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outubro 30, 2010

ORAÇÃO


Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós


DOMINGOS DA MOTA



Publicado por samartaime às 07:11 PM | Comentários (0)

outubro 19, 2010

Yo soy como Portugal



ElefantRecords | 6 de outubro de 2010



Publicado por samartaime às 03:50 PM | Comentários (0)

outubro 13, 2010

RENATA CORREIA BOTELHO



A VIAGEM DE LARBAUD

não era esta, escuta, a viagem
de Larbaud; uma virgula
um ponto, qualquer coisa limpa
que salvasse aquele verso
- dizias-me, com um cigarro
e um rosto por acender,
como quem se prepara
para um golpe de estado.


NO BANCO AO PÉ DAS NOSSAS CASAS

aquela tarde amena foi a última
a ver-te por aqui. sei que perguntaste
à minha mãe por mim, estava eu
longe, no meu emprego estavel,
começando a ganhar a vida e
a perder a alma aos pontos.

amena, ainda a tarde esteve contigo
e eu não, neste banco ao pé
das nossas casas, onde me sento
hoje à espera que a tua voz me fale
de poetas, paixões vertiginosas, pintores
que descobriste, de uma passagem dos
The The que cantas sem respirar.

talvez pudesse agora devolver-te
qualquer coisa, mostrar-te como
as músicas de Lhasa, estas fotografias
de Paris com neve e este filme do
Clint Eastwood sobre a redenção e o amor
podem ajudar a atravessar uma noite.

mas tu deves estar a desenhar
a esta hora. Marta, já não vens.
amanhã, se a tarde estiver amena,
trago tudo comigo e espero por ti
neste banco ao pé das nossas casa.


BELLS

os pássaros morrem sempre
de noite, e os sinos tocam
os seus nomes pela madrugada.

nevou mais de quarenta horas
sobre as ruas vazias.
cobrindo de branco
o voo nocturno do anjo.


small song.jpg

SMALL SONG

Ed, Averno , setembro 2010, Lisboa.







Publicado por samartaime às 01:31 PM | Comentários (0)

outubro 06, 2010

Branduras e costumices




Os diversos fascismos sempre chegaram de forma doce: para salvar do desespero populações de vários estratos sociais mas «de brandos costumes», aterrorizadas com a «ingovernabilidade», a «insustentabilidade», o medo da rua.
Em nome da reposição da ordem, descambou-se sempre num novo «progresso»: uma cabeça lúcida, altruísta e corajosa, um salvador do caos, uma atração fatal para o grande desígnio do futuro da Pátria, a grande madrasta.

Os «brandos» primeiro acalmam-se, depois desculpam os excessos «por uma boa causa»: o sossego de vida. E alheiam-se, que não é nada com eles.
O «povo» vai serenando e volta ao desenrasca, que a fome é prioritária e o trabalho a única alavanca sempre barata para a sobrevivência.

E já está: são as décadas do silêncio, das entrelinhas, do gelo para uns. Do pão selvagem da época para muitíssimos.
Ou do pão de papoilas do tempo, por caridade.

Na muito amada Paris, logo em Paris - a mãe de todos os deserdados das artes, artesanatos e outros malabarismos -, até já encontraram uns bodes: umas dúzias de ciganos.
Na Alemanha vão ser uns milhares, silenciosos.

Entretanto, eu pergunto: cesteiro que faz um cesto e até dois cestos, Entretanto, eu pergunto: cesteiro que faz um cesto e até dois cestos, porque deixará de fazer o terceiro cesto?
E os cestos serão, obrigatoriamente, de fogo de artifício? Porquê?

E insisto no perguntar: quem afiança que a Europa é mediterrânica? E não é eslava, prussiana, báltica, nórdica? Quem pode afiançar que a união é para cá e não para um qualquer lá?

