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junho 29, 2007

Sobre as veneráveis bençãos da saúde pública e das virtudes que ela contém, tipo Brantome e a bela perna




O sr. ministro da Saúde ofendeu-se com um cartaz que dizia não sei o quê num posto de saúde não sei onde.
E mandou instaurar processo.

Não me interessa nada o que estava escrito no cartaz, dissesse ele o que dissesse - em portugês de salão ou em vernáculo de caserna.

Como não me interessa nada onde estava colocado, exposto na roda ou crucificado.

O que eu lamento, e lamento mesmo muito, é que um ministro da SAÚDE do meu País, um MÉDICO,
não ENTENDA a angústia das pessoas que se sentem completamente desprotegidas, sem socorro, sem o conforto
sequer de uma bata branca mesmo que suja por perto - graças às medidas que o sr. ministro tem tomado.
E, pior ainda, que só o saiba resolver recorrendo à bufaria e tornando-o num caso de polícia!

Não, não me fale em deslealdade para com as chefias, quando se é desleal para com quem lhe paga salário e benesses e estatuto e até as obras mal amadas!

Não, não me faça discursos sobre higiéne relativamente a pessoas privadas da pouca higiéne que possuiam.

Não, não me venha falar de caldos de galinha a pessoas sem galinha.

Não, não me fale na justeza das suas brilhantes poupanças e dos seus claros raciocínios nem da sua preclara sapiência quando as pessoas (os seus utentes) se sentem cada vez mais afastados de qualquer sombra, asa, miragem do seu ministério - perdido algures na confluência do deserto dos caminhos com a excelência da morte em trânsito sacolejado em simulacros de ambulâncias.

Quem morre pelo caminho, sr ministro, são os nómadas do seu deserto de humanidade.

E desumana seria eu se não lhe desejasse aqui, a si e a todos os seus diversos colegas da vã glória que, passados, esquecidos e aposentados os tempos rubicundos do festim da obra, que nunca vos aconteça um ACV ou um AVC ou um qualquer acidente a 50 quilómetros dos vossos benditos e miraculosos hospitais.

Porque aí, sr. dr. ministro, os senhores vão rapidamente entender do que falavam quando falavam do vosso estatisticamente irrelevante. Mas será tarde.

Que a vossa senhora de Fátima vos acompanhe nesse milagre.

Por mim, fique tranquilo com as estatísticas: sou ateia, sou irrelevante.

Publicado por samartaime às 07:41 PM | Comentários (0)

junho 28, 2007

Tem sempre uma primeira vez...




... até para Lilian Witte Fibe !

Publicado por samartaime às 12:48 AM | Comentários (0)

junho 26, 2007

Do esquecimento

Quando se recordam as atrocidades do século XX, vê-se que o pior não foram as malfeitorias dos assassinos, mas o silêncio das boas pessoas.
Martin Luther King




Martin Luther King teve um sonho, no século XX.
Pagou-o com tudo o que tinha e as boas pessoas assistiram em silêncio.

Mas o século XXI, não vai melhor.
Já se chegou ao ponto de se ser acusado de dizer a verdade, isto é, que José Sócrates é engenheiro técnico e não engenheiro DO Técnico ou afins.

A história é ridícula, bem mais rídicula que a do «falso padre» aparecido recentemente. Que este, pelo menos, andava nas bençãos possivelmente para umas banqueteadelas à borliú e mais uns trocos prás sandocas e bjécas do alterne - digo eu, que sou pérfida !

E a «história de Sócrates» é tão ou mais ridícula porquanto o cidadão José Sócrates não precisava para nada de se intitular varredor, doutor, cozinheiro, padre, engenheiro, tropa ou jardineiro para ser primeiro-ministro ! Precisava, apenas, da confiança de um conjunto de cidadãos - e teve-a, a do PS. Todo o mundo sabe.

Mais lamentavel ainda, José Sócrates não entendeu que a entrevista com Judite de Sousa era a melhor das oportunidades para terminar com a querela da manjerona - com alguma bonomia e simplicidade. Mas não foi capaz.
Do alto do seu autoritarismo autista pretendeu planar sobre a vaidadezinha da auto- promoção intelectual contínua, sobre a confusão do caos, sobre o primado da má-fé armadilhando a boa-fé. O que está um pouco gasto para a sua resplandecente modernidade.

Esqueceu-se, evidentemente, de que há muitos milhares de universitários e ex-universitários e para - universitários portugueses.

Esqueceu-se, evidentemente, que há milhares de funcionários públicos que sabem como os procedimentos legais são «burocraticamente procedidos».

Esqueceu-se, evidentemente, que só uma pequena e triste fatia de portugueses acredita em milagres e taludas.

Pior ainda, José Sócrates esqueceu-se que é o primeiro-ministro do país dos chicos-espertos (para o bem e para o mal) e que era para chicos-espertos que falava.

Como pode estranhar o evidente «Tá na cara, meu!»?

Só por genética chica-espertice.

