor dos Lusíadas, que durante uns anos pairou como Midas multiplicador e hoje mais não é que um aflito Hamlet nas muralhas de Elsinore, transformado que foi o ouro do bezerro em serradura e sobrevivendo pusilâmine como cinzento Chefe do estado a que isto chegou, não obstante a convicção, que acredito tenha, de ter feito o seu melhor.

Respeitoso e Suburbano, devidamente autorizado pela Sacrossanta Troika,


António Maria dos Santos
Sobrevivente (ainda) do Cataclismo de 2011






«Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente.
E pela mesma razão.»

EÇA DE QUEIROZ




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junho 09, 2012

Paciência?




Paciência paciência, conheço umas quatro:

- a paciencia revolucionária de VG com os reaças do PREC;

- a paciência do VPV com o sec. XIX;

- a paciência do VGM com o acordo ortográfico de 1945 e seus gloriosos antecedentes;

- a paciência manuelina para aturar os ministros da saúde dos melos e dos espiritos santos;

- e a terrífica paciência do japonês, segundo Fernão Mendes Pinto via Zeca Afonso.

Assim sendo, aqui vai pela terceira vez a parábola, toda explicadinha pelo próprio Zeca:

-



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junho 08, 2012

«É grego ou fala grego?»








Publicado por samartaime às 07:48 PM | Comentários (0)

VOLTAIRE JOHNSON




Por que razão me ferias com os teus rudes lugares,
se não querias que te falasse deles?
E me sufocavas com a tua estupidez,
se não querias que ta mostrasse?
E por que me picavas com os pregos da má-fé,
se não querias que eu os arrancasse
para tos atirar à cara?
E por que me matavas de fome por eu recusar obedecer-te,
se não querias que minasse a tua tirania?
A minha alma poderia ter sido tão serena
quanto a de William Wordsworth, se não fosses tu!
Mas que cobardia a tua, Spoon River,
ao pretenderes encerrar-me num círculo mágico
desenhado pela espada da Verdade!
E lamentares-te depois, maldizendo as queimaduras que sofreste
e também a minha força, que de pé permaneceu, a rir-se,
por entre os mais irónicos relâmpagos!


EDGAR LEE MASTERS

Spoon River Antology (1915)


Trad. José Miguel Silva // Relógio d’Água, 2003




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junho 07, 2012

Presidente da Ucrânia manda matar
animais de rua em nome do EURO 2012




O Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, determinou o extermínio de cães e gatos, em nome da imagem do país no Euro'2012. A medida gerou o repúdio de organizações de defesa dos animais. Há animais queimados vivos. Os cães e os gatos da Ucrânia que vivam nas ruas estão a ser queimados vivos, envenenados e enterrados em valas comuns, por ordem presidencial. Os animais são abatidos ou anestesiados e atirados diretamente para o interior de um camião que serve de crematório.

Segundo o site da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), as autoridades de diversas cidades ucranianas que serão palco de jogos do Campeonato Europeu de Futebol já estão a usar crematórios móveis para matar os animais de rua.

A medida mereceu anúncio televisivo e representa um extermínio em massa.
Diversas ações estão a ser programadas e divulgadas no Facebook, Google, Youtube, etc., como modo de protesto.

(Noticiário Google)



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vadiações




Fuzeta (sotavento algarvio)



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junho 06, 2012

Agora a sério




Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os “tugas”,
como todos os inábeis.

Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.

Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos pequenos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.

No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas

de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,

com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:

piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.

Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço

(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça

triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.



JOSÉ MIGUEL SILVA



( Erros Individuais / Relógio d'Água, 2010.)



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junho 05, 2012

Eleições gregas



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junho 04, 2012

vadiações



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Fuzeta (Sotavento algarvio)

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junho 03, 2012

Livro de Horas extraordinárias (18)



tu que viste fiordes e corais,
que chegaste das palavras
subterrâneas e do que fica


por dizer, que aprendeste o silêncio
em várias línguas e atiraste um dia
a moeda ao ar para enganar


a morte, quantos verbos
queres mais para percorrer
esta narrativa inútil?


RENATA CORREIA BOTELHO



(Um Circo no Nevoeiro / AVERNO)




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junho 02, 2012

Vadiações




Fuzeta (Sotavento Algarvio)



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junho 01, 2012

ANJOS



Às vezes penso que todos os anjos são negros,
caídos, como a fé vinda da mão de porcelana
de algum deus; que todos os anjos são anjos de novembro,
do inverno chegando, de mutilações, vícios,
crianças mortas e jovens abatidos na guerra,
anjos de luto, que vêm cantando endechas,
são eles que tomam em si a dor,
é isso que lhes dá forma, é isso que os torna
tão negros – o que os infla como velas de barcos
que nunca voltarão a casa, ou ventres de mulheres
grávidas e esfomeadas. Eu gosto do modo como a sua canção
flutua em noites enevoadas, essa negra graça,
como chuva fustigando as almas ressequidas,
as línguas vazias.


SHERYL ST. GERMAIN


Trad. Maria Andresen e Alexis Levitin

Relâmpago 28, Abril 2011




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