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maio 23, 2011

Livro de Horas extraordinárias (8)



CANTO DOS TORNA-VIAGEM


JOSÉ MÁRIO BRANCO





Publicado por samartaime às 06:26 PM | Comentários (0)

maio 20, 2011

Livro de Horas extraordinárias (7)


I I

E era uma vez este homem
que era um chevrolet
casado com uma mulher de vidro
que era uma colher de prata
Tempos depois sobreveio uma zanga
que era uma criança nua
entre umas tábuas de passar a ferro
e dois elevadores lindíssimos

Metrónomo (disseram eles)

Verdadeira saudade pernilonga
o pára-raios pôs-se a esfardar romanticamente o toldo
de uma máquina de escrever disposta para o amor às quatro no
interior de um quarto
que era uma planície redonda semeada de vírgulas violeta
com um pequeno garfo nas costas
que era o amanhecer que é uma árvore
na boca de uma mosca de veludo rosa

Metrónomo metrónomo (disseram eles ainda)
é uma árvore é uma pedra que vai começar o terceiro canto?

É a aflição dos outros, meu amor.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje
as crianças brincavam nos jardins
com um pequeno garfo nas costas
sem dúvida o mesmo de há bocado
e até era domingo vê lá tu
de repente apareceste muito devagar a meu lado
arrastando sem esforço dois aparadores baratíssimos
ai! minha tristeza não era uma barca
breve houve lapidações em série
com um ligeiro clic de chaufagem aberta
todos os meus irmãos começaram a andar velozmente para trás
pobres dos meus irmãos que será feito deles e de nós que fizemos?

Imossível saber-se até onde irá connosco a nossa confiança
Ficaste, mão que aperto todas as manhãs para atravessar incólumes
os espaços vazios
Ficaste, peito sangrento do mundo largada para o sol entre os bichos
e eu
meu único amor meu amor meu múltiplo amor meu
tu que és uma mesa redonda enamorada dos seus próprios círculos
um alcaide sem discos um maço de cigarros
que se descobriu flor
que se descobriu água
que se abriu de repente
que gritou de repente
que implantou na minha vida de repente a carola perfeita
da desorganização

Não me encontrarás como um anel na curvatura I - Z do teu dedo
mindinho
nem na treva que exalta os teus cabelos
nem no espantoso hall da tua testa fechada iluminadíssima
encontrar-me-ás numa nuvem de escamas milimétricas em torno da
tua boca
com toda a força principal na boca
ou nesta casa que é um homem morto
rodeado de rostos sempre translúcidos

- Onde está o homem que era um chevrolet
casado com uma vírgula de amianto?
Certo e sabido que anda sobre as águas que o matei sem querer
estas estrelas brilham com tal nitidez
que acabam sempre por tornar-se suspeitas

Não importa transfigurá-lo-ei em poderoso egípcio

Abracadabra! Vram! Abracadabra!

Os teus olhos estão belos como a lua dos rios exteriores



MÁRIO CESARINY





Publicado por samartaime às 08:17 PM | Comentários (0)

maio 14, 2011

Memorando da troika




Memorando da Troika – Em Português:





está traduzido, na íntegra, no blogue AVENTAR




(Obrigada ao AVENTAR e a Domingos Mota - onde encontrei a informação.)





Publicado por samartaime às 06:24 PM | Comentários (0)

maio 12, 2011

Coincidências






«Na última semana beatificámos um papa, casámos um príncipe, fizemos uma cruzada
e matámos um mouro.
Bem vindos à Idade Média.»


(anónimo)





Publicado por samartaime às 04:27 PM | Comentários (5)

maio 10, 2011

Luiza Neto Jorge (1939-1989)



oleo- aldeia.jpg
samartaime, «aldeia da praia quente», 1980, oleo s/tela (89cmX116cm). (col.part.)