Publicado por samartaime às 10:24 AM | Comentários (0)

junho 23, 2007

Anne Netrebko

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Tchaikowsky, Iolanta, Arioso, nº1

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Tchaikowsky, Romance, op.38, nº6

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Rimsky-Korsakov, Contos do Tzar Saltan
Ária do IV Acto

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Prokofiev, Guerra e Paz, excerto da
cena IV. (Tenor: Dimitry Voropaev)

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Rachmaninov, Lied - op.4, nº4

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Rachmaninov, Lied - op.21, nº7

Orquestra do Teatro Mariinsky de Petrograd
Dir. Valery Gergiev

Publicado por samartaime às 02:54 PM | Comentários (0)

junho 19, 2007


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Paula Rego, Ciclo da Virgem

Pegue-se no tacho pela asa
ponha-se ao lume
com tampa.
Depois
vá almoçar fora.

No regresso
tire a tampa ao tacho:
bom proveito!

Manuela Imar




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Ah, diz-me a verdade acerca do amor


Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden

(Trad. Mª de Lourdes Guimarães)

Publicado por samartaime às 11:17 AM | Comentários (0)

junho 16, 2007

Ainda Bukowski

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uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos

é muito fácil parecer moderno

enquanto se é o maior idiota jamais nascido;

eu sei ; eu joguei fora um material horrível

mas não tão horrível como o que leio nas revistas;

eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais

que não me deixará fingir que sou

uma coisa que não sou-

o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa

na poesia

e o fracasso de uma pessoa

na vida.

e quando você falha na poesia

você erra a vida,

e quando você falha na vida

você nunca nasceu

não importa o nome que sua mãe lhe deu.

as arquibancadas estão cheias de mortos

aclamando um vencedor

esperando um número que os carregue de volta

para a vida,

mas não é tão fácil assim-

tal como no poema

se você está morto

você podia também ser enterrado

e jogar fora a máquina de escrever

e parar de se enganar com

poemas cavalos mulheres a vida:

você está entulhando a saída- portanto saia logo

e desista das

poucas preciosas

páginas.


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Charles Bukowski

(Trad. de Jorge Wanderley, Bertrand Brasil, 2003 )


Publicado por samartaime às 11:22 AM | Comentários (0)

junho 13, 2007

Estrella Morente

Volver (live)

Zambra (2006)

Quienes se amaron como nosotros

Mais informação:

Wikipedia

Estrella Morente

Guia de Sitios de Flamenco

Publicado por samartaime às 10:07 PM | Comentários (0)

junho 10, 2007

Dia de Camões, Dia da Poesia Portuguesa
Tempo de Cantigas d' Escarnho e Mal Dizer

Publicado por samartaime às 09:44 AM | Comentários (0)

junho 09, 2007

Anne-Sophie Von Otter

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I Let The Music Speak

Erlkönig (Schubert)

Ah, que j'aime les militaires! (Offenbach)

(& Stephanie d'Oustrac) - Barcarolle (Offenbach)

(& Laurent Naouri) Je suis alsacienne - Je suis alsacien (Offenbach )

Ah! quel diner je viens de faire! (Offenbach)

Je suis veuve d'un Colonel (Offenbach)

Marietta's song (E. W. Korngold)

Urlicht - Simon Rattle/CBSO (Mahler)

(& Elvis Costello) - Go Leave (Elvis Costello)

Mais informação:


Deutsche Grammophon

Biografia

... e bom fim de semana a tod@s !

Publicado por samartaime às 12:47 AM | Comentários (0)

junho 08, 2007

Em Lisboa, «Todo o mundo» vai ao Chiado
e «Ninguém» sabe porquê...

POETA CHIADO

CASAMENTO DE BEATRIZ VARELA COM CORIGO

Noivo - Sim.
Padrinho -…Está bem:
iguais estais nas vontades.
Dai cá as mãos, e dizei assim:
- Digo eu, Beatriz Varela,
que por meu marido e amigo
recebo a vós, João Corigo.
Tomai agora a mão dela,
e dizei, como eu disser:
- Digo eu, Lourenço Corigo,
que com vontade singela
recebo a vós, Beatriz Varela,
por mulher.
Comadre - Que fazeis? Deitai-lhe o trigo.
Quis Deus que fosseis casados.
Para que são mais trapaças?
Alçai as mãos, dai-lhe graças.
Filhos, sejais bem logrados!
Ela moça, e ele moço,
bem se foram ajuntar.
Por vós se pode cantar:
Deitem o noivo ao poço,
se com a noiva não brincar.

«Auto das Regateiras», excerto
[in: «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)», Selecção, prefácio e notas de NATÁLIA CORREIA; Ilustrações de CRUZEIRO SEIXAS; Edição de FERNANDO RIBEIRO DE MELLO (Afrodite); Lisboa, 1965.]


