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abril 27, 2011

Livro de Horas extraordinárias (5)




VARECH

Eu estimo sobre tudo os teus olhos incolores
as tuas mãos inúteis, a tua boca verde

Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros

Eu falo somente dos pés vermelhos

Eu falo... eu falo... eu falo...

No vigésimo século as nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

Sim, é verdade, os cabelos loiros

Então, meia-noite!

Senhora, se me dá licença, este dia acabou
por este dia
simplesmente

A criança é porca, é inútil

Muito obrigado.



ANTÓNIO MARIA LISBOA




Publicado por samartaime às 10:56 PM | Comentários (0)

abril 17, 2011

para Yoshikawa, Japão

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Estou feliz por teres regressado ontem a este blogue.

«abracadabraaa!»




Publicado por samartaime às 01:02 PM | Comentários (0)

abril 15, 2011

Livro de Horas extraordinárias (4)




(a carta da paixão)


Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.



HERBERTO HELDER




Publicado por samartaime às 07:02 PM | Comentários (0)

abril 14, 2011

Os lobos e as peles







Publicado por samartaime às 10:40 AM | Comentários (0)

abril 13, 2011

Em Portugal só o tabaco mata

Eu não acredito no FMI, podem vir prender-me.

E não acredito porque foi criado na sequência da II Grande Guerra, sob o horizonte negro de milhões de mortos e estropiados, as casas negras e aplainadas. E, ainda, a lembrança assaz pungente, em alguns bolsos, da «grande depressão de 1929».

O Fundo Monetário Internacional, e seus sucedâneos e comparsas, é um velho manga de alpaca, um agiota cerzideiro e, pior que velho, mecânico. Memória escaldada pelas guerras loucas alemãs do século passado - apesar dos alemães quererem que se esqueça a sua congénita loucura megalómana.

Criado nos Estados Unidos, o FMI (e correlativos & afins) pretende assegurar (entenda-se: controlar) o bom funcionamento do sistema financeiro mundial - o que não conseguiu nem nos USA, vide Madoff, só para não puxar muito pela memória.

O FMI, queiram ou não as suas magníficas máquinas pensantes de calcular, acaba por não ser mais do que um corretor ortográfico do sistema capitalista. Não há memória de um país a que a ajuda do FMI tenha melhorado, posto a navegar ou, pelo menos, desenvolvido um qualquer sistema sustentável de progresso, sequer económico. Acertam as contitas - para isso lhes pagam - espremem tudo até arrancarem a divida e os juros do deve e haver e ala magala, que já confere.

Em Portugal, o FMI já veio de ajuda duas vezes e só deu para confirmar que «não há duas sem três».

É triste que Portugal, o país do desenrasca, se tenha deixado enrascar por subsídios da treta para acabar com a agricultura, a pesca e a marinha mercante que tinha - ainda que pobres - para se entregar ao supino deleite de viver dos excedentes agrícolas e industriais da Holanda, da França, da Alemanha e, até, da Espanha.

Albardou-se o asno à Zezé da praia, a servir cófis e frutos do mar no bar da areia, em tronco nu pró frisson e boné de pala comprida amaricana, à vontade dos pagantes de fora-parte - que hoje parecem ter esquecido que muito lucraram com o «sistema de bom aluno» com que nos miNaram a indolência e a miséria.

A Merkelândia, então, é o usual descaramento da ganância alemã: reduzida a escombros pela guerra que TRAMOU e PERDEU, renasceu das cinzas pela ajuda incomensurável de europeus e americanos mais o famoso Plano Marshal.

Até nós, os desgraçados portugueses do Salazar, que andou a jogar com o usual pau de dois bicos da neutralidade enquanto fornecia volfrâmio a uns e dizia que sim a outros, que acolhia espiões de todos e virava costas para não «tomar conhecimento» da passagem ininterrupta dos infelizes judeus e outros refugiados do ódio nazi alemão. Até nós, portugueses miseráveis e descalços, tivemos de aguentar o racionamento da nossa própria miséria. A Alemanha já nos pagou isso? Já nos pediu desculpa?

Estarão esses salsicheiros novos-ricos esquecidos da sua história? Quando andaram por cá a ver o mar e a aprender o sol, alguém os ferrou, como se fazia aos bois, com a suástica na testa? Alguém lhes exigiu que mostrassem o braço com o número do campo de concentração ferrado no braço para poderem passar a fronteira em Portugal – mesmo depois do 25 de Abril?

O que é a Merkelândia, quem é a Merkel para falar de alto a qualquer povo europeu?

O que sabem eles de solidariedade além do preço do seu marco mascarado de euro?
Que pena tenho de não ter um presidente maluco que fosse capaz de lhe berrar na cara «meta os seus marcos no cu!» Caramba! Por uma hora que fosse, até eu me tornava presidencialista!

Poucos de nós, cada vez mais muito poucos de nós, continuarão a usufruir da penhora coletiva a que a incompetência, a parolice e a imoralidade dos politico portugueses nos arrastaram.

Muitos de nós pagaremos até à exaustão esse arroubo de desafogo virtual.

Os mais débeis de nós morrerão sem que tenhamos sequer um pão de papoilas que lhes engane a dor.

Contudo, morrer é bom, mesmo antes de tempo, é um serviço público à pátria: alivia o sistema de segurança social, aduba campos de golf (diga-se gólfff), descongestiona centros de saúde, dispensa médicos de família, alivia escolas, limpa a paisagem urbana, recicla os campos .

Que em Portugal só o tabaco mata. Nunca a vida.

Mas sobreviveremos - para desassossego dos pacatos inteligentes.

Temos um treino de quase nove séculos: ainda somos imortais.

Continuaremos.

Publicado por samartaime às 07:40 PM | Comentários (0)

abril 11, 2011

A vida nem sempre é o que parece



LOVEFIELD

( by Mathieu Ratthe)






Publicado por samartaime às 03:10 PM | Comentários (0)

abril 08, 2011

Livro de Horas extraordinárias (3)



FOZ DO TEJO, UM PAÍS

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO




Publicado por samartaime às 09:24 PM | Comentários (0)

abril 06, 2011

«albarde-se o burro
à vontade do dono»







Publicado por samartaime às 11:21 PM | Comentários (0)

abril 01, 2011

Coisas de russos



Rua Gorki.jpg
Moscovo, Rua Gorki - a enormíssima rua dos teatros, museus e «serviços»

TCHAIKOVSKY- Violin Concerto in D Major, Op.35
David Oistrakh, violino

Clique nas faixas para ouvir:

Faixa01 - I. Allegro moderato

Faixa02 - II. Cazonetta. Andante

Faixa03 - III. Finale. Allegro vivacissimo




Novodievitchi.jpg

O Mosteiro de Novodievitchi, em cuja necropole estão os túmulos de Gogol, Tchekov, Maïakovski, Prokofiev, Eisenstein, Khrouchtchev .



Publicado por samartaime às 11:35 AM | Comentários (0)