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março 31, 2010



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Publicado por samartaime às 08:31 PM | Comentários (0)

março 30, 2010

Da fruição do silêncio



Tratávamos o silêncio por tu
Dormíamos na mesma cela
Acordávamos do mesmo sono

Cada sílaba audível
Completamente nua
Feria dum segundo sentido.
O palato hipertenso
Da fria cela dezanove

Farrapos de ambiguidade
Pendiam pelas arestas
Das mais afoitas vogais

Ninguém pressentia
No gume acerado
Da quase indiferença
Que o silêncio aparentava
O perfeito sincronismo
Das sílabas dispersas
Pêlos tímpanos de cada um

Nada sabíamos de nós próprios
Além da angústia lacerante

Coagulando-nos um a um
Nos limites da expectativa

E no écran memorial
Milhões de imagens se degladiando

Era o silêncio devorando o silêncio
Era o silêncio copulando o silêncio
Era o silêncio assassinando o silêncio
Era o silêncio ressuscitando o silêncio

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio colonial
Fuzilando-nos um a um
Contra as paredes da solidão

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio imperial
Sepultando-nos um a um
Sob os escombros de Portugal


Rui Nogar

Publicado por samartaime às 08:56 PM | Comentários (0)

março 29, 2010

Saint -John Perse




«… ha! toutes sortes d'hommes dans leurs voies et façons : mangeurs d'insectes, de fruits d'eau ; porteurs d'emplâtres, de richesses ! l'agriculteur et l'adalingue, l'acupuncteur et le saunier ; le péager, le forgeron ; marchands de sucre, de cannelle, de coupes à boire en métal blanc et de lampes de corne ; celui qui taille un vêtement de cuir, des sandales dans le bois et des boutons en forme d'olives ; celui qui donne à la terre ses façons ; et l'homme de nul métier : homme au faucon, homme à la flûte, homme aux abeilles ; celui qui tire son plaisir du timbre de sa voix, celui qui trouve son emploi dans la contemplation d'une pierre verte ; qui fait brûler pour son plaisir un feu d'écorces sur son toit, et celui qui a fait des voyages et songe à repartir ; qui a vécu dans un pays de grandes pluies ; qui joue aux dés, aux osselets, au jeu des gobelets ; ou qui a déployé sur le sol ses tables à calcul ; celui qui a des vues sur l'emploi d'une calebasse ; celui qui mange des beignets, des vers de palme, des framboises ; celui qui aime le goût de l'estragon ; celui qui rêve d'un poivron ; ou bien encore celui qui mâche d'une gomme fossile, qui porte une conque à son oreille, et celui qui épie le parfum de génie aux cassures fraîches de la pierre ; celui qui pense au corps de femme, homme libidineux ; celui qui voit son âme au reflet d'une lame ; l'homme versé dans les sciences, dans l'onomastique ; l'homme en faveur dans les conseils, celui qui nomme les fontaines, qui fait un don de sièges sous les arbres, de laines teintes pour les sages ; et fait sceller aux carrefours de très grands bols de bronze pour la soif… ha ! toutes sortes d'hommes dans leurs vies et façons et, soudain, apparu dans ses vêtements du soir et tranchant à la ronde toutes questions de préséance, le Conteur qui prend place au pied du térébinthe…»

[ extrato de ANABASE ]

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SAINT-JOHN PERSE (1887 - 1975)

Publicado por samartaime às 07:23 PM | Comentários (0)

março 24, 2010

Hoje lembrei-me de Etienne de La Boétie




Por causa de um novo imposto – ao caso sobre o sal – o povo francês levantou-se em armas, rurais, contra o exército e os fiscais do rei. Diz La Boetie, e a história também, que tudo acabou em mais um banho de sangue «de degolados».

Este evento moveu Etienne de La Boétie, à data estudante de Direito, a escrever o seu Discurso da Servidão Voluntária, onde se questiona sobre o que fará os povos submeterem-se a um tirano e onde vai esse único individuo buscar o poder que lhe permite controlar todos os outros.

E explica: «Para que os homens, enquanto neles resta vestígio de homem, se deixem sujeitar, é preciso uma de duas coisas: que sejam forçados ou iludidos. Se iludidos, também perdem a liberdade; mas, então, menos frequentemente pela sedução de outrem do que por sua própria cegueira».