BAIXO – RELEVO

Dentro de um secular sossego
nós somos
a escultura de amanhã

(milhões de formigas
descem no cabelo
platinado de pó o coração)

Tu e eu
só estátuas de amanhã
Não temos na mão a flor
um livro uma espingarda
uma cadeira gasta onde morrer
E sem o monstro gótico apunhalado aos pés

(Todos os sonhos são de pedra ou bronze
não os meus de palha ou de papel )

Tu e eu
baixo – relevo
vendidos tocados expostos em vida
perseguidos pelos milionários
e pelos mortos talvez que invadiram já
o pedestal das estátuas

Tu e eu
elípticos de sexo
ontem gritada no teu peito
hoje secreto no meu ventre

deserdados da sombra
já sem gesto
escultura de amanhã

LUIZA NETO JORGE

Biografia breve da Luiza Neto Jorge:

10-5-1939, Lisboa - 23-2-1989, Lisboa

Poeta portuguesa, natural de Lisboa. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Enquanto aluna de FL foi uma das fundadoras do Circulo de Teatro da Pró-Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da UL tal como outros nomes hoje sobejamente conhecidos como Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo, Eduarda Dionísio, Fiama, Ermalinda Duarte, Teresa Amado, etc..

Como escritora, fez parte do grupo Poesia 61. Ligada à vanguarda da literatura portuguesa, por vezes próxima do surrealismo, foi um dos nomes marcantes da poesia portuguesa das últimas décadas.

Estreou-se com A Noite Vertebrada (1960), tendo sido publicados ainda, Quarta Dimensão (1961), Terra Imóvel (1966), O Seu a Seu Tempo (1967), Dezanove Recantos (1969), Os Sítios Sitiados (1973, colectânea), A Lume (1989, póstumo) e Poesia (1994, que engloba toda a sua obra poética).

Dedicou-se, também, à tradução de poesia, prosa e teatro,
E escreveu para cinema.

Traduziu autores como André Breton, Gérard de Nerval, Rimbaud, Jean Genet, Céline (cuja tradução da «Morte a Crédito» lhe valeu o prémio de tradução do PEN Clube - e que viria a ser a sua última tradução), Marguerite Yourcenar, Sade, Goethe (o «Fausto»), Verlaine, Witold Gombrowicz, Apollinaire, Karl Valentim, Garcia Lorca, Ionesco, Boris Vian, Oscar Panizza, etc., etc..

Fez várias adaptações para teatro ( «O Fatalista», de Diderot, em 1978), e outras que não recordo mas que LM Cintra, J Silva Melo e Maria Emília Correia por certo recordarão melhor que eu.

Foi autora de diálogos para filmes de Paulo Rocha («A Ilha dos Amores») e Solveig Nordlund, do argumento de «Brandos Costumes» (1975) de Alberto Seixas Santos e da assistência literária a «Relação Fiel e Verdadeira», de Margarida Gil – de 1989, ano da morte de Luiza Neto Jorge.


Noite Vertebrada 1.jpg
(Capa sob linóleo de Luiza Neto Jorge), 1959, Lisboa
Primeira edição em 1960, em Faro, Tipografia Cácima.



Publicado por samartaime às 03:14 PM | Comentários (0)

maio 09, 2011

Burkas



burka1.jpg


mother_in_burka.jpg



Publicado por samartaime às 07:01 PM | Comentários (0)

maio 08, 2011

What the Finns need to know about Portugal







Publicado por samartaime às 11:14 PM | Comentários (0)

maio 05, 2011

Livro de Horas extraordinárias (6)




Ode ao librium dez



Embora química a tua
é realmente uma paz
para duas longas horas,
paz sentada, na varanda,
folheando jornais,
lendo só os títulos
(o novo papa recebe),

uma paz assim fresca,
sem grandes gestos
escusados, diria
uma paz no duche,
ou depois à mesa
comendo a sopa leve,
o bife grelhado
com pouco sal,

paz da papaia doce,
gotas de limão,
paz de um copo de água,
uma brisa ténue
arrepiando quase nada
os pêlos das pernas,
encrespando-os quase nada

e isto é o repouso,
a mansidão tranquila,
o descanso, a quietude,
a serenidade, o feltro,
a pele bem curtida
tocada do avesso,
a aldeia pequena,
a caruma, o cheiro
dos medronhos maduros,

rolas que então
vinham beber aos poços,
assobios de melros
pela manhã, escondidos
nos juncais, furtivas
carreiras de coelhos,
milho na eira ao sol,
pão cozendo no forno,
fumo vago e alegre,

paz do fumo, paz
terna, por duas horas,
por um homem
que se entrega duas horas,
que se entrega,
que se entrega na varanda
ao librium, que se entrega.


FERNANDO ASSIS PACHECO




Publicado por samartaime às 05:30 PM | Comentários (0)