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novembro 30, 2010

Um salto até Angola



É DREDA SER ANGOLANO - Conjunto Ngonguenha

video da radiofazuma

via BUALA




Publicado por samartaime às 11:33 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2010

TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA


Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.

JALL SINTH HUSSEIN




Publicado por samartaime às 10:32 AM | Comentários (0)

novembro 25, 2010

MUNHUANA BLUES



Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.


NELSON SAÚTE

nelson saúte 2.jpg

(n. Maputo, 1967)




Publicado por samartaime às 11:54 AM | Comentários (0)

novembro 24, 2010

Solidariedade à Greve Geral





greve g3.jpg



Publicado por samartaime às 10:00 PM | Comentários (0)

novembro 21, 2010

NUNCA MAIS


Nunca mais
E arrasto comigo pelo braço da esperança
As horas marejadas as pedras do desgosto
A fome de amor
A cavernosa rouca diamantina
Fome de amor

Nunca mais e sobre os altos silêncios
No tumulto insensato
À beira do abismo
Ressuscito
Os rostos bem amados
Traiçoeiros
Dou-lhes andas
Dou-lhes palhaços
A infância que não tive
E que perdi
A paz que não é minha

Nunca mais

Agora só há abismos não há rostos

Passem duendes príncipes Antinos
Mas de largo


ALBERTO LACERDA


(Ilha de Moçambique, 1928 — Londres , 2007)

ALacerda.jpg

( Foto de Jorge Martins)





Publicado por samartaime às 08:58 PM | Comentários (0)

novembro 19, 2010

INUNDAÇÃO



I

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.

II

Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.

III

Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…

Milho afogado e batata-doce morreu!

Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?


ALBINO MAGAIA

albino_magaia01.jpg

(Lourenço Marques,1947 - 2010, Maputo )




Publicado por samartaime às 10:51 PM | Comentários (0)

novembro 14, 2010

VENCEREMOS


A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.

Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.

Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.

MUTIMATI BARNABÉ JOÃO

antonio_quadros, pintor.jpg

[pseudónimo de António Quadros, pintor - Tondela1933-1994 Tondela ]




Publicado por samartaime às 12:23 PM | Comentários (0)

novembro 03, 2010

Viatge a Ítaca




LLUIS LLACH VERGES, Viatge a Itaca Letra de K. KAVAFIS (Adaptação de Lluís Llach).
Video de jcbenesiu

ÍTACA

Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrigones e os Cíclopes,
o zangado Poseidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrigones e os Cíclopes,
o selvagem Poseidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.


Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.


Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
È melhor durar muitoa anos;
E já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás de compreender o que significam Ítacas.

Konstandinos Kavafis

Trad. J.M.Magalhães e N.Pratsinis

Viatge a Ítaca ( adaptação de Lluis Llach)

Quan surts per fer el viatge cap a Ítaca,
has de pregar que el camí sigui llarg,
ple d'aventures, ple de coneixences.
Has de pregar que el camí sigui llarg,
que siguin moltes les matinades
que entraràs en un port que els teus ulls ignoraven,
i vagis a ciutats per aprendre dels que saben.
Tingues sempre al cor la idea d'Ítaca.
Has d'arribar-hi, és el teu destí,
però no forcis gens la travessia.
És preferible que duri molts anys,
que siguis vell quan fondegis l'illa,
ric de tot el que hauràs guanyat fent el camí,
sense esperar que et doni més riqueses.
Ítaca t'ha donat el bell viatge,
sense ella no hauries sortit.
I si la trobes pobra, no és que Ítaca
t'hagi enganyat. Savi, com bé t'has fet,
sabràs el que volen dir les Ítaques.

II

Més lluny, heu d'anar més lluny
dels arbres caiguts que ara us empresonen,
i quan els haureu guanyat
tingueu ben present no aturar-vos.
Més lluny, sempre aneu més lluny,
més lluny de l'avui que ara us encadena.
I quan sereu deslliurats
torneu a començar els nous passos.
Més lluny, sempre molt més lluny,
més lluny del demà que ara ja s'acosta.
I quan creieu que arribeu, sapigueu trobar noves sendes.

III

Bon viatge per als guerrers
que al seu poble són fidels,
afavoreixi el Déu dels vents
el velam del seu vaixell,
i malgrat llur vell combat
tinguin plaer dels cossos més amants.
Omplin xarxes de volguts estels
plens de ventures, plens de coneixences.
Bon viatge per als guerrers
si al seu poble són fidels,
el velam del seu vaixell
afavoreixi el Déu dels vents,
i malgrat llur vell combat
l'amor ompli el seu cos generós,
trobin els camins dels vells anhels,
plens de ventures, plens de coneixences




Publicado por samartaime às 02:02 PM | Comentários (2)