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maio 31, 2009

Alexandre O'Neill





Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

     *    

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...


Alexandre O´Neill

(Lisboa, 19:DEZ:1924 – 21:AGO:1986, Lisboa)
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[Naifa - O ferro de engomar]






Publicado por samartaime às 12:59 PM | Comentários (4)

maio 30, 2009

Bajo Fondo



Tango Club


Tango electronico


com Julieta Venegas - Pa' bailar


com Gustavo Cerati- El mareo

Publicado por samartaime às 04:59 PM | Comentários (2)

maio 27, 2009

«Somos Todos Portugueses !»




há um novo blogue à vossa espera

para que as promessas se tornem realidade:

é só clicar:

10.jpg




Publicado por samartaime às 09:27 PM | Comentários (1)

Scriabin - Vers la flamme, op.72 [Vladimir Sofronitsky ]






Se não vai a pedido, vai - pelo menos - a meu gosto.
( A gravação é a de 1946.)


180px-Skrjabin_Alexander.jpgfoto01.jpg
Alexander Skrjabin e Vladimir Sofronitsky


Publicado por samartaime às 05:46 PM | Comentários (0)

maio 26, 2009

Querid@s homófob@s





Publicado por samartaime às 12:20 AM | Comentários (0)

maio 25, 2009

Yael Naim



Puppet



new soul




toxic





Publicado por samartaime às 11:32 AM | Comentários (0)

maio 24, 2009

Scriabin - Vers la Flamme [ Horowitz ]







Publicado por samartaime às 12:19 PM | Comentários (2)

maio 21, 2009

Morreu João Benard da Costa








LISBOA - 1048.JPG



Publicado por samartaime às 02:07 PM | Comentários (5)

maio 19, 2009

Mário - Henrique Leiria

[Lisboa, 2:JAN:1923 - 9:JAN:1980, Cascais]


mario_h_leiria1.jpg



Rifão quotidiano


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera!
e zás, comeu-a.


é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar o que acontece.


Mário-Henrique Leiria


mario_h_leiria4.jpg

Publicado por samartaime às 08:33 AM | Comentários (1)

maio 14, 2009

Pintores pintores.



Hoje apetecem-me pintores. Pintores pintores.
Mas isso são outras guerras. Que não interessam aos pintores.


narciso-Caravaggio.jpg
Caravaggio - «Narciso» (1546-48) olio s/tela (113,3x.95cm)


Caravaggio-dentes.jpg
Caravaggio - «o arranca-dentes» - (1607-09), Olio s/ tela (139,5 X194,5 cm)
Galleria degli Uffizi, Florença


rousseau_surprise.jpg
Rousseau, «Surprise!» (1891),Oil on canvas, (130 x 162 cm)
National Gallery, London


matisse_la musique_hermit_min.jpg
Matisse, La Musique (1910), Oil on canvas,(260 x 389 cm)
Hermitage , St Petersburg.


1500-13166~The-Blue-Violinist-Posters.jpg
Chagall «The Blue Violinist» (24 x 32 in)


dawngold Miro.jpg
Miro, «Dawn Perfumed by a Shower of Gold» (1954)
Watercolor and plaster on composition board, (108 x 54.9 cm.)
San Francisco Museum of Modern Art

Publicado por samartaime às 11:08 PM | Comentários (3)

maio 10, 2009

Conversa inacabada



Biografia de LNJ.JPG
samartaime, «Biografia de LNJ», óleo s/tela,
(92X73cm).1989, Lisboa. (Col.Pes.)




porque certamente morreremos
e seremos como águas derramadas na terra
que não se encontram mais
» Êxodo]

I

Ninguém duas vezes passa o rio
porque os rios se afastam para morrer
ou, correndo nós,
vivemos, disséssemos,
com os rios morrendo.

E com o nível posto
na baixa altura da nascente
incorressem os mares que não
se juntam mais, na mesma igualdade
longínqua.

I I

Dentro de dias morre
mais alguém
para o hermético triunfo
das paisagens.

Então os sitios vão
subindo
povoam-se entreolham-se
desencantam-se.

A órbita apodrece
descrê-se o sol.

Luiza Neto Jorge (*)


«Ninguém duas vezes passa o rio» (*)

Os dias que me igualam
ao correr do rio sob a ponte
na noite azul da Prússia de Mussorgsky
invadem o memorial das margens
como laranjas incandescentes na garganta
e um silêncio de olho de búfalo
trespassando no capim.

Na veia gasta da memória
uma sombra de mim navega
as sete partidas da melancolia
entre desejos esboroados
pétalas espavoridas
e o cântico sumptuoso dos
gestos inerentes.

samartaime




«Dentro de dias morre»(*)

Os barcos escondem-se para morrer
sob a areia mais rente ao dia
num desenho angustiado de conchas
sinais esquálidos do pálido marfim
da lassidão lavrada pelo tempo
no passajar do sol.
Pequenas águas espelham brilhos
abrigam pratas   contam ventos
enredam-se algas, singram búzios
debicam garças e flamingos,
partem insaciáveis gaivotas.

E um cavalo-marinho desliza
os seus olhos tristes.

samartaime






a força da gravidade(*)

A tua gravidade:
o justo peso de que dispões
para rir.

Luiza Neto Jorge (*)





a gravidade do poema

O poema são palavras
que nascem ordenadas
atam
retalham
revolvem
gastam.
Cumprido o ciclo
acabou-se a poesia.

samartaime

(*)Luiza Neto Jorge, [Lisboa, 10 MAI 1939 - 23 FEV 1989, Lisboa],
«Ninguém duas vezes passa o rio» e «A força da gravidade» in«O Seu A Seu Tempo». (Paris,1964-1965); Ed.Ulisseia, Lisboa, 1966.


Barbara, «Marienbad»

Rodrigo Leão - Luiza Neto Jorge : «Magnólia»




Publicado por samartaime às 12:10 AM | Comentários (5)

maio 08, 2009

África



Africa 3.jpg


Africa 4.jpg
(Fotos BITTI)



Publicado por samartaime às 08:59 AM | Comentários (2)