E lembro: saírem os mediterrânicos «do euro» é difícil, não é impossível mas é o caos. Pois é verdade. Para os «mediterrânicos», evidentemente.

Mas há uma saída muito mais fácil, limpa e independente e com os mesmos efeitos: sair a Alemanha.
Não, não me venham com a conversa do fim da Europa. Esta Europa será onde estiver esta Alemanha. Não se ralem com as «Agencias de ranking» - elas sempre rankinzarão como as mandarem. É para isso que existem, é isso que lhes paga as despesas correntes e decorrentes.

O Reino Unido, como de costume, está meio cá meio lá.
Agora, espreita à janela e diz: «Temos nevoeiro: o continente está isolado!». E recolhe-se para reler a grande aventura americana.

A França é diferente: sempre teve a mania de dar nas vistas e de perder a cabeça e o pé com a Alemanha.

E a Alemanha? Ah!... Essa, reunida, aplicados os milhões e exaurido «o ocidente mediterrâneo», vai agora recolher os dividendos do esforçado investimento que deslocalizou para leste, para a alta escolaridade e baixos
salários que lhe deixaram os obsoletos sovietes de antanho e as consequentes crises. Esguardae as falências a leste.

Até a inefável e sábia China já se anuncia disposta a ajudar a Europa do sul. Tenta ganhar tempo ou espaço? Ou ambas as coisas? Ou já ganhou? São grandes e impávidos jogadores, há milénios.

Não seria o primeiro «Tratado de Tordesilhas», pois não?
E, havendo, quem desta vez o assinou?
Globalização terá mesmo e só o significado que lhe atribuímos?

Faz um tempão, eu acreditei empenhadamente que o avanço tecnológico seria um passo fundamental para «o avanço da humanidade».
E de facto tem sido, concretamente, um grande avanço:
para o incremento do desemprego, para o incremento da fome.
E não incluo «para o incremento da doença» porquanto necessitam de cobaias para «o progresso da sua saúde» - e sempre há alguém que apanha a boleia, felizmente.
Portugal é disto um retrato fiel e verdadeiro que poucos se atrevem a encarar.

Quem insiste nos mesmos métodos e operadores para debelar crises iguais, só pode zelar pela manutenção do seu estatuto.
Não perante quem neles vota, que as votações têm mil meandros que as escolas não chegam para revelar.
Mas perante quem neles manda, escolhe e coloca.

Até o FMI já avisa que vamos entrar em recessão em 2011.
Forte novidade!
Como se não estivéssemos há mais de setenta anos em recessão instável.

Como se o FMI não tivesse estado aqui para «reorganizar» essa recessão.
Como se a Europa não tivesse dado milhões para fomentar os nossos novos empregos de criados de mesa, estafetas de serviços, jardineiros e carregadores de tacos de golf.
Como se os inteligentes não tivessem sido alunos «exemplares» do desmantelamento do pouco de que tínhamos sido capazes.

Quando oiço Cavaco falar no mar penso sempre ah, coitado, como ele se esforçou a plantar eucaliptos! Afinal, era o apelo das caravelas de papel!

Quando oiço Soares falar no mar penso sempre ah, coitado, como ele se esforçou para ser o afundador da nossa marinha lazarenta. Afinal, era o apelo do mar!

E o que vale para o mar, vale para tudo.

Insistir no esmagamento da possibilidade de vida de uma população envelhecida, débil e imigrante num país também ele - e por isso mesmo – envelhecido, débil e emigrante é, além de aviltante, loucura pouco mansa.
Portugal ainda é mais alguma coisa que a nova Mitra para tranquilidade moral da consciência dos nepotismos residentes.
Portugal precisa de gente natural, de portugueses.
Sem família, sem herança, sem dono.
Gente disponível para o futuro – haja o que houver, dure o que durar.
Gente. Como sempre fomos.



(Todas as cartas de amor são ridículas 1 )

Publicado por samartaime às 07:09 PM | Comentários (0)