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janeiro 29, 2010

Cinema Paradiso...

Qualquer fracasso
íntimo e significativo
é um bom ponto de apoio
para reerguer o Mundo.
A alavanca,
o instinto de sobrevivência.

Maria José Meireles

janeiro 28, 2010

Notícia do que corre...

Ela perguntou:
se a vida me correr mal
dás-me abrigo?
Ele respondeu:
se a vida te correr mal
abrigar-te-ei.
E morreram
na esperança
de que a vida corresse mal.

Maria José Meireles

janeiro 26, 2010

Um dia quase perfeito...

A boleia do Manel
a Laura
o Avelino
o Rui
a Dona Rosa
a Fátima
o arroz de pato
a musse de chocolate oferecida
e,
à noite,
o marido
deita os filhos.

Maria José Meireles

janeiro 24, 2010

Famílias...

O Pai
partiu um pé
a Mãe
espreitou a morte
a tia
teve um AVC
o cão
está preso
...
e o filho?

Maria José Meireles

Plano de aula...

O aluno
recusou-se
a aprender
qualquer matéria.
Temeu
ficar igual aos professores.
Disse
que fui a melhor
e eu
esqueci-me
de lhe dizer o mesmo.

Maria José Meireles

janeiro 23, 2010

Abandonos...

Ela
estava feliz,
disse
que ia embora
do manicómio
mas
a noite chegou
e ninguém veio buscá-la.

Maria José Meireles

O sabor dos netos...

Hoje
a avó
guarda figos
para o neto
que ontem
disse
a quem lhos oferecia:
nunca provei
mas sei que não gosto.

Maria José Meireles

janeiro 22, 2010

Nota, quase, de rodapé...

Para além
da pessoa
que te oferecia rosas
existes tu
que cuidaste
dos filhos
da pessoa
que te oferecia rosas.

Maria José Meireles

Primeiro emprego...

Perguntas
qual é o meu emprego
e eu respondo
sou biscateiro.

Maria José Meireles

janeiro 21, 2010

Conjugalidades...

O Pai
e a Mãe
arrumam a casa
deitam os filhos
e
por fim
ficam sós.

Maria José Meireles

janeiro 20, 2010

Itinerâncias...

Pelo fado
foste
buscar-me
ao fundo do mar.
Pelo mar
eu vou
buscar-te
ao fundo do fado.

Maria José Meireles

janeiro 18, 2010

Incandescências...

Água afoga
água apaga o fogo.
Na frente
está a piscina
nas mãos
em brasa
os restos mortais
da mãe
que caiu na lareira acesa
quando tinhas
apenas três anos.
Solta as brasas
eu seguro-te.

Maria José Meireles

janeiro 17, 2010

Para Rubem Alves...

rubem1701.jpg

Não me engano
para não ter de mentir
entrei no meu coração
e encontrei-te
agora bastamo-nos
para toda a noite
e não há nada
a esperar.

Maria José Meireles

janeiro 15, 2010

Equação a nenhuma incógnita...

Matematicamente
não há
triângulos perfeitos
nem
quadrados imperfeitos.
Um dia
vale uma vida
a eternidade
cabe em poucas horas.

Maria José Meireles

janeiro 13, 2010

Madrigal ao contrário...

Deixa
que caminhe
alegre e intensamente.
Quando estiver cansada
abriga-me
no teu vazio.

Maria José Meireles

janeiro 12, 2010

Praça Maior...

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Contigo
quero
aprender
a amar
a estação de todos os medos.

Maria José Meireles


janeiro 11, 2010

Antecipação...

Dispo
a saudade
como quem veste
manga curta
para receber
a Primavera.

Maria José Meireles

janeiro 10, 2010

Rastos...

Tudo fica
para trás
tudo
menos a literatura.
Agora sei
há olhos que ajoelham.

Maria José Meireles

janeiro 09, 2010

Regresso...

Regresso
sempre
aqui
quando a alma
está faminta.
Este canto
é alimento
e há em mim
um piano
que não se quer
abandonado.

Maria José Meireles

maio 23, 2009

Altar...

Sento-me à mesa
e convido-te
para jantar.
Serve-te apenas
se for essa a tua vontade.
Sinto-me menos só
quando te deixas existir.

Maria José Meireles

maio 16, 2009

Apeadeiro...

Na terra do que fui
a linha do comboio é um beco
termo
para quem chega
princípio
para quem parte.

Maria José Meireles

maio 14, 2009

Primaveras...

Agradeço
o fruto
e o sabor
e o saber
da semente
que fui.

Maria José Meireles

maio 08, 2009

Adolescências...

