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abril 30, 2012

Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans


Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est l'âge dur
Ce n'est pas le meilleur des temps
Je sais, je l'ai vécu.
J'ai dansé sur quelques volcans,
Troué quelques souliers
Avec mes rêves et mes tourments
J'ai fait mes oreillers.
Et je dis encore aujourd'hui :
Je suis comme je suis.

Oui, je me souviens des jours,
Quand les jours s'en allaient
Comme un rêve à l'envers.
Oui, je me souviens des nuits,
Quand les oiseaux parlaient
Sous la plume à Prévert.

Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans,
Vingt ans, c'est tout petit
Moi, je n'ai jamais eu le temps
D'avoir peur de la nuit.
Ma maison est un soleil noir
Au centre de ma tête,
J'y fais l'amour avec l'espoir
Et l'âme des poètes.
Les poètes sont des enfants,
Des enfants importants

Moi, Monsieur, quand j'avais vingt ans
J'étais déjà perdue,
Perdue, la rage entre les dents,
Superbement perdue !
Moi, je dansais avec des morts
Plus vifs que les vivants
Et nous inventions l'âge d'or
Au seuil des matins blancs.
J'ai toujours, chevillé au corps
Le même soleil levant.

Non, Monsieur, je n'ai pas vingt ans !

Publicado por samartaime às 11:50 AM | Comentários (2)

abril 21, 2012

Graçolas de ocasião




Tem muita graça aquilo dos governantes não saberem do que falaram outros governantes antes deles.

Tem muita graça o ministro Relvas a inventar incoerências para clarificar o incoerente.

Mas o mais gracioso foi o ministro Gaspar apressar-se, vagarosamente, à explicação do lapso do facto de 2015 ser o ano imediatamente consecutivo a 2014. Isto sim, foi um verdadeiro segredo de estado.

Com a abundância de graçolas de ocasião, ficámos a saber que assim como há ministros que não sabem do que falam, ainda há ministros que não sabem o que andam a fazer.

Já se tinha desconfiado disso quando vieram com aquela das novas benesses tributárias:
- de parte do IVA da reparação do carro vir a ser descontado no imposto de circulação (selo) do carro;
- de parte do IVA de obras em casa vir a ser descontado no valor do IMI;
- e outras afins & correlativas.
Só mesmo quem não conhece «a vida» se lembra destas. E não sou eu quem lhes vai explicar.

Como se este desgoverno mediático não bastasse, ainda temos ministros & similares, que confundem Estado Social com Assistência Social.

E os que estranham que as verbas da Segurança Social desapareçam enquanto o desemprego galopa livremente ao vento. Coitados, devem ter pensado que era só pagar o subsídio de desemprego uns tempos e que depois essa verba «transitava» para os novos desempregados. A chatice é que acabado o contribuinte, acaba a contribuição.

E os que acham que o melhor é travar as pré-reformas antes que fujam todos? Pobres cabeças que nem conseguem prever que os que saem antes vão receber menos, agora e para todo o sempre.

Que mais nos haveria de acontecer? O mudo intermitente falou.
E enquanto o governo anda a falar que isto vai como está ou pior até 2015 se não for até 2030 ou sabe-se lá até quando, salta o mudo intermitente e põe-se a falar: Estou certo que no fim deste ano tudo vai melhorar! – Ele, que nunca se engana, bem se vê que nunca lê nem jornais.



Publicado por samartaime às 07:30 PM | Comentários (0)

SALA PROVISÓRIA




Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo,como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.


INÊS LOURENÇO





Publicado por samartaime às 03:31 PM | Comentários (0)

abril 20, 2012

vivere necesse




Lisboa: advogada presa por roubar na rua, de esticão, 15 idosas.




Publicado por samartaime às 02:57 PM | Comentários (1)

abril 19, 2012

Esto no es crisis







Publicado por samartaime às 06:33 PM | Comentários (0)



Lira 1.jpg

INQUÉRITO

( realizado por Ana Luísa Amaral, Joana Matos Frias, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo)

A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

Respondem os poetas:

[...que já são mais de vinte.
Nem sempre os nossos mais interessantes correspondem às respostas que nos são mais interessantes.
Consegui a minha harmonia de interessantes escolhendo o abaixo transcrito: ]



A. M. PIRES CABRAL (Chacim – Macedo de Cavaleiros, Portugal, n.1941)

«A poesia, graças a Deus, pode ser tudo. Por isso também pode ser uma forma de resistência. Pode ser, na afortunada formulação de Manuel Alegre, ‘poemarma’.

