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abril 29, 2006

Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer,
e o paraíso há de ficar mais perto,
e mais recente me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia tão longo como a noite.
Se é verdade que sem mim só vês monotonia
e se te lembras do brilho das marés
de alguns peixes rosados numas águas
e dos meus pés molhados,
manda-me dizer:
- é lua nova –
e revestida de luz volto pra te ver.

HILDA HILST
(1930- 2004)


Hilda.jpg

Publicado por samartaime às 07:34 PM | Comentários (0)

abril 28, 2006

Lisboa com Tejo e casa e tudo

Foto «samartaime», 2006.


Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Publicado por samartaime às 07:50 PM | Comentários (0)

abril 23, 2006



meninaA.jpg

Publicado por samartaime às 06:24 PM | Comentários (0)

abril 15, 2006

Mais três poemas de António Maria Lisboa...

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.


ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 01:38 AM | Comentários (1)

Comutador

Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn

Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício

Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada

OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 01:27 AM | Comentários (0)

Conjugação

A construção dos poemas é uma
vela aberta ao meio e coberta de bolor é a
suspensão momentânea dum arrepio num dente fino Como
Uma Agulha A construção dos poemas
A CONSTRUÇÃO DOS POEMAS é como matar muitas pulgas
com unhas de oiro azul é como amar formigas
brancas obsessivamente junto ao peito olhar uma
paisagem em frente e ver um abismo ver o abismo e
sentir uma pedrada nas costas sentir a pedrada e
imaginar-se sem pensar de (repente NUM TÚMULO
EXAUSTIVO.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 12:48 AM | Comentários (0)

abril 11, 2006

As cinco letras em vidro

É um estilete de luz
a imensidade de que és feita
e contorna um azul-sonho-neve
igual aos cabelos que descobri a saírem da tua boca
- dos teus olhos de imaginação
- dos teus lábios curvos de aurora.

Saímos
enquanto as pessoas olhavam admiradas o Arco do Triunfo
deixando escorrer dos bolsos fitas e serpentinas
para tudo se passar como no pássaro
para deixar objectivamente escrito
nas margens do rio
do Mar
- o continente submerso
- o navio de todos os amantes
por onde rola a carruagem em que viajamos
pintada de Liberdade e de Poesia
contigo a dormir sobre o meu peito.

POR ISSO EU SENTI SER FÁCIL O SUICÍDIO
FÁCIL E POSSÍVEL.

Fixou-se no muro da tua residência
sobre a porta que se abre ao visitante
um símbolo mágico e de cabala
- a oportunidade do meu regresso
- a história maravilhosa que te direi na viagem.

Procurei
nas folhas espalhadas pelo nosso leito
a recordação do que há-de vir
- apenas no esparso
- no diverso
- no acto simultâneo de defesa
- no viajar de aeróstato incógnito de distância
- na noite mágica

NA PRIMEIRA GRANDE NOITE MÁGICA QUE NÓS
TIVEMOS.

Abriu-se a janela que caminhava sozinha
e saiu um sonho simples de criança:

O METEORO DA TRANSFORMAÇÃO

pousado a um canto o meu Jogo de Cabala

(um montinho de quadrados,
de círculos, de triângulos,
dispostos geometricamente
sobre um tabuleiro grande)

o meu Tratado de Magia Humana

(um caminho de ogivas, um
relógio a dar horas sobre
um túmulo em pé, os postes
magnéticos, os cordões da angústia)

FALO - no Laboratório Mágico ao dar-se a aparição espon-
tânea de Lautréamont e Freud que traziam sobre as
sobrancelhas um corte fino a atravessá-Ias lado a
lado: -
Ao aparecer a mulher escandalosamente
vestida de vermelho
ele dirige-se para a jovem
e os outros passeiam sobre as rochas
onde fica oculto o corpo do homem que chega continuamente
MUDO APONTA O HORIZONTE.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

(1928 - 1953)

Publicado por samartaime às 12:32 AM | Comentários (0)

abril 05, 2006

Caramba!...

Não há como um abracadabraaa! para meter na ordem um tornado!


Publicado por samartaime às 12:18 PM | Comentários (0)

Afinal...

o tornado de Peniche também passou por aqui!

abracadabra!

Publicado por samartaime às 12:02 AM | Comentários (0)

abril 03, 2006

É machista... mas é o CHOQUE TECNOLÓGICO que temos

Choque Tecnológico.jpg
(Anónimo na net)

Publicado por samartaime às 12:00 PM | Comentários (0)

abril 01, 2006

Falemos então:

Sumário Lírico

Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,

começo devagar a reescrever o mundo quedo

que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.

Ninguém me deu outras formas que não minhas

mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.

Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.

E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos

mas autores cada um no seu frasear, generosos

quando me reconheciam em muitos anos de vida.

Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes

caladas para sempre nos livros em que as lera.

Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos

de cada olhar de imagens próprias de cada um.

Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,

os barcos na Barra, que também em vidros estavam.

Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,

que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,

quando o dorso de prata e o gume passavam

nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,

de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.

Imagens que sempre ficais nestas vidraças,

emprestai vosso vidro e revérbero à luz

do farol extinto, em outras vidas que antes

narravam que eu era já nascida,

quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.

A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas

com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.

É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,

diariamente somando anos, minutos indivisos.

Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Le rêve de Stepan Razine

Publicado por samartaime às 10:30 AM | Comentários (0)