Depois de forçados pelas armas ou de iludidos pela sedução e sua inerente cegueira, a situação é facilmente mantida e há para isso três razões:

1. HÁBITO: «Por hábito, somos ensinados a servir, nos escravizamos.»

2. COVARDIA: «Os escravos não têm ardor nem constância no combate. Só vão a ele como que obrigados, por assim dizer embotados, livrando-se de um dever com dificuldade: não sentem queimar em seu coração o fogo sagrado da liberdade, que faz enfrentar todos os perigos e desejar uma bela e gloriosa morte que nos honra para sempre junto aos nossos semelhantes.»

3. PARTICIPAÇÃO NA TIRANIA «São sempre quatro ou cinco homens que o apoiam e que para ele sujeitam o país inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis ganharam a atenção do tirano e por si próprios dele se aproximaram ou então, foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres, os complacentes para com suas volúpias sujas e os sócios de suas rapinas.»

E La Boétie aponta «os interesseiros seduzidos pelo esplendor dos tesouros públicos à guarda do tirano», como os que lhe garantem e asseguram o poder.

O «Discurso da Servidão Voluntária» (1552) expressa já claramente uma reflexão sobre a condição humana, transmite uma imensa indignação contra a opressão e é um hino à liberdade.
E assim La Boétie acabou inscrito na história como um precursor do pensamento anarquista.





Informação geral sobre La Boétie:
Discurso da Servidão Voluntária - texto integral
Enciclopédia da Morte - de La Boétie - Texto de Montaigne
Efeméride Anarquista
Divulgação Anarquista sobre La Boétie



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Etienne de La Boétie (1530— 1563)


Enquanto La Boetie morria e Montaigne escondia as lágrimas, em Antuérpia Pieter Bruegel pintava «O triunfo da morte»:

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The Triumph of Death, c. 1562, , oil on panel, 117 x 162 cm. (Museo del Prado, Madrid)

E Tintoretto, em Veneza, preocupava-se com a libertação dos acorrentados:

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The Deliverance of Arsinoe, c. 1560, Oil on canvas, 153 x 251 cm, (Gemaeldegallerie Alte Meister, Dresden)

Já antes, provavelmente em Aschaffenburg, o misterioso Grunewald se atrevera a pintar uma cruxificação que retrata um corpo desconjuntado, desfigurado pela dor:


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The Crucifixion, 1515, Panel from the Isenheim altarpiece: oil on wood, 269 x 307 cm (Musee d'Unterlinden, Colmar)

O que o terá levado a quebrar a ordem dos Cristos bonitinhos, tranquilos, sublimes e impavidamente cumprindo o seu destino transcendental?
E por que pintou noutra tela uns inesperados demónios semidomesticos?

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The Temptation of Saint Anthony, 1515. Panel from the Isenheim altarpiece: oil on wood, 269 x 307 cm , pormenor dos demónios, (Musee d'Unterlinden, Colmar)


E toda esta gente e estes pintores ouviriam música, cantariam?

Assobiariam o «El grillo è buon cantore» enquanto pintavam?


Josquin des Préz, provavelmente nascido em Condé-sur-l'Escaut, na região francesa de Flandres (1445?-1521)

Chorariam piedosamente na missa ao ouvir cantar à Virgo Serena ?

Ave Maria,Virgo Serena - Josquin des Prez

Terão tido notícia de Giovanni Pierluigi, da Palestrina?

Super Flumina Babylonis- Palestrina - Biola University Chorale

Ouviriam, também, os seus madrigais?

Pulchra es amica mea - Palestrina

Giovanni Pierluigi da Palestrina, (Palestrina, 1525 - Roma, 1594)

Todos eles, algum deles terá sabido do polaco Copérnico que teve a sorte de morrer antes que «os dominicanos» lhe deitassem a mão?


Tempos duros, aqueles.
Mas todos os tempos parecem dificeis para os homens.
Nem sei se uns serão mais brutais que outros. Hoje, todos os dias pela manhã, a fotografia nos sobressalta com o inominável. Somos apenas mais rápidos e mais «modernos» - queira lá isso dizer o que quer que seja!




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Bilbao



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março 22, 2010



Isso até me agrada. Que me deitem fora

Que me deixem livre de compromissos afectivos.