António Ribeiro (o Chiado)
Poeta jocoso que viveu no século XVI.
Era conhecido pelo Chiado, por ter morado muitos anos em Lisboa, na rua assim chamada já naquele século, nome que se conservou até meados do século XIX, em que foi mudado para o de Rua Garrett. Nasceu (1520?) num humilde arrabalde de Évora, e faleceu no ano de 1591, em Lisboa. Quis professar na ordem de S. Francisco, mas não se lhe dando por válida a profissão, passou o resto da vida como celibatário, vestido sempre com hábito clerical. Apesar de não ser muito douto, tinha verdadeiro talento e bastante conhecimento das boas letras. Improvisava versos com a maior facilidade, mais pelo impulso da natureza, que de arte, sendo os seus versos muito jocosos e joviais, provocando festivos aplausos a quem os escutava. Também imitava com muita propriedade e galanteria as vozes e os gestos de diversas pessoas conhecidas. Todos estes predicados lhe alcançaram a estima geral e a maior popularidade.

Escreveu dois autos, que se imprimiram depois da sua morte, e em que seguia os modelos de Gil Vicente. São os seguintes: Auto de Gonçalo Chambão, Lisboa, 1613, 1615 e 1630; parece que anteriormente houve outras edições, ainda em vida do autor; Auto da natural invenção, que, segundo diz Barbosa Machado, foi representado na presença de D. João III, e se imprimiu, mas não declara quando, nem onde. Escreveu também umas obras religiosas, provando assim a sua afeição ao hábito franciscano que vestia, apesar de não ter podido ser frade. São elas as seguintes: Philomena dos louvores dos Santos com outros cantos devotos, Lisboa, 1585; consta de vários géneros de versos; Letreiros sentenciosos, os quaes se acharam em certas sepulturas de Hespanha feitos em trovas, Lisboa, 1602. Destes Letreiros, diz Farinha, que vira outra edição mais «antiga, feita em letra quadrada», e sem ano nem lugar de impressão, a qual estava na livraria real; diz mais, que nesta edição, além dos letreiros, vinham outras peças, o que tudo ele reimprimiu, publicando uma colecção cujo título é: Letreyros muyto sentenciosos, os quaes se acharam em certas sepulturas de Espanha, feitos por Antonio Chiado em trovas, as quaes sepulturas elle viu. E hua regra spiritual que elle fez ao Geral de S. Francisco, e assi hua petição que o mesmo Chiado fez ao Commissario, e a reposta do Geral, feita por Affonso Alvares, Lisboa, 1783. Na livraria de D. Francisco Manuel de Melo, que passou para a Biblioteca Nacional de Lisboa, existiam num livro de miscelâneas, os três seguintes autos: Pratica Doyto feguras; Auto das Regateiras; Pratica dos compadres. António Ribeiro Chiado deixou muitos manuscritos, cujos títulos vêm mencionados na Biblioteca Lusitana, de Barbosa Machado, vol. I, pág. 373. (in Dicionário Histórico)

mais informação


At_Tambur,Dança do Urso

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Estátua de António Ribeiro (Chiado)
(1520? – 1591)

Informação camarária disponível:

Localização da estátua
Largo do Chiado, Lisboa

Autoria da estátua
Estátua de António Augusto da Costa Mota (tio) e pedestal do arquitecto José Alexandre Soares.

Inauguração da estátua
18 de Dezembro de 1925

António Ribeiro, conhecido como Chiado, era natural de Évora, vindo para Lisboa após abandonar a Ordem dos Franciscanos aqui falecendo em 1591.
A estátua em bronze representa-o sentado sobre um banco, com a mão direita soerguida, em atitude de contador de histórias.

Obras:
Auto das regateyras per Antonio Ribeyro. Pratica de treze figuras, Velha, Briatiz, Negra, Comadre, Pero Vaz, Noyuo, May, Ioã Duarte, Afonso Tome, Frenã Dãdrade, Gomez Godinho, Brimanesa

Pratica dos compadres, Fernam dorta, Brasia machada, Isabel, Vasco Lourenço, o compadre, Siluestra, Moço, namorado, a comadre, caualeyro Esteuam

Pratica de oyto feguras, Faria & Payua moços, Ambrosio da gama, Lopo da silueira, Gomez da Rocha fidalgos, Negro capelã, Ayres galuam

Publicado por samartaime às 08:47 AM | Comentários (0)

junho 03, 2007

AOS INTENSOS


Eles despovoam as superfícies e inventam
a geometria dos espaços, confundem
a pele com o Cosmos, nos jogos de água
do fogo e da madeira.

Desistiram de acreditar no fim
e no princípio
por que o tempo é eterno, e a pulsação
é teia de luas contínuas
e cegueiras vivas de encarar o sol.

Nativos da partida, gastam os passos
até ao próximo éden,
onde eva, adão e a serpente
serão provavelmente desconhecidos.


Inês Lourenço

Publicado por samartaime às 11:04 AM | Comentários (0)

junho 02, 2007

Gustav Klimt

Publicado por samartaime às 08:46 AM | Comentários (0)