Mas não sempre, nem por definição. Pedindo emprestado um chavão muito caro aos homens do futebol, ‘tem dias’. Às vezes resiste, outras vezes desiste, outras vezes ainda consiste apenas.

A menos que se entenda resistência como simples afirmação, isto é, modo de enfrentar os nossos medos e fantasmas, venham eles de fora ou de dentro de nós. Nesse sentido, mesmo uma poesia de conformidade e celebração como a de Mayakovsky pode ser uma poesia de resistência.

Mas eu prefiro pensar a poesia como um utensílio que também pode ser um acto de resistência, quando resistir é preciso. Resistir, denunciar, amotinar. »

Para conhecer a LyraCompoetics clique no logotipo lá no alto.


Encontrado no Logros Consentidos

Publicado por samartaime às 10:30 AM | Comentários (0)

abril 18, 2012

Sem papas na língua







Publicado por samartaime às 07:43 PM | Comentários (0)

O doce charme da piolheira


Um bom português é aquele que vive de bons negócios com um bom relacionamento no «estado social».

Um bom gestor é aquele que, reparando na diminuição do consumo do seu produto, obtém do «estado social» o aumento do preço do produto para que os lucros – no mínimo - se mantenham.

Uma grande empresa é aquela que tem uma cláusula no seu contrato que lhe permite ser ressarcida pelo «estado social» sempre que os seus lucros diminuam.

Um grande empresário é aquele que mantem uma ampla zona de conforto para os seus quadros ex-quadros do «estado social» mais abrangente, e assim imprime maior competitividade ao financiamento dos seus projetos e aquisições.

Um grande industrial é aquele que tendo, ou não tendo, qualquer indústria, obtém do «estado social» financiamento para jogar na bolsa e adquirir a parte que lhe convirá dessa mesma indústria ou de qualquer outra.

Um bom governante do «estado social» é aquele que, todos os dias, se revela muito atenta e velozmente disponível para corresponder às mais diversas intenções e solicitações da nata portugaleira.

Um bom perito é aquele que, todos os dias, encontra mais um buraco abrangente no «estado social».

Um bom especialista é aquele que, todos os dias, encontra uma nova maneira abrangente de disponibilizar o dinheiro do «estado social»

Um bom político é aquele que, todos os dias, encontra uma justificação abrangente para sacar dinheiro do «estado social»

Um bom regulador é aquele que. todos os dias. assegura de forma abrangente que o «estado social» fornece à sua área uma zona de conforto.

Um bom politólogo é aquele que, todos os dias. elabora a justificação abrangente do estado social desconfortável a que chegou o «estado social» para que se conserve alguma zona de conforto sustentável.

Um bom comentador é aquele que, todos os dias, conta o que dizem os jornais e televisões, fazendo cara de conforto ou desconforto consoante a cara do patrão.

Um bom católico é aquele que, todos os dias, vai à missa mas não sabe o que dizem os bispos.

Um bom ateu é aquele que, a toda a hora, exclama – caraças, estes bandalhos nem os bispos ouvem!


E um mau português o que é?

Um mau português é o desgraçado estado social de quem nasceu e viveu no calhou, trabalhou no possível, descontou o que entenderam, como entenderam, quando entenderam e agora aprende que o contrato que assinou e a que chamou Estado Social, hoje não tem «escritório de advogados» que o safe da esmola quando dá, da rua até sempre.