Ficar ligeiro por dentro; ser como casca só.

Não tropeçar nos detritos humanos

Que me cercam,

Não ter altivez nenhuma nisso.

Ser simplesmente um andante.

Ter o caminho livre.


Raul de Carvalho


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(Alvito, 04:09:1920 - 03:09:1984, Porto)



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março 21, 2010

Ladainha



nossa senhora das dores
dor aguda (a contrapelo)
e da bolsa de valores
que leva coiro e cabelo
padroeira de penhores
e dos pregos pendurados
e de dentes sofredores
e de muitos paus-mandados
de tanto nariz de cera
como se fosse de santo
a velar pela quimera
pela causa do quebranto
senhora de tal andaço
senhora destes remoques
senhora de muito abraço
que provoca electrochoques
nossa senhora das dores
e da ética rotunda
senhora de pundonores
mas no meio da desbunda
senhora da dialéctica
a bater com a mão no peito
senhora peripatética
a arrepanhar o trejeito
senhora da roupa suja
senhora de mil barrelas
senhora que sobrepuja
todo o brilho das estrelas
senhora assim do recato
senhora da ladainha
e que grasna como um pato
roga pragas à vizinha
senhora da sisudez
enfeitada de mil cores
senhora do não-talvez
nossa senhora das dores


Domingos da Mota

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Ria Formosa



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Publicado por samartaime às 12:15 PM | Comentários (0)

Mussorgsky

(Pskov, 21 de março de 1839 – Petrograd, 28 de março de 1881)







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Modesto Mussorgsky



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março 18, 2010

Fernando Assis Pacheco



RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

Eu vi a morte
de noite - névoa branca -
entre os frascos do soro
rondar a minha cama

era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolejar da água
nos ralos: eu tremia
covardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas

eu vi? ouvi a morte?
com toda a probabilidade
e por instantes
era ela - luz negra -
tentando cegar-me


Fernando Assis Pacheco

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(Coimbra,1937- Lisboa,1995)



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março 16, 2010

Midori Goto



Tchaikovsky Violin Concerto
Violin:Midori Goto
Condact:Claudio Abbado
Orchestra:Berlin Philhermony Orchestra

1stMovement part1

1stMovement part2

1stMovement part3

2ndMovement

3rdMovement





Chopin - Nocturne in C-sharp Minor.op.posth
Midori Live at Carnegie Hall



Heinrich Wilhelm Ernst, Variations on "The Last Rose of Summer"
Midori- Live at Carnegie Hall





Composer: Niccolò Paganini
Caprice No. 1 in E major: Andante
Caprice No. 4 in C minor: Maestoso
Caprice No. 5 in A minor: Agitato
Violinist: Midori Goto



Midori Goto - Wikipedia

Midori Goto - Website




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março 11, 2010

«Fazem dinheiro com o desastre que eles próprios criaram»



Entrevista a Joseph Stigliz, prémio Nobel da Economia 2001

conduzida por Stefano Lepri

5 de Fevereiro de 2010

«É um paradoxo absurdo, uma ironia da história» – inflama-se Joseph Stigliz, prémio Nobel da Economia 2001 – «para vós na Europa. Não se dão conta? Os governos contraíram muitas dívidas para salvar o sistema financeiro, os bancos centrais mantêm as taxas baixas para ajudá-lo a recompor-se, não para favorecer a recuperação. E que faz a grande finança? Usa as taxas de juro baixas para especular contra os governos endividados. Conseguem fazer dinheiro com o desastre que eles próprios criaram.»

– O que pode acontecer agora?

Espere. Não acaba aqui. Os governos decretam medidas de austeridade para reduzir o endividamento. Os mercados decidem que não são suficientes e especulam com os seus títulos em baixa. Deste modo os governos são constrangidos a medidas de austeridade adicionais. As pessoas comuns perdem ainda mais, a grande finança ganha ainda mais. A moral da história é: culpados premiados, inocentes punidos.

– Como se pode remediar?

Três pontos. Primeiro: nada de dinheiro para a especulação. Nos EUA como na Europa, é preciso estabelecer novas regras para os bancos. Devem financiar as empresas produtivas, não os hedge funds. É preciso impedi-los de especular».

