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fevereiro 26, 2009



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samartaime, «nós», tecnica mista s/tela.1972.

Publicado por samartaime às 12:23 PM | Comentários (0)

fevereiro 23, 2009

Quatro Poemas de Robert Schindel

versão portuguesa de João Barrento
publicados na revista Telhados de Vidro, nº11, Novembro 08;
Ed. AVERNO


ESTILHAÇOS, INFÂNCIA

Era a infância, eram cenas de morte
Enforcaram-me o pai – primeira parte.
E veio a mãe do campo de concentração
Passou-me a mão pelo Eu, mas eu já não

Estava lá, deambulava por paixões
Desmoronaram-se as escolas, fortalezas
Da vida. E os ventos de rebeliões
Nasceram delas, e ondas de fraquezas

Fui cair entre os filhos do Homem
Depressa tive sonhos avermelhados
Beijos de camaradas com palavras de ordem.

Vão até à infância as sombras do futuro
Das árvores de Marx e Lenine, toldando-me o presente:
Hoje fumo e faço filhos com as pedras ancestrais.


LAMENTO À SOMBRA DE AVES ASTRAIS

Nos becos da cidade, em tempo
De rostos leitosos e também já de abutres
Os que a desolação deixou vazios
Ciciam de dentro das suas vidas de cera
O seu falso saber. O grito palavroso

E assim os sóis atravessam miríades de estrelas, destinos,
As árvores ácidas gemem sob o peso da estranheza
E nós nunca estamos neste aqui, neste agora
Jamais. É o embate
Da folhagem da alma com os astros.

Por todo o lado se ouve o grasnar
Dos que habitam o ermo do mundo
Chegam-nos por alamedas bocejantes
Seres de cinza que sobem dos becos
Da cidade no tempo dos abutres

- E o pensamento azeda-se-me no coração.


REQUIEM POR UMA AMIZADE

Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos,
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.

Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar a lama do tempo, para assim o podermos entender.

Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede amigo do lado de lá.

Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.


SOU. 7 (BÊBADO E SEM NORTE)

Bêbado e sem norte aqui estou eu nesta cidade do Meno
Virgula de mim próprio num intervalo da respiração
Queria afundar-me neste ar, mas estou aí completamente só
Bêbado e sem norte a sufocar dentro de mim

Ora, Março passa depressa, crescem as trevas
Da noite minha cúmplice tão grande
Nas cintilações, tão pequena assustada pela luz
E eu suo e sofro enregelado neste lusco-fusco

E sou e sou até à exaustão, não sei ser de outro modo
Sem norte e bêbado, apetece-me gritar o que me rói
Me corrói com murmúrios que me martela como se eu fosse coisa
Mas ai de mim, eu sofro, de lágrima no vinho

E saio para o grande espaço do entre, frio e aprazível
E – enfim apaziguado - volto a encontrar-me


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Publicado por samartaime às 05:59 PM | Comentários (0)

fevereiro 11, 2009


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Samartaime, sem título, óleo s/tela. 1985.




Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?


Eugénio de Andrade

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Publicado por samartaime às 12:01 PM | Comentários (0)

fevereiro 10, 2009

Excisão genital feminina


A notícia vem hoje no Público, embora diluída pela crise milionária, pelo despedimento do «pobre» Scolari e pelo fotogénico mas execravel branqueamento, agora «amoroso», do fascista Salazar e dos «rigores morais» do fascista Cardeal Cerejeira em quem ninguém parece ter reparado.

Mas é a notícia da excisão genital feminina que me choca pela fragilidade que ressalta da nótícia do Público.

O jornal sabe do que fala (lembra-se do que publicou), mas tem pouco a acrescentar ao que já sabiamos. É mais um alerta para a situação do que um apuramento de resultados: continuamos pródigos em reuniões inconclusivas.

E também eu me pergunto: - Será que é desta que se leva a sério a questão da excisão genital feminina?

Nem sequer existirem técnicos suficientes e/ou devidamente preparados
para o acompanhamento das vitimas é ignominioso.


Publicado por samartaime às 11:13 AM | Comentários (0)

fevereiro 09, 2009

Já está à venda o número de Fevereiro


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É importante ler e divulgar também entre os heterossexuais !

Publicado por samartaime às 10:16 AM | Comentários (0)

fevereiro 05, 2009



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

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Publicado por samartaime às 10:54 PM | Comentários (0)

«Ausência»



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Samartaime, «Ausência», técnica mista. 1964.

Publicado por samartaime às 10:27 PM | Comentários (0)