Mas a governação é de excelência e faz milagres.
A saber:

1) surtos de inopinadas «epidemias de gripe» reduzem as despesas com as pensões milionárias de 250€ e até das quádruplas;

2) a demografia vigente já dá uma mãozinha preciosa;

3) a aproximação do degelo ou do gelo, já se encarrega do litoral,
da seca e do que mais houver:

4) a má vida jura que aumentará a mortalidade infantil e outras;

5) haverá tolerância de ponto para quem quiser acorrer às igrejas a pedir à Senhora do Livramento que os livre da tuberculose de excelência, da lepra do conforto e da peste bubónica da abrangência;

6) os desempregados vão diminuir avassaladoramente, entre mortos e emigrados;

7) os empregados vão trabalhar 24 horas por dia;

8) o dia vai passar a ter 25 horas para contemplar o banco de horas;

9) o VGM vai ter um destacamento de guardas florestais que lhe cacem o lince dos computadores;

10) mexias e catrogas vão ter de bailar até os chineses sorrirem.


Haverá melhor nação?



Publicado por samartaime às 03:31 PM | Comentários (2)

abril 15, 2012

Cinco páginas!




É muito, mesmo ao domingo.

Tipo crise de identidade.

O Vaticano foi importante, não é mais.

Ratzinger-intelectual sabe-o.

Ratzinger- papa «não tem autorização do senhor».

A ICAR esboroa-se como a Europa, com a Europa.

Ortodoxa, heterodoxa, personalizada - tanto faz.

Dormiu sobre a memória de João XXIII, perdeu-se do tempo.

E hoje o poder temporal é de curta validade.

Tal como a Europa, terá de entender-se com os novos impérios emergentes.

Não é impunemente que se é enclave de alguma coisa ou alguém.



Publicado por samartaime às 10:38 AM | Comentários (0)

abril 14, 2012

« tam fé pá»





(Georges Moustaki, Le Métèque)


Um grego merece mais, evidentemente.

Bora lá ouvir outras:

Ma Liberté


Rue des fossés Saint- Jacques


Ma Solitude



E agora uma para batucar:


La philosophie

Toca a cantar o refrão que eu ajudo:

No zavom tute lávi por no zamuzê

No zavon tute la mór por no repouzê


Digam lá que este francês não é de caras!




( Quem não cantar é coelho! )



Publicado por samartaime às 11:37 AM | Comentários (2)

abril 13, 2012

Ventanias protocolares



Régia

ventanias 1.jpg
(Anónima)


Papal

ventanias 4.jpg
(Anónima)



Publicado por samartaime às 06:16 PM | Comentários (0)

Portucale




O processo Portucale acabou ontem, finalmente e à la portucale:

os onze arguidos foram inocentados e saíram em paz.

Pena que não fossem doze, já que - diz o povo - « à duzia é mais barato!»

E agora vamos mas é «ser todos felizes o tempo que nos resta».




Publicado por samartaime às 09:57 AM | Comentários (0)

abril 12, 2012

A torpe calúnia



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Afinal nada daquilo que se vê na foto, foi. Tudo pura calúnia, distorção dos factos, ódio difamante à preclara e branda polícia de choque!

Um pouco mais acima e ligeiramente à esquerda de quem olha, o malicioso fotografo não registou a amena cavaqueira em que estavam, à porta da Brasileira, os senhores Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Alvaro de Campos e Fernando Pessoa. Na mesa ao lado, meio enviezado e desassossegado, o senhor Bernardo escrevia.
Pois não é que nenhum destes senhores deu pela passagem, sequer, da polícia quanto mais de choque?!


o tempora! o mores!, que já a polícia não pode escaqueirar umas cabeças sem que se alevante atoarda e sua excelência o ministro delas tenha de ser incomodado.



Publicado por samartaime às 03:34 PM | Comentários (0)

abril 11, 2012

Aleluia, aleluiaaa





Publicado por samartaime às 12:26 PM | Comentários (0)

Encontro salgado



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Publicado por samartaime às 11:45 AM | Comentários (0)

abril 06, 2012

Na sexta da paixão


Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e
os vossos dedos de iniqüidade; os vossos lábios falam a mentira,
a vossa língua pronuncia perversidade.
Isaías 59:3



Depois da euforia das cinco linhas do TGV português lançada em consulado do PSD e de que já ninguém se lembra, Sócrates carregou a desgraça de um TGV português até às bandas de Badajoz para fazer a ligação à Europa via Madrid.