Sim,
falámos
da poluição do medo,
da falta de pai e de mãe,
e de rezar
sem justa causa.
Fomos adolescentes
e despedimo-nos
antes do pôr do sol.

Maria José Meireles

maio 06, 2009

Jardim de infância...

Brinca
gosto de te ver
brincar
abre o baú dos brinquedos
leva
o teu favorito
ou leva-os todos
se quiseres
e deixa que eles
simplesmente
te desarrumem.

Maria José Meireles

abril 30, 2009

Cristais...

Inundada
de mar
diz-me se sou feliz
antes que o descubra
tarde de mais.

Maria José Meireles

abril 24, 2009

Amarações...

Divido o espaço
em três partes
um relógio de campo
um beijo de mar
e uma caixa de música.
A infância
regressa-me ao campo
e o amor amara-me
a uma espécie de silêncio.
Na cidade
baralho-me
e escolho uma parte
à sorte
de cada vez.

Maria José Meireles

abril 17, 2009

Triângulo...

Pensei o polígono
da nudez
o equilibrio
de fotografar
as estrelas
um tripé
a exposição
lenta
da película
e nenhuma interferência
dos batimentos
cardíacos.

Maria José Meireles

abril 14, 2009

Fractalmente...

fracta09aaa111.jpg
(Fractais de Joe Clark)


Fractalmente
reúno-me a ti
no céu e no mar
(e nas marés)
e talvez na praia
e no vento
um infinitésimo
tão infinito
ou o infinitamente
perfeito
abraço a loucura
nessa equação
como se
matematicamente
ainda delirasse.

Maria José Meireles

abril 12, 2009

Paz...

Hoje
quero
deitar a minha cabeça
no teu colo
peço que
a afagues
com as tuas mãos
divinas.
Ensina-me
uma oração
que cure as dores da alma
e dá-me
somente um pouco
da tua paz
que não a quero toda.

Maria José Meireles

Segurança...

Os leões marcam
território
nos quatro pontos cardeais
para que
as suas fêmeas
se sintam seguras.
A segurança
das suas fêmeas
é o seu único
território.

Maria José Meireles

abril 01, 2009

Como me acaso...

Brinco
com o acaso
que brinca
comigo.
Ganharei o jogo
ou perderei o vício
de mim?

Maria José Meireles

março 28, 2009

Infâncias...

Subimos juntos
a Tarimba.
O acaso quis
que o meu irmão levasse
fêmea
e eu
macho.
Trocámos.
Aos gatos não fez diferença.
Ao acaso
também não.

Maria José Meireles

março 26, 2009

Partitura...

Dizes-me
caleidoscópio
dizes-me
os meus olhos.
Teclas
na impressão de mãos desconhecidas.
O arco-íris
mendiga cores
para me dizeres.

Maria José Meireles

Tributo a Isaac Newton...

Com três partes de pó
e apenas uma de água
descubro-me
fluido não newtoniano.
Talvez por isso um piano
me percorra mais intensamente
do que a própria luz do dia.

Maria José Meireles

março 25, 2009

Três poemas em forma de mim...

1
Perguntas-me:
e se fosse livro
onde me esconderia?
Respondo:
no medo apenas
de morrer semente
depois de todas as primaveras.

2
Tento filosofar
com as pedras.
Desperto no grito
dos meus silêncios.

3
Escrevo quase verdades.
O sangue que corre
por fora das veias.
O corpo que soluça
tantas almas.
E a Terra em forma de esfera
onde cabe o centro todo
do meu universo.

Maria José Meireles

março 24, 2009

Girafas...

Hei-de acreditar
que as girafas
já não cantam?
Conheço o seu brado
e é-me impossível
não acreditar
nos meus próprios ouvidos.

Maria José Meireles

março 15, 2009

Berços...

Nascer do ventre da mãe
esse lugar
onde exactamente nunca seremos.
De dentro de nós
seria talvez mais certo
se a vida não fosse o medo
de morrer na semente
antes de todas as primaveras.
Quem me ensinasse a coragem
da luz.

Maria José Meireles

fevereiro 05, 2009

Fogo de Pandora...

Dou-me de graça
mas não me vendo por preço nenhum.
Já me confiei ao silêncio
e sobrevivi.
Se me tratares bem
poderás destruir-me,
mas se me tratares mal
saberei bem defender-me.
Sou mulher, sabes,
tenho séculos de maus tratos nas veias
e ainda não morri.
Dei-te a minha alma
mas não o meu corpo.
Ainda é cedo para cortar a noite às fatias.
Agora somos muitos na família
mas ainda poucos para tanta noite.
Eu sei esperar.
Quem tem tampa é a caixa
e não Pandora
(e Pandora não é uma caixa).

Maria José Meireles