– Uma palavra. Se for o governo a dirigir o crédito, o risco é de distribuí-lo ainda pior.

Não creio. Na minha opinião, pode-se e deve-se intervir. Segundo ponto: é necessário impor taxas muito altas sobre os ganhos de capital. Hoje em dia é mais vantajoso especular que trabalhar para viver. Deve voltar a ser ao contrário.

– E depois?

Ponto três: na Europa deveis apoiar os governos em dificuldades.

– Corre-se o risco de premiar os políticos que governam mal.

Não. A prova é dada pela Espanha. Actualmente está em dificuldades sem ter cometido erros. O governo tinha um balanço positivo até ao ano passado; o Banco Central vigiou muito bem os bancos, tanto que é citado como um exemplo mundial. Que culpa têm? É certo que também eles viram crescer a bolha no mercado imobiliário e não a detiveram. Mas é o erro que todos cometeram. Estava no espírito do momento. Inspirava-o a ideologia neoliberal que dominou por nuitos anos.

– Na Grécia contudo erraram. Até falsearam as contas.

Não o actual governo, o precedente. Foram golpeados pela crise da navegação comercial, um sector muito importante para eles, e pela queda do turismo. Em suma, por que devemos obrigar as pessoas a fazer mais sacrifícios, se não têm culpa?

– A dívida existe. Tarde ou cedo, os Estados deverão pagá-la.

Mas por que devemos dar ouvidos aos mercados? Os mercados não se comportam de forma racional, vimo-lo pelo modo como se produziu a crise. Então, por que deveriam ter razão ao pedir mais sacrifícios aos cidadãos daqueles países? Mais, ainda que a tivessem, comportam-se de forma demasiado errática. E, para terminar, aqui está em curso um ataque especulativo: não é que não golpeiem quem se porte bem, é que se o puderem pôr à margem, põem-no à margem.

– Como podemos fazer, na Europa?

Devem construir mecanismos de solidariedade entre Estados. A União deveria ter mais recursos à disposição. Gasta-se um monte de dinheiro na política agrária comum, que é um desperdício, enquanto…

– Poder-se-ia emitir títulos europeus, os Eurobonds.

Certamente. E depois é preciso taxar as actividades nocivas. Sobretudo duas: a finança e as emissões de anidrido carbónico. Nos EUA também.

– Conseguirá Obama impor-se aos bancos?

Será uma longa batalha. Mas a ira das pessoas é forte, e o presidente sabe-o. Os banqueiros têm toda a população contra eles.

– O Congresso está relutante.

Espero que não se tenha que chegar a outra crise, antes de se conseguir pôr a finança sob controle. Seria realmente triste. Pense em todo o dano que causaram. Sabe você que segundo as estimativas do CBO, o Gabinete de Balanços do Congresso, o desemprego só começará a diminuir a meio do decénio? Estas são coisas que ficam durante muito tempo na memória das pessoas.

Fonte: La Stampa



Publicado por samartaime às 06:40 PM | Comentários (1)

março 09, 2010

Manos Hadjidakis (1925 - 1994)


Manos Hadjidakis «Ionian Suite» Danae Kara, piano

Video de MikisTheodorakis1, 23 de janeiro de 2010


Publicado por samartaime às 09:00 PM | Comentários (0)

Ria Formosa



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Publicado por samartaime às 08:41 PM | Comentários (0)

março 07, 2010

Maurice Ravel

(Ciboure, 7 de março de 1875 – Paris, 28 de dezembro de 1937)




Bolero (I)



Bolero (II)



Pavana para uma infanta defunta



Maurice_Ravel_1912.jpg Maurice Ravel (1912)



Publicado por samartaime às 08:00 AM | Comentários (0)

março 03, 2010

Ria Formosa



Casa do salvavidas.JPG



Publicado por samartaime às 07:27 PM | Comentários (0)

março 01, 2010

Frederic Chopin

(Zelazowa Wola, 1 de Março de 1810 — Paris, 17 de Outubro de 1849)



Chopin Nocturne Op.27 No.1 - Arthur Rubinstein, piano

Video de rmannion, 9 de outubro 2007

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Chopin, por Eugene Delacroix (inacabado).




Publicado por samartaime às 05:47 PM | Comentários (0)