Na sua ânsia de anular o passado, Passos Coelho anunciou que regressara o juízo às cabeças lusitanas e que desta é que era a verdade do possível e do mais conveniente: a linha vai fazer-se, mas em «bitola europeia». Porque, não sendo tão rápida e dispendiosa como a de Sócrates, será suficientemente rápida para transportar carga do porto de Sines para o centro da Europa e até passageiros. Eureka! Finalmente a boa utilidade e o bom senso.

Não esfriara ainda o contentamento quando ficam a saber que a Espanha de «bitola europeia» tem o TGV para passageiros e carga leve. E que a «bitola europeia» para carga pesada também já existe mas a partir de Barcelona – por acaso um bom porto de mar. Só inocentes querubins não reparariam no pequeno detalhe «Barcelona» no horizonte de Sines.

Um detalhe tão pequeno que nunca mais se falou no assunto: um súbito silêncio do tamanho da Espanha se abateu sobre o caso da bitola.

Maior que o silêncio da bitola só o silêncio pidesco sobre a proibição do direito das pessoas a reformarem-se, uma proibição patrocinada pelo tal que um dia se disse o provedor dos cidadãos, como já afirmara que nunca se engana e que nunca tem dúvidas e ainda disse que teria de nascer duas vezes quem mais honesto fosse. Bah! – conversa da banha da cobra mas só agora temos a tal geração mais preparada para os mandar à merda.

Mas há mais sinais da bipolaridade acelerada – inclusivamente naquele ilustre caso de a gravidez passar a doença. Isto é, de ser tratada em tudo com as regras impostas aos doentes. Estou para ver os impressos das declarações de autenticidade ou de fraude das grávidas. Principalmente todos temos o direito a saber se na fraude utilizaram uma almofada de penas de pato ou de galinha ou, quiçá, optaram pela melancia.

E ainda falta a Maternidade Alfredo da Costa, a querida MAC das grávidas! Oxalá não estejam de olho no local e no edifício e não lhes vá acontecer como no caso de triste memória e altas despesas daquele liceu que sendo ideal para um hotel só depois descobriram que aquilo ou era para uma escola ou nada. Mas a rapaziada pouco se atrapalha com estas ninharias: manda-se erguer uma escola que depois se entrega a um privado «para explorar» e acrescenta-se no terreno uma segunda nova escola, essa pública, que pagará as despesas da privada.

Bons negócios têm os dias! Só nos falta Cristo para despejar os vendilhões do templo.
Mas até Cristo preferiu morrer a continuar homem.



Publicado por samartaime às 07:40 PM | Comentários (0)

abril 05, 2012

Il Vangelo secondo Matteo da Pasolini (16:9)



Publicado por samartaime às 09:57 AM | Comentários (0)

abril 04, 2012

O «retorno» dos 13º e 14º meses




Estão a dormir?


2015 é ano de eleições.



Publicado por samartaime às 10:17 PM | Comentários (0)

abril 03, 2012

Novas dos trilhos ibéricos




Afinal a Gare da Bitola Europeia não vai para Moscavide-B, mas para o Chiado.

Para lá da ligação direta pelo 28 ao Castelo e ao Principe Real, fortalece o incremento das atividades económicas carteiristicas e permite uma visão pessoana logo ao primeiro apeamento.

Aliás, foi por essa razão que a polícia andou a desbravar a área no dia da greve geral:

motim 2.jpg

motim 3.jpg


Eu tinha julgado que se tratara de um amotinamento da polícia mas não é verdade: o poeta Chiado, que tem um angulo de visão mais alto que o meu e que assistiu a tudo, contou-me que não senhora, que não tinha sido um amotinamento da policia mas sim o aplainamento do terreno e o alargamento do espaço para a medida da bitola europeia.



Publicado por samartaime às 01:13 PM | Comentários (0)

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO...

Jorge Sena.jpg

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.


Jorge de Sena , Fevereiro 1976



Mário Viegas diz : não não não subscrevo



Publicado por samartaime às 10:35 AM | Comentários (0)

abril 02, 2012

Pedro Piegas lança
a bitola europeia ibérica




Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.


Perdigão que o pensamento
Subiu em alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.


Quis voar a u'a alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.


Luís de Camões

Publicado por samartaime às 10:27 AM | Comentários (0)